Edição 508 | 07 Agosto 2017

O populismo de Ernesto Laclau. Chave para uma democracia radical e plural

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A complexa Argentina que levou Perón à Casa Rosada não cabia nas categorias históricas do marxismo. Na tentativa de compreender o fenômeno, Ernesto Laclau (1935-2014) deu um passo adiante nos debates sobre a luta de classes e passou a construir um conceito que o tornou notável: o populismo. É justamente no contexto do peronismo que ele vê emergir um antagonismo pluralista em que os conflitos sociais convivem harmonicamente e, juntos, geram demandas comuns, sendo capazes de se insurgir como alternativa ao poder hegemônico instituído. Laclau passa a perceber na articulação do povo em sua multiplicidade, o desencadeamento de outra perspectiva de democracia. É da resistência e da rebelião, e não da exploração, que começa a política. Enfim, para Laclau, “o populismo é muito mais do que um estigma, uma anomalia, uma saída dos trilhos da normalidade; é um conceito-chave para pensar a política”, constata Myriam Southwell, aluna do sociólogo argentino.

No momento em que se vive uma grave crise da representatividade em nosso País e alhures suscitando graves desafios à democracia contemporânea, a edição da revista IHU On-Line desta semana debate sobre a contribuição teórica de Ernesto Laclau com a colaboração de pesquisadores e pesquisadoras nacionais e internacionais.

A Razão Populista, importante obra de Ernesto Laclau, é tema do artigo de Carlos A. Gadea, professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Unisinos.

Chantal Mouffe, cientista política, que foi parceira do pesquisador argentino e junto com ele forjou o conceito de populismo, participa do debate com um artigo em que defende a importância do conceito, não o reduzindo apenas a uma orientação política.

Léo Peixoto Rodrigues, professor de Sociologia e Ciência Política, parte da política de nosso tempo para destacar que o conceito de Ernesto Laclau deve ser compreendido para além da dualidade dos “tipos políticos ideais”, como esquerda e direita.

Gerardo Aboy Carlés, professor na Universidade Nacional de San Martín, Argentina, analisa os limites e os avanços da teoria desenvolvida para refletir sobre outras correntes ideológicas que marcaram e marcam a trajetória da democracia no mundo.

Myriam Southwell, pedagoga, que foi orientanda de Laclau, destaca que o populismo não pode ser tomado como instrumental de análise de fenômeno político transitório. Para ela, é “um fenômeno de estruturação da vida política que está sempre presente”.

Hugo Cancino, professor da Aalborg University, Dinamarca, destaca o pensamento de Laclau como uma espécie de redescoberta da potência da rebeldia do povo. Potência que é, segundo ele, acessada pelo pensador através da releitura de clássicos que refletem acerca da política e do social.

Daniel de Mendonça, professor na Universidade Federal de Pelotas, se desafia a pensar noutra representatividade a partir do pensador argentino.

David Howarth, da Universidade de Essex, no Reino Unido, analisa como Laclau explora o primado da política sem que a institucionalização cesse as potências de grupos que se insurgem contra o poder hegemônico.

María Cecilia Ipar, doutoranda em Ciência Política pela USP, trabalha o conceito de democracia radical como uma das formas possíveis para superar a ideia de crise. Segundo ela, “A política começa com a resistência e não com a exploração”.

Mayra Goulart da Silva, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, reflete sobre a ideia do representante e como sua centralidade pode ser nociva.

Fernando Nogueira da Costa, professor do Instituto de Economia da Unicamp, analisa que uma estratégia de política econômica inspirada pelo populismo é aquela que se volta ao Bem-Estar Social.

Uma análise da constituição da teoria de Laclau a partir da psicanálise é o tema da entrevista com Patrícia do Prado Ferreira, pesquisadora na USP e na PUC-SP. Samuel Martins, professor de Direito Constitucional, compreende Estado Democrático de Direito e Direitos Humanos são basilares para o populismo.

Massimo Faggioli, italiano radicado nos Estados Unidos, professor da Universidade de Villanova, na Filadélfia, demonstra como o populismo pode se manifestar de formas muito particulares na política de hoje.

Também podem ser lidos nesta edição o comentário de Fernando Del Corona, sobre o filme Frantz (2017) de François Ozon, a crônica de Ricardo Machado, a análise Bruno Lima Rocha sobre os paraísos fiscais depois da crise financeira de 2008 e o extrato do artigo Um bebê que chama atenção do mundo: Um olhar bioético do drama de vida do bebê britânico Charlie Gard!, de Leo Pessini.

A todas e a todos uma boa leitura e uma excelente semana.

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