Edição 504 | 08 Maio 2017

Pasolini, o iconoclasta

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Josmar de Oliveira Reyes

Pier Paolo Pasolini nasceu em Bolonha, em 1922, mas foi em Roma que desenvolveu sua carreira prodigiosa. Grande figura da cultura italiana do século XX, foi um intelectual e artista brilhante e eclético, se exercitando nos mais diversos registros, notadamente na poesia, no teatro, no romance, no jornalismo, mas sobretudo no cinema, onde adquiriu notoriedade. Figura política, sendo notoriamente ligado ao Partido Comunista Italiano - PCI, se tornou célebre (amado e odiado) pelo seu engajamento em causas polêmicas, o que ocasionou dúvidas em relação às circunstâncias de seu assassinato em novembro de 1975 na praia de Ostia, próximo de Roma. Homossexual assumido, houve a condenação de um jovem de 17 anos por seu assassinato, apesar das dúvidas que pairam até hoje. Com formação universitária em Letras, Pasolini foi um grande estudioso de filologia e semiologia, tendo lançado livros sobre o assunto.

Pasolini se filia ao PCI logo após o término da Segunda Guerra Mundial, mas acaba sendo desfiliado dois anos após, ao descobrirem que mantinha relações sexuais com adolescentes. Por esta mesma razão, ele perde seu posto de professor de letras. Ele se manterá, no entanto, engajado na ideologia de esquerda durante toda sua vida. Sua luta política nasceu da constatação e revolta em relação à diferença de classes e ao abismo social do pós-guerra. Ele detestava toda forma de autoritarismo, seja do pai, dos fascistas ou da moral burguesa. Nascido no meio burguês, de pai militar, sua obra cinematográfica e seus escritos políticos e semiológicos ressaltarão seus questionamentos socioculturais, associados a metáforas históricas, religiosas e sexuais. Gozará de um ambiente cinematográfico favorável para levar adiante seus questionamentos. Ele assistirá aos filmes e conhecerá os cineastas do Neorrealismo, que abordarão sobretudo temas sociais e políticos em suas obras. Visconti (nascido em família aristocrática) tratará dos conflitos econômicos e sociais de pescadores sicilianos em A terra treme (1952) (financiado pelo partido comunista). Vittorio De Sica tratará do desemprego no clássico Ladrões de Bicicleta (1948), Rossellini , da resistência política em Roma, Cidade Aberta (1945) e Giuseppe De Santis , do conflito de arrozeiros em Arroz Amargo (1949). Pasolini encontrará, portanto, um campo fértil para o exercício intelectual e artístico, tendo estes exemplos. Ele, no entanto, carregará com tintas fortes seus quadros, causando constantemente polêmica no que concerne a suas criações.

Ele constrói seu patrimônio cultural desde a juventude, lendo clássicos da literatura como Dostoiévski , Tolstoi , Shakespeare , entre outros. Descobre a paixão pelo cinema, frequentando o cineclube da Universidade de Bolonha no início dos anos 40. Nesta época, divide seu tempo entre a literatura, os esportes (amante de futebol) e o cinema. Demonstra igualmente um interesse enorme pelas artes plásticas, começando (mas interrompendo) uma tese abordando Della Francesca e Caravaggio. Sua primeira atividade profissional será voltada à literatura no envolvimento com clubes literários e na escrita de livros de poesia como I Diarii (Os Diários) e I Pianti (Os Choros). Alguns de seus poemas serão escritos no dialeto de sua região.

Em função de sua expulsão do Partido Comunista, ele se instala em Roma e trabalhará na Cinecittà , o que permitirá sua aproximação com o cinema. Conhecerá Sergio Citti , que lhe apresentará a periferia romana. Esta descoberta será fonte de inspiração. Ele aprenderá o dialeto romano, se apaixonará pelo modus vivendi destes romanos suburbanos e escreverá Meninos da Vida (Ragazzi di Vita), que está na origem de seu primeiro roteiro de cinema para o filme Accatone (Desajuste Social – 1961). Seu primeiro verdadeiro trabalho para o cinema foi a escrita do roteiro do filme de Mario Soldati , A Mulher do Rio (1954), em parceria com Giorgio Bassani e estrelado por Sophia Loren . Em 1955, ele é processado por imoralidade em seu livro Meninos da Vida, mas acaba sendo absolvido. Começa a tornar-se conhecido, sobretudo após colaborar com Fellini no roteiro de Noites de Cabíria (1957). Nos anos 50, duas de suas obras literárias serão atacadas fortemente: As Cinzas de Gramsci e, sobretudo, Uma Vida Violenta, acusada de obscena.

