Edição 509 | 21 Agosto 2017

Os desafios do jornalismo emancipador e seus ecossistemas de informações

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João Vitor Santos

Dennis de Oliveira vai a Paulo Freire para refletir sobre como produzir narrativas noticiosas que subvertam a lógica do consumo e do reducionismo da polarização de vozes

O jornalismo tem que ouvir os dois lados da história. Mas há apenas dois lados? As sentenças revelam duas perspectivas: uma orientada pela lógica de mercado e a outra com vistas à informação integral. Essa segunda é o objeto de estudo do professor e jornalista Dennis de Oliveira. Pensando num jornalismo emancipador, ele aproxima o campo da comunicação às ideias do educador Paulo Freire . “Uma coisa que é evidente neste jornalismo hegemônico é que alguns falam e a grande massa apenas escuta – na mesma perspectiva da educação bancária de que fala Paulo Freire”, analisa. “A ideia que defendemos é que um jornalismo emancipador deve se constituir na construção de uma narrativa que se construa a partir de um ‘ecossistema de informações’ privilegiando a pluralidade de saberes”, indica.

Na entrevista, concedida por e-mail à IHU On-Line, Oliveira reconhece que não é fácil “reposicionar as técnicas de captação jornalística, transformando-as em dimensões essencialmente dialógicas”. Muitos desafios residem no enfrentamento da mídia hegemônica, que trata a informação como produto e o leitor como consumidor. Mas não são os únicos. “Mesmo a imprensa alternativa e popular que se propõe a ser um contraponto à imprensa hegemônica também tem dificuldades de se aproximar desta perspectiva”, aponta. Segundo o professor, porque se limitam ao “jornalismo instrumental”. “Alguns jornais de partidos de esquerda e de movimentos sociais e sindicatos estão mais preocupados com a perspectiva difusionista que de formação de um novo sujeito”, diz. Ele desafia os cursos de comunicação a “apontar estas novas perspectivas de construção do texto jornalístico para estabelecermos um confronto paradigmático com o que está estabelecido no jornalismo atual”.

Dennis de Oliveira é professor pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo - USP. Possui graduação em Jornalismo, mestrado e doutorado em Ciências da Comunicação pela USP. Trabalha com comunicação popular e é professor do Programa de Pós-Graduação em Mudança Social e Participação Política da EACH/USP e do Programa de Pós-Graduação em Direitos Humanos da Faculdade de Direito da USP.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Que associações e dissociações podem ser feitas entre os campos da educação e do jornalismo? Como cada uma das áreas articula a ideia de informação e formação?
Dennis de Oliveira – As associações podem ser realizadas na perspectiva do perfil de sujeito que se deseja para um determinado paradigma de sociabilidade. O jornalismo, nos seus primórdios, projetava o sujeito autocentrado, racional, do Iluminismo, o cidadão que necessitava estar conectado com o processo da destruição criadora da aventura da modernidade, daí a ideia de Tobias Peucer na primeira tese sobre jornalismo de 1695, defendida na Universidade de Leipzig, “Relatos Jornalísticos”, que apontava que o ser humano da modernidade tinha a demanda pela atualização e o jornalismo atendia esta demanda. Com o tempo, com a incorporação do jornalismo às estruturas mercantis, a projeção do sujeito do jornalismo é a do consumidor. Não é um autocentramento na perspectiva da capacidade de racionalização, mas sim da capacidade de inserção na sociedade de consumo.

A educação tem uma trajetória semelhante, embora trabalhe com uma outra perspectiva de narrativa e de tempo (o jornalismo é o compartilhamento de imediaticidades, como afirma Adelmo Genro Filho ; a educação se situa no campo das grandes narrativas). A educação se centra na cristalização da grande narrativa da Ciência como forma de apropriação do conhecimento da realidade, porém a educação também tem o papel ideológico de interpelar um sujeito que se conforme com as estruturas sociais – o que é uma pessoa educada se não aquela que obedece a normas, regras? Por isto, a escola é uma instituição cujas regras e hierarquias são rígidas e o trânsito por ela passa pela restrita obediência a estas regras e hierarquias. Ambas trabalham com disseminação de informação para formar determinados tipos de sujeitos. O que importa é perceber as suas singularidades e como ambas cumprem papel de cristalizar ideologias.

