Edição 504 | 08 Maio 2017

“É um segundo Carandiru”

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Fernando Del Corona

Documentário Central retrata situação precária do maior presídio do Rio Grande do Sul


Foto: Para atenuar a falta de espaço na Cadeia Pública de Porto Alegre, as celas ficam abertas e os presos habitam os pavilhões inóspitos dos pavilhões

“Se houvesse uma rebelião, só teria uma forma de conter: é um segundo Carandiru.” Esta frase, dita em certo momento do documentário Central por um policial militar responsável pela Cadeia Pública de Porto Alegre – antes chamada de Presídio Central – entre 2013 e 2014, demonstra o efeito perdurante que o massacre ocorrido em outubro de 1992 teve sobre o imaginário nacional quando se trata da situação carcerária no país. Abordado no livro Estação Carandiru, de 1999, do médico Dráuzio Varela, e adaptado para as telas por Hector Babenco, em 2003, a matança que vitimou 111 homens na Casa de Detenção de São Paulo, após uma ação desastrosa da Polícia Militar para conter uma revolta dos presos, expôs na mídia a situação insustentável dos presídios do país, escancarando uma dúvida acerca do poder de reabilitação do sistema carcerário no Brasil.

Nos mais de 20 anos seguintes, pouco foi feito para mudar essa situação, e cenários semelhantes se repetiram: em 2002, um motim no Presídio de Urso Branco, em Rondônia, deixou 27 mortos; uma rebelião na Casa de Custódia de Benfica, no Rio de Janeiro, resultou em 30 mortes em 2004. No primeiro dia de 2017, 56 membros da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) foram assassinados em uma revolta que durou mais de 17 horas no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), em Manaus. Quatro dias depois, uma chacina vitimou 33 presos na Penitenciária Agrícola de Monte Cristo, em Roraima. Menos de duas semanas depois, dez morreram em uma rebelião na Penitenciária Estadual de Alcaçuz, em Natal.

Central, dirigido por Tatiana Sager e codirigido por Renato Dornelles, não gira em torno de uma rebelião ou de um massacre – ainda que mostre rapidamente o emblemático motim em 1994, que terminou com um tenso enfrentamento, com reféns, no Hotel Plaza São Rafael, em Porto Alegre. No entanto, como a fala do policial militar sugere, essa é uma questão importante ao se pensar como lidar com uma situação insustentável como é a dos presídios nacionais – e em especial a da Cadeia Pública de Porto Alegre, considerada, em 2008, o pior presídio do país na CPI do Sistema Carcerário, na Câmara dos Deputados, e onde, em fevereiro deste ano, foi descoberto um túnel em construção que resultaria na maior fuga de prisioneiros do estado.

O que Sager apresenta é uma miríade de problemas estruturais, capturando esgotos a céu aberto, infestações de baratas e ratos e – situação comum na maioria dos presídios nacionais – superlotação. Atualmente, mais de 4,5 mil detentos ocupam um espaço destinado a menos de 2 mil – mais do que o dobro da lotação prevista. Para atenuar a falta de espaço, as celas ficam abertas, e os presos habitam os corredores inóspitos dos pavilhões. As galerias, por sua vez, são dominadas por cinco facções criminosas, que funcionam em um acordo tácito com a Polícia Militar, que administra a instituição. Ambos os lados buscam diminuir o número de mortes dentro do presídio, que são ruins para os negócios comandados pelos criminosos – o que não impede a ocorrência de “suicídios” forçados pela ingestão de drogas ou por espancamentos coletivos.

