Edição 505 | 22 Maio 2017

A ingovernável resistência ao neoliberalismo

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Márcia Junges | Edição: Ricardo Machado | Tradução: Henrique Denis Lucas

Manuel Ignacio Moyano sustenta que é necessário haver um tipo de corpus social para além dos estamentos do Estado, cuja força vem da “potência do não”

O navio do neoliberalismo é elegante, moderno e aparentemente confortável. As pessoas só se sentem desagradáveis quando uma onda mais forte balança a embarcação, o que não é muito comum para os passageiros de primeira classe. O problema é que no navio do neoliberalismo não há coletes nem botes salva-vidas caso encontre pelo caminho o imponderável iceberg do fim de seu próprio ciclo. “Nada está a salvo, nem mesmo o Estado de Direito chamado de ‘democracia liberal’”, pondera Manuel Ignacio Moyano, em entrevista por e-mail à IHU On-Line, onde debate a atualidade do pensamento de Agamben.

Uma das teses de Agamben mais rejeitadas é a de que há uma continuidade entre os campos de concentração e o Estado de Direito, de onde deriva a necessidade política de um corpo (ou corpus) ingovernável. “Esta noção [de ingovernável], segundo um pequeno texto do italiano, move-se em uma tensão polar que define duas formas do fazer político: uma forma de constituição do corpo político, por um lado, e uma técnica de governo, por outro”, explica Moyano.

“Este desconforto do ingovernável inaugura uma prática ‘democrática’ que vai além tanto do Estado de Direito quanto do conjunto de técnicas governamentais que administram a política. E esta prática nada mais é do que o apaixonamento. Essa paixão, e não propriamente as paixões concretas, mas a capacidade de apaixonar-se, é o verdadeiramente ingovernável”, complementa.

Manuel Ignacio Moyano é graduado em Ciência Política pela Universidad Católica de Córdoba, Argentina. Atualmente realiza doutorado em Filosofia pela Universidad Nacional de Córdoba, discutindo, justamente, a obra do filósofo italiano Giorgio Agamben.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual é o contexto da crítica de Agamben à vida nua como objeto da política?
Manuel Ignacio Moyano – Parece fundamental começar especificando o que devemos entender por "crítica" em um pensamento como o de Agamben. Pessoalmente, acredito que em filosofias como a sua não podemos ceder a este impulso instrumental de conceber o pensamento de um autor como uma ferramenta passiva de ser utilizada em qualquer contexto. Pelo contrário, acredito que seu pensamento não é tanto uma ferramenta, mas um corpo, um corpus. E isso significa que ao entrar em contato com ele, não se pode sair ileso. Ou seja, não se pode usá-lo como se fosse uma mera ferramenta disponível ao nosso alcance, porque nos afeta além da nossa escolha. Trata-se de um tom, uma cor, uma forma de escrita e de leitura, uma singularidade. Em uma palavra, é um estilo que nos afeta e não nos permite dispor livremente sobre ele. É, inclusive, um estilo que nos faz ler de determinado modo, e eu insistiria neste "nos faz", já que somos agentes e pacientes deste modo de ler. Agora, acho que a pergunta que devemos nos fazer quando lemos Giorgio Agamben e sua "crítica" é sobre a maneira em que ela se desprende de seu estilo de pensamento. E este estilo, desenvolvido em uma linhagem filosófica verdadeiramente promíscua Aristóteles , Averróis , Heidegger , Benjamin , Foucault , Warburg , Debord , só para citar alguns), é composta a partir de imagens paradigmáticas que permitem uma via de acesso ao presente. Neste sentido, sua crítica não é apenas uma "crítica de" algo, como se fosse exterior àquilo que critica. É sobretudo a produção de uma imagem paradigmática para acessar o presente, acesso este que será sempre histórico por si mesmo. É nisto que constitui sua arqueologia filosófica. Portanto, precisamos conceber a "vida nua" como a imagem paradigmática que, segundo Agamben, resume o presente político em que vivemos nossas vidas, uma imagem que nos permite acessá-lo. Isto é fundamental porque permite um contato crítico com o presente, mas por si próprio possibilita uma prática política muito mais "situada".

