Edição 504 | 08 Maio 2017

O artista de alma inconstante e suas eternas buscas

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João Vitor Santos | Tradução: Juan Luis Hermida

Para Luciano De Fiore, “Pasolini sempre se moveu entre paixão e ideologia, entre a tentação narcisista para uma solução individual e a tentação histórica de um compromisso coletivo”

Pier Paolo Pasolini é visto pelo professor Luciano De Fiore como um ser de alma inconstante, sempre se movimentando entre dualidades, jamais se prendendo a modelos. “Ele sempre se moveu entre paixão e ideologia, entre a tentação narcisista para uma solução individual e a tentação histórica de um compromisso coletivo; entre a promessa da redenção pela ideologia e o compromisso real, ele sabia do risco inerente da ideologia, o conformismo”, define. Por isso, segundo o professor romano, a figura de Pasolini é extremamente crítica, capaz de ver além de seu tempo. “A crise da ideologia marxista, a propagação capilar contemporânea da ideologia burguesa evolutiva indicavam a Pasolini que algo não estava funcionando na mesma concepção marxista do tempo”, explica. Isso, de certa forma, causava desconforto entre ele e os militantes, marxistas mais duros, por exemplo.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, De Fiore demonstra como Pasolini “põe em questão a necessidade do processo de queda e de conscientização”. E, talvez, nessa busca esteja a explicação para a atualidade de Pasolini. Segundo De Fiore, a leitura de sua obra hoje nos dá impulso. “Como se o poeta deixasse a testemunha à política e convidasse a agir. Embora permaneça em nossos sentidos o desespero do luto, da perda”, analisa. “Porque a vida é até mesmo perdida, mas é de grande ajuda reconhecê-la e saber aceitá-la. É também luto e melancolia, que é algo diferente do lamento. Uma nova consciência, a luz da passagem, pode ser um estímulo para lutar para que o futuro seja ainda uma dimensão rica e possível, e não somente resquício do passado”, completa.

Luciano De Fiore é romano, estudou filosofia na Itália e na Alemanha. É professor de História da Filosofia Contemporânea na Universidade Sapienza de Roma. Entre seus livros mais recentes, está um estudo sobre Hegel, La città deserta (Lithos, 2012), um livro sobre Philip Roth, Fantasmi del desiderio (Editori Internazionali Riuniti, 2012), e outro sobre filosofia e o mar, Anche il mare sogna. Filosofie dei flutti (Editori Internazionali Riuniti, 2013) e Passaggi sul vuoto (Galaad Edizioni, 2015).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Que conexões se pode fazer entre o pensamento político de Pier Paolo Pasolini e as reflexões de Karl Marx ?

Luciano De Fiore – “Fiquei impressionado com a sua citação (...) O SONHO DE UMA COISA. Eu ficaria muito grato se você me transcrevesse a frase de Marx – ou a página inteira – a partir da qual trouxesse a citação, e enviasse para mim, para colocá-la como epígrafo do livro”. É o dia 26 de janeiro de 1962 e Pier Paolo Pasolini escreve assim a Franco Fortini . Dois amigos, dois homens de letras “engagés” (engajados), frequentemente em amarga controvérsia. A frase de Marx a que se refere Pasolini dará o título e aparecerá em breve na epígrafe do seu romance, O sonho de uma coisa . Ele é retirado da famosa última carta que Marx escreveu a Arnold Ruge em Paris, em setembro de 1843.

