Edição 501 | 27 Março 2017

Ironia, humor e arte para tratar a aspereza dos fatos históricos

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Leslie Chaves | Edição: João Vitor Santos

Lyslei Nascimento destaca que “o ponto de vista da arte pode oferecer ao público uma oportunidade de conhecer temas da História, por intermédio de imagens, músicas”

A comicidade é uma linguagem que parece totalmente avessa para se tratar de temas dramáticos como as crueldades cometidas em nome das guerras, como o genocídio do Holocausto. Entretanto, na linguagem cinematográfica há exemplos de produções que conseguem usar a combinação entre o cômico e o trágico para manter viva a memória e sensibilizar. Conforme ressalta a pesquisadora Lyslei de Souza Nascimento em entrevista por e-mail à IHU On-Line, “tratar o Holocausto, ou qualquer outra catástrofe, com humor evidencia uma linha tênue entre a banalização e a capacidade de sobrelevar o peso do mundo. Especificamente no filme O trem da vida, essa linha é explorada a seu ponto máximo. Isso é interessante porque o cinema se vale do teatro para criar esse efeito irônico. Mais do que cômico, a ironia é reflexiva, não causa depreciação ou desprezo pela condição do outro. Ao contrário, o humor na Shoah humaniza e revela uma verdade muito simples: somos todos iguais em nossas diferenças”.

Lyslei de Souza Nascimento é doutora em Letras - Literatura Comparada pela Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, com pós-doutorado pela Universidade de Buenos Aires, Argentina, e pela Universidade de São Paulo - USP. Atualmente é professora na Faculdade de Letras da UFMG, onde atua na área de Letras, com ênfase em Literatura Comparada e Judaica. Na mesma instituição, coordena o Núcleo de Estudos Judaicos e o Convênio de Intercâmbio Discente entre a universidade e a Academy of Art and Design de Jerusalém, Israel.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual é a importância de retratar o tema do Holocausto no cinema?

Lyslei de Souza Nascimento – O ponto de vista da arte, tanto do cinema, quanto da literatura, pode ter um alcance maior, no que se refere ao público, e oferecer ao espectador ou ao leitor uma oportunidade de conhecer ou revisitar temas importantes da História, como o Holocausto, por intermédio de imagens, músicas, interpretações que, sem dúvida, ampliam não só o conhecimento, mas a sensibilidade e o pensamento crítico.

IHU On-Line – Como a linguagem cinematográfica pode contribuir para a construção de uma memória dessa triste passagem da história mundial?

Lyslei de Souza Nascimento – A linguagem cinematográfica, com suas possibilidades tecnológicas e interpretativas, é uma poderosa aliada na construção da memória. Algumas cenas de filmes, como Shoah, de Claude Lanzmann , por exemplo, ou da menina de casaco vermelho da Lista de Schindler, de Steven Spielberg , estarão, para sempre, impressas em nossa memória. A arte pode neutralizar o que Hannah Arendt chamou de banalização do mal e ampliar nossos sentidos, criando empatia. Acredito que o cinema e a literatura, as artes em geral, devem ser como um machado, como queria Kafka , para quebrar o mar congelado que existe dentro de nós.

IHU On-Line – De que forma o filme O Trem da Vida, de Radu Mihăileanu , retrata o Holocausto a partir de sua linguagem mais alinhada ao estilo cômico? De que maneira a senhora avalia essa fusão entre o cômico e o dramático/trágico do nazifascismo?

Lyslei de Souza Nascimento – Tratar o Holocausto, ou qualquer outra catástrofe, com humor evidencia uma linha tênue entre a banalização e a capacidade de sobrelevar o peso do mundo. Especificamente no filme O trem da vida, essa linha é explorada a seu ponto máximo. Isso é interessante porque o cinema se vale do teatro para criar esse efeito irônico. Mais do que cômico, a ironia é reflexiva, não causa depreciação ou desprezo pela condição do outro. Ao contrário, o humor na Shoah humaniza e revela uma verdade muito simples: somos todos iguais em nossas diferenças.

IHU On-Line – A linha condutora da história é o simulacro, seja na ideia que os personagens tiveram de forjar um trem de deportados e a si mesmos como nazistas e prisioneiros, seja nos questionamentos acerca da existência de Deus e da existência humana. Que questão de fundo pode estar implícita nessa relação entre simulação e a dura realidade do Holocausto?

