Edição 509 | 21 Agosto 2017

O sim de Thoreau para o mundo

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Entrevista e tradução: Eduardo Vicentini de Medeiros | Edição: Ricardo Machado

Stanley Bates chama atenção para o pensamento do escritor que transformou a ode à desobediência em forma de vida

Se observarmos a obra de Thoreau a partir de sua potência criativa para a constituição de uma forma de vida mais libertária, somos capazes de perceber uma espécie de manifesto de “sim ao mundo”, em contraposição ao “não” das amarras governamentais. Esse exercício é feito a partir da noção de indivíduo, que é muito cara, ao menos desde o século XIX, na constituição das subjetividades das pessoas que vivem nos Estados Unidos. “Quando lemos Walden, é, agora, impossível esquecer que ele é um exemplo de ‘filosofia como forma de vida’. E a razão pela qual é impossível esquecer deve-se a Cavell e a uma (pequena) geração de filósofos que tem sido influenciada por ele e que tem explorado Thoreau como um filósofo”, explica o professor e pesquisador Stanley Bates, em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

Esse modo de relação com o mundo carrega certa ambiguidade. “Para o bem e para o mal, os Estados Unidos sempre tiveram um tipo de autocompreensão mitológica da prioridade e importância do indivíduo. Para o bem – porque isso levou a um arranjo constitucional que estabeleceu uma base legal para os direitos humanos (começando, é claro, com os direitos humanos para os homens brancos. A evolução moral da Constituição dos Estados Unidos ainda continua agora, e está bastante frágil). Para o mal – porque ela permite uma negação da responsabilidade social quando essa negação é politicamente atrativa”, analisa. “Como todos os principais pensadores do século XIX, Thoreau está lidando com a necessária reorientação dos seres humanos em sua nova situação intelectual na modernidade. Ele tem perfeita consciência da revolução industrial e da nova economia emergente”, complementa Bates, ao relacionar Thoreau e Marx.

Stanley Bates é professor emérito no Departamento de Filosofia da Universidade de Middlebury, em Vermont, nos Estados Unidos. Realizou doutorado na universidade de Harvard, onde trabalhou proximamente a John Rawls e Stanley Cavell. Também foi professor na Universidade de Oxford.

O entrevistado profere a conferência Perfeccionismo Moral e Desobediência, no dia 29-8-2017, na Unisinos Porto Alegre, a partir das 19h30. A palestra integra o evento VII Colóquio Internacional IHU – Caminhando e desobedecendo. Thoreau 200 anos.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como você caracterizaria o papel de Stanley Cavell na difusão dos textos de Thoreau no meio filosófico acadêmico norte-americano?
Stanley Bates – Quando eu era estudante não havia lugar algum para Thoreau no ‘meio filosófico acadêmico norte-americano’. Ele tinha um lugar nos currículos de Estudos Americanos e Literatura Americana. (É claro que naqueles dias quase não havia lugar para Hegel , Marx , Nietzsche ou Heidegger neste meio filosófico acadêmico norte-americano). O livro de Cavell, The Senses of Walden (Chicago: University of Chicago Press, 1992), mudou isso. Ele foi o primeiro naquela época nos Estados Unidos a ver a obra de Thoreau, e a partir disso, de forma natural, a obra de Emerson , como reagindo profundamente à grande crise da filosofia europeia na era pós-kantiana e pós-hegeliana. Pensadores tão diferentes como Schopenhauer , Marx, Kierkegaard , Nietzsche, estavam todos respondendo a esta crise – de modos muito diferentes, é claro. (Escrevi sobre a crise Kant/Hegel em ‘The Mind’s Horizon’ , em Beyond Representation .) Quando lemos Walden é, agora, impossível esquecer que ele é um exemplo de ‘filosofia como forma de vida’. E a razão pela qual é impossível esquecer deve-se a Cavell e a uma (pequena) geração de filósofos que tem sido influenciada por ele e que tem explorado Thoreau como um filósofo.

