Edição 501 | 27 Março 2017

Cinema contribui para exorcizar Holocausto

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Leslie Chaves | Edição: Vitor Necchi

A reflexão do professor Luiz Vadico toma como ponto de partida o filme A Sétima morada – Santa Edith Stein, da diretora húngara Márta Mészáros

O cinema é uma das formas mais potentes de representação da realidade, e os fatos e personagens que compõem a história inspiram filmes que fomentam discussões e entendimentos sobre as mais diversas experiências. A Segunda Guerra Mundial e, em particular, o Holocausto já serviram de ponto de partida para muitas obras. “Com o poder de insuflar a construção de imaginários, a indústria cinematográfica contribuiu e pode contribuir muito mais ainda para rememorarmos o Holocausto e exorcizá-lo no tempo presente e no futuro”, explica Luiz Vadico em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line.

A reflexão de Vadico parte do filme A Sétima morada – Santa Edith Stein, da diretora húngara Márta Mészáros, baseado na história da filósofa e teóloga Edith Stein (1891-1942), judia que se converteu ao catolicismo. Presa pelos nazistas, foi confinada no campo de concentração de Auschwitz, na Polônia, onde acabou morrendo na câmara de gás. Em 1988, foi canonizada pelo papa João Paulo II.

“O Holocausto foi um triste marco daquilo que o ser humano pode fazer contra si e seus semelhantes. Os judeus foram industrialmente exterminados”, afirma Vadico. “O holocausto mostrou para a humanidade que esta havia perdido os parâmetros do que era humano.”

Luiz Vadico é licenciado e bacharel em História pela Universidade Estadual de Campinas, mestre em Multimeios pela Universidade Estadual de Campinas e doutor em Multimeios pela Universidade Estadual de Campinas. É professor da Universidade Anhembi Morumbi. Integra o conselho editorial da revista Interatividade. Também é escritor e poeta.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual é a importância de retratar o tema do Holocausto no cinema?
Luiz Vadico – O cinema sempre foi um construtor de imaginários — aqui usado no sentido que os historiadores lhe dão, social. Ele não conta o real e nem fala diretamente da realidade, pois estas coisas são parte da nossa consciência, somos nós que as definimos. Buscando atingir o público, o cinema atinge o imaginário, um conjunto de imagens geradas pela experiência social do real. Real esse muitas vezes mais duradouro do que ele mesmo, a sua conjuntura. Dessa forma, o cinema acaba por documentar o contexto da produção do filme, o momento histórico no qual foi produzido, os anseios de uma época, seus problemas e virtudes. Com o poder de insuflar a construção de imaginários, a indústria cinematográfica contribuiu e pode contribuir muito mais ainda para rememorarmos o Holocausto e exorcizá-lo no tempo presente e no futuro.

Seis milhões de judeus mortos, um milhão de homossexuais e praticamente o mesmo número de deficientes físicos – e mentais – e ciganos. Estes os números do genocídio, somados às outras mortes, quase 22 milhões na Segunda Guerra Mundial. De todos esses números, o dos judeus se sobressaiu pela quantidade e motivação, a mais perversa. O extermínio foi justificado de forma complexa, misto de ciência, pseudociência, política, religião e racismo. Após a divulgação das primeiras imagens dos campos de concentração, com a derrota nazista, o mundo ficou em estado de choque. Não foi um “o que fizeram os alemães?”, foi um “o que fizemos nós?”, pois, mesmo que em graus diversos, o antissemitismo estava amplamente disseminado, inclusive em países hoje insuspeitos, como a França.

O Holocausto foi um triste marco daquilo que o ser humano pode fazer contra si e seus semelhantes. Os judeus foram industrialmente exterminados. Deixaram de ser considerados pessoas, foram tratados como objetos, tiveram suas individualidades anuladas — e tudo foi feito para que isso acontecesse. O Holocausto mostrou para a humanidade que esta havia perdido os parâmetros do que era humano.

Neste sentido, é importante lembrar que desde a Antiguidade havia regras de como se fazer a guerra e da sua justiça ou injustiça (se é que isso é possível). Na Segunda Guerra, todos os parâmetros foram quebrados, por isso o holocausto é um marco na consciência ocidental. O final deste cataclismo mergulhou o Ocidente numa grande e grave crise de consciência que impulsionaria muitas mudanças sociais nas décadas seguintes. Principalmente tendo em vista o seu rescaldo, que foi o estabelecimento da Guerra Fria , em que todos aguardavam um novo conflito. Este fato levou até ao homem comum a triste verdade das demagogias políticas, das ideologias e principalmente do que a cultura do ódio poderia gerar. Isso foi uma mola propulsora para mudanças sociais importantes. Nas décadas seguintes, as minorias — ou nem tanto assim — começaram a se manifestar. Como a dizer de forma coloquial “se ontem foram os judeus, amanhã seremos nós”. A tolerância começou a tomar contornos de política interna e externa, aos poucos tornou-se uma prática do nosso cotidiano como pessoas.