Pasolini a cita assim: “O nosso lema deve ser, portanto: a reforma da consciência não por meio de dogmas, mas pela análise da consciência clara por si mesma, ou quando presente na forma de religião ou política. Em seguida, vai parecer que o mundo tem sido desde muito o sonho de uma coisa...”. O que impressiona tanto Pasolini na frase de Marx, a ponto de ter a inspiração para o título de um romance? Para Marx, tratava-se de traduzir o sonho, o sonho antigo que a humanidade sonha sobre si mesma (da própria autorrealização, no fundo, da sua própria felicidade) na sua aspiração, em possibilidade real. O desejo deverá ser guiado, obedecido e acompanhado da ação revolucionária. Pasolini é atingido por este aspecto da carta de Marx. Sua vocação pedagógica é refletida na formulação do jovem revolucionário alemão: o sonho de uma coisa é a reforma da consciência. De uma consciência que quer e que pode obter o mundo. Que pode e quer mudar a realidade de acordo com o próprios planos político-pedagógicos, selecionados e vividos coletivamente.

O desenvolvimento não é o nosso destino, ao menos não por escolha. Mas se nós preferimos o progresso, também podemos decidir ao invés de voltar, melhor então ir em frente. Acredito que a possibilidade de escolha, subtraído do determinismo da filosofia da história, foi o que fascinou Pasolini no texto de Marx. Pode dar-se a novidade, mantendo uma ligação com a tradição, sem compartilhar a “necessidade”? A necessidade dos fatos, do que aconteceu, pode servir como pano de fundo da nova gramática profunda, sem determiná-la?

A crise da ideologia marxista, a propagação capilar contemporânea da ideologia burguesa evolutiva indicavam a Pasolini que algo não estava funcionando na mesma concepção marxista do tempo. Pasolini nunca aceitou que o “depois” sempre coincidisse com “o melhor”. Diremos – com Ernst Bloch – que havia desmascarado a idolatria da sucessão do tempo em si, a idolatria que tende a ser acompanhada por uma euforia real de progresso e que é um dos traços patológicos e que caracterizam a hipermodernidade.

IHU On-Line – É possível afirmar que Pasolini faz uma antropologia da sociedade italiana de sua época? Por quê?

Luciano De Fiore – Pasolini detestava os aspectos opressivos e destrutivos da nossa história recente, da devastação, do “genocídio” por meio dos quais são impostos a estrutura de produção atual e seu sistema de valores. Odiado, em nome de um passado cancelado e pisoteado que prometia um futuro diferente. Os olhos do polemista viram, talvez depois dos do poeta, o espetáculo trágico da tendência opulenta e consumista a que se entregou a sociedade italiana dos anos 50 em diante. Eles viram – e souberam descrever – a catástrofe do mundo rural, das culturas intermédias, das línguas, da aprovação do comportamento, o declínio da educação escolar, o crescente poder da televisão. Toda a obra de Pasolini é orientada por uma ética da rejeição – como a chamou Gian Carlo Ferretti – que rejeita a necessidade do neocapitalismo consumista. Uma ética baseada também num sentimento conservador, que explica a nostalgia do sagrado e o perguntar-se sobre os valores novos e antigos.

A força da sua causa foi um escândalo, primeiramente, em escandalizar. Os artigos então reunidos em Escritos Piratas e nas Cartas Luteranas são quase todos um sinal do mais apocalíptico julgamento, que se origina, no entanto, a partir de um dado que Pasolini acredita que adquiriu: no Ocidente, a burguesia e o povo uniram as suas histórias pela primeira vez na história da humanidade. A unificação ocorreu sob o signo do desenvolvimento neocapitalista, cujo caráter é totalitário. Totalitário a ponto de permitir a tolerância, uma falsa virtude: “É mais justo, melhor, um mundo repressivo que um mundo tolerante, porque na repressão se vivem as grandes tragédias, nascem a santidade e o heroísmo. Na tolerância se definem as diversidades, se analisam e se isolam as anomalias, são criados os guetos. Preferiria ser injustamente condenado, que ser tolerado”, escreveu em um jornal em janeiro de 1973. Ele mesmo muitas vezes condenado, quase nunca tolerado.

Foi, por conseguinte, feita na Itália uma “revolução antropológica”, no sentido em que Marx falava nos Manuscritos econômico-filosóficos do 44, que aprovou todos os precedentes culturais particulares no signo da vigente ideologia do desenvolvimento. Uma aprovação que deve ser rejeitada.

