Edição 512 | 02 Outubro 2017

Pernambucana: a revolta que desacomoda a Corte portuguesa

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João Vitor Santos | Edição: Vitor Necchi

Flavio Cabral destaca que o episódio estremeceu a família real justamente quando dom João se preparava para festejar sua aclamação

A revolta pernambucana teve destaque na imprensa internacional e em embaixadas. A notoriedade no estrangeiro deve-se ao trabalho de um comerciante inglês, que recebeu a missão de divulgar o movimento nos Estados Unidos. A história propagada teve ótima acolhida em jornais do país e representações diplomáticas, a ponto de não haver outra insurgência eclodida na América portuguesa que tenha recebido tanta atenção, para desespero das autoridades do Reino Unido português. “Esses fatos sinalizam a importância dos eventos pernambucanos não apenas pela sua ousadia, mas pelas ideias, a exemplo de eleições, voto, constituição e democracia, liberdades tão presentes no país”, analisa o professor Flavio Cabral, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line.

A revolta “estremeceu a Corte justamente em um momento em que o rei se preparava para festejar sua aclamação”, salienta Cabral. O movimento insurgente não aconteceu de maneira repentina. Sua gestação durou aproximadamente dez anos e ocorreu em casas, conventos e até mesmo em quartéis. “Pernambuco sempre foi tida como uma capitania marcada por anteriores intentos rebeldes.”

Os documentos relativos ao episódio dão conta de que 70 sacerdotes se envolveram na revolução. “Esses homens chegaram a ser guerrilheiros e, de armas em punho, tomaram de assalto vilas, igrejas e cadeias interioranas, libertando os prisioneiros.” Também “pressionaram os colegas de batina avessos à causa da liberdade em defesa da ‘pátria’, persuadindo pessoas a aderirem à revolução”.

Flavio José Gomes Cabral é doutor em História pela Universidade Federal de Pernambuco - UFPE. Leciona na Universidade Católica de Pernambuco - Unicap, onde coordena o curso de História. Autor de vários artigos e livros sobre a cultura política do tempo da Independência do Brasil, entre eles Conversas reservadas: ‘vozes públicas’, conflitos políticos e rebeliões em Pernambuco no tempo da Independência do Brasil (Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2013 – Prêmio Arquivo Nacional de 2011).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Que distinções podemos fazer da Revolução Pernambucana em relação às demais revoltas da história do Brasil?
Flavio Cabral – Primeiramente, a grande distinção das rebeldias de 1817 em relação às outras revoltas ocorridas no Brasil é que ela foi muito mais além do que uma conspiração abortada em sua fase de gestação. Ela ultrapassou as teias conspiratórias onde foi urdida à sombra da maçonaria, invadiu as ruas e tomou o poder e foi alvo de destaque na imprensa internacional e assuntos de embaixadas. Estremeceu a Corte justamente em um momento em que o rei se preparava para festejar sua aclamação. Aliás, o evento teve que ser adiado, uma vez que não tinha sentido festejar com parte do reino dividido. Em toda a história da monarquia portuguesa, a Revolução de 1817 foi a mais ousada, uma vez que quebrou com o tradicional vínculo de união entre os vassalos e o rei: a fidelidade, considerada um dos principais pilares de identidade portuguesa, além de ter sido a mais radical tentativa de enfrentamento que a Coroa viveu em sua história, como bem observou o historiador Denis Bernardes .

