Edição 502 | 10 Abril 2017

Redes sociais querem se transformar em currais do trabalho imaterial

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Ricardo Machado | Edição João Vitor Santos

Henrique Antoun chama atenção para o tipo de trabalho gerado a partir das redes, que pode dar liberdade, mas que a todo instante tenta ser cooptado pela lógica do capital

No meio do expediente, exaurido do trabalho, você abre o Facebook, checa as mensagens do WhatsApp para relaxar. Mas sabia que nessas ações você continua vendendo sua força de trabalho? O professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Henrique Antoun, destaca esse ponto que parece imperceptível para a maioria dos usuários. “Estamos, de fato, trabalhando todo o tempo que permanecemos nas redes sociais. As redes são consideradas o chão de fábrica do trabalho imaterial nas metrópoles”, aponta. Ele explica que a rede é capaz de cooptar nosso trabalho e não somente o que produzimos nela como músicas, imagens, texto, etc. Através de “nossos compartilhamentos, nossas colaborações e nossos rastros, somos operados, abduzidos, recortados, distribuídos pelos dispositivos de controle do biopoder”.

Na entrevista, concedida por e-mail à IHU On-Line, Antoun reconhece que essa perspectiva das redes concebe um trabalho imaterial que faz emergir a autonomia na produção colaborativa dos coletivos e a infindável colaboração em rede. Entretanto, “o capital investe a sedução monetária corrompedora dacooptação, da fama, do sucesso, do comando para quebrar a integridade colaborativa, ao mesmo tempo que desregulam os territórios sociais criando gigantescos desníveis de proteção e justiça”. Por isso, considera que “as redes sociais querem se transformar em megafazendas, gigantescos currais que capturem todo este trabalho”.

Henrique Antoun é graduado em Desenho Industrial pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ, possui mestrado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-RJ, doutorado em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, com doutorado Sanduíche em Sociologia da Comunicação pela Universite de Paris V e pós-doutorado no McLuhan Program in Culture and Technology da Universidade de Toronto. Atualmente é professor da UFRJ. Atualmente coordena o Cibercult - laboratório de comunicação distribuída e transformação política na Escola de Comunicação da UFRJ. Juntamente com Fábio Malini, é autor de A internet e a Rua (Porto Alegre: Sulina, 2013).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como a identidade de si emerge no contexto das redes sociais?

Henrique Antoun – Não é propriamente uma "identidade". Nas redes sociais, estamos dividuados nos perfis. Somos diferentes amostragens repartidas em um sem número de bancos de dados. E os perfis são definidos pela mineração de dados e por agentes de rede que operam o big data que é gerado por nossas produções e por nossos rastros. Na medida que o big data dos perfis é operado pela rede, os perfis vão se definindo junto dos algoritmos que decidem o que veremos, com quem falaremos, quem estará em nossa proximidade e quem ficará distante. A mineração, os agentes e os algoritmos constituem os dispositivos de um biopoder que operam aqueles que penetram as redes.

Entretanto, por mais que nos apontem como flaneurs, ou como dândis, que atribuam à nossa presença na rede um vagar gratuito em um espaço sem direção, estamos, de fato, trabalhando todo o tempo que permanecemos nas redes sociais. As redes são consideradas o chão de fábrica do trabalho imaterial nas metrópoles. Ao mesmo tempo que produzimos com nossos programas, nossos aplicativos, nossos textos, nossas imagens, nossos audiovisuais, nossas músicas, nossas invenções, nossos compartilhamentos, nossas colaborações e nossos rastros, somos operados, abduzidos, recortados, distribuídos pelos dispositivos de controle do biopoder.

IHU On-Line – Até que ponto a construção de si, nos espaços web, é definida pelo determinismo tecnológico e até que ponto é definida pelo próprio sujeito?

Henrique Antoun – A construção de si exige que nos cuidemos e nos governemos. Na medida em que o trabalhador imaterial pertence a alguma classe de renda e oferece seus serviços como um produto ele é um precário à margem das leis trabalhistas que funciona por "trampos" ou adesão a projetos. Seu serviço especializado - seja ele afetivo, simbólico ou de criação - forma um mercado colaborativo ou cooperativo que é negociado sem cessar pela ativa corrupção dos dispositivos de controle. As técnicas de rede se aliam a outros aparatos técnicos midiáticos para fazer valer um biopoder que exprime a subsunção do real ao capital. O propalado determinismo tecnológico mede de fato o grau de eficácia da captura do trabalho vivo pelos meios de produção.