Retratar o Holocausto, relembrar para os que não o viveram é uma forma de aclarar os limites do humano. No entanto, não sejamos inocentes no que tange à arte cinematográfica. Da mesma forma que há relevância humana no que toca o assunto, há relevância política. O esforço do Sionismo Internacional para criar um Estado judeu, que se iniciou em meados do século 19, foi coroado pelo Holocausto. É a partir deste evento que os judeus têm suas reivindicações às terras da Palestina corroboradas. Não temos certeza se sem essa triste passagem da história o Estado de Israel teria se formado e mantido. Não é ao acaso que Os dez mandamentos, de Cecil B. DeMille , de 1953, surge nesse período. Então, relembrar o Holocausto também é reafirmar as razões para a existência de Israel, com tudo o que isso significa. Não afirmo que isso tenha sido um erro ou um acerto, apenas chamo atenção para o fato de que a lembrança precisa ser feita sob uma ótica complexa.

Por outro lado, devemos nos perguntar como isso é relembrado, pois, dependendo da perspectiva, reafirmamos Hitler e a sua ideologia de forma imprudente. O nazismo é algo do qual deveríamos nos esquecer completamente. Sepultar como uma triste página do passado. Mas se o lembramos – mesmo que aliado ao Holocausto –, estamos, de alguma forma, o alimentando. Com a republicação recente do clássico Minha luta, de Adolf Hitler, tive a oportunidade de reafirmar – diante da polêmica nas redes sociais – que deveriam colocar todos os fascículos nas bibliotecas (atualmente, lugares pouco frequentados).

Neste sentido, gosto do filme a Sétima morada, no qual a questão foi abordada de tal forma que não pende a balança para nenhum dos lados. É o humano que sobressai, com todas as suas complexidades, sem alimentar ídolos políticos.

IHU On-Line – Como a linguagem cinematográfica pode contribuir para a construção de uma memória dessa triste passagem da história mundial?
Luiz Vadico – Como dizia acima, a melhor maneira é buscar construir um imaginário que nos fale da perda, do absurdo, mas que isso seja tratado de tal forma que não alimente rancores, e nem insufle radicalismos nacionalistas tardios, como o neonazismo. A melhor forma de se manter um mito no imaginário coletivo é alimentando-o e repetindo informações. Então, se devemos abordar o assunto, é com o cuidado de não construirmos modelos para o espectador. Mesmo quando retratamos Hitler como um modelo ruim, ele ainda é um modelo, e atende aos que desejam se identificar com o que é mau. Uma mensagem é uma mensagem, e as pessoas as leem com o que possuem no seu mundo íntimo e contexto social, e dessa informação fazem o uso que desejam.

Este filme [A Sétima morada] fala dos sintomas do mal, mas não retrata o mal propriamente dito. Então guardamos na memória o que não deve acontecer, mas não temos subsídios – informações – para entender como e nem por que aconteceu, pois o contrário possibilitaria a construção de um discurso ideológico-político.

Dou um exemplo. Num noticiário, somos informados sobre um assalto a um banco e sabemos que isso é algo ilegal e ruim. Mudamos de canal e, em outro, somos bombardeados com tantos detalhes sobre o mesmo acontecimento que aprendemos como construir um túnel subterrâneo para chegar ao cofre, como desligar os alarmes, as câmeras de vigilância, como um túnel tem de ter ventilação adequada ou até mesmo uma bomba para retirar a água que mina. Uma coisa é informar sobre um acontecimento, outra coisa é instruir sobre como se faz. Ao lidar com imaginários político-sociais, estes cuidados são necessários, mas, infelizmente, isso não ocorre. Não falo de censura, mas em ética na comunicação.

