Edição 502 | 10 Abril 2017

Indissociabilidade entre os mundos on e off-line

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

João Vitor Santos

Adriana Amaral acredita que redes sociais digitais não criam, mas potencializam relações e identidades já existentes no mundo concreto

As gerações mais jovens, usuários nativos das redes sociais digitais, tendem a ver o mundo pela timeline do perfil de sua rede social. A professora Adriana Amaral alerta para os riscos dessas perspectivas de forma bem-humorada: "o mundo é maior que a timeline". Por isso, defende que se tenha consciência das chamadas bolhas das redes. “As bolhas criam nossas próprias zonas de conforto, nas quais nos relacionamos com pessoas que possuem os mesmos gostos e postam conteúdos similares”, explica. Entretanto, assim como os jovens, pesquisadores desse campo podem acreditar que esse ambiente cria novidade nas relações.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Adriana prefere tratar as redes sociais digitais como um terreno de apropriações e não invenções. “O importante é pensar que esses processos de sociabilidade são tanto determinados pelas tecnologias quanto pelos agentes humanos”, alerta. Para ela, “não há uma separação tão dura entre o presencial e os ambientes on-line”. “Alguns autores acreditavam e apostavam que haveria um isolamento das pessoas para viver no ‘mundo virtual’. A comunicação móvel desconstruiu bastante essa noção”, acrescenta.

Adriana Amaral possui pós-doutorado em Mídia, Cultura e Comunicação pela University of Surrey, no Reino Unido. Também é doutora em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS, com estágio de doutorado em Sociologia da Comunicação pelo Boston College, EUA. É professora e pesquisadora do Programa de Pós-graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos. Na mesma instituição, é coordenadora da Especialização em Cultura Digital e Redes Sociais. Entre suas publicações, destacamos Cultura pop digital brasileira: em busca de rastros político-identitários em redes (Revista EcoPós, V.19, n.3, 2016) e “De Westeros no #vemprarua à shippagem do beijo gay na TV brasileira”. Ativismo de fãs: conceitos, resistências e práticas na cultura digital (Galáxia. Revista do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica. N. 29, 2015).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Que tipo de sociabilidade as redes sociais do ambiente digital proporcionam?

Adriana Amaral – É impossível falar sobre um tipo de sociabilidade, e sim de sociabilidades de acordo com diferentes usos, apropriações de diferentes grupos e culturas. O importante é pensar que esses processos de sociabilidade são determinados tanto pelas tecnologias quanto pelos agentes humanos. Como um exemplo disso temos os "aplicativos de pegação" como Tinder , Grindr etc. A partir da geolocalização, que é uma questão importante, ele vai nos mostrar uma lista de pessoas diferentes de acordo com os lugares. É um tipo de apropriação e uma sociabilidade específica, que difere, por exemplo, de um site de rede social focado em livros, ou do grupo da família do Whatsapp e seus encontros ou de redes mais genéricas como Facebook, Twitter etc.

À medida que negociamos nossas informações com essas redes, temos tipos de sociabilidades que podem tanto ser diferentes quanto ser utilizadas de uma forma similar. Relações mais ou menos efêmeras, encontros com desconhecidos ou aprofundamento de conhecimento de amigos, laços sociais mais fortes ou mais fracos com que está mais longe ou mais perto, tudo deriva da forma com que nos relacionamos com essas mediações.

IHU On-Line – Quais os limites e as possibilidades das chamadas bolhas de relações nas redes sociais digitais?

Adriana Amaral – Os limites e as possibilidades são configurados tanto a partir dos elementos humanos – o tipo de informações, conteúdos e engajamentos que temos - quanto de elementos não humanos como dos sistemas de recomendações, algoritmos etc. As bolhas criam nossas próprias zonas de conforto, nas quais nos relacionamos com pessoas que possuem os mesmos gostos e postam conteúdos similares, o que de certa forma é importante para manter nossa identidade coletiva/grupal.

O aspecto negativo disso é que muitas vezes tendemos a perder a noção de acontecimentos globais ou de entendimento de outros públicos e tipos de pessoas. Se a minha TimeLine é constituída por uma maioria de ativistas de esquerda ou de fãs de seriados, tendo a pensar que essa proporção é a mesma no âmbito da rua. E isso não é necessariamente verdade. É o que chamo, em tom de brincadeira, de paradigma do "o mundo é maior que a timeline".