IHU On-Line – O perfeccionismo emersoniano nos oferece alguma perspectiva nova das relações sempre controversas entre literatura de ficção e filosofia moral? A propósito, há previsão de publicação de seu projeto recente “The Unattained but Attainable Self” ?
Stanley Bates – Eu creio que o perfeccionismo emersoniano (tal como Cavell o entende) nos auxilia a pensar sobre a relação da literatura com a vida humana, e, portanto, com as preocupações humanas sobre como viver a vida. (Escrevi um artigo sobre este tema com o título ‘Caráter’ no The Oxford Handbook to Philosophy and Literature .) No final do século XIX e começo do século XX, quando a filosofia moral no mundo de língua inglesa tornou-se uma especialidade acadêmica, primeiro ela entrou na era da metaética, um beco sem saída (inspirada por várias formas de positivismo) e depois realizou uma avaliação dos principais tipos de teorias – teleológicas e deontológicas – que se concentram nas regras morais prescritivas. (Aliás, penso em Kant como um perfeccionista e não como um rigorista de regras.) Esta última, de fato, é uma parte central crucial da filosofia moral, mas, do ponto de vista do indivíduo, é em grande parte negativa – sobre quais ações são requeridas ou proibidas. Sem dúvida isso é uma parte constitutiva do que Barbara Herman chama de ‘alfabetização moral’, mas deixa em aberto a questão central para o ser humano individual de como viver sua própria vida. É seguramente o caso que a ficção (certamente na era do romance, mas de fato, muito antes) tem sempre apresentado modelos da vida humana.

A rigor, eu argumentaria que essa tem sido a principal maneira pela qual a diversidade de modos de existir como ser humano vem sendo transmitida para as novas gerações. (Na era do cinema, da televisão, dos videogames etc., talvez não seja mais o caso). Incluo nessa noção as várias tradições de sabedoria oral. A relação é complexa, por certo. Raramente uma obra de ficção ensina uma lição moral particular. Há momentos de reflexão moral em algumas das principais obras da tradição europeia, mas a tarefa central da narrativa (na ficção tradicional, que tem o realismo como padrão) é apresentar a complexidade do particular.

Ainda estou trabalhando no meu projeto sobre o self, mas o estou colocando em um contexto mais amplo do que é racional para acreditarmos sobre nós mesmos como seres humanos – quem nós somos, de onde viemos e o que isso implica sobre uma ‘crença última’.

IHU On-Line – A inexistência de um estágio último de desenvolvimento moral é um dos traços que distinguem o perfeccionismo emersoniano das versões tradicionais do perfeccionismo. Existe alguma relação genealógica entre a “perfectibilité indéfinie de l'homme” , descrita por Tocqueville em De la démocratie en Amérique como algo próprio do ethos americano, e o “unattained but attainable Self” de Emerson?
Stanley Bates – Para o bem e para o mal, os Estados Unidos sempre tiveram um tipo de autocompreensão mitológica da prioridade e importância do indivíduo. Para o bem – porque isso levou a um arranjo constitucional que estabeleceu uma base legal para os direitos humanos (começando, é claro, com os direitos humanos para os homens brancos. A evolução moral da Constituição dos Estados Unidos ainda continua agora, e está bastante frágil.) Para o mal – porque ela permite uma negação da responsabilidade social quando essa negação é politicamente atrativa. Veja nossas discussões nacionais sobre ‘direito de portar armas’ ou sobre o sistema de saúde ou a tentativa atual de apresentar a intrusão de um fanatismo religioso sectário na vida pública como se fosse um exercício de ‘liberdade religiosa’. Naturalmente, como em toda nação, a autocompreensão mitológica não necessariamente corresponde à realidade social, mas é parte da realidade social. Emerson soma-se a muitos escritores do século XIX nos Estados Unidos que viram a necessidade de uma grande ruptura com as tradições europeias; ele tentou explicitar para o indivíduo as implicações de seu entendimento da concepção filosófica do self.

IHU On-Line – Thoreau foi um leitor atento da poesia do Romantismo Inglês. Dos seis grandes nomes do Romantismo em língua inglesa, Blake , Wordsworth , Coleridge , Shelley , Byron e Keats , qual você destacaria como interlocutor privilegiado para temas centrais de Walden?
Stanley Bates – Esta é uma ótima pergunta para a qual não tenho uma boa resposta. Sei que Thoreau, provavelmente via Emerson, tinha Wordsworth em alta conta (mas, é claro, a mais importante das obras de Wordsworth – O Prelúdio – não foi publicada até sua morte em 1850). Sei que alguns críticos têm detectado a influência de Byron e Keats. Penso que se Thoreau usou alguma coisa como um tipo de modelo poético, foi provavelmente Geórgicas de Virgílio , que ele sempre amou e que oferece um tipo de modelo literário para a representação de um ano na natureza.