IHU On-Line – A Sétima morada – Santa Edith Stein conta a história da filósofa, estudiosa e religiosa de origem judia Edith Stein. De que maneira o filme retrata o Holocausto a partir da narrativa da história de vida de Stein?
Luiz Vadico – A sua pergunta é muito pertinente, pois não se trata de como a vida de Edith foi, mas de como é contada. No início do filme, somos avisados por um letreiro que se trata de uma percepção da sua vida, e outras são possíveis, uma perspectiva relativista. Mesmo me colocando no lugar de pesquisador do Cinema Massivo, sinto-me tranquilo para falar do filme. Este tem uma clara veia autoral, no entanto, preserva todas as características dos filmes do Campo do Filme Religioso, e dentro deste faz parte do que chamamos de hagiografia fílmica – filmes sobre vidas de santos(as) – e que possuem uma estrutura específica. Os elementos dessa estrutura são respeitados, porém são colocados no filme a partir do ponto de vista da cineasta. A chave para decifrá-lo, quem nos dá, é a própria Edith, quando, na quinta parte do filme, fala das Sete Moradas, conforme o pensamento de Santa Teresa D’Ávila .

O filme se organiza em sete blocos, cada um obedecendo à perspectiva mística de Santa Teresa, e estes são unidos por uma bela metáfora, a do trem em movimento. Já na abertura, um trem a vapor é mostrado vindo em nossa direção – e que termina por recordar A chegada de um trem à estação, dos irmãos Lumière , de 1895; é como se nos dissessem: é cinema. O trem também é o grande símbolo da modernidade surgida no século 19 e que se alonga pelo século 20. Ele era a imagem da força, da tecnologia, da velocidade e da produtividade da era industrial, o progresso. E este trem, mostrado sempre em meios às trevas, uma máquina sombria, por sua vez encarna o outro lado da modernidade, o negativo. Ele conduz Edith para diversas cidades e fases da vida, inclusive para o campo de concentração em Auschwitz . Então, este trem é uma metáfora, ele não só está se posicionando com relação à modernidade e seus excessos, como também é um fio, uma linha, que organiza todos os blocos e termina por levá-la à Sétima Morada.

Ao mesmo tempo, essa metáfora dá uma leitura de destino. Quem entra no trem tem um objetivo, um destino de chegada. E entrando, o destino é inevitável. Então ele também é a imagem das escolhas que foram feitas por Edith Stein. O trem é social, é transporte, é metáfora, é símbolo, é signo e é teológico. É como dizer que a vida de Edith Stein estava traçada, marcada por essas linhas de trem que a levariam ao sacrifício. No entanto, não no sentido da predestinação protestante, mas no católico, de que nossas escolhas traçam o ponto de chegada. No dizer de Edith no filme: “O livre-arbítrio é algo tão misterioso que até Deus se detém perante ele”. O objetivo traçado nos embarca no trem, e o de Edith é realizar o amor no encontro com Deus dentro de si.

Outra camada de separação e ligação entre os blocos narrativos são os poderes políticos sob os quais a vida dela se desenrolou. A diretora (e roteirista) Márta Mészáros coloca a protagonista em gabinetes de detentores do poder político, e atrás de cada um desses hipotéticos adversários, está o retrato do governante. Em primeiro lugar, vemos Hindenburg , chanceler da Alemanha no primeiro período do filme, depois Adolf Hitler; ao adentrar no convento, vemos o papa Pio XII . E enfim, nas partes finais, esse lugar é ocupado por um crucifixo, mostrando para o espectador as instâncias políticas com as quais Edith necessitou lidar. Os personagens que os representavam — mesmo sem o desejar – foram o reitor da universidade, Franz Heller, do Partido Nazista, a madre superiora e enfim a própria Edith.

A última camada estruturante é a música. Enquanto Edith esteve no mundo, ouvimos uma voz masculina entoando um cântico torturante; após sua entrada no convento, ouvimos uma voz feminina entoando cânticos também torturantes, mas sagrados. A música estabeleceu a relação entre profano e sagrado; o primeiro ficou por conta dos homens, e o segundo por conta das mulheres. Os retratos dos governantes estabeleceram as relações políticas de dominação.

É envolta por estas quatro camadas estruturantes que a estória é contada. Dentro da estrutura do filme hagiográfico, obedecendo a ascensão de morada em morada, construindo a conjuntura governamental e, por fim, estabelecendo um dualismo vocal entre o sagrado e o profano, que são por fim alinhavadas pelo trem do destino.

No que tange ao filme hagiográfico, todo santo(a) tem um embate social. Ele(a) se coloca diante da sociedade do seu tempo e esta lhe responde, e ele(a) lhe dá exemplos de sabedoria e sacrifício, sem renunciar à sua fé. A exemplaridade é sempre dada no social (mesmo mediante a clausura).