Não se tratou de obra do acaso, uma vez que vinha sendo tecida pelo menos há uns dez anos nas casas, nos conventos e até mesmo nos quartéis. No dia 6 de março de 1817, uma rusga entre soldados no Forte de Cinco Pontas apressou a eclosão da revolução que, por sinal, estava marcada para vir à tona em outro momento. O governador régio Caetano Pinto de Miranda Montenegro fugiu do palácio com sua família e amigos para o Forte do Brum e, no dia 7, foi obrigado a capitular, sendo enviado para a Corte do Rio de Janeiro. Imediatamente um colegiado formado por eleitores de vários segmentos sociais, inclusive alguns mulatos, se reuniu para eleger o Governo Provisório da República, inspirado no Diretório da Revolução Francesa. Ao romper do corpo mítico do rei, o exercício da autoridade da jovem república se ancorava segundo o prólogo da Lei Orgânica da República, organizada provavelmente pelo desembargador Antônio Carlos Ribeiro de Andrade Machado e Silva, irmão de José Bonifácio , na soberania popular, opondo-se aos valores do Antigo Regime. Tudo isso se trata de um caso inédito, até então, na história brasileira.

IHU On-Line – E que outras rebeliões marcam Pernambuco no período da independência do Brasil?
Flavio Cabral – Pernambuco sempre foi tida como uma capitania marcada por anteriores intentos rebeldes. No período da Independência, havia certos desconfortos com a vida em uma sociedade de Antigo Regime, mas que não saíram de confabulações discutidas em reuniões entre quatro paredes. No princípio do século 19, por volta de 1810, rumores existiam denunciando a existência dessas reuniões objetivando a sublevação da ordem e que foram ganhando corpo, vindo à tona em 1817. Uma historiografia tradicional entendeu que em meados de 1801 uma conspiração contra a Coroa estava sendo urdida pelos irmãos Suassuna (José Francisco, Francisco de Paula e Luís Francisco), gente abastada e proprietária do engenho que ensejou o codinome da família. Tudo principiou a partir de uma denúncia verberada por José da Fonseca Silva Sampaio de que cartas escritas em Lisboa por José Francisco de Paula Cavalcanti para seus irmãos Francisco de Paula e Luís Francisco continham planos comprometedores. O caso foi considerado grave, dada a rapidez com que as autoridades agiram. A casa dos acusados foi invadida, e as correspondências confiscadas, mas nada revelaram. Segundo se propagou, uma das cartas teria sido surrupiada à custa de suborno para livrar os implicados de maiores vexames. Para o historiador Guilherme Pereira das Neves , não há como afirmar que se arquitetava uma conspiração, talvez, uma intensa rede de intrigas envolvendo os citados irmãos, tidos como fiéis vassalos.

IHU On-Line – Quais os principais fatos sociais e políticos do Brasil no início do século 19 que se relacionam com a Revolução Pernambucana?
Flavio Cabral – A Revolução de 1817 está inserida no contexto das grandes revoluções: Revolução Americana , Revolução Francesa e seus desdobramentos, que culminariam com a ascensão de Napoleão . Este, como é sabido, no intuito de prejudicar a Inglaterra, decreta o bloqueio continental. Portugal reluta em ceder aos apelos dos franceses e, para fugir da fúria napoleônica, a família real, comandada pelo príncipe regente D. João, se refugia na América portuguesa em 1808. Com a “interiorização da metrópole”, medidas foram tomadas no sentido de beneficiar o país, a exemplo da abertura dos portos (1808). Apesar de algumas mudanças, queixas existiam. Mesmo estando a Corte sediada na nova metrópole, a estrutura de dominação e o autoritarismo não mudaram. Havia grande descontentamento com a presença da família real nos trópicos porque, para custear seus gastos, ocorreu elevação dos preços das mercadorias e dos impostos, além de o erário pernambucano se ver obrigado a atender às demandas da Corte carioca.

O Tesouro real sacava previamente sobre os erários das províncias nortistas, sem levar em conta se eles podiam pagar esses saques, cabendo aos governadores honrar as exigências. Essas requisições contribuíam para onerar os bolsos em um momento em que os pernambucanos vinham se recuperando economicamente, devido a um sensível crescimento da grande lavoura e do comércio.