A partir dos anos 60, sua carreira será dedicada principalmente ao cinema até sua morte trágica em novembro de 1975. Ele dirigirá 20 filmes. O cinema jamais viu cineasta mais contestado e condenado. Desajuste Social (Accattone - 1961) é realizado graças ao auxílio de seus amigos cineastas Fellini e Bolognini. Uma característica forte em sua filmografia, sobretudo em seus primeiros filmes, o já citado Desajuste Social, mas também Mamma Roma (1962), A Ricota (1963) e O Evangelho segundo São Mateus (1964), é a utilização de atores não profissionais. O protagonista de seu primeiro filme é Franco Citti , irmão de seu amigo Sergio Citti, com quem trabalhará constantemente (Mamma Roma, Édipo Rei e Decameron, entre outros). Outro ator não profissional com características populares projetado por Pasolini foi Ninetto Davoli , que protagonizou filmes célebres do realizador, como Gaviões e Passarinhos (1966), Decameron (1971) e As Mil e Uma Noites (1974). Eles se conheceram durante a filmagem de A Ricota e tiveram uma relação amorosa que durou nove anos.

Trabalhar com atores não profissionais, segundo o cineasta, daria maior autenticidade às histórias que pretendia contar. Para realizar O Evangelho segundo São Mateus, Pasolini escolheu atores nas ruas de vilarejos do sul da Itália onde o filme seria gravado. Sua leitura era que estas figuras humanas lembravam os corpos e os semblantes daqueles que haviam vivido na Palestina há dois mil anos. Em Mamma Roma, para contar a narrativa conflituosa de uma ex-prostituta e seu filho, Pasolini contou com a prestação da grande atriz italina Anna Magnani , atriz de renome que já havia trabalhado com Rossellini em Roma, Cidade Aberta e Visconti em Belíssima. A maioria do elenco, no entanto, era composta de atores não profissionais. Em A Ricota, um dos episódios do filme RoGoPaG (dirigido também por Rossellini, Godard e Ugo Gregoretti), Orson Welles faz o papel de um diretor que quer filmar a paixão de Cristo e que “contrata” um ator que só pensa em comer durante a filmagem. Este filme foi também julgado blasfematório por ultraje à religião. No entanto, o filme é antes de tudo um insulto aos valores burgueses. Com Gaviões e Passarinhos, Pasolini confronta o famoso cômico italiano Totó e Ninetto Davoli para tratar metaforicamente da crise do Partido Comunista Italiano e do comunismo.

Na sequência, o diretor bolonhês irá dirigir duas tragédias (Édipo Rei e Medeia) e seu filme de maior repercussão (Teorema). A adaptação da tragédia de Eurípedes terá como intérprete principal a maior cantora lírica de todos os tempos: Maria Callas . Para a tragédia de Sófocles , ele contará com a presença de Silvana Mangano , que será igualmente a atriz principal do controverso Teorema. Esta atriz já havia sido uma das musas do Neorrealismo, estrelando Arroz Amargo e viria a ser requisitada por Visconti em dois filmes extraordinários: Morte em Veneza e Violência e Paixão. Teorema conta a chegada de um jovem misterioso de uma estranha beleza (o ator britânico Terence Stamp ) à casa de uma rica família milanesa e que manterá relações sexuais com todos os membros da família: pai, mãe, filhos e, inclusive, a empregada, causando uma desordem psicológica de todos. Trata-se de uma grande crítica à burguesia italiana, o que, obviamente, causou escândalo quando de sua estreia em 1968. Um advogado romano tentou impedir sua estreia, alegando obscenidade. O filme teve, no entanto, uma boa recepção crítica, recebendo inclusive dois prêmios no Festival de Veneza de 1968: o grande prêmio do Ofício Católico e o prêmio de interpretação feminina para Laura Betti (igualmente grande amiga do cineasta). O filme é a adaptação do romance escrito pelo próprio cineasta.