A estética visual do filme é escolhida para ambientar a tortura moral e social que Edith vive. Tudo é sempre muito escuro. É como se não houvesse um único dia de sol ao longo de todo o filme. A câmera espia sua privacidade e sua vida. Mesmo as locações internas são muito escuras. O enclausuramento é uma constante, sempre há portas se fechando. O filme mostra uma mulher que se isola em suas ideias e é isolada pela sociedade. Apenas ao final temos uma Edith completamente nua caminhando para a luz do sacrifício. Este nu, para além de qualquer erotismo, é a última metáfora, como cada um fará seu encontro com Deus, despido de tudo o que é do mundo.

E, para responder à sua questão, o Holocausto é retratado como uma instância política, resultado da fusão da ciência e da filosofia com a loucura dos homens. E homens aqui não é o genérico. Apenas homens são retratados na situação de opressores em graus variados, uma perspectiva da diretora. No entanto, a relação de Edith com o Holocausto é observada a partir das suas escolhas e da aceitação daquilo que estava por vir, mesmo carregada de dúvidas. Ela se afirmou alemã, judia, católica, mulher. E no caso da narrativa fílmica, mulher em primeiro lugar.

É sempre muito enriquecedor quando uma cineasta como Márta Mészáros, húngara, se decide a tratar a questão da mulher a partir das suas complexas relações entre religião e sociedade. Assim como Margareth Von Trotta , que abordou a vida de Hildegarda de Bingen no filme Visão, de 2005, ela irá nos construir uma imagem exemplar de mulher diante da sociedade e do mundo dos homens.

IHU On-Line – A história de Edith Stein é permeada pela coexistência de universos paralelos, como os estudos filosóficos de busca pela verdade e a conversão à religião católica; os mundos judeu e cristão, a serenidade e a transcendência diante da iminência da morte no campo de concentração. Como a narrativa do filme trata dessas dualidades?
Luiz Vadico – Em Edith Stein não há dualidade, isso é aparente. Ela nos é mostrada como uma personagem atormentada. No entanto, o judaísmo que permeou sua vida até o fim não é uma questão para a personagem, ele aparece como um problema para os familiares e para os representantes do governo nazista. A primeira sequência do filme mostra o batismo e a conversão de Edith, e isso ocorreu em 1922, bem distante ainda da Crise de 29 – que avassalaria a Alemanha –, mas perto o suficiente dos problemas gerados pela Primeira Guerra Mundial e muito longe da ascensão nazista em 1934.

Isso deixa claro que ela fez essa escolha de forma pessoal, e que, por mais que a questionassem, posteriormente, sobre o oportunismo da conversão, ela pudesse se manter firme na sua posição. E nós mesmos nos mantermos firmes na ideia de que foi uma escolha pessoal. Um caminho altamente pessoal que resultou em incompreensões e não a livrou da morte. Isso dá ensejo para perguntarmos: se não houvesse havido Nazismo, Edith Stein seria santa? Não, provavelmente não. É diante do mundo que o santo(a) é chamado a dar o seu testemunho até chegar ao martírio se necessário. Mas os(as) santos(as) não escolhem o martírio – no produto audiovisual –, ele se dá através de uma injunção social. Essas pessoas escolhem se manterem íntegras em relação às suas ideias, isto leva ao sacrifício, mas porque não há outra alternativa. É isso ou aquilo.

Eu não vejo dualidade no tratamento da personagem de Edith Stein, ela é multiplicidade: mulher, filósofa, amante, religiosa e atormentada com o seu papel na sociedade. São os seus antagonistas que impõem dualidades que não pode vencer. Nesta circunstância, ela se mantém no caminho escolhido a partir de Teresa D’Ávila, o encontro do seu eu com Deus no interior da alma. Essa dualidade sempre é proposta para os cristãos: o mundo ou Deus? A resposta de Edith do início ao fim do filme foi Deus. Suas emoções a atormentam, suas decisões a fazem sofrer de todas as formas, no entanto, como ela diria: “Aceita suas dúvidas!”. Edith não dá respostas fáceis para ninguém, nem para si mesma. Uma verdadeira fenomenóloga.

Nós acompanhamos o seu percurso existencial desde 1922, quando não era de longe imaginável o que aconteceria, e aos poucos a diretora vai mostrando – a partir de um olhar particular, íntimo – uma situação que era completamente inesperada e absurda. E assim, Edith se viu na condição de precisar responder a absurdos, como todos os que sofreram nas mãos dos nazistas.

