Edição 505 | 22 Maio 2017

Crítica Internacional - Os 100 da Revolução Russa e seus impactos internacionais

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Diego Pautasso

A revolução consolidou a ideia de cidadania como portador de direitos, ao passo que atingiu níveis inéditos de igualdade, segurança, serviços de saúde e educação, habitação, emprego e cultura. Pôs fim à discriminação racial e de gênero, desemprego e pobreza extrema.

Diego Pautasso é doutor e mestre em Ciência Política. Atualmente é professor de Relações Internacionais da UNISINOS. Autor do livro China e Rússia no Pós-Guerra Fria, editora Juruá, 2011.

Eis o artigo.

Como destaca pelo grande historiador, a Revolução de Outubro marcou o ‘breve século’ indelevelmente (HOBSBAWM, 1995). Pode-se dizer que, junto da Revolução Francesa, são os dois mais impactantes eventos da contemporaneidade, considerando os desdobramentos em todos os quadrantes geográficos e temáticos do sistema internacional.

A Revolução de Outubro não alcançou todos os objetivos que perseguiu – tal como os jacobinos não restauraram a polis grega; os revolucionários estadunidenses não alcançaram uma pequena sociedade de produtores independentes; os puritanos não deram vida à sociedade bíblica imaginada. Não surpreende que haja descompasso entre consciência subjetiva e os processos contraditórios da realidade objetiva (LOSURDO, 2017, p. 337-8).

Ainda assim, não se pode entender o século XX sem as consequências diretas e indiretas dos eventos que se seguiram à Revolução Russa de 1917. É inegável a vitória soviética contra a maior máquina de guerra racista-colonial representada pelas forças nazi-fascistas durante a Segunda Guerra Mundial a partir das batalhas de Moscou e Stalingrado (PITILLO, 2014). Embora a história não seja dada a suposições, uma eventual vitória do eixo nipo-alemão teria efeitos devastadores sobre a humanidade.  

Ademais, não parece coincidência que a expansão dos direitos sociais esteja diretamente relacionada com a formação do campo soviético. As três grandes discriminações (gênero, censitária/democrática e racial) tiveram notável expansão, desde as lutas antirracistas nos EUA até a difusão do sufrágio universal na Europa e além (LOSURDO, 2017, p. 336). Aliás, o fortalecimento e o colapso do campo soviético coincidem com a do Estado de Bem Estar Social – em oposição à trajetória do neoliberalismo. Os dados sobre polarização social (PIKETTY, 2014) são exaustivos para corroborar essa dinâmica socioeconômica.      

Além disso, o socialismo real, nucleado pela URSS, marcou o mundo do século XX pela construção de uma experiência – a primeira vez em larga escala – de uma sociedade igualitária. Não obstante as contradições, a revolução consolidou a ideia de cidadania como portador de direitos, ao passo que atingiu níveis inéditos de igualdade, segurança, serviços de saúde e educação, habitação, emprego e cultura. Pôs fim à discriminação racial e de gênero, desemprego e pobreza extrema. Por um lado, trabalhadores passaram a participar de decisões em diversas esferas do poder, apesar das disfunções políticas fruto também de guerras e cerco permanentes; por outro, pela primeira vez na história passaram a ser consumidores de cultura, como museus, cinemas, música e livros (KEERAN; KENNY, 2008, p. 13-15).   

Outro aspecto relevante que se deve ser levado em conta são os processos de libertação nacional que sacudiram o mundo a partir da Revolução Russa. Lênin foi cirúrgico ao mudar o chamamento de Marx: “Proletários de todos os países, e nações oprimidas do mundo, uni-vos!”. Essa diretriz política rompeu o etnocentrismo reinante no movimento operário europeu. E abriu um ciclo de lutas que resultou no mais impressionante processo de libertação nacional e afirmação da autodeterminação dos povos. A ONU fundada em 1945 teve 51 signatários; entre 1950 e 70, mais de uma centena de países se tornaram independentes e hoje a ONU conta com 193 membros. Mesmo que a descolonização não rompa com as novas formas de colonialismos e colonialidades, é o passo primordial no acúmulo de forças. Nesse sentido, o movimento comunista internacional exerceu papel central no financiamento, apoio material, treinamento e inspiração ideológica para essas revoltas na periferia do sistema. Por isso, muitos se transformaram em países socialistas, da China, passando pelos países do Sudeste Asiático, até Angola e Cuba, entre muitos outros.  

Há, evidentemente, uma esquerda messiânica, cujo misto de purismo e autofobia, a distanciam dos legados e lições da Revolução Russa, capitulando à narrativa ocidental-conservadora. Tornam-se simultaneamente contra o ‘socialismo num só país’ e a exportação da revolução no Leste Europeu e alhures; contra a falta de radicalidade na implantação das relações de produção autenticamente socialistas e a repressão dos kulaks (camponeses ricos da Rússia); contra a opção autárquica ( e a estagnação) e também a opção de se integrar à economia mundial; contra o descaso com o movimento socialista internacional e o aparelhamento militar deste; contra a ética produtivista e a carência material e atraso em relação aos países capitalistas (LOSURDO, 2015, 197-9); contra a hipertrofia do poder e a participação de setores burgueses e ingerências externas.
Enfim, a Revolução Russa representou um período de mais de sete décadas, cujo campo socialista chegou a abarcar 32 nações em seu ápice e um terço da população mundial. Não só transformou um país atrasado numa superpotência, como abriu caminho para novas experiências, muitas delas resistindo e se reinventando na atualidade. Enquanto setores políticos diversos insistem em apagar este período histórico, permanece o desafio de compreender as lições e desafios dessa complexa experiência com objetividade e depurado do frenesi anti-comunista (VISENTINI, 2017).

Fica o desafio às forças progressistas: ou retoma de maneira crítica o legado iniciado em 2017, reconstruindo uma identidade coletiva capaz de transcender tribos endogâmicas, microidentidades e corporativismo extremos, hierarquizando as lutas de classes, centrada em projetos nacionais e na crítica ao imperialismo. Ou a autofagia, o sectarismo e a capitulação ante a narrativa dominante irão ter um papel autodestrutivo por longo período.  ■

Expediente
Coordenador do curso de Relações Internacionais da Unisinos: Prof. Ms. Álvaro Augusto Stumpf Paes Leme
Editor: Prof. Dr. Bruno Lima Rocha

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