Edição 506 | 05 Junho 2017

Cinema - O pesadelo branco dos Estados Unidos

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Fernando Del Corona

No ano em que Moonlight ganhou o Oscar de melhor filme, Corra! discute o racismo misturando terror e comédia

Em meados de fevereiro, no mesmo fim de semana em que Moonlight ganhava o Oscar de melhor filme, estreava nos Estados Unidos Corra!, do diretor Jordan Peele, uma mistura de terror e comédia que aborda as relações raciais ainda tensas que permeiam uma sociedade que se proclama pós-racial – uma coincidência que carrega um forte significado.

Chris (Daniel Kaluuya) enfrenta clima de dúvida e de uma crescente tensão racial na festa oferecida pelos pais de sua namorada branca

Na história, Chris (Daniel Kaluuya), um jovem negro, se prepara para conhecer os pais de Rose (Allison Williams), sua namorada branca. “Eles sabem que eu sou negro?”, pergunta Chris. “Não. Eles deveriam?”, ela replica. O rapaz sabe que não é tão simples. Seu amigo, Rod (Lil Rel Howery), brinca ao telefone: “Não vá para a casa dos pais de uma garota branca”. No caminho para lá, durante um encontro com um policial, Rose parece indignada quando este pede os documentos de Chris sem motivo aparente. Chris entende, tem a calma própria de quem já passou por isso antes.

Esses momentos iniciais, antes da trama realmente entrar em vigor, servem para estabelecer uma dinâmica central à história. Até em um ambiente aparentemente inofensivo, as relações raciais sempre são interpretadas de maneiras diferentes, dependendo de que lado você se encontre. Em uma sociedade como a dos Estados Unidos, onde alguns se dão ao luxo de afirmar que o racismo acabou, as peculiaridades dessa relação ainda permanecem firmemente estabelecidas logo abaixo da superfície.

Corra! não se propõe a abordar o racismo explícito de tantos outros filmes que o antecedem. O que interessa ao diretor Jordan Peele é um racismo institucionalizado, até socialmente aceito para alguns segmentos. Os pais de Rose, Dean (Bradley Whitford) e Missy Armitage (Catherine Keener), são o exemplo de brancos liberais. Eles votariam em Obama uma terceira vez, se pudessem – e deixam isso claro na primeira oportunidade. Eles adoram trazer lembranças de suas viagens a outros países: “É um enorme privilégio poder experimentar a cultura de outra pessoa”, proclama Dean, palavras disfarçadamente proféticas. O irmão mais novo, Jeremy (Caleb Landry Jones), sugere uma violência vagamente disfarçada.

Chris também conhece na casa Walter (Marcus Henderson) e Georgina (Betty Gabriel), os dois negros que trabalham para os Armitage. Ele sente que há algo estranho, mas, como é frequentemente o caso em situações assim, imagina uma explicação: talvez Georgina não goste que ele esteja namorando uma branca, talvez Walter não goste de outro negro mandando nele.

Aos poucos, conforme visitas – praticamente todas brancas – chegam à casa para uma festa anual, pequenas situações de tensão se acumulam. Comentários soltos sugerem um racismo velado em estereótipos aceitos: é verdade que negros são bons de cama? Mas Chris ainda evita falar algo. Estaria ele imaginando coisas?

Esse clima de dúvida e de uma crescente tensão racial é a força guia de Corra!. Peele, metade do duo de comediantes Key e Peele, traz, no seu primeiro trabalho como diretor, uma veia humorística que transita entre as intervenções bem-humoradas de Rod e as risadas tensas nas interações de Chris com todos na casa. O que ele expõe com surpreendente eficácia para um diretor de primeira mão é a hipocrisia que ainda permeia por trás de uma América branca e liberal, que se congratula por suas ações progressistas, mas é desinteressada em realmente mudar algo que possa destituí-la de seus privilégios.

Uma mistura de Adivinhe quem vem para jantar (1967) com O bebê de Rosemary (1968) e um toque de As esposas de Stepford (1975), Corra! atualiza o terror psicológico dos dois últimos com o teor racial do primeiro. Rosemary e Stepford funcionam como metáforas para a posição da mulher em uma sociedade que a oprime e a força a papéis sociais pré-estabelecidos de mãe e dona de casa, enquanto critica a artificialidade dos construtos sociais que mantêm essa situação em vigor. Da mesma maneira, Corra! é uma metáfora para a posição do negro em uma sociedade que primeiro o silencia, para depois consumi-lo à sua maneira, expandindo, como nos outros filmes, a ideia de como essa mesma sociedade invade e controla o corpo alheio para atingir seus objetivos. Ele também carrega A noite dos mortos vivos (1968), marcante pelo raro herói negro em um filme de terror – gênero que gerou a piada de que “o negro sempre morre primeiro” – preso em uma casa, lidando com uma horda sedenta pelo seu cérebro.

Difícil aprofundar-se nas críticas de Peele sem revelar os rumos inesperados que a história toma, que é grande parte da experiência do filme. A maneira com que a trama se desenvolve trata da fetichização da experiência e da cultura negra pela população branca, assim como da necessidade do negro de se assimilar a uma sociedade branca, empurrando-o para um vazio onde não pode se expressar. Um dos visitantes da festa, um negociador de arte cego, elogia Chris pelas suas belas fotos urbanas, e como ele gostaria de poder ver pelos olhos dele. A figura do artista que “não vê cor” não é perdida em Peele. Outro visitante coloca desembaraçadamente para Chris que “negro está na moda agora”.