IHU On-Line – Na França, o jornalismo surgiu associado a partidos políticos e com objetivo de fazer circular as ideias enquanto agente político. Quando e por que o jornalismo assume outra perspectiva e vira um negócio? E qual o peso da matriz norte-americana nesse processo?
Dennis de Oliveira – Fundamentalmente quando o capitalismo se consolida como regime e a burguesia passa de uma classe revolucionária para uma classe conservadora (para conservar o seu poder). A entrada do capitalismo na sua fase industrial, estabelecendo padrões produtivos, fragmentando e especializando as etapas produtivas criando o que Marx chama de alienação do produtor em relação à mercadoria produzida, e a edificação da chamada sociedade de massas foram as condições em que transfiguraram o jornalismo da sua fase do esclarecimento para a fase mercantil.

O jornalismo dos EUA foi paradigmático ao estabelecer padrões produtivos da notícia que se adequaram a este modelo industrial, principalmente com as técnicas de captação e redação dos textos jornalísticos, a separação aparente de informação e opinião, as técnicas de paginação e design, entre outros. Isto se transformou em um paradigma para a produção jornalística em todo o mundo; entretanto, o que ocorreu foi que o modelo norte-americano foi a sistematização de um processo produtivo que se adéqua a uma realidade social. Só foi possível esta transfiguração do jornalismo para a fase mercantil com as mudanças na sociedade capitalista.

IHU On-Line – Quais os limites do “jornalismo-negócio”?
Dennis de Oliveira – Atualmente, o jornalismo-negócio passa por uma tremenda crise por vários motivos. O primeiro, e mais importante, é a crise do modelo institucional da democracia liberal, uma vez que o capitalismo se organiza por redes de células produtivas espalhadas em todo o globo, dando um poder desmesurado das grandes corporações transnacionais, muitas vezes acima dos próprios Estados nacionais – é o que chamamos no nosso livro de “Ação Direta do Capital”.

O segundo é uma dessacralização, uma perda da “aura” das tecnologias produtivas da comunicação midiática, com a disseminação das Tecnologias de Informação e Comunicação - TICs que permite que qualquer pessoa possa disseminar informações por meio das redes sociais – o jornalista perdeu o monopólio de trazer a informação. O terceiro é a nova configuração da indústria midiática em que as empresas que concentram o gerenciamento das informações (produzidas por outros) dominam o mercado, como é o caso do Google e Facebook. Segundo dados recentes, apenas 8% do total do capital do setor de mídia é destinado à produção de conteúdo, o restante é para manter os suportes tecnológicos, produção de software etc.

O quarto, produto de tudo isto, é uma perda crescente da credibilidade social do jornalismo uma vez que cada vez mais os cidadãos percebem as vinculações da indústria midiática com as estruturas de poder. Daí então que o jornalismo-negócio vai perdendo espaço. As empresas de mídia mantêm produções jornalísticas para manter um certo status ou então as instrumentalizam para pressões junto a estruturas de poder, mas é muito mais lucrativo investir em outros produtos midiáticos, como entretenimento.

IHU On-Line – Como, ao longo da história, o jornalismo vai se constituindo como parte de uma estrutura que alicerça o poder, tanto político como econômico?
Dennis de Oliveira – O jornalismo sempre foi produto de uma determinada estrutura social. Esta aparente “independência” que ele tinha em relação às instituições do poder político obedecia a uma demanda de uma determinada estrutura social que estava se consolidando, a democracia liberal. Como o capitalismo hoje pressiona para a relativização dos valores liberais, a instituição jornalística também vai neste sentido. Por exemplo, se observarmos no campo do jornalismo econômico, o discurso da ortodoxia econômica praticamente se impõe como uma narrativa absoluta, inquestionável, e as críticas que se estabelecem se dão a partir deste paradigma.

Como diz Daniel Hallin , no jornalismo há uma esfera do consenso, da controvérsia admitida e do desvio. As controvérsias admitidas são aquelas que não se contrapõem aos valores hegemônicos. No caso da economia, é uma narrativa desviante e, portanto, excluída da perspectiva do jornalismo hegemônico, uma visão econômica contrária aos interesses do grande capital. O que ocorre atualmente é que com a crise do modelo da democracia liberal, este discurso totalizante do jornalismo fica muito mais evidente, chegando a uma assertividade tamanha em que a esfera da argumentação se transforma em espaço de ataques e ofensas. As fontes (em todas as editorias) são sempre as mesmas, as pautas se repetem e temos uma narrativa autorreferente, que se fecha em si própria.