Ora, mesmo que as técnicas do biopoder, do poder pastoral de controle, façam valer a exploração do trabalho submetendo as subjetivações, nada impede que o trabalho possa gerar uma técnica de governo de si que as desvie da dominação e transforme estes que se deixam operar por elas em coisas com um alto grau de indeterminação. Se historicamente as tecnologias fazem o sujeito aparecer como o produto passivo das técnicas de dominação histórica, cultural e psicológica, uma avaliação genealógica que se pergunte pelas condições e indefinidas possibilidades de transformação do sujeito poderá encontrar técnicas de si historicamente constituídas geradoras de uma relação consigo em um sujeito. Estas técnicas de si vão se compor com as técnicas de dominação fazendo o sujeito emergir no entrecruzamento de uma técnica de dominação do biopoder com uma técnica de si biopolítica.

IHU On-Line – Que jogos de (bio)poder estão implicados nestas dinâmicas?

Henrique Antoun – Os atuais dispositivos comunicacionais de controle empreendem uma ativa captura do trabalho, gerando funestos desejos de propriedade, riqueza, segurança que vão determinar submissões e colaborações com o capital, subjetivações que aceitam as disputas por exclusão e os territórios de eliminação social como parte do jogo da lei metropolitana. Ao mesmo tempo em que o trabalho imaterial faz valer sua autonomia na produção colaborativa dos coletivos e na ilimitada cooperação das redes, o capital investe a sedução monetária corrompedora da cooptação, da fama, do sucesso, do comando para quebrar a integridade colaborativa, ao mesmo tempo que desregulam os territórios sociais criando gigantescos desníveis de proteção e justiça, gerando fortes demandas de segurança para a saúde e para o convívio social.

A ameaçadora propagação das doenças e as ameaçadoras violências no território da metrópole tornam a eliminação da pobreza como fator de risco uma demanda onipresente politicamente. A comunicação distribuída em rede interativa, entretanto, permite a geração de técnicas de si nascidas da colaboração e da cooperação que produzem as novas subjetivações. Estas inventam canais que permitem vazar a informação oculta dos governos, revelando suas verdades, operam pelo anonimato o desvio da atenção do público, lançando luz nas operações que buscam a obscuridade para serem processadas; e ocupam espaços públicos transformando-os em gigantescos acampamentos de transformação cultural e política.

IHU On-Line – De que maneira as tecnologias de produção e divulgação de conteúdo web, muito impulsionadas pela produção individual, acabam produzindo uma espécie de panóptico digital capaz de capturar a maior parte da vida em sociedade?

Henrique Antoun – A vida capturada nas redes sociais está de fato no chão de fábrica da produção empreendida pelo trabalho imaterial. Não fossem as redes e a metrópole, o trabalhador imaterial jamais teria consciência de sua potência e de seu valor. As redes sociais, entretanto, querem se transformar em megafazendas, gigantescos currais que capturem todo este trabalho. E, para evitar que haja defecção, geram filtros que distribuem e recortam os perfis de modo a gerar uma pequena bolha de conforto para cada um habitar.

Ao contrário de um panóptico que dá plena visibilidade ao olhar do poder para os corpos distribuídos nas celas da prisão, esses algoritmos derivados da mineração dos agentes no big data tornam a plena visibilidade impossível. A cada operação o território da visibilidade se modifica e o efeito global se transforma. Mesmo porque outros agentes invadem este espaço em busca de efeitos globais dentro desta gigantesca segmentação móvel que se tornaram. A vida tida como capturada nas redes sociais é uma vida infinitamente mais livre do que a vida que se submetia ao panóptico das fábricas disciplinares. Mesmo sua exploração se faz de modo móvel e tateante, pois as estratégias de corrupção do capital não possuem a mesma potência que as técnicas de organização panóptica da produção que dominavam o trabalho material assalariado.

IHU On-Line – Como as redes sociais impactam no processo de participação democrática? Quais suas potencialidades e limites?

Henrique Antoun – A democracia participativa, o ativismo e a ação direta são amplamente beneficiados nos processos de comunicação distribuída das redes interativas. Aqueles que sabem gerar as técnicas de si que sedimentam sua comunicação e suas chamadas para ação recebem imenso benefício. Em 2008, o fenômeno Obama e na eleição de 2016 a campanha de Sanders são sinalizações claras de um processo ao mesmo tempo evolutivo e amplificador que se movimenta na direção de uma municipalização e parceirização da política. Cresce a demanda pela franqueza nesta comunicação que se faz entre parceiros.

As parcerias se fazem ao gerar um meio de gênese que beneficie suas individuações, mais do que comunhão ideológica de modos de pensar. Por outro lado, crescem as estratégias de denúncia da política representativa que aposta em uma grande governabilidade, a construção de um amplo palanque a partir da definição de estratégias comuns de ação definidas por grandes programas ou megaeventos. Candidaturas que se apresentem como antipolíticas ou não políticas ganham a adesão daqueles que se consideram prejudicados pelas políticas de conciliação representativa. Mesmo porque para que se possa conciliar interesses estranhos e distantes precisa-se pôr de lado um verdadeiro benefício para as diferentes demandas dos movimentos sociais.

