Edição 502 | 10 Abril 2017

Redes sociais formaram bolhas na internet que restringem circulação de opiniões e ideias

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João Vitor Santos | Edição: Vitor Necchi

Nesses ambientes, a professora Raquel Recuero identifica a formação de uma modalidade de esfera pública

Ao refletir sobre a maneira como as pessoas se comportam nas redes sociais digitais, a professora Raquel Recuero evita falar em nova sociabilidade. “O que acontece é que os processos de criação e manutenção dos laços sociais podem ser diferentes”, explica. Essas redes, de modo geral, “formam uma modalidade de esfera pública porque proporcionam um espaço público onde há circulação de informações, debate e onde as opiniões públicas são formadas (e, muitas vezes, acirradas)”. No seu entendimento, é possível falar também em microesferas públicas, “pois as redes sociais passaram a fragmentar-se ideologicamente, constituindo ‘bolhas’ onde apenas algumas opiniões e ideias circulam livremente”.

Em relação às mídias tradicionais, ela acredita que as redes sociais digitais têm com elas uma relação de complementaridade. “A mídia social circula informação (nem sempre fidedigna) e cabe aos veículos jornalísticos, por exemplo, apontar quais dessas informações são verídicas e quais não são”, observa em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line.

Conforme Raquel, se percebe, nas redes sociais digitais, “um acirramento dos posicionamentos políticos, seguido por uma apatia generalizada após o início do governo Michel Temer”. Nos últimos tempos, verifica-se “uma apatia muito grande quanto aos grandes temas”, como se houvesse um esgotamento. “Veremos de modo mais claro como o processo de impeachment e o governo atual impactaram nesses discursos, creio, agora em 2018”, projeta.

Raquel Recuero é doutora e mestra em Comunicação e Informação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS e graduada em Comunicação Social - Jornalismo pela Universidade Católica de Pelotas – UCPel e em Direito pela Universidade Federal de Pelotas - UFPel. Professora e pesquisadora dos cursos de Jornalismo e do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFPel e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação da UFRGS. Autora de Redes sociais na internet (Sulina, 2009) e coautora, com Marco Toledo Bastos e Gabriela Zago, de Análise de redes para mídia social (Sulina, 2015).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – As redes sociais digitais proporcionam uma nova sociabilidade?

Raquel Recuero – Não sei se podemos falar em “nova sociabilidade”. O que acontece é que os processos de criação e manutenção dos laços sociais podem ser diferentes. Por exemplo, é possível você conhecer alguém on-line primeiro, conhecendo as ideias e os posicionamentos deste ator, e apenas conhecê-lo pessoalmente depois. Ou seja, primeiro você conhece como a pessoa pensa e constrói sua visão de como é sua personalidade e somente depois a conhece fisicamente. A manutenção dos laços também se dá de modo diferente, uma vez que os sites de rede social mantêm essas conexões e você recebe informações sobre os atores por eles. Esses dois processos são diferentes off-line: você precisa primeiro conhecer alguém fisicamente para depois conhecer sua personalidade. Para manter o laço nesse contexto, é preciso interação, é preciso conversar com as pessoas. O acesso ao capital social também se dá de modo diferente, e o ambiente on-line também proporciona formas de acesso a valores diferentes. Então há uma série de diferenças em termos sociais.

IHU On-Line – As redes sociais na internet constituem uma esfera pública? Por quê?

Raquel Recuero – Acredito que sim, levando em conta o segundo conceito de Habermas (há diferentes conceitos de esfera pública). Mas, de modo geral, essas redes formam uma modalidade de esfera pública porque proporcionam um espaço público onde há circulação de informações, debate e onde as opiniões públicas são formadas (e, muitas vezes, acirradas). Hoje, podemos falar também em microesferas públicas, pois as redes sociais passaram a fragmentar-se ideologicamente, constituindo "bolhas" onde apenas algumas opiniões e ideias circulam livremente. Há uma mudança em curso, que precisa ser analisada em termos de impacto na sociedade nessas bolhas.

IHU On-Line – Que mudanças as redes sociais digitais impõem às mídias tradicionais (rádio, TV e jornal), desde a produção de conteúdo até a relação com seus públicos?