O próprio governador Caetano Pinto de Miranda Montenegro se via sem condições de realizar grandes melhoramentos, mormente as constantes remessas. Quando a revolução havia tomado as ruas, um folheto de autoria do bacharel Mendonça, denominado Preciso, circulou esclarecendo à população os motivos da revolução. O papel se tornou espécie de declaração de rompimento da capitania com o rei, externava as queixas locais contra as “mordomias” dos palacianos em sua nova metrópole. Um poema da plêiade do poeta Manuel Caetano de Almeida e Albuquerque, acusado de ser declamador e distribuir panfletos durante a revolução, criticava a permanência da família real no Brasil e seus gastos, que afetavam a economia e os anseios locais:

Sem grande corte na corte, Não se goza um bem geral; Que o corte é quem nos faz bem, A corte é quem nos faz mal.

IHU On-Line – Por que, em 1817, a ordem política começa a ser questionada a partir das capitanias do Norte, tendo Pernambuco como destaque?
Flavio Cabral – Durante a fase revolucionária, percebeu-se que, sem o apoio das capitanias vizinhas, a revolução não lograria sucesso. É verdade que, bem antes desses acontecimentos, emissários estiveram no Rio de Janeiro e depois na Bahia, procurando apoio. Quanto ao apoio do Norte, percebe-se que, desde tempos pretéritos, Pernambuco mantinha certa liderança na região, e, por mais que a Coroa se esmerasse em centralizar a administração da América portuguesa, ela não podia contar com as realidades físicas que tornavam aquelas capitanias mais facilmente governadas e socorridas por Pernambuco do que pela Bahia ou pelo Rio de Janeiro. Dentro desse contexto, observou Evaldo Cabral , toda região litorânea cearense até o Rio São Francisco foi conquistada e povoada pelos pernambucanos, tanto que posteriormente o rei estendeu o mando dos governadores de Pernambuco sobre grande parte daquela região, se estendendo desde o Ceará, o Rio Grande do Norte, a Paraíba e Alagoas, que, até 1817, estava adstrito ao território pernambucano.

Durante as instabilidades políticas do período em destaque, o governo paraibano alertava as autoridades sobre o risco de sua capitania se sublevar em face da proximidade com Pernambuco, bem como sobre a união que havia entre os habitantes daquelas capitanias desde tempos antigos. Em 1817, tal vínculo se encontrava muito presente. Naquele ano, um dos artífices da revolução, o padre João Ribeiro, um dos membros do governo provisório, ao solicitar apoio dos paraibanos para a revolução, explicava que Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará deveriam formar uma única república devido às semelhanças existentes entre elas.

O padre explicava que a revolução não havia sido feita apenas para Pernambuco, sujeitando a esta província as capitanias citadas “como antigamente”. Com isso, evocava o espírito dominante na época em que haviam sido capitanias anexas. Arrematava João Ribeiro que as capitanias deveriam se interligar através de interesses e identidade, não podendo se separar. Pelo contrário, deveriam se unir, isto é, formar uma única república, cuja capital poderia ser fundada na Paraíba a umas 30 ou 40 léguas da costa, dando ideia que tal cidade se localizaria no centro da federação, no interior, e não ao longo do litoral. Ali deveriam se abrigar tanto a sede do governo como a do Congresso. Entendia-se que, com o rompimento com a unidade do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, a soberania se revertia para as capitanias.

IHU On-Line – É possível estabelecer conexões entre os questionamentos à ordem política dos anos de 1817 a 1820 com as manifestações que ocorreram no Brasil em 2013? Se sim, quais? Se não, por quê?
Flavio Cabral – Há riscos em tentar entender aqueles momentos de instabilidades políticas com as atuais. São épocas distintas; entretanto, em ambos os casos existiam descontentamentos principalmente contra as corrupções. Corrupção sempre existiu e existirá, mas ela tem que ser transitória.