IHU On-Line – A partir dessa ontologia do presente, qual é a importância da obra de Agamben para repensarmos a política, em geral, e a democracia liberal de nosso tempo, em específico?
Manuel Ignacio Moyano – Embora fale-se de uma suposta "guinada política" nas publicações agambenianas, com a publicação de Homo sacer, em 1995, acredito que seu pensamento é político desde o início de seus escritos. Não apenas porque já em L’uomo senza contenuto (Macerata: Quodiblet, 2013) há uma crítica ao "fazer" humano em geral, as suas noções de práxis e poiesis com as quais as comunidades políticas no Ocidente se organizaram e produziram, mas também porque no mesmo estilo de pensamento agambeniano há uma politicidade constitutiva, que não se instala em uma de suas noções mais importantes: a potência de pensamento, outra figura do "fazer" diferente da práxis e da poiesis. Mas isso significa, então, que seu estilo é tanto político quanto ontológico. E é neste terreno ontológico-político que devemos ler as suas considerações sobre a política atual. Sua tese mais rejeitada, como se sabe, é a da continuidade entre o campo de concentração nazista e a cidade moderna. Em outras palavras, entre o totalitarismo e o Estado de Direito. Bem, considerada fora da historiografia (o que nem sempre foi feito), esta tese revela um fato de fundamental importância: nada está a salvo, nem mesmo o Estado de Direito chamado de "democracia liberal". Nem precisamos ir tão longe: na América Latina, do dia para a noite, vimos todas as nossas garantias constitucionais mínimas serem ameaçadas (Milagro Sala na Argentina , a derrocada de Dilma no Brasil , apenas para citar os exemplos mais conhecidos). Este pequeno fato, longe de nos paralisar, nos move, nos politiza, faz com que procuremos formas de invenção para sobreviver e recodificar o nosso presente.

IHU On-Line – O que é o ingovernável democrático e que limites e possibilidades surgem a partir da desarticulação e dos pontos de fuga por ele promovidos?
Manuel Ignacio Moyano – Quando escrevi alguns anos atrás um artigo sobre um possível "ingovernável democrático", pensado a partir de Agamben, eu estava interessado no problema gerado pela ideia do "ingovernável" na noção de democracia. Esta noção, segundo um pequeno texto do italiano, move-se em uma tensão polar que define duas formas do fazer político: uma forma de constituição do corpo político, por um lado, e uma técnica de governo, por outro. Este desconforto do ingovernável, noção fundamental, já que nela Agamben destaca-se do último Foucault (como visto no "Intermezzo I" do L'uso dei Corpi), inaugura uma prática "democrática" que vai além tanto do Estado de Direito quanto do conjunto de técnicas governamentais que administram a política. E esta prática nada mais é do que o apaixonamento. Essa paixão, e não propriamente as paixões concretas, mas a capacidade de apaixonar-se, é o verdadeiramente ingovernável. Penso que este apaixonamento pensado em um sujeito como o "povo" (o demos) representa muito bem todas as discussões atuais sobre o populismo e o republicanismo. No entanto, em algumas publicações recentes (L'uso dei Corpi e Stasis) [O uso dos corpos. Homo sacer, IV, 2 (São Paulo: Boitempo, 2017)], Agamben nos mostrou como, em última análise, o Estado baseia-se apenas em um "povo que falta", não tanto em um "demos", mas sobre uma "a-demia". Então, diria que o ingovernável democrático não é um sujeito, e daí vem o "incômodo" que me interessava, mas trata-se de uma prática política situada para além de um sujeito: ou melhor, situada no ponto onde o sujeito (é) falta a si mesmo, o a-demos de todo o demos. É nesse ponto que começa o apaixonamento que realmente me interessa e que resume o melhor da política registrada na América Latina na última década, na qual os espíritos tristes continuam não querendo participar.

IHU On-Line – Qual é o nexo entre o ingovernável democrático e a política que vem?
Manuel Ignacio Moyano – A "política que está por vir" não é uma obra que preveja o futuro, como afirma Agamben em notas para La comunità che viene [A comunidade que vem (Lisboa: Editorial Presença, 1993)]. É uma "forma de vida", "um qualquer singular". Por isso, é extremamente atual. Mas isso não significa que seja meramente inativa, mas sim passiva, isto é, "capaz” de “receber" qualquer forma e, portanto, é "capaz" e "receptiva", tão ativa quanto passiva. A "política que está por vir" é a mesma que vivemos no dia a dia, mas só é descoberta uma vez que a obra de cada dia seja deposta. Por isso, é um apaixonar-se pela própria vida que vivemos, por essa vida impossível de se reduzir a suas obras ou aos seus autores. É aí que reside a sua força "ingovernável" e "democrática".