É por esta insatisfação generalizada que as campanhas identificadas com diferentes formas de intolerância têm ganhado um espaço cada vez mais ameaçador na política. Le Pen , Brexit , Bolsonaro ou Trump vem preencher este território de insatisfação generalizada com uma política incapaz de fazer algo que não seja beneficiar e ampliar a riqueza das megacorporações.

Podemos ver como exemplar, por exemplo, a estratégia da trollagem sem fim e da megainvasão de fakes que sedimentaram a vitória de Trump na eleição americana. Mas ela rapidamente se esgota em função dos novos filtros e dos novos operadores que se apresentam para neutralizá-la ou capturá-la.

IHU On-Line – De que forma podemos compreender dois fenômenos hegemônicos, mas aparentemente contraditórios entre si como a criação de “bolhas sociais digitais” e o aumento da intolerância? Como esses dois acontecimentos interagem entre si?

Henrique Antoun – As bolhas são estratégias da administração das redes sociais para reduzir o risco de defecção. Os algoritmos gerados pela mineração dos agentes sobre o big data procuram gerar pequenos grupos confortáveis para os perfis de rede verem e conversarem. Isto gera a impressão de que todo mundo interpreta como você os fenômenos com que você interage. A continuidade reiterativa desta impressão pode produzir forte intolerância com a manifestação divergente.

Na mídia irradiada, há um alto teor de invasividade, estamos sempre sendo coagidos pelos formadores de opinião a aderir à opinião ofertada como a opinião de todos. Na comunicação distribuída, pelo contrário, possuo um sem número de instrumentos e estratégias para impedir a invasão e a coação. A irritação explode toda vez que me sinto invadido. Insultos, bloqueios e vitupérios se sucedem nesta decepção do uso dos filtros que deveriam impedir o indesejado invasor. Na internet, eu quero estar no controle do território narrativo que habito.

IHU On-Line – Quais os impactos dos modos de agir no espaço digital nas formas de vida off-line?

Henrique Antoun – Os movimentos sociais têm cada vez maior importância na política metropolitana. Eles se sustentam em inúmeros coletivos. São as alianças entre os diferentes coletivos que fazem as bases da mobilização política. A política mais e mais se apresenta como movimentação. Em Barcelona um governo vai emergir das lutas do 15M sob a batuta de uma ativista que vai gerar inúmeros experimentos no governo da metrópole. Sua imagem apresentada como a de uma ativista radical pelos adversários cresceu e ganhou confiança na medida em que ela promovia uma ampla conversação sobre os planos de governo e ouvia os coletivos incorporando suas demandas aos seus planos. Sua radicalidade transformou-se em franqueza que fez com que muitos passassem a confiar no que ela dizia. As parcerias e as conversações substituem na sociedade as contratuações e diálogos da mídia irradiada. A verdade que cada vez mais ganha apreço é aquela do jogo da franqueza que domina a conversa dos parceiros.

IHU On-Line – Qual o papel das redes sociais na intensa radicalização e polarização política, que tende às generalizações e imposições de uma espécie de “pré-identidade”, geralmente expressa nos termos “petralha” e “coxinha”?

Henrique Antoun – No caso destas polarizações, a rede social exprime em seu território aquilo que as mídias irradiativas de massa e as instituições sociais produziram para operar sua política. Uma divisão é operada a partir de um gigantesco e inusitado efeito global da comunicação em rede que foram as megamanifestações de 2013. A ameaça daquela multidão fez com que ela fosse segmentada pelas iniciativas institucionais e partidárias. Grupos que faziam parte dos partidos governantes nas cidades e no país se bateram nas manifestações contra aqueles que não tinham apreço pelas organizações partidárias. Estas, por seu lado, vendo o movimento sem lideranças da política institucional, tentaram se apresentar como os legítimos representantes do movimento.

Movimentos vinculados aos partidos nos governos entraram em choque com os manifestantes e aplaudiram as ações de repressão policial. Os agentes políticos investiram violentamente em um grande processo de segmentação para quebrar a integridade multitudinária. A multidão original acabou repartida em dois grupos que em tudo eram apresentados como antípodas pelas novas lideranças. Mas a fonte da radicalização e polarização são os violentos processos de desregulamentação promovidos por ambos os grupos sob demanda de grandes corporações empresariais. Os dois grupos acabaram identificados por cores: o vermelho e o verde e amarelo.■

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