IHU On-Line – Qual o espaço do jornalismo na constituição de uma sociedade democrática? E como o senhor observa a forma como esse espaço é exercido pelo jornalismo no Brasil ao longo da história do país?
Dennis de Oliveira – A democracia em países da periferia do capitalismo, como o Brasil, se expressa pelo que Étiene Balibar chama de egaliberté, isto é, a articulação de igualdade e liberdade. Pensar em liberdade significa igualdade, pois não há liberdade possível sem que os indivíduos possam expressar o justo direito de reivindicar a igualdade plena e vice-versa. Esta é a grande contradição da luta democrática no Brasil: o campo da liberdade e da igualdade estão necessariamente interligados. Neste sentido, o jornalismo como atividade que se cristaliza pela defesa do direito da liberdade (princípio do liberalismo) só será efetivamente uma instituição em defesa da democracia se defender também os direitos à igualdade. E este é o grande xis da questão, pois as empresas midiáticas, propriedades de grupos tradicionais e conservadores no Brasil, defendem a democracia de forma parcial, pois são contrárias à redistribuição de renda e, portanto, da igualdade social.

Estes mesmos jornais que bradam a todo o instante pela “liberdade de imprensa” defenderam o golpe militar de 1964 que instalou uma ditadura sangrenta no Brasil. Por quê? Por medo do crescimento dos movimentos sociais e populares nos anos 1960. Também defenderam o golpe parlamentar-judicial-midiático de agosto de 2016, que destituiu uma presidenta legitimamente eleita, por defenderem a adoção de medidas como a retirada dos direitos trabalhistas aprovada recentemente no Congresso Nacional. Este mesmo jornalismo que defende a “liberdade” é contra as ações afirmativas e cotas raciais, apesar da população negra brasileira historicamente ser excluída pelo racismo estrutural.

Neste sentido, embora haja pontualmente ações de repórteres e jornalistas desta mídia hegemônica que cumpriram e cumprem um papel importante no esclarecimento da sociedade, cada vez menos vejo possibilidades de que este jornalismo hegemônico possa contribuir para a construção da democracia. Pelo contrário, a tendência ao golpismo, ao autoritarismo, à submissão vergonhosa a interesses particulares de grandes grupos econômicos é cada vez maior. Veja o caso do jornalismo esportivo – os interesses comerciais da Globo e os seus vínculos com esquemas inclusive ilícitos da cartolagem do futebol e de outros esportes praticamente transformou o jornalismo esportivo desta emissora em promotora dos eventos esportivos, centrando na cobertura anódina da vida das celebridades esportivas, inexistência de reportagens sobre as falcatruas deste meio, entre outros.

IHU On-Line – A partir dos princípios de Paulo Freire, no que consiste um “jornalismo libertador”?
Dennis de Oliveira – Uma coisa que é evidente neste jornalismo hegemônico é que alguns (um círculo restrito de pessoas que se legitimam como celebridades em todas as áreas) falam e a grande massa apenas escuta – na mesma perspectiva da educação bancária de que fala Paulo Freire. A ideia que defendemos é que um jornalismo emancipador deve se constituir na construção de uma narrativa que se construa a partir de um “ecossistema de informações” privilegiando a pluralidade de saberes vividos e não apenas a ideia cartesiana de “ouvir os dois lados”, que é produto de uma lógica binária de favor/contra, certo/errado etc.

Penso que Paulo Freire não é apenas um teórico da educação, mas um pensador com uma episteme extremamente sofisticada que tem como centro que o processo de conhecimento é construído coletivamente. Por isto, é preciso reposicionar as técnicas de captação jornalística, transformando-as em dimensões essencialmente dialógicas, na discussão das pautas transcendendo as agendas institucionais e, fundamentalmente, no compromisso ético do jornalismo que é a construção da democracia, entretanto na perspectiva da egaliberté de Ballibar. Por tudo isto que vejo pouca ou nenhuma possibilidade de um jornalismo como este ser praticado na mídia hegemônica, a não ser de forma episódica.