Então, nada substituiu a multiplicidade de pensamentos, por mais que muitos deles nos mostrem uma face cruel com a qual talvez não saibamos ou não consigamos dialogar. A possibilidade de não se fechar em bolha é compreender melhor as alteridades.

IHU On-Line – O ciberespaço proporciona o surgimento de novas identidades? Por quê?

Adriana Amaral – Muitos pesquisadores têm discutido os aspectos relacionados a identidades e subjetividades desde os primeiros agrupamentos proporcionados pela internet e pelas comunidades virtuais, como chamávamos nos anos 90. Acho complexo atribuir à materialidade dos ambientes digitais a constituição de "novas identidades", uma vez que a fluidez ou não das mesmas depende muito mais da relação entre os pares, entre os grupos em um determinado contexto que é cultural, social etc.

A internet permite, de repente, que pessoas com determinados contextos identitários se encontrem e possam se fortalecer em grupo, mas não vejo isso como uma "nova identidade". Aparecem rótulos, desdobramentos que são mais facilmente visualizados ali, isso sim. A vontade de pertencimento ou não a determinados estilos e grupos sempre existiu, mas são amplificadas via internet.

IHU On-Line – O que compreende como ativismo em rede? Como ele se dá hoje?

Adriana Amaral – O ativismo em rede é um conjunto de práticas políticas que acontece desde os primórdios das BBS e outras formas históricas da internet. Não é uma invenção de agora ou privilégio da geração do "lacre e do textão ". Acredito que aconteceram muitos avanços e que o fato de que temos acesso a uma variedade grande de informações – se elas são confiáveis ou não é outro ponto – é muito positivo e demonstra o quanto crescemos enquanto sociedade. Ainda acredito na importância da luta política on-line, embora nesse momento a veja – em alguns casos – esvaziada por um excesso de performatização em rede e pouca pragmática. Acredito que as práticas ativistas estão muito mais próximas das lógicas de fãs e atividades que eram feitas em outros espectros da vida pública, o que mostra o quanto a política e o entretenimento estão interseccionados e ao mesmo tempo nos demonstra essa polarização em que nos sentimos cada vez que lemos uma thread (debate) em rede.

IHU On-Line – As redes sociais fomentam a democracia? Como?

Adriana Amaral – Num primeiro momento, pelo fato de ela proporcionar e amplificar uma multiplicidade de vozes, podemos dizer que sim. No entanto, com o tempo e as apropriações mercadológicas, as lógicas de visibilidade transformam as ideias sobre a política (sobretudo nas lógicas identitárias) em commodities. A questão das curtidas e compartilhamentos, ou seja, a aferição numérica, personaliza o debate político. Isso acaba, muitas vezes, tirando o foco do conteúdo para uma discussão em que quem dá a resposta mais curtida "ganha" o debate. A democracia também fomentou as redes sociais.

IHU On-Line – De que forma as redes sociais atualizam o conceito de cultura pop para o nosso tempo?

Adriana Amaral – Uma das características mais marcantes da cultura pop é o fato de ela ser acessível e democrática, ao mesmo tempo que também é padronizada. Essa característica garante sua sobrevivência nas lógicas das plataformas de redes sociais e nos memes , pois a repetição (reboots, remakes, prequels, sequels, referências etc.) sempre fizeram parte dela e agora acharam seu ambiente mais propício. Mas torno a lembrar que os fanzines dos anos 60 sobre Star Trek , por exemplo, e outros formatos de mídia underground produzidos por fãs ou por produtores de cenas musicais também cumpriam esse papel, mas numa escala de menor alcance.

IHU On-LIne – Qual a influência das redes sociais nos produtos de cultura pop?

Adriana Amaral – A influência é decisiva tanto no que diz respeito ao consumo e à própria discussão dos produtos. Casos de representatividades étnicas, sociais, de gênero, por exemplo, têm sido debatidas exaustivamente on-line. A força e a pressão que os fãs têm exercido aparece de várias formas, desde pequenos boicotes até a escrita de fanfics , a produção de fanvídeos. Enfim, a cultura pop pauta as redes sociais e as redes sociais se utilizam da cultura pop em sua linguagem e de diversas formas.

IHU On-Line – É possível fazer cultura pop – e fazer todos os seus produtos e valores circularem – sem considerar o ambiente virtual das redes sociais?