IHU On-Line – De que forma o pensamento teológico da sociedade católica italiana da época aparece nas reflexões de Pasolini? Como ele articula a teologia para fazer sua crítica à primazia do capital? 

Luciano De Fiore – Primeiro de tudo, duas palavras do mesmo Pasolini sobre sua relação pessoal com a religião e com a fé: “em palavras muito simples e pobres: eu não acredito que Cristo seja Filho de Deus, porque não sou crente, pelo menos conscientemente. Mas acredito que Cristo é Divino: creio que nele a humanidade é tão elevada, rigorosa, ideal para ir além do solo comum da humanidade”. A figura de Cristo, de acordo com Pasolini, é portadora de uma notícia fundamental no terreno religioso: “Cristo aceitou o tempo ‘unilinear’, que é o que chamamos de história. Ele rompeu com a estrutura circular das antigas religiões: e falou de um ‘final’, não de um ‘retorno’”.

O cristianismo, como que se equivocando com o Cristo e colocando-o entre parênteses, foi principalmente a religião do mundo rural. Mas, depois da guerra, o cristianismo de rural transformou-se em urbano: “característica de todas as religiões urbanas – logo das elites e das classes dominantes – é a substituição (cristã) do final ao retorno: do misticismo soteriológico à devoção rústica. Portanto – continua Pasolini – uma religião urbana, como padrão, é infinitamente mais capaz de aceitar o modelo de Cristo do que qualquer religião camponesa”. Se quiser sobreviver, a Igreja, entendida como uma comunidade de fiéis, não pode deixar de abraçar e de fazer sua própria cultura “moderna, livre, antiautoritária, em constante mudança, contraditória, coletiva, escandalosa”. Mas a Igreja “cala num momento em que deve falar, deveria entrar na cabeça da oposição, porque a oposição ao novo poder só pode ser contestada por caráter religioso”. Pasolini acreditava, então, que a Igreja Católica não tinha aderido aos resultados do Concílio Vaticano II e dos ensinamentos do amado Papa João XXIII .

Por sua parte, sempre tinha tentado recuperar no próprio secularismo algumas características de uma espiritualidade religiosa, desde os dias do Evangelho segundo Mateus (1964), filme espelho de uma visão de mundo permeada no fundo de valores precisamente épico-religiosos.

Já no início do ano de 1966 Pasolini pensava em um filme sobre Paulo de Tarso. São Paulo vive, entre fortes sofrimentos, a contradição entre o homem chamado à dantesca “transumanização” e o homem velho, chamado a organizar, a mediar, a institucionalizar a sua mensagem profética. Mas pode a profecia tornar-se carne, sem se tornar ideologia, igreja? Pasolini foi um ávido leitor das Cartas Paulinas, conquistado inicialmente pela força revolucionária do apóstolo, capaz de demolir, “com a força da sua mensagem religiosa, um tipo de sociedade fundada na violência de classe, o imperialismo, e acima de tudo a escravidão”.

Mas também é fascinado pelo São Paulo fundador da Igreja-instituição, organizador de grupos, preceptor dos mais intransigentes, que apenas abjurou de uma Lei e que imediatamente institui outra. O que mais une Pasolini e São Paulo na mesma contradição é a dificuldade do discurso profético, quase sempre coberto pelas vozes e pelos rumores cotidianos, um zumbido de fundo contra o qual, no entanto, sai ainda mais acentuada a santidade atemporal do discurso Paulino. Mas creio, contudo, que o escritor Pier Paolo Pasolini se identifica também com o Paulo abalado pela obsessão da instituição; no Paulo que é livre da Lei sendo chamado novamente a fidelidade à Lei.

IHU On-Line – Como o tema da paixão aparece na obra de Pasolini e pode ser articulado na crítica social?

