Edição 503 | 24 Abril 2017

Um martírio brasileiro

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Fernando del Corona

Documentário de Vincent Carelli expõe chagas da situação indígena no Brasil

Imagem:cena do documentário Martírio

Um pequeno trecho de uma das gravações realizadas por Vincent Carelli em 1988, na época de suas primeiras visitas às tribos guarani-kaiowá, é utilizado em dois momentos distintos ao longo de Martírio, novo documentário do diretor. Nele, Carelli capturou uma reunião falada completamente em guarani, em que algumas palavras compartilhadas com o português escapam ou sugerem o tema geral da conversa. O espectador, assim como o próprio Carelli na época, fica entregue a especulações sobre o que está sendo discutido. Aproximando-se do final das longas duas horas e 40 minutos de duração do filme, o trecho é utilizado novamente, legendado pela primeira vez desde que fora gravado. O que eles tratam é a mesma questão que seria discutida pelos 25 anos que separaram as filmagens das gravações de Martírio, um lembrete da precariedade imutável da situação indígena no Brasil.

O segundo filme de uma proposta trilogia – iniciada com Corumbiara, sobre o massacre indígena em Rondônia em 1995, e a ser seguido por Adeus, Capitão –, Martírio foi realizado parcialmente por um financiamento coletivo que juntou mais de R$ 85 mil para a produção, que une as gravações antigas de Carelli e imagens de arquivo com novas filmagens realizadas em uma nova viagem do diretor em parceria com Ernesto de Carvalho e Tita para as tribos guarani-kaiowá, 25 anos depois de o projeto iniciar. O resultado final, ainda que uma experiência pesada e, por vezes, de ritmo lento, é um filme essencial para a compreensão da complexa situação dos índios nacionais não apenas nos dias de hoje, mas historicamente. O filme deve ser visto, assim, mais como um estudo antropológico e social aprofundado sobre uma questão central à história do Brasil – e é sobre o próprio registro histórico que se encontra uma das maiores forças do filme.

Criando um extenso panorama da luta histórica dos guarani-kaiowá no Mato Grosso do Sul, acompanha-se, através de uma estrutura vagamente episódica, a história de desapropriação das terras indígenas desde a Guerra do Paraguai (1864-1870), passando pelo ciclo de plantação do mate, pela criação do Serviço de Proteção ao Índio – SPI em 1910 e sua substituição pela Fundação Nacional do Índio – Funai em 1967, assim como pelos efeitos da presença do Marechal Rondon e do governo Vargas, até os conflitos atuais entre fazendeiros e ruralistas e os índios que ainda lutam para habitar a terra que lhes é de direito.

Imagens e documentos históricos garimpados por Carelli reconstroem a relação conturbada do homem branco com o índio no Brasil, as variadas tentativas de retirá-los de sua terra e de sua cultura, as matas verdejantes antes de sua destruição – em contraste claro com as cenas contemporâneas de plantações que se estendem até o horizonte – e até a formação, durante a ditadura militar, de uma “polícia indígena”, que chega ao absurdo de apresentar, em um desfile, técnicas de tortura ensinadas aos índios pela Polícia Militar, incluindo a absurda exibição de uma pessoa presa ao infame pau-de-arara.

A narrativa aos poucos se aproxima de um cenário moderno que encontra os guarani-kaiowá vivendo em barracos na beira de estradas, forçados a invadir suas próprias terras e a viver em um constante conflito – frequentemente mortal – com os latifundiários, representados pelos parlamentares da bancada ruralista que aparecem no filme em imagens no Congresso Nacional, defendendo ardentemente a desapropriação das terras indígenas, mesmo que seja necessária a violência. As imagens de um leilão rural voltado, efetivamente, para a criação de milícias a fim de combater os índios, reforçam as histórias contadas pelos próprios guarani-kaiowá dos ataques repetidos que sofrem. A morte está presente durante todo o filme. Líderes indígenas são assassinados, e as vozes em guarani contam história após história de seus conflitos sangrentos, repletos de atropelamentos e assassinatos. Somos apresentados a cemitérios indígenas. Não por acaso, os índios lutam pelo direito de poder morar – e morrer – na terra onde seus mortos estão enterrados.