IHU On-Line – Como podemos compreender esse “resto excessivo” onde se assentaria o ingovernável?
Manuel Ignacio Moyano – Acredito que a melhor maneira de compreendê-lo seria uma espécie de topos outopos, um lugar sem-lugar, como Agamben denomina os "lugares" de seu interesse no belíssimo prefácio de Stanze (1977) e que são também um lugar apropriado para suas reflexões. Mas este lugar sem-lugar não é simplesmente algo externo desconhecido e indizível. Antes disso, é um "ter-lugar" próprio de todos os lugares. Este "ter-lugar" é o que sempre permanece para além de qualquer ordem governamental, uma vez que é colocado em um ponto onde os corpos excedem infinitamente suas produções. Como fantoches descontrolados, o ter-lugar dos corpos é o que constantemente perfura as mãos (invisíveis) que querem governar suas produções, o que escapa das mãos, o que as excede. Por isso, são ingovernáveis, restantes e excessivas a cada vez.

IHU On-Line – E em que medida podemos traçar uma linha de aproximação entre a potência da inoperosidade e o ingovernável?
Manuel Ignacio Moyano – "Potência" e "inoperosidade" são dois conceitos que se vinculam, inevitavelmente. A fórmula agambeniana da potência é bem conhecida: a potência-do-não. É aquela potência que sobra quando não passamos a agir, quando não produzimos uma obra, um ergon. No entanto, e este é o ponto decisivo para o italiano, não se trata de uma mera paralisia, mas a conservação desta "potência-do-não" quando passamos ao ato. Como ela é preservada? Justamente como o oposto da obra, ou seja, como passividade. Mas devemos entender essa passividade não como aquela que deriva de uma ação, um ato, mas como pura "capacidade de recepção". E essa capacidade se conserva inclusive na realização de qualquer ato ou obra. Mas por isso mesmo ela descompleta e corrói qualquer obra (seja artística, científica, política ou amorosa). Na erosão das obras, não apenas está radicada a sua potência, mas também, precisamente, a inoperosidade, já que ela é apenas uma passagem à potência no ato. Devemos aperfeiçoar as nossas políticas para dar espaço à erosão daquilo que fazemos, uma vez que não apenas é importante o que escrevemos à mão, mas também o que apagamos com o cotovelo. Nesse gesto bipolar e simultâneo, para mim, está a potência da verdadeira escrita filosófica, ou melhor, da escrita per se. E isso inaugura a dança do ingovernável ou do pensamento.

IHU On-Line – Qual é a importância da obra de Aristóteles e Averróis para a construção do conceito agambeniano de potência do não?
Manuel Ignacio Moyano – Agamben e suas publicações são interessantes porque fazem um ensaio de uma leitura profana da tradição filosófica do Ocidente. Não apenas são importantes as obras de Aristóteles e Averróis para sua noção de potência do não (que é a sua noção de "matéria"), mas também, como se percebe no recente Che cos’è la filosofia? (Macerata: Quodiblet, 2013), do próprio Platão . Mas ao lê-lo não encontramos nenhum especialista, mas um comentarista, ou seja, um profanador, que desenvolve a própria filosofia na potência do pensamento preservada nas descrições de outros.

IHU On-Line – Em que reside a ambiguidade da potência na compreensão de Agamben?
Manuel Ignacio Moyano – Mais do que de ambiguidade, deveríamos falar de uma verdadeira bipolaridade, ou melhor, de um meio bipolar. A potência agambeniana, que pode ser resumida pela fórmula "capacidade de recepção", é precisamente o que se apresenta como potência e como ato, ou melhor, como a desativação da dicotomia potência/ato que Aristóteles legou ao Ocidente. Mas esta condição medial ou bipolar enquanto "capacidade de recepção" nos assinala que o conjunto das reflexões agambenianas não é guiado tanto por um procedimento de "sobredeterminação" entre os seus elementos, mas sim pela "possibilidade de receber" determinações que ligam um elemento ao outro. Afinal, esta é a pequena diferença entre as propostas de Agamben e de Didi-Huberman : para o primeiro, as imagens não apenas estão sobredeterminadas, mas também são o que permite qualquer (sobre)determinação, a pura capacidade de recepção. E, assim, a imagem, o meio bipolar por excelência, de acordo com o ensinamento de Aby Warburg, retomados pelo italiano, sempre reconduz à potência, à receptividade de e nas obras.