Luciano De Fiore – Pasolini nunca teve uma iluminação determinante. Não conheceu as ruas de Damasco. Ele sempre se moveu entre paixão e ideologia, entre a tentação narcisista para uma solução individual e a tentação histórica de um compromisso coletivo; entre a promessa da redenção pela ideologia e o compromisso real, ele sabia do risco inerente da ideologia, o conformismo: “eu nunca tive a ousadia de montar a cavalo (como muitas pessoas poderosas, ou muitos míseros pecadores): eu caí sempre, e meu pé permaneceu enredado no estribo. Por isso não sou capaz da cavalgada, mas de ser arrastado, batendo a cabeça na poeira e nas pedras. Eu não posso voltar a montar no cavalo dos Hebreus e dos Gentios nem cair para sempre na Terra de Deus”, escreveu em uma carta a Dom Giovanni Rossi .

Quando ele representava a paixão no cinema, fazia através de uma leitura não épica do evangelho de Mateus e com a crucifixão e morte de um desgraçado faminto, o Stracci, no filme La Ricotta (1963). Evidentemente, no final, Stracci é resumido no destino trágico de um certo povo urbano marginalizado.

Em certo sentido, pode ser considerada uma Paixão sui generis, sem redenção, até mesmo a horrível história de dois jovens que se apaixonam, e são em seguida assassinados em Salò, ou os 120 dias de Sodoma (1975). No Evangelho segundo Mateus (1964), Pasolini confiou o papel da Virgem Maria a sua mãe, Susanna Colussi. A paixão tornou-se ainda um fato mais pessoal: na cruz, se queremos mesmo com um certo vitimismo, Pier Paolo também representou-se a si mesmo.

IHU On-Line – De que forma o senhor interpreta a estética de Pasolini em seus filmes, enquanto elemento de sua crítica política-econômica-social?

Luciano De Fiore – A polêmica de sempre entre arte e política, entre os intelectuais “comprometidos” e os não, a que Pasolini não pôde escapar, recebe um novo impulso a partir de seus filmes. O estatuto da imagem do filme, ainda mais do que o texto literário, surge junto com a questão se o meio – neste caso o filme – é capaz de realizar o mundo, ou autenticá-lo sem legitimá-lo. No início dos anos 60, Pasolini realiza alguns filmes que fotografam e juntos transfiguram a “Nova Pré-história” que estava acontecendo na antropologia clássica, agonizante. São eles Accattone (1961), Mamma Roma (1962), La ricotta.

Precisamente este último, La ricotta, um média-metragem ilustra a escolha de Pasolini por uma imagem que vire sobre si mesma, ou seja, reflexo autorreflexivo, sem correr o risco espectral e intransitivo próprio da imagem autorreferencial, típico, por exemplo, de Fellini . Diferentemente dele, Pasolini faz uma pergunta dramática sobre a sobrevivência da arte em um mundo onde até mesmo a transcendência do divino se misturou com as necessidades e com a nova idolatria do espetáculo, que nos mesmos anos despertava as bem conhecidas reflexões de Guy Debord .

IHU On-Line – Como compreender o que está na gênese da crítica feita por Pasolini?

Luciano De Fiore – A fase histórica objeto de toda a atenção e paixão de Pasolini é a fase da opulência, do capitalismo avançado e do consumismo. No Ocidente, dado que no Hemisfério Sul esse desenvolvimento mostra sua outra face, miserável e faminta. Já no final dos anos 50, Pasolini faz uma viagem para África e em seguida, em 1961, encara o subcontinente indiano. Em 1970 também vem ao Brasil, acompanhado de Maria Callas , e vai ao Rio de Janeiro e a Salvador. Ele escreve alguns poemas significativos, incluindo o sombrio Gerarchia, traduzido também ao português no início dos anos 80 por Michel Lahud . Estes são seus primeiros versos:

Se chego numa cidade
além do oceano
Chego muitas vezes numa cidade nova, transportado pela dúvida.
Convertido de um dia pro outro em peregrino
de uma fé na qual não creio;
representante de uma mercadoria há muito depreciada,
mas é grande, sempre, uma estranha esperança

A dúvida é o primeiro sentimento na bagagem de Pasolini. Em qualquer cidade. Especialmente na periferia do mundo. Chega carregado pelas suas próprias dúvidas. No sistema capitalista e sobretudo no seu modelo de desenvolvimento econômico. Ele vem de expoente desse mundo, contudo: representante de uma mercadoria – o capitalismo – que considera, há tempo, desvalorizado, atestado de uma fé – aquela em progresso – na qual não acredita. Desembarca num país que na sua bandeira verde-ouro tem escrito apenas “ordem e progresso”, quer dizer, ordem e progresso. Este é um ponto de resolução, central do Pasolini ideólogo. Não acreditava que o desenvolvimento e o progresso coincidissem. Considerava possível desconectar o progresso do desenvolvimento.

Pasolini quer entender se mesmo em face à sombra do mundo capitalista estava avançando a aprovação, a destruição das culturas particulares: e se ainda existem focos de resistência que se opõem – talvez ingenuamente – à aceleração artificial da nova sociedade industrial, com a intenção de esmagar o passado. Procura uma paisagem diferente, aquela do sonho, e que encontra nas viagens para países distantes, como a Índia, e o Iêmen, o Brasil, a Eritreia. No hemisfério Sul, ainda bate com suas próprias forças um tempo diferente do tempo linear do desenvolvimento que tem prevalecido no Norte; um tempo circular segregado nas civilizações não urbanas, nas quais há espaço para os valores tradicionais, para o sagrado, para as tradições: e é fascinado pela possibilidade de que para o Sul não se faz necessário dar passo ao tipo de desenvolvimento que já marcou o rosto do Norte.

Necessidade do processo de queda

Mas no mundo industrializado, no qual avança a Nova Pré-História, o que resta a ser feito? Como fazer sentir a sua voz de oposição entre os gritos animados dos meios de comunicação, do novo tipo de escola, da informação difundida; como agir para denunciar os limites do consumismo, capazes de “fazer uma aculturação, uma centralização, que nenhum governo, que se declarava centralista, nunca foi capaz” de alcançar?

Pasolini continua a excluir a possibilidade de rotas de fuga individuais: “Há momentos na história em que não se pode ser inocente, você tem que estar ciente.” Talvez, não apenas momentos. Talvez, é aqui o velho drama, é a história em si para cortar radicalmente a possibilidade da inocência, desde o momento do tempo linear aparecem uma sucessão de culpas e redenções. O que Pasolini põe em questão é a necessidade do processo de queda e de conscientização: esperava em um mundo em que tomar consciência não implicasse necessariamente a perda da inocência.

A aversão para o desenvolvimento surgiu a partir de ver inscrita a afirmação da necessidade de aquele modelo, mecanicamente dialético, da matança da ingenuidade para o triunfo da consciência. Processo no qual, na verdade, muitas vezes o dado natural de partida é mortificado por necessidade lógica do esquema. Daí a citação de Saba, no Empirismo Herege : “Não, o comunismo\ não obscurecerá a beleza e a graça”!

IHU On-Line – Quais as obras que melhor traduzem o pensamento de Pasolini?

Luciano De Fiore – Pier Paolo Pasolini pertence cronologicamente ao “primeiro”. No fundo enevoado e distante que parece absorver eventos agora como distantes como o período pós-guerra, o boom econômico, o 1968. Ele morreu em setembro de 1975: tinha apenas 53 anos de idade. Em seu tempo, nada de computador, nem telefones celulares, nenhum pensamento fraco, nenhuma programação de televisão comercial ou próteses mnemotécnicas : uma era pré-digital.

