Edição 510 | 04 Setembro 2017

Atitudes de Sartori denunciam crise de identidade que não é apenas do governo, mas de todos

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Vitor Necchi

Giba Assis Brasil afirma que a produção audiovisual depende da existência e da permanência de políticas públicas para o setor

O professor e montador de cinema Giba Assis Brasil trabalha há 37 anos na área e afirma que o audiovisual, assim como o teatro, a literatura, a música, são ótimos espaços para se discutir temas como educação, inclusão de minorias, distribuição de renda, direitos humanos, desmilitarização da polícia, relações de trabalho e meio ambiente. “De forma qualificada, aceitando as diferenças e sem promover o ódio”, salienta. Nesta entrevista, concedida por e-mail à IHU On-Line, Giba discute o papel das políticas públicas para a área cultural e o desenvolvimento do campo audiovisual no Rio Grande do Sul.

“Momentos favoráveis, ou não, dependem da economia do estado e do país, como em qualquer atividade. Mas, no caso da produção audiovisual, dependem mais ainda da existência ou não de políticas públicas para o setor e da permanência ou não dessas políticas ao longo do tempo”, explicou. A postura dos governantes se revela determinante para o desenvolvimento do setor cultural. Giba explica que a produção audiovisual tem um ciclo muito longo. “Por isso leva mais tempo para sair da crise, mas também demora para entrar nela”, resume. “Nesse momento, ainda não sabemos que tamanho terá o desmanche na área de Cultura, [...] mas ele já está acontecendo.”

Giba arrisca alguns palpites sobre as crises do Estado. A começar pelo fato de os gaúchos estarem, desde 1982, elegendo governantes de partidos diferentes a cada pleito. Isso “pode sugerir que estejamos numa séria crise de identidade”. Ele não questiona a alternância de poder, “que como possibilidade é essencial à democracia”, mas pretende discutir o “fato de estarmos sempre querendo começar do zero”.

Admite que não votou no atual governador, “mas ele foi eleito, faz parte de um governo legítimo, que no fim das contas me representa”. Ao analisar algumas atitudes de José Ivo Sartori, diz que elas “parecem denunciar esta crise de identidade, que certamente não é apenas do governo, mas do estado, de nós todos”.

Giba Assis Brasil é montador de cinema e graduado em Jornalismo pela UFRGS. Teve reconhecimento de Notório Saber, nível Mestrado, pela Unisinos. Foi presidente da Associação Profissional de Técnicos Cinematográficos - APTC em dois períodos (1989-1991 e 2013-2015). Integrou o Conselho Superior de Cinema, do Ministério da Cultura (2004 e 2009).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Há pelo menos 35 anos o senhor participa da produção cinematográfica do estado e do país como realizador e como articulador de políticas públicas voltadas à área. Neste período, quais os momentos mais e menos favoráveis à atividade nas duas esferas?
Giba Assis Brasil – Momentos favoráveis, ou não, dependem da economia do estado e do país, como em qualquer atividade. Mas, no caso da produção audiovisual, dependem mais ainda da existência ou não de políticas públicas para o setor e da permanência ou não dessas políticas ao longo do tempo. É assim em qualquer parte, não se trata de uma característica brasileira ou mesmo do sul do mundo.

O Rio Grande do Sul tem uma particularidade: é o único estado do Brasil em que nenhum governo se reelegeu desde a redemocratização. Nesse cenário, as políticas públicas tendem a ser sempre reinventadas a cada quatro anos. A LIC, Lei estadual de Incentivo à Cultura, mesmo com as suas limitações, foi um ponto positivo do governo [Antônio] Britto , assim como o Prêmio RGE, que infelizmente não teve continuidade. O passo seguinte à LIC, que seria o FAC, Fundo de Apoio à Cultura, com sua política de editais, só foi aprovado no final do governo Olívio [Dutra] e só veio a ser realmente implantado no governo Tarso [Genro] , dez anos depois.

Em termos nacionais, não há dúvida de que nas últimas décadas nós vínhamos tendo cada vez mais e melhores políticas públicas na área cultural. Mas foi com Gilberto Gil no Ministério da Cultura que chegamos, pela primeira vez, a ter uma verdadeira política cultural para todo o país. Leis de incentivo à cultura são importantes, podem e devem fazer parte de uma política cultural – mas não podem SER a política cultural.