IHU On-Line – A partir da interpretação de Andrea Cavaletti acerca da filosofia agambeniana, como podemos compreender a contingência radical e a nova ontologia do contingente por ele propostas?
Manuel Ignacio Moyano – O comentário de Andrea Cavalletti tem sido fundamental na minha leitura de Agamben não somente por sua precisão, mas também porque mostra o mais singular do método agambeniano: instaura no coração do inimigo sua própria "destituição". Esta "ontologia do contingente", que nada mais é do que a ontologia dos meios sem fim, inscrita no coração do maior filósofo dos fins (ou seja, do governo imanente das coisas) mostra de maneira fina como Agamben atua, ou seja, tramando armadilhas em e com os instrumentos do inimigo. A armadilha é o melhor recurso que temos à mão para ler e jogar o jogo (político) proposto atualmente pelas academias e governos.

IHU On-Line – Que aberturas políticas se apresentam à democracia levando em consideração a contingência radical da potência do não?
Manuel Ignacio Moyano – Insisto: a maior abertura política para nossas democracias é o apaixonamento que é possibilitado com essa concepção de potência como a capacidade de recepção. Em meio à maior ofensiva do governo neoliberal do nosso corpo e de nossas práticas, acredito que o que corrói essas técnicas de administração concentra-se na paixão, no que chamamos de "ingovernável democrático". Hoje, este ingovernável democrático vive, e creio que exclusivamente, no movimento radical das mulheres organizadas e lutando sob o lema do "Nenhuma a menos". Esse movimento, forjado por anos e anos de estudos e práticas feministas, está se expandindo a uma velocidade sem precedentes e ultrapassa qualquer governo por diversas vezes. Está se criando uma paixão política ali que é ingovernável, porque não conhece fronteiras ideológicas ou linguístico-culturais, pois permite uma nova posição dentro de qualquer posição (artística, científica, política ou amorosa), e que ataca o coração do capitalismo mesmo que, ao contrário deste, de acordo com Benjamin, ele seja um "culto não expiante, mas culpabilizante", reivindica e inventa uma vida sem culpa alguma. Atrevo-me a dizer que o caminho em que se traduz este ingovernável depende hoje da sobrevivência da política per se — do apaixonamento — e de sua contínua culpabilização por parte dos gestores de capital.

IHU On-Line – Como percebe a obra “O uso dos corpos” dentro do conjunto de obras consideradas políticas de Agamben?
Manuel Ignacio Moyano – Em minha recente pesquisa, parti de uma ideia que considero fundamental. Não acredito que Agamben tenha escrito qualquer obra verdadeiramente sua ou que verdadeiramente nos dê a chave para a inteligibilidade do seu trabalho. Como ele mesmo já disse em várias ocasiões, o livro que ele nunca escreveu é o mais importante (o livro que, por não ter sido escrito, coincide com sua própria vida). Portanto, lê-lo é realmente um "ler o que nunca foi escrito," de acordo com a bela imagem de Hofmannsthal , que tanto amava Benjamin. Esta não-obra permite considerar o resto das publicações agambenianas a partir de uma perspectiva não cronológica, que nos instiga a ler toda a sua obra em uma temporalidade contracionista, como se o que foi dito na publicação mais recente já estivesse contido na mais antiga, mas o que realmente importa é que nenhuma delas consegue dizer. É nesta obra não-obra que todo estudioso agambeniano devem inserir o seu trabalho, pois apenas assim adquirem um sentido que não seja meramente repetitivo de suas próprias palavras e esclarecimentos. Acredito que assim também se compreende por que o comentário filosófico é, portanto, uma extensão do inoperosidade (da não-obra) do autor estudado, o que, novamente, é o que Agamben faz em suas próprias leituras. Nesse sentido, eu diria que L’uso dei Corpi é mais um prólogo ou mais um capítulo desta obra obstinadamente não escrita. ■

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