Pasolini considerava ainda possível um trabalho de interpretação das grandes aventuras estruturais e culturais de nosso tempo que se deslocam de ligações profundas, muitas vezes escondidas, a longo prazo. Considerava necessário manter viva a atenção para a tradição. Estava comprometido em compreender a longo prazo o Ocidente e o seu espírito, para dar consciência política e cultural a essa compreensão, a única maneira de fazer tremular “belas bandeiras” da mudança. Parecia-lhe essencial uma “consciência da vida”, gramscianamente concreta, que surgisse a partir da interpretação de alguns momentos fundamentais, aqueles que marcam as voltas radicais, que mudam de direção com os ventos.

Para aqueles que são jovens, ou ainda não o conhecem, aconselharia alguns dos seus trabalhos que expressam esse seu espírito, esse desejo de mudança. Entretanto, algumas das suas publicações: a coleção de poesias As Cinzas do Gramsci, o roteiro do filme de São Paulo , as suas intervenções polêmicas coletadas nos Escritos Piratas e a última coleção poética, A Melhor Juventude. Permanecem muito interessantes também alguns de seus filmes: Teorema (1968), e sobretudo, O Evangelho segundo Mateus.

IHU On-Line – Como compreender a crítica de Pasolini ao Partido Comunista Italiano – PCI depois de ele ter dito que apenas o comunismo seria capaz de originar uma nova cultura?

Luciano De Fiore – Embora expulso em 1949 por indignidade moral do PCI, Pasolini se sentia sempre politicamente próximo ao Partido, manifestando isso nos atos e acreditando ainda na proveitosa lição do Marx: “Quando falo da crise dos partidos marxistas – expressão que abrevio em crise do marxismo – falo sobre isso porque eu sei que quero que esta crise seja resolvida: é claro que eu não vejo uma alternativa fora do marxismo, e na minha escolha a visão de um futuro neocapitalista equivale ao inferno.”

Austeridade: era a substância ética de uma proposta política que o PCI, na figura do seu secretário Enrico Berlinguer , dirigiu ao país na onda da emergência causada pela primeira crise do petróleo na década de setenta. Era uma proposta que criticava na raiz a absolutização do objeto de consumo, e que foi ridicularizada e oposta pelo poder por seu suposto moralismo. Em certo sentido, a crítica burguesa foi direto ao alvo, mas não sabia, ou sabia mal (expressar-se com Pasolini). Não conseguia entender de fato que o núcleo da iniciativa política foi uma revolta contra a cada vez mais difundida lei sadiana que – na sociedade de consumo – tende a substituir a forma kantiana do superego (o dever pelo dever), a forma, precisamente sadiana, do dever de desfrutar. A proposta ética subjacente à política do PCI de Berlinguer era de fato radicalmente anti-sadiana: propor um modelo de engajamento cívico com base no sacrifício, é entendida como participação individual, com a adesão aos valores de fundo do cristianismo, o valor da cultura, a redenção dos povos oprimidos, como era menos pessoal poderia agir no terreno da política no modelo que se estava estabelecendo e que já tendia a equiparar o gozo com a Lei.

Era, contudo, uma proposta ético-política que teve o objetivo de transformar a Itália e os italianos; uma proposta, portanto, registrável no horizonte nietzschiano do ascetismo, no sentido próprio do exercício. Mas não um exercício solitário. Apesar de ser um intelectual e um poeta, apesar de ser oposição, vilipendiado, às vezes combatido com violência e incompreensão não só pelos seus inimigos, Pier Paolo Pasolini escolheu para a vida fazer um caminho junto aos outros. Nunca sozinho, exceto nos momentos em que a solidão foi o fruto amargo de uma expulsão, de uma rejeição. E mesmo assim, para cada isolamento seguiu uma aproximação, um retorno, a recorrência como companheiro de viagem e de luta de forças que na Itália e no mundo lutavam pela liberdade e a justiça. As posições tomadas por Pasolini não foram nunca “in-dialéticas” – como disse Roland Barthes . Ele sempre buscou o diálogo, a troca, o enfrentamento, e não somente com seus pares, os intelectuais, mas também com as pessoas, por exemplo, através do correio com os leitores das revistas comunistas, e mais tarde dos principais jornais burgueses.

