Edição 505 | 22 Maio 2017

Um poder que se alimenta de glória

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Márcia Junges

Democracias de massas se valem de dispositivos de aclamação e se legitimam através desses recursos

Nos capítulos 6, 7 e 8 de O reino e a glória, Agamben realiza um estudo da natureza gloriosa do poder, cujo centro é vazio, e da burocracia moderna originária da transposição hierárquica dos anjos. A temática será apresentada no VI Colóquio Internacional IHU. Política, Economia, Teologia. Contribuições da obra de Giorgio Agamben, em 23 e 24 de maio.
Márcia Junges é graduada em Jornalismo, mestra e doutoranda em Filosofia pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos - Unisinos. No momento, realiza um período de doutorado em cotutela com a Università degli Studi di Padova - UNIPD, na Itália, cuja tese examina a crítica de Nietzsche e Agamben à democracia liberal, tendo como eixo articulador as diferentes concepções de potência para esses pensadores. É professora tutora na Unisinos e atua no Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

Confira o artigo.

Em O reino e a glória: uma genealogia teológica da economia e do governo: homo sacer, II (Trad. Selvino J. Assmann. São Paulo: Boitempo, 2011), Agamben mapeia a arqueologia do poder ocidental e investiga os laços com a glória enquanto seu arcano decisivo. Nesse sentido, esclarece as conexões da democracia com os dispositivos aclamatórios que lhe conferem legitimidade e a fundamentam. É dentro desta perspectiva que precisa ser compreendido o esforço do filósofo em esmiuçar a transposição do modelo angelológico para o burocrático, bem como de sua insistência em apontar o nexo indissolúvel entre um poder cujo centro é vazio e que precisa da glória. O desvelamento dessa relação demonstra o quanto a democracia atual é tributária da teologia, aquele anão feio ao qual se referiu Benjamin . Agamben não desvia o olhar dessa herança indesejável para a Modernidade. Pelo contrário: retoma obras teológicas e a partir delas oferece a explicação para uma política que necessita dos ritos gloriosos e aclamatórios para se efetivar.

Assim, em O reino e a glória, Agamben analisa a política e a economia, seguindo Foucault ao examinar a política como tema da soberania, e a economia como questão do governo. Dos capítulos 1 a 5, faz um estudo da genealogia da economia e do governo a partir de como isso é demonstrado nos tratados da teologia cristã do século III até o XVII, quando ela chega ao domínio dos economistas. A partir do capítulo 6, há uma rotação na temática, trazendo à tona a angelologia e as relações entre poder e glória. Aparece na teologia cristã a preocupação de como governo do mundo se desdobra na figura dos anjos a fim de formular novas compreensões acerca da genealogia do governo a partir da burocracia como aparato crucial da governamentalidade moderna.

Angelologia

No capítulo 6 de O Reino e a Glória, Agamben desvela a dupla função dos anjos na teologia cristã: aqueles de cunho contemplativo e os ministros. Ao analisar obras de Peterson , pontua que a igreja terrena mantém uma relação com a cidade celestial através dos seus cultos. Quando analisa os “entreatos” descritos no Apocalipse, Peterson argumenta que as aclamações são oriundas de cerimônias de culto imperial, e assim há uma relação originária política entre a igreja terrena e a celestial. Paradoxalmente, adverte Agamben, ao se contrapor a Schmitt no livro em que trata o monoteísmo como problema político, Peterson formula o caráter político-religioso da Igreja.

Em Peterson, os anjos detêm uma relação originária com a Igreja e a esfera política do culto. Os cantos de louvor e glória se configuram como essência dos anjos, a sua “politicidade”. Contudo, o canto de louvor é apenas um dos atributos dos anjos. Aqueles que servem a Deus o fazem como seus ministros, enquanto os outros não cumprem tais tarefas; trata-se das virtudes de administrar, também chamada de ministerial, e a de assistir a Deus. A administrativa é aquela da qual se ocupam os teólogos medievais.

Dessa forma, apresenta-se em Pseudo-Dionísio um paralelismo entre hierarquia celeste e a divina, o que resulta em atividade de governo, envolvendo uma operação (energeia), saber (episteme) e ordem (taxis) – uma economia trinitária, ou um dispositivo governamental. Destaque-se a máquina governamental de poder transcendente como ordem e governo imanentes, cujo anjo de natureza dupla é parte essencial. É assim que o termo ministerium, serviço ou encargo, aparece em Jerônimo como conjunto de funcionários e ofícios.

Em Aquino , no De gubernatione mundi, a oikonomia, o governo providencial realizado na Terra, chega ao seu término por ocasião do Dia do Juízo, em um Reino sem Governo. A solução para tal aporia é multiplicar as distinções, separando a hierarquia de sua função com a finalidade de cindir o poder de seu exercício. Agamben acentua que a questão com a qual o Aquinate depara é com aquela do fim da oikonomia. O que ocorrerá com todos os anjos após a consumação da história da salvação? Tais entidades seriam depostas de seu ofício. Contudo, a desativação da máquina de governo se opera a partir de um efeito que retroage sobre a economia trinitária. Dessa forma, é compreensível que em Peterson o canto de louvor e os anjos tornados inoperosos apareçam como manifestação perfeita da cidadania cristã.