Ao ver o filme, percebemos que sua suposta serenidade já estava construída, antes de ser enfim levada ao campo de concentração. Verificamos isso no momento em que uma freira muito idosa morre. É perceptível que, para Edith, era apenas um momento de consagração de uma vida de dedicação a Deus, e não um mal. A partir deste fato, na trama, Edith passa a instruir a reticente irmã Gretta sobre como agir e sentir o seu papel na orquestração divina. Essa irmã representa a mulher que deseja realizar o seu papel no mundo profano, casar, ter filhos, construir uma vida de amor e responsabilidade social. E Edith lhe mostra esse caminho, enquanto instrui sobre um outro, o das Sete Moradas. Deixando claro que não são diferentes de verdade, mas uma questão de escolhas e necessidades pessoais.

No percurso, é muito instrutivo o exemplo que Edith dá à sua jovem sobrinha, quando esta pergunta o que é a Fenomenologia – disciplina da Filosofia à qual ela se filiou – e essa lhe responde com o exemplo de um piano. “Enquanto ninguém o toca, ele serve de mesa para docinhos e é como um outro móvel qualquer, mas quando nós o tocamos, mostra todas as suas possibilidades. É a minha consciência do que ele é que me permite fazer com que ele se realize enquanto tal.” Isso define a Fenomenologia de forma simples e sofisticada. É a minha consciência sobre os objetos do mundo que permite que eles se realizem em plenitude. E isso se traduz no mundo dos objetos e no mundo das ideias.

Em outras palavras: é o ser Edith Stein, e tudo aquilo que isso significa, que lida com os objetos e as ideias do mundo, lhes dá a plena realização; e a partir da sua compreensão, permite novos caminhos e escolhas.

A sua serenidade é conquistada passo a passo. Não é a filosofia e nem o catolicismo que lhe dão paz, mas suas certezas interiores diante da sua relação com os objetos do mundo. Por isso Franz Heller a questiona: “Nenhum católico diria que a razão o levou à fé! ” Mas em Edith não ocorre essa dicotomia. A razão a levou à fé. A fé não é dúvida, é certeza, e isso ela tinha.

IHU On-Line – O resgate da história de Edith Stein, que é marcada por sua origem judaica e pela conversão ao catolicismo sem perder seu sentimento de pertencimento ao povo judeu, pode acenar para um caminho de desconstrução do antissemitismo?
Luiz Vadico – Pergunta difícil de difícil resposta. O filme é de 1995, bem posterior ao Concílio Vaticano II (1965), que pela primeira vez se pronunciou relativamente à desculpabilização dos judeus pela morte de Cristo. Após essa decisão oficial, reafirmada por João Paulo II, seria muito difícil alguém fazer um filme católico com conteúdo antissemita, exceção feita a Mel Gibson , com seu catolicismo arcaico e retrógrado. O cinema pode apenas cooperar com um imaginário positivo referente aos judeus, e isso ainda depende de circunstâncias histórico-sociais. Um exemplo disso é o filme Exodus, de 2015, de Ridley Scott , em que não conseguimos saber se ele coopera ou não para a manutenção do Estado de Israel e se faz ou não um filme religioso. Da mesma forma que num passado próximo, hoje o antissemitismo está ligado à ideia de nação judaica e ao território ocupado por Israel. Não serei eu quem dará respostas fáceis a essas questões. No cotidiano do nosso país, não tenho notícias de ações ou situações antissemitas.

IHU On-Line – Como a resiliência de Edith Stein diante do sofrimento no campo de concentração é retratada no filme?
Luiz Vadico – O tema da resiliência, caro no momento, e que provavelmente passará rapidamente da moda como todos os outros conceitos contemporâneos, refere-se à capacidade do indivíduo de lidar sem traumas com os problemas que o mundo lhe oferece – mais do que consigo mesmo. Simplificando: “jogo de cintura”, como nós brasileiros entendemos a questão. Pessoalmente acho que a ideia de jogo de cintura está bem distante do que um santo representa. Ele tem a cintura dura; entrará em choque com a sociedade e as suas condições. Não podemos esquecer: o cristão não pertence ao mundo, nele está, mas não lhe pertence. Enquanto a resiliência afirma e reafirma: adapte-se às circunstâncias.