É a voz dos índios que Carelli busca mais que todas – dando expressão àqueles que foram historicamente silenciados. Quando, no Congresso, um ruralista mostra imagens do vídeo de um policial sendo atacado por índios, o diretor se vira para os envolvidos que relatam sua reação a um ataque sofrido. Uma idosa repleta de rugas conta a história de sua família, e a vemos novamente nas imagens gravadas por Carelli 25 anos antes, sempre envolvida na luta de seu povo. Observamos uma índia chorar a morte de seu tio e uma anciã lamentando que deseja apenas que seus descendentes possam crescer na terra que lhes é de direito. O afeto e a preocupação de Carelli, um dos maiores indigenistas brasileiros – e fundador do projeto Vídeo na Aldeia, um esforço ainda maior de dar aos índios o poder de contar suas próprias histórias – pelos guarani-kaiowá aparece no filme, no respeito com que ele apresenta diversos rituais, na solenidade com que acompanha o luto. Em sua narração, ele fala da dor que sentiu ao se separar pela primeira vez da tribo, em 1988, e do medo que sentia dos latifundiários enquanto os visitava novamente durante as novas gravações. O clima de tensão cresce ao longo do filme, presságios de uma tragédia comum e que pode acontecer a qualquer momento naquela situação.

Cartaz do documentário Martírio

Em 2012, após uma decisão judicial de despejo em Japorã, no Mato Grosso do Sul, os guarani-kaiowá divulgaram uma carta anunciando que pretendiam morrer em suas terras, colocando no favorecimento do agronegócio sobre suas vidas o peso de uma morte coletiva. Esse anúncio foi compreendido como uma ameaça de sucídio coletivo e gerou um movimento de solidariedade no Facebook, quando os usuários colocavam “guarani-kaiowá” nos seus nomes. Em outro ato recente, o Congresso foi invadido em plena sessão por índios e defensores de seus direitos. O que surge, ao se assistir ao filme e a essas ações, é o reflexo de um descuido histórico da sociedade e do governo no trato com o povo indígena. Esse descuido se torna ainda mais sério ao se perceber a quantidade de registros gerados ao longo de mais de um século dessa relação. Nisso, Martírio consegue transmitir sua mensagem de maneira contundente. Desde os arquivos históricos, até as transmissões pela televisão das atividades parlamentares, através de notícias de jornais televisivos ao longo de décadas, filmes e documentários, a saga dos guarani-kaiowá está registrada e disponível aos olhos do público – ainda que, de maneira geral, sem que eles tivessem a chance de contar sua própria história. Carelli leva essa ideia ainda mais adiante: prevendo um ataque contra uma invasão, entrega uma câmera digital e ensina os índios a operá-la. Sem falha, testemunhamos uma investida com armas de fogo em plena luz do dia, que os índios enfrentam com surpreendente coragem, filmando à distância o ataque.

Martírio, enfim, é um poderoso e necessário relato de uma realidade ainda pouco reconhecida no Brasil, de uma luta que vai contra interesses do governo e contra uma representação parcial na grande mídia. Ainda que cansativo em sua duração e seu ritmo arrastado, trata-se de uma obra de importância histórica que expõe a importância dos registros históricos e da multiplicidade narrativa nos mesmos. Das diversas cenas que marcam o espectador, algumas ficam na mente. O trecho comentado anteriormente, quando o índio – finalmente revelado pelo poder da tradução – anuncia que “o que tá pegando a gente é o capitalismo”, é uma delas. O discurso de Ailton Krenak em 1987 no Congresso Nacional, pintando seu rosto enquanto entrega um poderoso e eloquente discurso contra políticas anti-indígenas, é outra. Mas, conforme penso no filme, uma delas é a que mais vem à minha mente – e com mais força: em um confronto tenso e armado entre índios e fazendeiros armados em um carro, um guarani-kaiowá brada, de cima de seu cavalo, com o rosto pintado: “Mata o índio para você ver! Mata!”. É um retrato do Brasil.■

Leia mais

- Guarani-Kaiowá. ''Uma luta que já dura um século''. Entrevista especial com Marco Antônio Delfino de Almeida, publicada nas Notícias do Dia de 7-11-2012, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
- Guarani-kaiowá: um grito de desespero. Entrevista especial com Egon Heck, publicada nas Notícias do Dia de 15-10-2011, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
- Guarani-Kaiowá. ''Uma luta que já dura um século''. Entrevista especial com Marco Antônio Delfino de Almeida, publicado nas Notícias do Dia de 7-11-2012, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
- Extermínio guarani-Kaiowa. Reportagem de O Estado de S. Paulo, reproduzida nas Notícias do Dia de 19-7-2016, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
- Governo brasileiro não vê suicídios dos Guarani-Kaiowá como crise, diz jornal canadense. Reportagem publicada por De Olho nos Ruralistas, reproduzida nas Notícias do Dia de 5-4-2017, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
- Mais um capítulo sangrento da saga Guarani-Kaiowá. Reportagem de Carta Capital, reproduzida nas Notícias do Dia de 5-9-2015, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
- Genocídio Guarani Kaiowá: uma guerra de dois mundos. Reportagem produzida pelo IHU, publicada nas Notícias do Dia de 20-11-2015, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

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