IHU On-Line – É sabido que Aids to Reflection de Coleridge foi fundamental na divulgação do Idealismo Alemão em solo americano. Você indicaria algum aspecto desta obra de Coleridge que ecoa nos textos de Thoreau?
Stanley Bates – Minha impressão é que esta obra de Coleridge infiltrou-se em Thoreau quando de seu retorno para Concord, após sua graduação em Harvard, quando tornou-se próximo de Emerson. É raro Thoreau comentar diretamente sobre ela, mas ele leu bastante filosofia durante os seis ou sete anos seguintes. Comentarei posteriormente sobre a relação dos diferentes modos de escrever e ver o mundo de Thoreau e Emerson. (Grosseiramente, a escrita de Emerson tende para a abstração, a de Thoreau sempre particulariza).

IHU On-Line – A obra de Thoreau poderia ser considerada como um antídoto contra a herança do niilismo que Nietzsche identifica no Romantismo?
Stanley Bates – É claro que Nietzsche identificou sua própria obra inicial (especialmente O Nascimento da Tragédia) como o produto de um Romântico. Quando ele, em sua cabeça, dispensou a influência de Schopenhauer e Wagner , viu este Romantismo inicial como levando potencialmente para o niilismo. Em sua obra posterior, Nietzsche vê a evasão do Romantismo como consistindo acima de tudo em dizer ‘Sim’ para o mundo e para si mesmo no mundo (oposto ao ‘Não’ de Schopenhauer). Penso que é correto identificar Thoreau como aquele que disse ‘Sim’ para o mundo.

IHU On-Line – O que Thoreau teria a dizer para Trump sobre a decisão recente de não manter o Acordo de Paris?
Stanley Bates – Penso que Thoreau iria ter muita dificuldade para entender Trump. Thoreau desdenhou muitos dos políticos que eram seus contemporâneos, com base na relação deles com a escravidão, mas não havia no século XIX uma figura comparável a Trump (com a possível exceção de Andrew Jackson ). Thoreau respeitava a ciência e o meio ambiente e por estas razões iria desejar algo, mesmo algo tão modesto como o Acordo de Paris , que pudesse auxiliar o mundo e as pessoas dentro dele, mas ele também iria querer muito mais do que isso. Afinal de contas, a pergunta que ele faz em Walden é ‘o que é necessário para uma vida humana completa?’. Existem muitos aspectos da nossa modernidade que o deixariam perturbado.

IHU On-Line – Como compreender a relação entre Max Weber , particularmente sobre a Ética Protestante, e Walden, discutido por Cavell, em The Senses of Walden?
Stanley Bates – Isso continua o tópico da minha resposta anterior. E eu a considero para identificar o mesmo problema que Heidegger trata em A Questão da Técnica. Como nós, enquanto seres humanos, habitamos o mundo? Esta é a razão para Thoreau apresentar no capítulo inicial de Walden, e de longe o mais extenso, sua concepção de ‘Economia’. Como todos os principais pensadores do século XIX, Thoreau está lidando com a necessária reorientação dos seres humanos em sua nova situação intelectual na modernidade. Tal como Emerson, ele já havia deixado para trás as costumeiras cercanias do Cristianismo. Ele tem perfeita consciência da revolução industrial e da nova economia emergente. Cada ser humano deve navegar sua própria vida, sem as certezas da tradição. E o que pode ser colocado em seu lugar? (Ou – como Nietzsche formulou – como o niilismo pode ser evitado?)

IHU On-Line – O conceito de alienação (Entfremdung) em Marx e a caracterização, feita por Thoreau, da vida de seus contemporâneos como ‘calado desespero’ nos fornecem claras indicações da crítica que ambos fazem da forma como economia e valor moral se conectam no século XIX. Que outros paralelos podem ser traçados entre Marx e Thoreau?
Stanley Bates – Eu tentei fazer uma extensa comparação entre Marx e Thoreau em ‘Thoreau e o Perfeccionismo Emersoniano’ na coletânea “A importância de Thoreau para a Filosofia” . Considero que eles estão lidando com a situação filosófica que mencionei acima. Naturalmente que existem enormes diferenças entre eles. A mais importante me parece ser suas visões sobre a natureza do indivíduo humano. Tal como Marx, Thoreau está convencido da natureza social dos seres humanos – mas é essa perspectiva individual que é crucial para ele. Para Marx, especialmente o primeiro Marx onde o vocabulário hegeliano é mais importante, o individualismo parece ser inevitavelmente o que C.B. Macpherson chama de ‘individualismo possessivo’. De qualquer modo, ambos iniciam com a suposição de que a crítica da religião em larga medida já estava completa, e que essa crítica leva inevitavelmente para a crítica moral/política. Estou trabalhando em uma comparação de suas compreensões reinterpretadas do ‘transcendental’ que espero discutir em nossa conferência. ■

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