Durante os anos em questão, vozes se levantaram contra aqueles estados de coisas, o que não difere muito dos tempos atuais. Atualmente assistimos a denúncias de dinheiro público servir a pessoas desonestas enquanto faltam alimentos nas mesas de muitos brasileiros e investimentos em saúde e educação. Dinheiro que é fruto do suor da nação serve para comprar votos, joias, aprovações de leis e jantares luxuosos no exterior.

Anteriormente falei que com a instalação da Corte no Rio de Janeiro, em 1808, cresceram as propinas, a compra de cargos, o enriquecimento indevido e o aumento do fisco para manter o luxo da Corte, e pouco se fazia para atenuar a pobreza e outros problemas pelos quais a população passava. Praticamente quase nada mudou. A Corte trocou de endereço, instalando-se no Planalto Central, e os homens do poder enriqueciam indevidamente. Uma quadra popular e cantarolada pelos cariocas dos tempos de Dom João VI dava conta dessas improbidades: Furta Azevedo no paço / Targini rouba no erário / E o povo aflito carrega / Pesada cruz ao calvário.

Tollenare, viajante francês, comparando Pernambuco com a Bahia, observou que nessa última localidade se realizavam grandes obras graças ao fruto das arrecadações de seus impostos, enquanto em Pernambuco, por ser constantemente requisitado pelo Tesouro Real, nada se fazia a esse respeito, motivando o levante de 1817. O poema de Manuel Caetano, anteriormente citado, é muito atual. Ele denunciava a corrupção e as insatisfações dos pernambucanos de todos os estamentos sociais. Essas improbidades tanto eram denunciadas através de versos quanto através de panfletos colocados debaixo das portas ou afixados durante a noite em muros e postes.

No período entre 1820 e 1822, por ocasião do movimento vintista, a denúncia se tornou constante e até estimulada, tendo como ponto de apoio a imprensa. Entendia-se que a liberdade de expressão era importante e que as “podridões” deveriam ser apontadas para serem varridas, cabendo a cada um denunciá-las.

IHU On-Line – Qual a importância da participação do clero na Revolução Pernambucana e como, posteriormente, influencia o patrimônio religioso e cultural de Recife?
Flavio Cabral – Segundo os autos da devassa, 70 sacerdotes se envolveram na revolução. Esses homens chegaram a ser guerrilheiros e, de armas em punho, tomaram de assalto vilas, igrejas e cadeias interioranas, libertando os prisioneiros. Outras vezes, pressionavam os colegas de batina avessos à causa da liberdade em defesa da “pátria”, persuadindo pessoas a aderirem à revolução. Olhando os fatos por outro prisma, podemos perceber que o clero pernambucano do tempo da Independência não apenas vivia lendo seus breviários ou utilizava a clausura dos conventos para meditações. Eles se tornaram importantes atores e partícipes de uma iniciativa em que o sacrifício de suas vidas não foi descartado. Exerceram importante espírito de liderança, o que não é de surpreender, uma vez que tiveram formação de qualidade sedimentada, segundo ensina Jorge de Siqueira nos “cânones da Teologia da Ilustração”.

A rapaziada que estudou no famoso Seminário de Olinda, fundado no final do século 18 e início do seguinte pelo bispo Azeredo Coutinho, recebeu importante educação, comprometida não apenas com a implantação da política do concílio tridentino, mas com a estrutura mental e ideológica do reformismo ilustrado.

O estatuto do seminário era claro: formar sacerdotes úteis ao Estado e à religião; assim sendo, seu projeto pedagógico primava pela formação de um clero douto. Não é de se estranhar, portanto, que muitos antigos seminaristas se transformaram em padres propensos a perceber os contrassensos existentes na política de Antigo Regime, tornando-se defensores da revolução e respeitáveis formadores de opiniões que pregavam publicamente a rebeldia e o rompimento com a tirania do absolutismo.