Adriana Amaral – Há uma questão apontada pelo teórico Marcel Danesi que é de ordem histórica. Para ele, há um relacionamento entre os estágios das mídias (não num sentido hierárquico) para a entrega da cultura pop em seus mais variados formatos e conteúdo da própria cultura pop. A ideia de cultura pop, enquanto experimento e ao mesmo tempo um padrão inconsciente, que se retroalimenta e é retroalimentada pela mídia é útil para pensarmos na continuidade da mesma ao longo dos anos.

É essa característica – ser democrática mas de certa forma também padronizada – que faz com que seus valores circulem. Não há mais como pensar cultura pop e internet de formas separadas. Um caso como o sucesso do K-POP (Pop Coreano) no Brasil é um exemplo disso. É um fenômeno que depende da circulação on-line e que por retroalimentação tem feito muitos jovens estudarem coreano e até mesmo se interessarem pela cultura do país.

IHU On-Line – Qual é o impacto das redes sociais na relação entre fã e ídolo?

Adriana Amaral – É uma relação de intimidade e performance mediada entre fãs e ídolos, embora cada caso deva ser pensado e analisado de forma distinta. Por um lado, temos a busca pelas informações sobre os artistas: datas de shows, álbuns etc. Por outro, há uma intimidade performatizada pelos artistas ao se colocarem em um plano mais próximo dos fãs. Lady Gaga no Instagram, tomando café em sua casa, por exemplo. O artista que posta a foto no camarim antes do show, Justin Bieber bloqueando o Instagram porque xingaram sua nova namorada... Cada ato performativo amplifica essa relação na qual há evidentemente um gerenciamento das impressões, daquilo que o artista quer comunicar com o público.

Por outro lado, o fã também se utiliza desse expediente, por exemplo, retuitando quando o ídolo o responde, publicando a foto do encontro na rua, ou até em um nível como o do fã de Beyonce que fez um vídeo paródia e depois foi convidado a conhecê-la em um show. Nesse sentido é uma relação bastante distinta da relação estabelecida entre fãs e ídolos nas mídias convencionais onde o acesso era mais restrito.

IHU On-Line – Como, em tempos de redes sociais, as mídias tradicionais se reconfiguram?

Adriana Amaral – Assim como no início da internet ela remediava o impresso, o rádio e a TV, as mídias tradicionais também se reconfiguraram com as redes sociais da internet, sobretudo em tentativas de linguagens e formatos que articulam a participação da audiência on-line. Um bom exemplo é o MasterChef .

IHU On-Line – De que forma é possível relacionar as interações no ciberespaço com a ocupação de espaços públicos e a promoção de eventos sociais?

Adriana Amaral – As interações em redes estão bastante relacionadas às ocupações e à promoção de eventos, embora não necessariamente uma coisa vá apenas levar à outra. No início dos anos 1990, alguns autores acreditavam e apostavam que haveria um isolamento das pessoas para viver no "mundo virtual". A comunicação móvel desconstruiu bastante essa noção, embora obviamente isso sempre tenha sido uma falácia, pois não há uma separação tão dura entre o presencial e os ambientes on-line. Estamos na rua e estamos on-line. Se você observar muitas das pessoas que estão utilizando troca de mensagens, estão combinando encontros com os amigos, saídas, namoros, idas a shows, eventos.

Claro, há também que se considerar que quem tem tendências ao isolamento, vai ter mais facilidade para não sair. A questão da ocupação dos espaços públicos é um fenômeno mais complexo do que só a promoção dos eventos em redes; tem a ver com questões que passam por políticas públicas, cidadania, gentrificação, cidades inteligentes, entre outras questões.■

Leia mais


- Perfil de Adriana Amaral, publicado na seção IHU Repórter, da revista IHU On-Line nº 359, de 2-5-2011.

- A superficialidade e as relações sociais na web. Entrevista especial com Adriana Amaral, publicada nas Notícias do Dia de 5-2-2010, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

- Twitter: a nova via da revolução? Entrevista especial com Sandra Montardo, Pollyana Ferrari, Adriana Amaral e Matheus Lock dos Santos, publicada nas Notícias do Dia de 29-3-2011, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Últimas edições

  • Edição 508

    Populismo segundo Ernesto Laclau. Chave para uma democracia radical e plural

    Ver edição
  • Edição 507

    Gênero e violência - Um debate sobre a vulnerabilidade de mulheres e LGBTs

    Ver edição
  • Edição 506

    Os coletivos criminais e o aparato policial. A vida na periferia sob cerco

    Ver edição