IHU On-Line – Quais os desafios para promover hoje um jornalismo mais próximo à ideia freireana de libertação? O senhor conhece algumas experiências que promovem essa forma de jornalismo?
Dennis de Oliveira – Eu vejo pouquíssimas possibilidades de ele ser realizado na mídia hegemônica que, por conta da crise, tem reduzido os investimentos na produção de conteúdo. Os jornalistas sofrem com uma brutal pressão nas redações, sendo obrigados a dar conta de inúmeras pautas, pressões ideológicas e econômicas, baixos salários, assédio moral, entre outras. A monopolização permitiu que a categoria profissional fosse submetida a este grau de pressão e também à precarização. Aquele jornalista engajado com sua pauta, que é muito comum em filmes, que vive sozinho, é boêmio e tem um comportamento messiânico em busca da verdade e contra os poderes não existe mais.

Interessante que vários super-heróis eram jornalistas: Superman (Clark Kent, repórter do Planeta Diário, que, aliás, nunca aparece fazendo nenhuma reportagem), Homem Aranha (o fotógrafo Peter Parker) e o Tintim (que também mais se mete em aventura do que faz reportagem). Hoje, o jornalista é um profissional que luta pela sua sobrevivência, fazendo inúmeros bicos, trabalhando em várias empresas, sofrendo pressões de todo o tipo. Está mais para um participante de um reality show tipo Survivor que o Super-Homem.

Entretanto, mesmo a imprensa alternativa e popular que se propõe a ser um contraponto à imprensa hegemônica também tem dificuldades de se aproximar desta perspectiva porque, em muitos momentos, tem uma ideia instrumental de jornalismo. Alguns jornais de partidos de esquerda e de movimentos sociais e sindicatos estão mais preocupados com a perspectiva difusionista que de formação de um novo sujeito que está no centro das ideias freireanas. E copiam os mesmos modelos de captação de informação, de edição e de pautas da imprensa hegemônica e o fazem de maneira pior, pois não tem a expertise e a estrutura das empresas midiáticas.

Papel da universidade

Ainda assim, existem experiências de jornalismo que se aproximam desta ideia. No meu livro, analiso duas reportagens, uma publicada na Folha de S. Paulo, sobre o trabalho escravo, produzida pela jornalista Elvira Lobato , e outra do jornal comunitário feito pelos alunos de jornalismo da USP, o “Notícias do Jardim São Remo”, feito pela então estudante Amanda Manara, sobre a estética feminina. Eu acredito que é necessário, nas faculdades de jornalismo, que nós professores comecemos a apontar estas novas perspectivas de construção do texto jornalístico para estabelecermos um confronto paradigmático com o que está estabelecido no jornalismo atual.

IHU On-Line – O jornalismo de hoje se anuncia como voz da sociedade, mas em que medida ele reproduz apenas ideias de uma parcela da população brasileira, os anseios de uma classe média? Até que ponto, de fato, dá voz “ao oprimido”?
Dennis de Oliveira – O jornalismo hoje está articulado com este modelo de cidadão-consumidor. Neste modelo, não existe democracia e sim mercado. Não há ideologia e sim mercadoria. E não há cidadão, há consumidor. Por isto, há uma má vontade com os movimentos sociais, não só pelas bandeiras que eles defendem, mas principalmente porque eles apontam para um tipo de sociabilidade que vai na contramão deste modelo – uma sociabilidade que resgata os valores da democracia, da ideologia e da cidadania. Veja que em geral não se trata nem de criticar ideologicamente as propostas destes movimentos, mas em criminalizá-los, em ressaltar os “prejuízos” que eles causam aos “consumidores”.

Por exemplo, uma passeata de professores é coberta pelo jornalismo hegemônico como um problema para o trânsito, para o deslocamento das pessoas na cidade e nunca os motivos de tal passeata, quais as reivindicações dos manifestantes etc. Mesmo que tal agenda dos manifestantes fosse avaliada criticamente se for o caso. Não, há de antemão uma criminalização, uma desqualificação da ação em si porque ela sinaliza para uma sociabilidade distinta do que se aponta nesta perspectiva da sociedade de consumo.