O pensamento ilustrado do clero nortista não se arrefeceu em 1817, tampouco se realizou inteiramente. Entretanto, não se deixou intimidar quando cabeças rolaram para fazer justiça à majestade. Ao contrário, mostrou-se presente e criativo quando aquelas elites intelectuais deflagraram, ao longo do oitocentos, movimentos contestatórios, a exemplo da Confederação do Equador e da Praieira . Quanto ao rico patrimônio religioso e cultural recifense, são heranças de tempos coloniais. A cidade teve nascedouro no século 16 e foi se transformando com o passar dos tempos. É possível que tenha tido, com o passar desses anos, influência desses pensamentos, merecendo aguçada pesquisa.

IHU On-Line – Como compreender a figura de Frei Caneca no contexto da história do Brasil do início do século 19?
Flavio Cabral – Nascido Joaquim do Amor Divino Rabelo, somente após entrar no carmelo recifense optou pelo nome de Caneca, que foi acrescido ao nome de batismo e assim ficou conhecido. A escolha do novo nome relacionava-se com a profissão do pai, que era tanoeiro, residente em uma área de periferia chamada de Fora de Portas, nos arredores do porto do Recife. Preferiu nome modesto, muito diferente de outros religiosos que escolheram nomes pomposos.

Frei Caneca se tornou importante intelectual da Igreja Católica, homem das letras, conhecedor dos autores da Ilustração e filósofos das épocas Moderna e Contemporânea, a exemplo dos Raynal e De Pradt . Sua primorosa formação intelectual deve-se ao fato de ter sido aluno do Seminário de Olinda, um dos principais centros de propagação política e cultural da Igreja em terras brasílicas. Viveu em um momento em que as opiniões se formavam e se tornavam públicas, além de ter entrado em contato com a vanguarda do pensamento da época. Eram tempos de transformações pautados pelas novas tendências que primavam por uma retórica que buscava realçar o pedagogismo político e cultural. Isso explica seu espírito eloquente e irrequieto.

Diante desse quadro assinalado pela laicização da cultura e pela aproximação entre religião e razão, é possível entender o pensamento de Caneca e de outros sacerdotes que se envolveram em 1817 e em outros embates políticos do tempo da Independência. Nesses confrontos, grande parte do clero deixou de defender a política de Antigo Regime cujo modelo defendia a soberania vinda de Deus, em detrimento dos novos pensamentos que pugnavam pela ruptura do absolutismo e sua substituição pelo modelo constitucional. Era defensor da autonomia das províncias, da Constituição e do equilíbrio dos poderes, além do aprimoramento da educação como fonte para o fortalecimento da civilização.

IHU On-Line – De que forma o imaginário napoleônico incide sobre o Brasil do século 19? E como se personifica na Revolução Pernambucana?
Flavio Cabral – Lúcia Bastos , em interessante trabalho sobre Napoleão Bonaparte, procurou levantar através de argutas pesquisas as imagens construídas em torno do imperador dos franceses com alguns segmentos da sociedade lusitana do limiar do século 19. A autora conseguiu perceber como uma figura que havia desmanchado o mapa da Europa e aniquilado dinastias continuava exercendo fascínio, mesmo desterrada na ilha atlântica de Santa Helena. Sua imagem ultrapassou as fronteiras da França, adquirindo dimensões internacionais. Mesmo após sua queda em 1815, em meio a uma avalanche de publicações que procuraram desfigurar sua imagem, a curiosidade em torno dele não se arrefeceu.

Na América portuguesa, não se chegou a construir uma historiografia sobre Napoleão, mas algumas publicações sinalizam que a região não ficou imune ao fascínio pelo ex-imperador dos franceses, procurando estabelecer ligações entre o país e Napoleão. Um artigo pioneiro publicado em 1903 por J. A. Ferreira da Costa, intitulado Napoleão I no Brasil, revelou uma trama que procurava libertar Napoleão de Santa Helena e transferi-lo para a ilha pernambucana de Fernando de Noronha em 1817. Posteriormente, Donatello Grieco, em Napoleão e o Brasil, levado pela paixão, mesmo trazendo documentos interessantes, via Bonaparte como um “supremo general das Américas”.