Poder e glória

No capítulo 7, Agamben expõe a divisão entre a natureza dos anjos como assistentes e administradores, a duplicidade do poder: gloria e gubernatio, Reino e Governo. As exclamações podem significar aplauso ou triunfo, louvor ou desaprovação proferidas por uma multidão. Por vezes, recebiam valor jurídico, como no direito público romano que, junto de suas raízes pagãs, conecta direito e liturgia. Em 1927, Schmitt se refere ao estudo de Peterson acerca do significado político das aclamações. Opondo o voto individual e secreto das democracias contemporâneas, menciona a democracia “pura” ou direta, ligando constitutivamente povo e aclamação. Referindo-se a Rousseau , Schmitt menciona a aclamação como a verdadeira democracia, quando aprova ou rejeita por meio da massa reunida. A transposição da tese de Peterson para uma esfera profana faz com que Schmitt diga que a aclamação é um fenômeno eterno da comunidade política e uma prerrogativa do povo. Agamben, contudo, percebe o objetivo da estratégia schmittiana. A presença do povo nos rituais de aclamação é, portanto, a antítese do voto liberal secreto.

Retomando a tese de Peterson, o filósofo italiano examina o elemento doxológico-aclamatório para além da ligação entre liturgia cristã e o mundo pagão. O povo reunido na ekklesia, proferindo as aclamações, é que legitima o caráter público da liturgia. No limiar, Agamben atenta para a politização do ochlos (massa) em laos através da liturgia. Retomando os estudos de Kantorowicz sobre as Laudes regiae, menciona a promiscuidade da aclamação entre o sagrado e o profano. Kantorowicz descobre que as Laudes na liturgia romana possuem características tributárias às aclamações pagãs e foram inclusas no rito de coroação imperial no Ocidente. A partir dos séculos XIII e XVI há uma decadência dos louvores nas liturgias, retomada a partir de 1920 com os regimes totalitários na Europa. Tais aclamações são fundamentais às estratégias emotivas dos regimes fascistas.

A glória é onde a relação entre teologia e política se torna mais evidente e estas coincidem. Se na teologia política de Schmitt e em sua inversão em Assmann há distinção entre os princípios, com o advento da secularização e a partir de uma perspectiva da glória, pode-se mencionar um limiar de indeterminação. Conforme Agamben, o ponto de contato por meio do qual teologia e política trocam de papéis se dá na teologia da glória. No Limiar, no capítulo 7, o filósofo questiona o elo entre poder e glória, isto é: o poder, caso se resumisse tão somente a força e ação eficaz, necessitaria de aclamações e rituais?


Trono vazio

A distinção realizada pelos teólogos modernos entre trindade imanente e trindade econômica demonstra novamente a fratura entre ontologia e práxis. Agamben reconhece que a teologia nunca consegue solucionar a fissura entre essas trindades, ou seja, entre theologia e oikonomia, o que se manifesta na glória. Finalmente, o Governo passa a glorificar o Reino, e o Reino glorifica o Governo, porém o centro da máquina, o trono, é vazio.

O paradoxo da glória prevê que a glória é de Deus desde a eternidade, não havendo como ser aumentada ou diminuída, mas é exigido das criaturas que o Senhor seja glorificado. A arqueologia da glória realizada por Agamben tem em seu horizonte entender como opera a máquina governamental, de estrutura bipolar. Mais do que reforçar a glória de Deus, doxologias litúrgicas e aclamações profanas fundam e justificam o poder político. Por isso é preciso pensar a duplicidade dos pares trindade imanente e econômica, theologia e oikonomia na perspectiva de uma bipolaridade da máquina no governo divino do mundo.
Outra investigação de Agamben em sua tentativa de reconstrução da economia teológica no capítulo 8 de O Reino e a Glória é a ligação entre glória e inoperosidade. É a glória o que preenche o vazio da inoperosidade do poder, e como tal deve ser mantida porquanto é essencial. A figura do trono vazio é seu símbolo e revela a soberania do dispositivo da glória.

Democracia gloriosa

Como pano de fundo dos três capítulos de O reino e a glória aqui brevemente examinados, se articula o eixo de análise acerca da democracia ocidental e por que esse sistema político desde a perspectiva da legitimação constitucional se afirma como um poder que vem do povo e o representa, mas é, na verdade, uma tecnologia de governo e um aparato formal. Isso porque a democracia contemporânea cada vez mais usa os dispositivos de aclamação e se legitima através destes recursos. Exemplo disso é a opinião pública como forma contemporânea e reatualizada de aclamação, da glória que se deslocou para outro âmbito, e o imenso acúmulo de espetáculos da política e da economia. Estamos no campo de dispositivos de aclamação de uma democracia de massas, fundada na glória, e não de formas constitucionais que a legitimam. Então, a partir de Agamben e sua compreensão desses autores, podemos dizer que as democracias contemporâneas se esvaziam de seu caráter democrático, convertidas em formas aclamatórias cujas raízes remontam à angelologia e ao nexo indissolúvel e agora visível entre o trono vazio do poder do dispositivo governamental e a glória que o reveste de brilho e fundamentação póstumas. Essas democracias de massas têm na mídia a liturgia da aclamação, através da opinião pública ou da dispensação da glória.

Entretanto, é justamente na inoperosidade que reside a operação messiânica por excelência, a possibilidade de coincidir a zoè aionos com poder a própria impotência, a potência-do-não enquanto resistência, desconstrução e forma-de-vida que se dá a sua forma. Capturar essa substância política do Ocidente é o que a economia e o arcano da glória fazem através do dispositivo glorioso. Interpor a potência-do-não, a quintessência da resistência humana, é a potencialidade de desativar essa maquinaria que gira em torno de seu próprio eixo.■

Leia mais
- A grande política em Nietzsche e a política que vem em Agamben. Cadernos IHU ideias, nº 210, vol. 12, 2014.

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