Ora, tal perspectiva centrada em um individualismo exacerbado, em um sujeito autarquizado encontra fortes ecos em setores da classe média que também é potencial consumidora dos anunciantes do jornalismo. Mas veja só: professores da passeata também são consumidores, mas eles são interpelados enquanto sujeitos consumidores e não como professores que lutam pelos seus direitos. E mais: nos últimos anos tivemos um ingresso significativo de setores da periferia, da classe trabalhadora, no universo de consumo. Mas quais são os produtos jornalísticos oferecidos pela indústria midiática a este público da periferia? Jornais sensacionalistas, notícias policiais, lúgubres, entre outros. Experiências importantes protagonizadas por estas pessoas, como projetos de economia popular e solidária, cultura comunitária, entre outros, não estão na agenda do jornalismo hegemônico.

Se o jornalismo hegemônico ignora a existência destas experiências societárias, imagina só se ele vai levar em consideração que existe um processo sistêmico de opressão e vai dar voz ao oprimido... Isto está fora dos horizontes deste jornalismo. O pior é que muitos profissionais compram esta visão. Um dia participei de um debate sobre jornalismo e periferia com um jornalista da Folha de S. Paulo na Escola Superior de Propaganda e Marketing - ESPM e o cara, com aquele estilo irônico, blasé e um tanto arrogante que caracteriza muito os profissionais que compram a ideologia deste jornal, disse que para cobrir a periferia é necessário saber o que é ZEIS (Zona Especial de Interesse Social, um conceito de gestão urbana). E, olha, este não é dos piores, imagina só como são outros. Como diria Paulo Francis (nos seus bons tempos), “valha-me Deus!”

IHU On-Line – A internet potencializa o “jornalismo libertador”, voltado para autonomia cidadã, ou reforça o “jornalismo-negócio”?
Dennis de Oliveira – A internet é um suporte tecnológico, assim ela pode tanto potencializar um tipo ou outro. Não tenho nem uma visão apocalíptica da internet e nem tampouco que ela vai salvar o mundo. Penso que é um suporte tecnológico que favorece determinadas narrativas, determinadas estéticas e tipos de codificação e decodificação. A maior empresa de mídia do mundo é da internet, é o Google que estabeleceu um modelo de negócio que tem crescido no mercado midiático que é intermediar informações e, com base nisto, estabelecer perfis de preferências que são vendidos para propagandas direcionadas.

Este novo modelo de negócio do mercado midiático é potencializado pela internet. Neste sentido, o jornalismo-negócio se aproxima daquilo que chamamos de customização produtiva. Para os projetos de jornalismo emancipatório, a internet oferece uma grande vantagem que é o custo baixo e o fácil manuseio dos suportes tecnológicos. Por isto, é preciso entender como hackear este suporte que possibilita este novo modelo de negócio para instrumentalizá-lo a favor de um outro jornalismo. Temos algumas experiências interessantes, como a “Rede de Jornalistas da Periferia” em São Paulo, uma experiência de coletivo de jornalistas da periferia que trabalham de forma colaborativa, utilizando a internet.

IHU On-Line – Quais os limites tanto da dita mídia hegemônica como da mídia alternativa para, de fato, apreender a complexa e diversa massa que genericamente se tipifica como sociedade? E como as inspirações de Paulo Freire podem contribuir para que se observe e de fato se promovam reflexões sobre as complexidades do mundo?
Dennis de Oliveira – A mídia hegemônica é limitada pelas perspectivas societárias que já comentei anteriormente. Para a mídia alternativa, o grande problema é entender que a circulação de informação hoje é muito mais intensa, a precarização crescente do mundo do trabalho fragmentou os espaços de construção da identidade de classe trabalhadora e os conflitos sociais se deslocam de espaço, se manifestam nas lutas por direitos sociais, nas batalhas pelo reconhecimento identitário de raça, gênero, entre outros.

A episteme de Paulo Freire que aponta para a radicalização da dialogia é uma possibilidade interessante de articular esta diversidade de lutas dentro de uma unidade em busca de um outro mundo. Assim, o jornalismo emancipatório pode ser um espaço interessante de sistematização destas experiências.