Os anos 70, os últimos da vida de Pasolini, são marcados ainda pela realização de obras extremamente polêmicas, sendo a mais radical o seu último filme Saló ou os 120 dias de Sodoma (1975). Antes disso, realiza a chamada Trilogia da Vida formada pelos textos literários adaptados O Decamerão (Boccaccio) (1971), Os Contos de Canterbury (Chaucer) (1972) e As Mil e uma Noites (1974). Estes filmes abordam temas tabus ligados à sexualidade, como homossexualidade e pedofilia. A ideia original de Saló está na grande obra do Marquês de Sade, Os 120 dias de Sodoma, cuja ação se desenrola no fim do reinado de Luís XIV. Este filme, tratando de uma sociedade ditatorial e fascista, será descrito como obra visionária e grande testamento do cineasta. Enquanto montava Saló, Pasolini escreve, em colaboração com seu amigo Sergio Ricci, seu último e derradeiro roteiro, intitulado Porno-Teo-Kolossal, um filme sobre pornografia, teologia e de grande espetáculo, segundo o diretor. Seu romance, Petrolio, inacabado, será publicado postumamente em 1992.

Pasolini, além de toda sua produção literária, proporá ainda uma nova leitura da semiologia do cinema em seu livro A Experiência Herética (1968), ao tratar de conceitos por ele desenvolvidos, como cinema de poesia e subjetividade indireta livre.

Mais recentemente, o cineasta ítalo-americano Abel Ferrara fará uma homenagem a Pasolini, retratando os últimos dias do realizador bolonhês no filme simplesmente intitulado Pasolini (2014) e estrelado pelo ator americano Willem Dafoe . Nanni Moretti já havia evocado Pasolini em seu filme Caro Diário (1993).

Referências bibliográficas:

Hervé Joubert-Laurencin. Pasolini, portrait du poète en cinéaste. Editions Cahiers du cinéma, 1995.
Cahiers du Cinéma nº 691, julho/agosto 2013.

Filmografia de Pasolini

1961 – Accattone - Desajuste Social
1962 – Mamma Roma
1963 – Rogopag – Relações Humanas
1964 – Comícios de Amor
1964 – O Evangelho segundo São Mateus
1966 –Gaviões e Passarinhos
1967 – Édipo Rei
1968 – Teorema
1969 – Amor e Raiva
1969 – Medéia
1969 – Pocilga
1970 – Anotações para uma Oréstia Africana
1971 – Decameron
1972 – Os Contos de Canterbury
1974 – As Mil e Uma Noites
1975 – Saló ou Os 120 Dias de Sodoma

Leia textos sobre Pasolini publicados pelo IHU

- A poesia do Jesus de Pasolini. Entrevista com Faustino Teixeira, publicada na revista IHU On-Line, número 418, de 12-12-2012.
- O olhar de Cristo, há 50 anos. Notícias do Dia de 21-7-2014, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
- Por um espírito verdadeiramente socialista. Notícias do Dia de 27-10-2016, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
- Um Jesus revolucionário e um intelectual importante para hoje. Notícias do Dia de 28-3-2016, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
- Mamma Roma, de Pasolini, é oráculo do pior mundo possível. Notícias do Dia de 28-3-2016, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
- Abel Ferrara reconstitui as horas finais do cineasta Pasolini. Notícias do Dia de 6-11-2015, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
- Pasolini, consumismo e Brasil. Notícias do Dia de 21-11-2015, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU
- Madre Teresa, Pier Paolo Pasolini e o reconhecimento da santidade. Artigo de Angelo Comastri, Notícias do Dia de 5-9-2016, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
- ‘Althusser e Pasolini: Filosofia, Marxismo e Filme’. Entrevista com Agon Hamza, Notícias do Dia de 18-7-2016, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
- Pasolini e o catolicismo: a história de um combate. Notícias do Dia de 18-7-2016, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
- ''Eu sei que muitos pensam que sou louco, mas o humanismo está no fim''. Entrevista com Pier Paolo Pasolini, Notícias do Dia de 19-12-2011, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
- Dois contra o mundo: Pasolini e Betti. Notícias do Dia de 24-9-2016, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Leia mais textos.

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