IHU On-Line – Em 2010, a Associação dos Técnicos Cinematográficos do Estado - APTC coletou dados acerca do investimento feito em cinema por 11 estados brasileiros. O Rio Grande do Sul apareceu em último lugar. No passado, costumava ser lembrado como o terceiro polo cinematográfico do Brasil. Qual a situação e a relevância da produção audiovisual do estado atualmente?
Giba Assis Brasil – O mito do “terceiro polo” tem menos a ver com quantidade de filmes, e mais com continuidade de produção: o Rio Grande do Sul foi o único estado, além de Rio e São Paulo, que nunca parou de produzir entre os anos 1960 e a virada do século. Mas hoje o digital praticamente universalizou o que poderíamos chamar de “acesso ao primeiro filme”: em qualquer lugar se pode produzir um filme de estreia, aquele em que a necessidade de expressão e o fascínio pelo cinema bastam para mobilizar os realizadores, em que equipe e elenco raramente são pagos, em que muitos serviços são obtidos por mobilização da comunidade etc. A questão é que a realização do segundo ou do terceiro filme em diante dependem de muitos outros fatores: políticas públicas, financiamento, formação de equipes, profissionalização das relações de trabalho e, claro, resposta de público.

Acredito que, hoje, o nível de produção do Rio Grande do Sul nos coloque em quinto ou sexto lugar entre os estados do país. O que não é mau, considerando o pouco investimento realizado nos últimos 20 anos.

IHU On-Line – Os dados da APTC revelaram que, desde 2006, o governo estadual investiu no setor audiovisual menos do que os recursos destinados pelo Fundo Municipal de Apoio à Produção Artística e Cultural (Fumproarte), da prefeitura de Porto Alegre. Por que o pouco interesse do estado por uma atividade que, para além da questão artística, movimenta a economia local?
Giba Assis Brasil – Este dado significa em primeiro lugar que o município de Porto Alegre conseguiu criar, ainda nos anos 1990, um mecanismo de financiamento à produção cultural que se consolidou, apesar de ter reduzido seu investimento nos últimos anos e de estar atualmente inadimplente com dezenas de produtores culturais. O FAC, que seria o equivalente ao Fumproarte no Estado, ainda sofre pela descontinuidade das políticas.

No Festival de Cinema de Gramado deste ano, o secretário [de Estado da Cultura] Victor Hugo garantiu publicamente que vai lutar para que os investimentos deste ano não sejam menores que os do ano passado, o que, no atual cenário, não deixa de ser uma boa notícia.

IHU On-Line – Nos últimos anos, políticas públicas de financiamento de projetos audiovisuais impactaram positivamente a produção no estado. Neste ano, até agosto, foram lançados oito longas. Outros nove estão finalizados, cerca de 20, em finalização e 18, em pré-produção. De uma maneira geral, qual a procedência desses recursos?
Giba Assis Brasil – Cada projeto tem uma história, uma forma específica de composição do seu orçamento, que às vezes muda entre a concepção e a filmagem, entre a montagem e a finalização. Se analisarmos os filmes produzidos no Rio Grande do Sul que foram ou serão lançados em 2017, vamos encontrar uma diversidade de mecanismos de financiamento.

Por exemplo, Cidades fantasmas e Quem é Primavera das Neves foram coproduzidos em 2016 pela Globo News com recursos do artigo 3º-A da Lei do Audiovisual, sendo que um deles virou série em parceria com o Canal Brasil, através de recursos do Fundo Setorial do Audiovisual - FSA. Baleia e Legalidade receberam, em outubro de 2015, recursos do Prodecine 1, linha do FSA que é analisada pelo Comitê de Investimentos do BRDE [Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul]. Garoto neon e Mudança ganharam o edital para filmes de baixo orçamento do MinC [Ministério da Cultura], em dezembro de 2015. Mulher do pai ganhou o Prodecine 5, edital específico para filmes com propostas de inovação de linguagem do FSA, no início de 2015, além de recursos internacionais do Fundo Ibermedia. Este mesmo Prodecine 5, no ano seguinte, premiou Bio e Raia 4. Mar inquieto, Desvios, Central e Eles vieram e roubaram sua alma ganharam o edital de finalização de longas do FAC, ainda no governo Tarso (junho de 2014). Rifle, Depois de ser cinza, Yoñlu , A vida extraordinária de Tarso de Castro e Música para quando as luzes se apagam (e mais cinco projetos ainda em produção) foram contemplados no primeiro edital conjunto FSA-FAC, em que o Estado banca 40% e a Ancine [Agência Nacional do Cinema], 60% dos recursos. Este edital também foi negociado ainda no governo Tarso e o resultado saiu em janeiro de 2015.

Ou seja, todos estes projetos existem por iniciativas de realizadores audiovisuais, individualmente ou em grupo, mas nenhum deles teria chegado onde chegou sem algum tipo de política pública. E podemos ver que, em sua grande maioria, se tratam de políticas públicas federais, eventualmente complementadas pelo estado.