Ambas as produções parecem ter se fundamentado a partir da decisão do governo revolucionário de 1817 de enviar para os Estados Unidos Antônio Gonçalves da Cruz, dito Cabugá, como diplomata a fim de costurar alianças com o governo de Washington e conseguir contratar por intermédio de José Bonaparte, que morava nos Estados Unidos, antigos soldados franceses que outrora serviram a Napoleão e que naquele momento haviam emigrado para aquele país porque não desejavam se submeter a Luís XVIII. Cabugá chegou a contratar alguns daqueles soldados para servirem no exército pernambucano. Esses homens conseguiram chegar ao Brasil justamente no momento em que a revolução havia sido vencida e suas principais lideranças foram mortas e outras tantas se encontravam nos cárceres.

Na realidade, os desejos de Cabugá se juntaram aos sonhos de José Bonaparte. Este, ao tomar conhecimento da instalação de uma república no Brasil, pensou que ela poderia lhe acudir na implantação de seus planos, permitindo o uso da ilha de Fernando de Noronha como rota de fuga para o irmão que dali partiria em segurança para os Estados Unidos.

IHU On-Line – Como a República de Pernambuco repercute nos Estados Unidos? Por que a revolução de 1817 é tida como “a mais importante revolução do Brasil”?
Flavio Cabral – Antes de a revolução vir à tona, muitos norte-americanos vinham mantendo contato com os pernambucanos, principalmente como comerciantes. Com a revolução em curso, desejou o Governo Provisório aquilatar esses contatos através de assinaturas de acordos bilaterais com os Estados Unidos. Para a concretização desses desejos, foi nomeado o comerciante Antônio Gonçalves da Cruz (o Cabugá), com plenos poderes para representar como ministro plenipotenciário o governo da jovem república junto às autoridades estadunidenses. Antes da partida do ministro, seguiu para aquele país o comerciante inglês Charles Bowen, a quem foi confiada a incumbência de divulgar a revolução e anunciar a chegada de um agente do governo para tratar de assuntos de interesses bilaterais importantes.

Bowen chegou a seu destino no dia 23 de abril de 1817 e imediatamente se dirigiu à redação do Norfolk Herald para expor os passos da revolução. A novidade teve intensa repercussão, sendo reproduzida em várias gazetas ianques. O The Philadelphia Aurora chegou a postar sobre o sucesso da revolução, sugerindo que a velha política de Antigo Regime não conseguia atender aos anseios da população e que deveria ser substituída. Assim, em breve espaço de tempo, as novidades brasileiras ocuparam espaços tanto das folhas norte-americanas quanto das repartições diplomáticas. Neste aspecto, não se tem conhecimento que outra revolução eclodida na América portuguesa recebesse tanta atenção, sendo objeto de assunto internacional, para desespero das autoridades do Reino Unido português. Esses fatos sinalizam a importância dos eventos pernambucanos não apenas pela sua ousadia, mas pelas ideias, a exemplo de eleições, voto, constituição e democracia, liberdades tão presentes no país.

IHU On-Line – No que consistia a proposta federalista deste início de século 19? Quais seus avanços e seus limites?
Flavio Cabral – No tempo da Independência, havia certa falta de clareza quando nossas elites se debatiam a respeito do federalismo, ora conjugando-o no sentido de uma confederação, de uma democracia e de uma república. Os republicanos de 1817 se diziam inspirar no federalismo norte-americano, modelo que parecia se encaixar aos interesses autonomistas locais. Destarte, entendia-se que, desfeita a unidade do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, a soberania deveria repousar nas províncias que levariam para a mesa de negociação um pacto constitucional.