A diretora intercala entrevistas com diversas pessoas – presos e seus familiares, guardas, jornalistas – com cenas gravadas dentro das galerias pelos próprios detentos durante dois dias, recurso semelhante ao utilizado por Paulo Sacramento em seu documentário O Prisioneiro da Grade de Ferro, de 2003. Isso apresenta uma visão mais próxima da realidade dos presos e do seu dia-a-dia, sua alimentação, como dormem, como passam o tempo e as condições muitas vezes insalubres em que se encontram. Essa estratégia narrativa dá origem a algumas das situações mais intrigantes do filme, como a apresentação do momento em que um dos presos mostra com a câmera as condições decrépitas do prédio onde habitam, seguido por um policial militar declarando que as coisas não são tão ruins como se imaginam. É esse mesmo policial que, quando fica clara a abundância de drogas e a presença de armamentos dentro da prisão, nega a situação de maneira pouco convincente, alegando que, se admitisse que isso acontecesse, ele estaria cometendo crime. Um outro administrador ainda declara sua frustração quando é dito que são as facções que dominam a prisão. O que fica claro através de tudo isso é o delicado equilíbrio que existe entre o poder público e o criminoso – fato que, de uma maneira ou outra, diminui consideravelmente o número de mortes dentro do presídio, ainda que a maior parte das mortes registradas sejam por questões de saúde. 

O que Sager busca expor é um sistema em que o presídio, mais do que um lugar de reabilitação – o que, a rigor, não ocorre –, se torna o centro nevrálgico do crime organizado no estado. A complicada distribuição dos prisioneiros, entre primários, reincidentes, afiliados a gangues e homossexuais e travestis, gera situações que forçam novos ingressantes no sistema – frequentemente viciados em drogas – a se relacionar com as facções em busca de algum apoio, gerando dívidas que se expandem para fora da penitenciária, em um perigoso círculo de reincidência que, muitas vezes, envolve as famílias dos detentos. O poder das gangues se estende também para os arredores do presídio, onde o tráfico de drogas e de armas domina a vida dos moradores e os negócios.

Observa-se os rostos jovens de alguns dos encarcerados, muitos com apenas 18 ou 19 anos, a maioria deles presos por tráfico de drogas. Um deles lamenta a tristeza de sua mãe, sua única visitante, ao vê-lo ali; o próprio pai morrera lá dentro. Um preso mais experiente comenta a importância da droga dentro do presídio, já que, se não fossem elas para acalmar os presos, “morria mais de 50 por dia”. O cenário que se desenvolve ao longo do filme é a desolação de um sistema falido de luta contra as drogas que se retroalimenta, gerando mais crime no lugar de controlá-lo.

Central, que gozou de relativo sucesso de público para um documentário nacional, atraindo mais de 12 mil espectadores em suas quatro primeiras semanas em cartaz, é uma expansão do curta O Poder Atrás das Grades, realizado em 2014 por Sager e adaptado do livro Falange Gaúcha, de Dornelles, lançado em 2008. Ao contrário do documentário de Paulo Sacramento, Central busca pintar um retrato mais amplo e menos pessoal da situação, por meio da variedade de depoimentos, e focando sua narrativa principalmente neles. O espectador é apresentado a diversas facetas da situação atual da Cadeia Pública, sem a pretensão de receber soluções simples. É um filme que vem acrescentar uma cuidadosa análise para o complexo fenômeno dos presídios no Brasil, uma questão fortemente enraizada na cultura popular, mas que, ironicamente, parece esquecida pelo público até que a próxima grande tragédia chegue à mídia. O sistema carcerário, conforme sugere um dos entrevistados, funciona efetivamente como um ambiente de punição privada e com uma forte diferença de classe e raça.

A ideia de que a cidade será mais segura com a retirada do criminoso da rua para colocá-lo em reclusão com outros criminosos, sem o investimento do estado em um processo de reabilitação e readaptação, vem sido desmentida há muitos anos. O fato de que o massacre do Carandiru está tão enraizado na memória nacional aponta para uma consciência desse cenário lúgubre, mas não há interesse em solucioná-lo. É uma maneira de o estado – e a população – virar o rosto para uma tragédia anunciada.

Ficha técnica

Central – O filme (2017)


1h15min
Direção e roteiro: Tatiana Sager e Renato Dornelles
Produção: Beto Rodrigues e Tatiana Sager
Elenco: atores desconhecidos
Gênero: Documentário
Nacionalidade: Brasil
Acesse o trailer.

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