IHU On-Line – Como os recursos de editais estão encolhendo, o cenário descrito na questão anterior deve mudar nos próximos anos?
Giba Assis Brasil – A produção audiovisual tem um ciclo muito longo. Por isso leva mais tempo para sair da crise, mas também demora para entrar nela. Filmes selecionados em um edital levam de um a dois anos para serem finalizados, às vezes mais. Projetos em desenvolvimento, também apoiados por editais, podem levar quatro ou cinco anos para chegar ao mercado. O investimento do Fundo Setorial em Núcleos Criativos tem resultados de prazo ainda mais longo. Nesse momento, ainda não sabemos que tamanho terá o desmanche na área de Cultura, nem quanto tempo ele levará para chegar ao audiovisual (à Ancine, ao Fundo Setorial), mas ele já está acontecendo.

Também não sabemos em que medida vamos retroceder na universalização da educação, nas políticas de inclusão, na soberania nacional, no combate ao trabalho escravo. Não sabemos em que medida estes retrocessos serão provisórios ou permanentes, mas eles já estão acontecendo, e bem mais adiantados.

De qualquer maneira, não me parece que seja por acaso que a primeira medida anunciada pelo governo golpista tenha sido o fechamento do Ministério da Cultura. (Se depois voltaram atrás, como em muitas outras medidas tomadas desde então, parece mais um recuo tático que uma mudança de estratégia.) Aliás, a relação histórica que alguns comentaristas insistem em ver entre o atual processo e o governo Itamar Franco talvez esteja justamente na inversão de atitudes: antes do Plano Real, antes mesmo de ser efetivado como presidente, Itamar reinstituiu o Ministério da Cultura, que havia sido extinto por Collor . É claro que, em outras circunstâncias, abrir ou fechar um ministério poderia ser apenas uma ação administrativa, sem grandes consequências reais. Mas a Política e a Cultura se fazem também por atos simbólicos.

IHU On-Line – O diretor artístico do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, Eduardo Valente, apresentou recentemente um levantamento que realizou acerca da procedência dos longas inscritos para a edição deste ano: 51 do Rio de Janeiro, 47 de São Paulo, 13 de Pernambuco, 11 de Minas Gerais, 10 de Brasília e da Bahia, cinco do Ceará, quatro de Santa Catarina e do Pará, três do Rio Grande do Sul, de Goiás e do Espírito Santo, dois da Paraíba e um do Paraná, de Mato Grosso, de Piauí, de Alagoas e do Maranhão. O que esses números sugerem, em relação ao cinema feito no Rio Grande do Sul?
Giba Assis Brasil – Antes de mais nada, o que estes números sugerem sobre o cinema brasileiro? Em primeiro lugar, que a produção aumentou muito nos últimos anos, em função da existência de fortes políticas públicas federais, mas também pelas facilidades trazidas pela tecnologia digital. Segundo, que Rio e São Paulo continuam produzindo mais do que o restante do país inteiro. Terceiro, que os estados que tiveram políticas públicas contínuas, mesmo com mudanças de governo (casos de Pernambuco e Minas), são os que mais produzem atualmente fora do “eixo” – e com evidentes reflexos na qualidade desta produção. Quarto, que, apesar da concentração de recursos, em parte inevitável pela natureza da atividade, a nacionalização da produção audiovisual está acontecendo: o levantamento mostra que, neste momento, há filmes produzidos em 18 estados brasileiros, algo impensável alguns anos atrás.

Mas, aparentemente, duas unidades da federação apresentam aqui números incoerentes com a trajetória de sua produção: Brasília para mais e o Rio Grande do Sul para menos. A possível defasagem positiva do Distrito Federal deve ter a ver com a identificação entre os cineastas locais e o seu festival. E a nossa defasagem negativa talvez revele mais sobre Brasília do que sobre o Rio Grande do Sul.

Outros dados já mencionados indicam que há uma quantidade bem maior de filmes novos ou em finalização no estado, mas que por algum motivo não se inscreveram no festival de Brasília. Por quê? Porque seus realizadores não os consideram “filmes de festivais”? Porque não têm expectativa de ser selecionados, talvez em função de experiências anteriores? Ou porque preferiram aguardar o resultado da seleção de Gramado – ou Recife, ou Tiradentes, ou Fortaleza? Ou ainda porque estão voltados para festivais internacionais? Somente perguntando para o produtor ou realizador de cada filme.