Aliás, questões de eleições, soberania e direitos tão discutidos pelos revolucionários estão muito presentes hoje em dia. Na realidade, os ideais liberais não surgiram como programa modernizador do conjunto das forças liberais, como observou Maria Odila Leite . Eles foram difundidos por uma minoria da população composta por pessoas ilustradas e cultas que pensavam em mudanças políticas sem comprometer a continuidade social e econômica do país.

Em Pernambuco, a ideia de república com aspirações autonomistas ganhou corpo em 1817. Com a independência em 1822, vence o projeto unitário, centralizador, tecido no Rio, uma vez que o federalismo pensado pelas lideranças pernambucanas parecia incompatível com o novo formato que impedia dotar as províncias de autonomia, sem que ninguém intervisse em suas ações. Na realidade, limites existiam nesses debates. Para se ter ideia, o grupo de Manuel de Carvalho Paes de Andrade, também conhecido como federalista, chegou a fechar alianças em 1824, por ocasião da Confederação do Equador, com os unitários desapontados com Dom Pedro I por ter ordenado a dissolução da Constituinte.

Durante os arranjos políticos tecidos em 1822 que culminaram com a fundação do Império, com a coroa cingindo a cabeça de Dom Pedro I, muitos dos republicanos defensores do federalismo o aceitaram “como um mal necessário”. O próprio Caneca, que mais tarde, em 1824, iria se indispor com o imperador, o apoiou em um brilhante sermão pronunciado em dezembro de 1822 na Matriz do Corpo Santo, em regozijo à sua coroação e, consequentemente, à fundação do Império.

IHU On-Line – Que inspirações o nacionalismo preconizado pela República de Pernambuco pode dar para se pensar na superação de crises do Brasil de hoje?
Flavio Cabral – Talvez o direito de questionar e de não aceitar imposições contrárias aos interesses da população. Em Pernambuco e outras capitanias, muitos perderam a vida por muito menos do que ocorre hoje. Os pernambucanos deram muito trabalho ao grupo do Rio, tendo José Bonifácio à frente, quando se costurava a fundação do Estado nacional. Bonifácio chegou a enviar emissários para Pernambuco a fim de calar o grupo comandado por Gervásio Pires, que controlava a junta de governo e que se posicionava contrariamente ao seu projeto. Os emissários do ministro, por intermédio de intrigas e golpes baixos, conseguiram desmontar as lideranças locais permitindo que Gervásio se demitisse, e uma nova junta, ligada aos interesses dos cariocas, foi eleita, apoiando a centralização política com Dom Pedro I no poder.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?
Flavio Cabral – Mesmo 200 anos depois dos eventos de 1817, pouco se conhece a história do movimento. Para Varnhagen , a revolução pernambucana foi separatista e resultado de um ato precipitado que, se vitorioso, poderia ter posto em risco a integridade do Brasil e a construção do império. Esses posicionamentos foram seguidos por outros historiadores ligados ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro - IHGB, cujo pensamento norteava por uma história do Brasil cujo ramo seria a história dos portugueses, que nos legaram, segundo suas convicções, “as garantias morais e físicas”. Toda essa historiografia começou a ser contestada em 1917, ano do centenário da revolução, quando Alexandre Barbosa Lima (1862-1931) contrapôs no IHGB sua historiografia em torno dos eventos pernambucanos que reduzia aqueles fatos como um movimento de conflito de ideias. Como já esclarecido, a revolução de 1817 não foi obra do acaso, uma vez que vinha sendo orquestrada havia algum tempo.

Quanto à questão de ser separatista, isso merece esclarecimentos por não existir, naquele momento, unidade brasileira. Lembra Evaldo Cabral que “separatismo implica a preexistência da nação”, não havendo unidade nacional naquela ocasião, mas a unidade do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves construído em 1815. Essa unidade, portanto, é que teria sido ameaçada. Por um lado, segundo o pensamento de Frei Caneca, pelo menos até 1824, por ocasião da Confederação do Equador, o Brasil se encontrava “independente”, entretanto não estava “constituído”. ■

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