Edição 508 | 07 Agosto 2017

Uma melodia interrompida

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Fernando Del Corona

Drama sobre o entreguerras reflete acerca do poder de recuperação depois da tragédia entre Alemanha e França

“Minha única ferida é Frantz”, fala o francês Adrien (Pierre Niney) para a alemã Anna (Paula Beer) sobre o noivo desta, morto durante a Primeira Guerra, e que Adrien afirma ter conhecido em Paris antes de começar o conflito. O homônimo do título (Anton von Lucke) já inicia a história morto. Ele é visto apenas através das histórias contadas por Adrien para a moça e para os pais de Frantz, Hans e Magda (Ernst Stötzner e Marie Gruber), na pequena vila alemã de Quedlinburg: dois jovens felizes, visitando o Louvre e compartilhando sua afinidade pelo violino. Existe algo sugerido por trás da relação dos rapazes que a princípio não fica claro. Os familiarizados com a obra de François Ozon (O tempo que resta e Swimming Pool – à beira da piscina, entre outros) podem achar que sabem o que vai acontecer, mas o diretor francês não entrega o jogo de maneira tão óbvia.

O francês Adrien (Pierre Niney) chega de forma misteriosa à vida da alemã Anna (Paula Beer) (Foto: cena do filme)

Frantz foi inspirado no pouco conhecido Não matarás (1932), de Ernst Lubitsch – famoso mais por suas comédias do que por filmes densos como esse –, que, por sua vez, se inspirou em uma peça de Maurice Rostand de 1930 cujo nome permanecerá omitido aqui por revelar o grande segredo da obra. A história dos dois filmes é a mesma: um ex-soldado francês visita uma vila alemã e se envolve com a família de um soldado morto durante a guerra. As abordagens dos diretores, porém, são destoantes.

Lubitsch foca no personagem de Adrien e seu conflito interno, começando o filme com sua confissão para um padre e eliminando o mistério. Anna fica reduzida a um papel quase secundário, e o filme é mais centrado no sentimento antiguerra que deve ter ecoado com muito mais potência no público em 1932 – apenas 14 anos depois do armistício. O que Ozon faz é expandir a história e mudar o protagonista. Em sua versão, Anna toma a frente da trama, a partir de suas tentativas de lidar com a morte de Frantz e de sua relação com Adrien e com os o pais de seu noivo.

Anna conhece Adrien como um homem misterioso que deixa flores no túmulo de seu noivo. O jovem se apresenta na casa dos pais de Frantz, onde ela mora, para explicar que eles eram amigos antes da guerra. Receosos no começo, especialmente Hans, logo começam a se apegar a Adrien e a suas lembranças e semelhanças com o falecido. Aos poucos, inadvertidamente, ele assume o papel de filho substituto, conquistando o afeto de todos na casa – inclusive de Anna, para a frustração de Kreutz (Johann von Bülow), um pretendente de sua mão.

O filme é gravado em um enxuto preto e branco, mas, eventualmente, quando a memória de Frantz é evocada, a tela se enche de uma cor suave – seja em um flashback, em uma conversa à beira de um lago ou durante uma delicada melodia tocada por Adrien no violino. Mesmo que Frantz apareça pouco, sua presença se faz sentir o tempo todo.

Mantendo o mistério revelado logo no começo do original, Ozon aposta mais na dubiedade por trás da performance enigmática de Niney do que no sofrimento psicológico do personagem. Parece existir algo além do que é dito nas poucas cenas vistas da história compartilhada por Adrien e Frantz, uma possibilidade impossível de ser explorada por Lubitsch em sua história. Ao mudar o foco para Anna, Frantz leva a história mais adiante: o clímax do original marca apenas um ponto de virada nesse, com a história seguindo seu próprio rumo. Na segunda metade do filme, Anna vai para a França, oferecendo um reflexo da experiência de Adrien na Alemanha, do olhar do estrangeiro em um país ainda se recuperando da guerra.

Durante a estadia de Adrien em Quedlinburg, os locais reagem com raiva à sua presença. O ressentimento de uma Alemanha amargurada e derrotada é projetado nele e em quem o cerca. Em uma cena que se repete quase identicamente em ambas as versões, Hans se encontra em um bar entre amigos que o rejeitam por estar abrigando um francês. “Nós somos os responsáveis”, afirma. “Nós somos os pais que bebem pela morte de nossos filhos.”

Em outro momento, esses mesmos amigos cantam o hino nacional alemão. Essa cena é espelhada com Anna na França, quando os clientes de um restaurante irrompem cantando La Marseillaise – durante a cena do bar em Não matarás, um dos amigos de Hans comenta sarcasticamente que eles deveriam se unir para cantar o hino francês. O teor sangrento da Marselhesa parece acentuado por tudo que foi visto antes e pela presença de Anna ali. O perigo do nacionalismo envolvido na guerra é exposto através desses momentos. Ozon reflete sobre o potencial de reaproximação dos dois países. Os diálogos transitam entre o francês – “nossa língua secreta”, diz Anna – e o alemão, assim como a história se passa tanto na França quanto na Alemanha. Adrien e Frantz são reflexos um do outro. Através dos paralelismos, o filme sugere mais semelhanças do que diferenças entre dois países que tentaram se destruir.

Mesmo não sendo um longa típico de Ozon, o diretor traz uma sensibilidade própria para a produção, atribuindo a ela uma vida própria, para além do filme que a originou. Afastando-se da dramaticidade antiguerra, ele foca no poder de recuperação tanto em escala nacional quanto pessoal – uma boa escolha, ao se considerar a diferença do contexto em que os dois filmes são lançados e ao se colocar ao lado de um diretor tão marcante quanto Lubitsch. O filme assume a jornada de Anna, que tenta descobrir se Adrien é apenas um substituto para o seu noivo ou uma chance de ela recomeçar.

Mesmo que a segunda parte do filme não esteja à altura da primeira, Frantz ainda é um filme sensível e repleto de boas atuações, com a mais potente sendo a de Beer como Anna, mas aproveitando o jeito comedido de Niney, além da presença imponente de Stötzner, em um papel que fora interpretado magistralmente por Lionel Barrymore no original.

O título original de Não matarás, Broken lullaby, poderia ser traduzido como “canção de ninar quebrada”. Ainda que não sejam canções de ninar, dois dos momentos mais potentes de Frantz são pontuados por músicas interrompidas. Em ambos, Adrien toca violino enquanto Anna o acompanha no piano. São cenas delicadas, e, reforçando um dos temas do filme, revelam a possibilidade de harmonia entre dois países, o poder de se criar algo belo. Assim como na vida real – e assim como a vida de Frantz –, a melodia é interrompida. Mas existe sempre a esperança de que, no final, a cor vai voltar e a música, continuar.

Ficha técnica

Foto: cartaz do Filme

Frantz
Título original: Frantz
Direção: François Ozon
Produção: Eric Altmayer, Nicolas Altmayer, Stefan Arndt, Uwe Schott
Elenco: Pierre Niney, Paula Beer, Ernst Stötzner, Marie Gruber
França/Alemanha, 2016, 113 min

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