Lyslei de Souza Nascimento – A forma como o diretor (que é também o roteirista) encontrou para aproximar os homens, todos eles, com suas diferenças e a busca pelo poder a qualquer preço, além de uma compreensão do outro como algo descartável, irrelevante ou objeto do ódio, é o teatro. A representação, em um primeiro plano, põe em cena o fingimento, a farsa, a mentira, que podem ser estratégias para a sobrevivência, mas, num segundo plano, revela a condição humana, sua capacidade de rir de si mesmo, revelando que as diferenças, muitas vezes, frutos de preconceitos, são ilusórias.

IHU On-Line – Schlomo, o protagonista do filme, é considerado o “louco” da comunidade, no entanto é quem aponta uma solução para o perigo iminente. Ele também vê, na simulação de um trem com destino à morte, o caminho para a vida. Que papel a ironia/ambiguidade desempenha na narrativa do filme? De que modo essa figura de linguagem contribui para a construção da história do Holocausto?

Lyslei de Souza Nascimento – Loucos, crianças, velhos, marginais de todo tipo têm na literatura e no cinema uma voz privilegiada. Como habitantes de estranhas margens, eles podem dizer verdades (e não A verdade), apontar os males da sociedade e ser uma espécie de ponto crítico altamente necessário. A ironia, nesse sentido, é fundamental. Porque ela não impõe um ponto de vista que seja petrificado, mas, ao contrário, atua a partir da diversidade, não da construção monolítica do sujeito. Especialmente quanto ao Holocausto, a compreensão do outro é fundamental. Não pelo que chamamos de uma razão petrificada — não havia país mais evoluído, do ponto de vista do conhecimento, da filosofia, das ciências, em geral, do que a Alemanha —, no entanto, nesse lugar de um conhecimento racional, surgiu um mal sem precedentes.

IHU On-Line – Em um de seus textos, a senhora menciona que a formação do cineasta Radu Mihaileanu em teatro, como ator e diretor de peças, é importante para analisar O Trem da Vida. Por quê? Em que auxilia na interpretação do filme? De que maneira essa proximidade do diretor com o teatro se reflete na obra?

Lyslei de Souza Nascimento – O teatro dentro do filme, como uma caixa chinesa, fornece ao cinema um espelhamento com a vida. Mihaileanu tira partido desse recurso de forma excepcional. Sem grandiosidade opulenta, ao contrário, na simplicidade, de forma quase ingênua ele traduz os desmandos, as máscaras, a sede desmedida pelo poder, o mal, enfim, que se insinua no humano, se ele não tem, como medida, a capacidade de rir de si mesmo.

IHU On-Line – De que modo os judeus são representados no filme? Que faces desse povo são reveladas na trama?

Lyslei de Souza Nascimento – Os judeus são representados no filme para além dos estereótipos. Mesmo quando eles são os comunistas, os capitalistas, os violinistas, os religiosos, os não religiosos... toda diversidade é contraposta aos ciganos e até, de forma muito sagaz, aos nazistas. Parece que o que temos no filme é a demonstração de que somos e estamos sujeitos ao mal se não formos vigilantes.

IHU On-Line – De que maneira a senhora avalia a inclusão (pouco frequente em filmes sobre o tema) dos ciganos na narrativa sobre o Holocausto? Que questões de fundo podem estar em discussão na relação entre os judeus e os ciganos na trama?

Lyslei de Souza Nascimento – Os ciganos, no filme, têm um papel muito importante. Eles não são coadjuvantes na história. Ao contrário, eles espelham a diversidade humana, tais quais os judeus. Ciganos, homossexuais, religiosos, políticos contrários ao nazismo, doentes, não tiveram uma expressão própria com o mesmo impacto que os judeus. A memória e a escrita, principalmente, foram pontos fundamentais para que a história judaica na Shoah esteja sendo escrita de forma mais intensa do que a desses outros grupos. Vozes veladas, muitas delas amordaçadas por preconceitos, precisam ainda ser ouvidas. O filme de Mihaileanu é fundamental para abrir, fora dos espaços acadêmicos, para a escuta atenta às vítimas, sejam elas quais forem.

IHU On-Line – Que paralelos para reflexão podem ser feitos da história de luta pela sobrevivência dos povos judeu e cigano, retratada no filme, com a intensificação da crise humanitária que o mundo vive com as migrações dos refugiados?

Lyslei de Souza Nascimento – Uma violenta e milenar história do medo — principalmente no Ocidente, como afirma Jean Delumeau — é tecida invariavelmente quando o desconhecido se aproxima. O medo do outro, do estranho, do diferente é um fator importante para se ter em vista nesses nossos tempos de migrações. O medo se dá pela ignorância. O conhecimento do outro nos aproxima e o outro deixa de ser uma ameaça preconcebida. Penso que há muitas complexidades que devem ser consideradas. No entanto, a busca pela sobrevivência não pode ser desprezada e a ajuda humanitária é crucial.■

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