IHU On-Line – É notória a crise econômica pela qual passa o Rio Grande do Sul. Para além dela, e na sua visão, que outras crises o Estado vive e por quê?
Giba Assis Brasil – Não me considero capacitado para este tipo de avaliação, mas posso arriscar alguns palpites. O próprio fato de o Rio Grande do Sul estar, desde 1982, elegendo a cada pleito governantes de partidos diferentes pode sugerir que estejamos numa séria crise de identidade. Não estou questionando a alternância de poder, que como possibilidade é essencial à democracia; o que eu discuto é o fato de estarmos sempre querendo começar do zero.

Não votei no governador [José Ivo] Sartori , mas ele foi eleito, faz parte de um governo legítimo, que no fim das contas me representa – e não posso dizer o mesmo dos sujeitos que estão hoje em volta do Palácio do Planalto. Seja como for, algumas atitudes do governo Sartori parecem denunciar esta crise de identidade, que certamente não é apenas do governo, mas do estado, de nós todos. O projeto de extinção das fundações, por exemplo, parecia um grande equívoco desde o princípio. A FEE [Fundação de Economia e Estatística] é uma assessoria de alto nível que levou décadas para ser construída, e por cujos serviços o estado vai ter que comprar no mercado daqui para frente. No caso da TVE e da FM Cultura, já ficou evidente que os poucos funcionários que podem ser demitidos por não terem estabilidade são os mais jovens, com salários menores e com mais domínio das novas tecnologias – ou seja, uma economia mínima para uma enorme perda. A impressão que dá é que o governo já se deu conta do erro, mas não quer voltar atrás.

IHU On-Line – O que há de arcaico e de contemporâneo no estado?
Giba Assis Brasil – Seria simplista associar o arcaísmo aos valores do campo e a contemporaneidade à vida na cidade grande. Arcaico é reler O tempo e o vento e contemporâneo é o prefeito da capital se comunicar com a população através de piadinhas no Twitter?

Contemporâneo, pensando bem, é o que faz parte do nosso tempo, ou seja: a eleição de Trump nos Estados Unidos, a irrupção do Estado Islâmico, a Inglaterra saindo da União Europeia, a França restringindo a entrada de imigrantes. Se for assim, talvez seja o caso de buscar alguns valores bem “arcaicos”, como a solidariedade ou os direitos humanos, para tentar reconstruir um futuro.

IHU On-Line – Embora a presunção de superioridade, em várias áreas decisivas para o futuro o Rio Grande do Sul vai de mal a pior. O que sustenta a permanência da arrogância que costuma ser atribuída aos gaúchos?
Giba Assis Brasil – Nossas façanhas. Continuamos acreditando no grito de Sepé Tiaraju , na espada erguida de Bento Gonçalves , na pose do Laçador ameaçando pealar qualquer um que entre ou saia da capital sem lhe prestar continência. Brincamos com tudo isso, mas muitos de nós ainda se entusiasmam nos estádios de futebol, quando a bandinha da Brigada Militar executa o “Comorora” frente a alguns atônitos visitantes de outros estados.

Alguém deveria apresentar um projeto de emenda popular propondo mudar um verso do Hino rio-grandense: em vez de “Povo que não tem virtude /acaba por ser escravo”, ficaria “Povo que não tem virtude / COMEÇA POR TER escravos”. Duvido que fosse aprovada, mas daria uma discussão pública interessante.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?
Giba Assis Brasil – Até aqui falamos basicamente de políticas públicas para a área cultural. Mas podemos e devemos discutir educação, inclusão de minorias, distribuição de renda, direitos humanos, desmilitarização da polícia, relações de trabalho, meio ambiente. O audiovisual, assim como o teatro, a literatura, a música, são ótimos espaços para levantar esse tipo de discussão de forma qualificada – aceitando as diferenças, sem promover o ódio.

Um bom personagem-símbolo da história recente brasileira é a Jéssica, do filme Que horas ela volta? : a filha da empregada que se tornou a primeira da família, depois de séculos, a entrar na universidade, e que agora não respeita mais limites: quer o sorvete do Fabinho, quer namorar, quer entrar na piscina. A Dona Bárbara, a patroa, pode gritar, pode bater panela, pode fingir ou mesmo acreditar que está lutando contra a corrupção ou contra a dissolução dos costumes, mas a Jéssica não volta mais para a senzala, não. Ou pelo menos a gente que vê o filme quer acreditar nisso.

Desse ponto de vista, as políticas públicas de Cultura nem são assim tão importantes. Com elas ou sem elas, a gente que faz filmes e peças e músicas e livros termina se virando. Eu defendo, claro, o Fundo Setorial do Audiovisual com toda a convicção dos meus 37 anos de trabalho na área. Mas, se for o caso, troco-o pelo direito de as Jéssicas entrarem na piscina, e ficarem lá o tempo que quiserem.

Por isso: Fora, Temer. A História cobra. ■

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