Chris se vê rodeado das micro-agressões diárias tão familiares em relações raciais e busca nos poucos negros que encontra um entendimento que é possível somente entre duas pessoas nessa situação. Através de detalhes nesses encontros, Peele sugere segredos sinistros. Cada vez mais ele se convence que tem algo errado, mas como falar disso com Rose sem acusar sua família de ser racista? Gaslighting é o termo usado recentemente para representar situações em que uma pessoa faz a outra duvidar de sua própria sanidade através da distorção dos fatos. Dean não pode ser racista, ele votaria em Obama uma terceira vez se pudesse, lembra?

Peele recheia o filme com simbolismos. A casa dos Armitage remete a uma fazenda dos tempos da escravidão nos Estados Unidos. A roupa usada por Andrew (Lakeith Stanfield), um dos poucos negros presentes na festa, lembra as vestimentas de escravos, e um dos momentos chaves do filme gira em torno de um uso do algodão – um dos símbolos máximos da escravidão nos Estados Unidos. Ele explora diferentes elementos visuais – um cervo, uma xícara fina de chá – e o papel da televisão na construção de relações raciais. É um filme que traz referências até em sua trilha sonora, com o tema gravado em swahili, cuja única palavra em inglês é “brother” (irmão), sugerindo uma universalidade do termo e da relação entre negros ao redor do mundo. Além de seu teor social, porém, é um filme divertido e tenso, muito bem atuado – especialmente pelo jovem Kaluuya –, que sabe andar com elegância a tênue linha entre o terror e a comédia.

Corra! foi produzido com um orçamento de 4,5 milhões de dólares – valor ínfimo para produções Hollywoodianas – e, através de um forte boca a boca, quebrou diversos recordes: foi o primeiro filme de estreia de um diretor negro a quebrar a marca de 100 milhões de dólares de bilheteria, passou duas semanas como a maior bilheteria de todos os tempos de um diretor negro – até ser batido por Velozes e furiosos 8, do diretor F. Gary Gray, que segurava o recorde anterior com Straigh Outta Compton: A história do N.W.A (2015). Também foi a maior bilheteria de um filme de estreia baseado em um roteiro original, quebrando o recorde de quase 20 anos de A bruxa de Blair (1999).

Peele – ele mesmo em uma relação inter-racial com a comediante Chelsea Peretti – originalmente escreveu o filme durante o primeiro mandato da presidência de Barack Obama. Ele achou que não haveria muito interesse no filme na época, quando o racismo parecia superado, e o país era dominado por um clima positivo, mas resolveu avançar com o projeto diante do número crescente de casos de agressão contra negros e o surgimento do movimento Black Lives Matter. É um tema recorrente – Eddie Murphy já fazia piadas sobre conhecer os pais da namorada branca nos anos 1980 –, mas Peele traz frescor e criatividade para uma discussão cada vez mais relevante.

Nos anos seguintes da vitória, em 2014, de 12 anos de escravidão no Oscar – o de melhor direção não foi para o diretor negro Steve McQueen, e sim para Alfoso Cuarón –, um movimento nas redes sociais chamado Oscar So White – ou Oscar tão branco – criticou a ausência de qualquer negro nas quatro principais categorias por dois anos seguidos. Em 2017, porém, quebrou-se o recorde de negros indicados, seja na categoria principal ou em secundárias. Mais do que isso, três dos indicados a melhor filme são histórias sobre negros, e uma se passa na Índia. Dois dos prêmios de melhor atuação foram para negros, Viola Davis e Mahershala Ali – o primeiro ator muçulmano a ganhar um Oscar. E, finalmente, Moonlight ganhou de La La Land como melhor filme do ano.

A ironia do lançamento de Corra! no mesmo fim de semana é marcante: Hollywood é famosa por adotar a mesma postura que o filme critica, e a cerimônia deste ano colocou essa questão no centro das atenções. Premiando Moonlight – mas, mais uma vez, sem premiar o diretor negro Barry Jenkins, e sim Damien Chazelle, de La La Land –, eles puderam se animar e proclamar sua postura não racista, aliviando-se um pouco da culpa dos brancos dos últimos anos. Que Moonlight merecesse mais do que La La Land é o que menos importa na discussão – o Oscar é notório por suas premiações políticas, vide o prêmio de Guerra ao terror, em 2010. Ainda que seja uma vitória importante e simbólica, é importante questionar – como Corra! coloca de maneira eloquente – as nuances por trás de uma premiação dessa na sequência de uma polêmica como a do Oscar So White. O quanto parte de um lugar de honestidade e o quanto é uma maneira de uma comunidade branca se autocongratular por premiar uma história negra? Assim como Chris, é importante estar atento.

Corra! (2017), de Jordan Peele

Ficha técnica
Corra!
Estados Unidos, 2017, 103 min.
Título original: Get Out
Direção: Jordan Peele
Roteiro: Jordan Peele
Produção: Sean McKittrick, Jason Blum, Edward H. Hamm Jr., Jordan Peele
Elenco: Daniel Kaluuya, Alisson Williams, Lil Rey Howery, Catherine Keener, Bradley Whitford

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