IHU On-Line – Como o senhor observa as faculdades de jornalismo hoje? Qual deve ser o papel das escolas de comunicação na formação de “jornalistas mais humanizados” e menos pautados pela tecnologia?
Dennis de Oliveira – As faculdades de jornalismo estão sofrendo o impacto da imposição do modelo de uma universidade operacional em que se propõe a formação de um profissional multitarefa e que tenha competência e habilidade para responder de forma astuta e criativa demandas propostas pelo capital. A lógica daquele programa que era comandado pelo Roberto Justus chamado “Aprendiz” é o ideal buscado pelo ensino superior. O método que está sendo implantado em vários cursos do PBL (“Problem Based Learning”, aprendizado baseado em problemas) é a expressão maior disto. Critica-se o ensino tradicional que é chamado de “conteudístico” – e inclusive usam de forma totalmente deturpada o conceito de educação bancária de Paulo Freire – e propõe esta metodologia tida como inovadora.

Há quase que uma campanha contra a teoria, contra o ensino propedêutico. Ora, a situação que vivemos atualmente tem um grau de complexidade tão alto que somente com grande repertório teórico e conceitual é possível compreendê-lo e atuar. Um jornalista necessita conhecer profundamente a realidade brasileira, estas modificações que estão sendo impostas aos paradigmas de sociabilidade, os impactos no cotidiano, para poder compreender com profundidade o contexto e, assim, poder estabelecer os processos discursivos dos agentes envolvidos em cada evento factual. Querer transformar as faculdades de jornalismo em meros centros de treinamento tecnológico é uma impossibilidade, pois as tecnologias de informação e comunicação avançam de tal maneira que é impossível qualquer instituição poder acompanhar.

Além disto, a apropriação destas tecnologias é desigual, se há instituições que usam os mais sofisticados e modernos suportes, outros, por falta de recursos, ainda usam os mais antigos. E isto não significa que a qualidade da informação é menor em um ou outro. As faculdades de jornalismo têm que formar JORNALISTAS e não FAZEDORES DE JORNAL. Em outras palavras, as faculdades têm que ser espaços de reflexão sobre o papel social do jornalista, as questões éticas, entre outras. Em suma, resgatar a autonomia intelectual do profissional que vem sendo aviltada fortemente em nome de uma perspectiva societária que esgotou totalmente as suas possibilidades civilizatórias.

IHU On-Line – O senhor trabalhou com Paulo Freire. Gostaria que contasse um pouco dessa experiência e analisasse como seus ideais partem da educação, mas adquirem aplicações nas mais diversas áreas, como a comunicação, por exemplo?
Dennis de Oliveira – Eu era professor do programa de Educação de Jovens e Adultos em 1989, quando Paulo Freire assumiu a Secretaria de Educação da cidade de São Paulo na gestão da prefeita Luiza Erundina . Houve uma grande transformação no programa que antes era um projeto social da Secretaria de Bem-Estar Social. Passou a integrar o sistema municipal de educação e, para tanto, tivemos que nos capacitar como professores do ensino fundamental (éramos “monitores”) e fizemos um curso com Paulo Freire, Pedro Pontual e muita gente fantástica da equipe.

Foi a partir daquele momento que decidi definitivamente ser professor. O que me impressionou muito em trabalhar sob a direção de Freire foi a paixão pela educação, pela formação de um novo sujeito, pelo compromisso real com a dialogia nas práticas pedagógicas. Mais tarde, relendo as suas obras, percebi que ali não se tratava apenas de uma teoria educativa, mas de uma proposta epistêmica que pode ser aplicada a vários outros campos. Vi também a influência que ele exerceu em outros intelectuais latino-americanos, como o psicólogo Ignácio Martin-Baró e o educador Oscar Jara .

Baró defendia que o papel dos intelectuais comprometidos com a transformação é a “desideologização” dos processos cotidianos que naturalizam sistemas de opressão. Oscar Jara, com o seu método de pesquisa intitulado “sistematização das experiências” nos convida para uma reflexão coletiva sobre os processos sociais, com as perguntas por que as coisas se passaram como se passaram e por que não se passaram de forma distinta. Este estímulo à reflexão, à fala, à narrativa a partir destas questões recoloca o sujeito, seja quem for, na práxis – no agir e pensar. O jornalismo emancipador é uma sistematização destas experiências.■

Ficha técnica

Imagem: Reprodução/Appris

Título: Jornalismo e Emancipação. Uma Prática Jornalística Baseada em Paulo Freire
Autor: Dennis de Oliveira
Referência: São Paulo: Appris, 2017.

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