Raquel Recuero – Creio que têm sido complementares. A mídia social circula informação (nem sempre fidedigna) e cabe aos veículos jornalísticos, por exemplo, apontar quais dessas informações são verídicas e quais não são. A mídia social também tem sido vista como câmara de eco para a televisão, onde é possível compreender como as pessoas assistem à TV, o que veem e o que comentam.

IHU On-Line – Recentemente, a senhora produziu uma reflexão a partir da discussão que gerou nas redes sociais a mudança da vinheta de Carnaval da Rede Globo . O que todo esse episódio revela sobre as discussões nas redes sociais? E que associações podemos fazer com os acalorados debates políticos polarizados?

Raquel Recuero – Há uma associação entre as redes sociais na internet e um novo tipo de esfera pública que constitui e reverbera discursos. As pessoas discutem, comentam, apontam elementos sobre o que acreditam ou não nos sites de rede social, talvez, até mesmo, com menos escrúpulos do que nesses debates e discussões presenciais. No caso da vinheta de Carnaval, há discussões positivas sobre o papel da mulher negra, por exemplo, bem como comentários negativos, mas vemos um embate discursivo relevante sobre a exploração do corpo das mulheres. Há um debate que, até então, não aparecia nessas ferramentas. Ao mesmo tempo, também observamos, desde 2014, uma polarização nos debates políticos na mídia social, um acirramento e radicalização dos discursos políticos. Ou seja, vemos esses espaços como esferas públicas onde podemos observar a constituição e a mudança dos discursos na sociedade, através dessas conversações. Essas mudanças refletem outras mudanças sociais, mas não sei se podemos dizer que são causas. Há sim, nas redes sociais na internet, uma exposição maior a discursos diferentes, mas também uma resistência muito grande a eles.

IHU On-Line – As redes sociais digitais endossam discursos sociais padrões, reiterando preconceitos, por exemplo, sobre gênero e identidade sexual, ou podem apresentar novas perspectivas? Por quê?

Raquel Recuero – Temos visto, desde 2014, por exemplo, uma mudança importante na descrição das mulheres no Dia Internacional da Mulher. O conceito de feminismo cresceu muito nas discussões, enquanto outros posicionamentos mais conservadores foram desaparecendo. A ideia de que o dia da mulher é propício para flores, bombons ou a redução da mulher a estereótipos (bela, recatada e do lar, vadia etc.). A descrição mudou bastante. Os temas associados também. Ou seja, podemos ver que há mudanças nos discursos que são aceitos e não aceitos pela sociedade, entre o que se "pode" ou não dizer. Mas não sei se podemos ver isso como uma consequência da mídia social, ou se é simplesmente um sintoma de uma mudança maior.

IHU On-Line – Como a violência contra a mulher é atualizada no ambiente de redes sociais digitais? Quais os desafios para se proteger e denunciar? Que analogias podemos fazer com o mundo off-line?

Raquel Recuero – Acredito que existe um reflexo na mídia social das ideias presentes na sociedade sobre as mulheres. O que se "diz" ali é o que se vê como aceitável, o que se escuta sobre gênero, raça e identidade sexual. Assim, os discursos que circulam estão ali. E penso que na base da violência contra as mulheres (e minorias) está esse discurso. Por isso, quando podemos observá-lo, podemos compreender as raízes da violência física, que é apenas um dos vários tipos de violência. A violência simbólica, assim, a violência do discurso, é fundamental para que compreendamos como a violência física aparece e como se correlacionam. Este é um projeto que temos em andamento, mas ainda não há resultados finais.

IHU On-Line – Como analisa os movimentos e manifestações políticas no Brasil desde o início do processo de impeachment de Dilma Rousseff até agora, nas redes sociais pela internet? E como compreender esses movimentos à luz das manifestações de rua?

Raquel Recuero – Vimos um acirramento dos posicionamentos políticos, seguido por uma apatia generalizada após o início do governo Michel Temer . Até pouco tempo após o impeachment , havia muita coisa sobre política e contra e a favor do PT. O que temos observado agora é uma redução desse acirramento, uma apatia muito grande quanto aos grandes temas. Há manifestações contra a reforma da previdência, por exemplo. Mas não vemos mais manifestações partidárias, parece que houve um esgotamento. Veremos de modo mais claro como o processo de impeachment e o governo atual impactaram nesses discursos, creio, agora em 2018.■

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