IHU On-Line – Qual a atualidade do pensamento de Pasolini na Itália, na Europa e no mundo de hoje?

Luciano De Fiore – A distinção/divergência entre o progresso e o desenvolvimento continua sendo uma das suas percepções mais importantes e ainda atuais. O Brasil de hoje parece tê-la introjetado, ao menos em parte. Com categorias contemporâneas, falaremos sobre sustentabilidade: o crescimento do volume de bens materiais não constitui a riqueza em si mesmo, se não for acompanhado de uma análise do seu impacto ambiental e social. Os empresários brasileiros menos gananciosos visando sim o crescimento da receita, mas sem destruir as matérias-primas, a verdadeira riqueza do país: a Floresta Amazônica, a Mata Atlântica, a costa, mas também a música popular, as tradições.

Talvez não seja coincidência que no Brasil ainda se dá tanta atenção para Pasolini. A crise introduzida pelo neocapitalismo, a consciência das dificuldades encontradas pelo novo conceito de tempo, não convenceu, no entanto, Pasolini a tomar partido nessa frente spengleriana que sanciona a decadência do Ocidente, nem para trazê-la mais perto de leituras da realidade influenciadas pelo pensamento do Heidegger , além disso, em seus últimos anos, ainda não sai de moda. Em todo caso, foi estimulado pelo confronto com as posições de Sartre , com quem se reuniu pessoalmente várias vezes.

Um ponto de originalidade pode ser apreendido no próprio fracassado deslize das teorias mais radicais, aquelas que se deslocam de uma consciência similar – enquanto que de outra forma amadurecida – da crise do conceito de progresso, tendem a conceber o tornar-se como uma inevitável expulsão, isolamento do Senso. Tanto é assim que as críticas de Pasolini à opulência, enquanto colorindo-se na fase final de tons românticos, nunca investiram na técnica e na ciência como tais, mas apenas a sua função na segunda metade do século XX. Pasolini permaneceu fiel – talvez não sem alguma ingenuidade – a um ideal de emancipação de tornar-se verdade em nossa história, e mais, graças ao trabalho, intenso como entendido por Marx, como a essência do homem “como um ser genérico”, então como trabalho social, uma vez conscientes da necessidade de caminhar ao longo de novos caminhos, recuperando um cruzamento que está atrás de nós e ele pensou que talvez ainda acessível.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Luciano De Fiore – Apenas uma coisa. Ao ler Pasolini agora, ou ao ver um dos seus filmes, você experimenta melancolia. Acontece sobretudo na releitura dos seus poemas As Cinzas de Gramsci, mas também A Nova Juventude. Como neste fragmento, de seus últimos poemas: “Eu olho para trás, e choro os países pobres, as nuvens e o trigo, a casa escura, a fumaça, as bicicletas, aviões/ que passam como um trovão; e as crianças olham para eles, com uma maneira de rir do coração, olhos que olhando em redor queimam de curiosidade sem vergonha, de respeito sem medo. Eu choro um mundo morto. Mas não estou morto eu que o choro. Se queremos ir em frente, devemos chorar o tempo que não pode voltar atrás, que digamos não/a esta realidade que nos tem bloqueado na sua prisão.”

Lamentamos, e ao mesmo tempo, sentimos um impulso: como se Pasolini, o poeta, deixasse a testemunha à política e convidasse a agir. Embora permaneça em nossos sentidos o desespero do luto, da perda. Porque a vida é até mesmo perdida, mas é de grande ajuda reconhecê-la e saber aceitá-la. É também luto e melancolia, que é algo diferente do lamento. Uma nova consciência, a luz da passagem, pode ser um estímulo para lutar para que o futuro seja ainda uma dimensão rica e possível, e não somente resquício do passado.

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