Não, cristão resiliente com o mundo não entendeu bem o cristianismo. A experiência com Cristo é ao mesmo tempo pessoal e social. Pessoal na conversão, social na exemplificação e atuação. Resiliência está bem longe disso. O cristão é um ser inconformado e atuante no mundo. E se seguir o exemplo da Edith do filme — no qual a resiliência não era uma questão ainda posta –, ele será o oposto disso. Essa suposta virtude leva à adaptação diante de problemas e dificuldades íntimas e externas, enquanto o Cristo leva à sublimação e ao enfrentamento do mundo pela fé. Na luta entre o eterno e o cotidiano (resiliência), deve-se fazer uma escolha. E Edith Stein e outros escolheram.

A resiliência, de forma simplificada, significa: se te derem um limão, faça uma limonada, ou, segundo os mais galhofeiros, uma caipirinha. Não é isso o que nos ensina a tradição cristã. O eterno é o eterno, não se acumplicia com as circunstâncias do mundo. Ele não se adapta e não quer se adaptar, pois o cristão se destina a outro lugar, outro mundo, outra condição. É exatamente a situação colocada no filme, irmã Gretta não está em crise vocacional, pois entrou para o carmelo por um motivo banal social: os pais desejavam que se casasse com determinado homem. Para evitar o enlace, entrou para a ordem. Isso é, de certa forma, resiliência, no entanto Edith lhe mostra que o caminho está equivocado e que esta deveria enfrentá-lo de outra forma. Ao mesmo tempo, no filme, ela estabelece uma distinção entre aqueles que irão realizar um papel no mundo, contribuindo para a ordem divina, e aqueles que, imbuídos de um poder interno, desejam se direcionar para Deus. Todos realizam a vontade do Pai, no entanto os resilientes estão prontos para se adaptarem e não se sacrificar. Nada contra, mas são coisas distintas. Edith não foi resiliente em nenhum momento no filme. Ela não fez de um limão uma limonada, ela disse: este é um limão azedo e eu aceito chupá-lo, pois é um limão e assim me é oferecido.

Todos podemos nos adaptar às circunstâncias, mas há um limite para tanto, e este é o do testemunho, a Sétima Morada.

IHU On-Line – Qual a importância de Edith Stein para a construção da imagem das mulheres no século 20?
Luiz Vadico – Não posso dizer o que Edith Stein significou para a imagem das mulheres do século 20, provavelmente nada, pois era e é pouco conhecida. Eu mesmo descobri o filme por acaso no Youtube, em 2014. Até então, nada sabia sobre Edith Stein ou Santa Teresa Benedita da Cruz. Só podemos inferir significados possíveis. Mesmo o filme, realizado por uma cineasta de tendência feminista, como é Márta Mészáros, foi realizado apenas em 1995, quando a desculpabilização dos judeus já era uma realidade. Ninguém de bom senso faria um filme incriminando-os e mantendo uma visão tradicional. Por outro lado, é um período próximo ao qual surge o trabalho de Magarethe Von Trotta sobre Hildegard von Bingen, de 2005.

Em outras palavras: a estória destas vidas foi construída – em termos cinematográficos – para servirem de modelo exemplar sobre como a mulher deve ser na sua relação com o mundo e com o mundo dos homens. A questão das mulheres é extremamente importante na nossa sociedade, e não vejo nada de errado no fato de que diretoras mulheres, envolvidas pessoalmente com estas questões, construam mensagens libertadoras; no entanto, também não posso deixar de dizer ao fim que se destinam estes filmes.

Mas, no que tange à sua pergunta, a importância que isto teve no século 20 é nenhuma. No entanto, como um produto audiovisual, acessível nos diversos meios dos quais hoje dispomos, ela pode adquirir uma grande importância.

IHU On-Line – O que significava ser uma mulher à frente do seu tempo, como foi Edith Stein, na Alemanha nazista? Como isso é retratado no filme?
Luiz Vadico – Discordo da ideia de que ela fosse à frente do seu tempo. Muito pelo contrário, ela está situada no momento exato onde muitas mulheres começaram a ter uma atitude ativa na sociedade. Muitas se iniciaram no mundo político a partir das Ligas pela Moral e pela Decência, que terminaram por influenciar o surgimento das sufragistas (mulheres que se movimentavam pelo direito de voto). Outras faziam parte de movimentos político-sociais, como é o caso do anarquismo e do socialismo. Um personagem chega até mesmo a perguntar no filme se Edith Stein conhecia Rosa Luxemburgo , uma revolucionária comunista da Alemanha, e ela admite lê-la, não conhecê-la.

Por ter optado pela vida acadêmica intelectual, Edith Stein participava de um grupo mais liberal – se é que assim podemos dizer. No entanto, era judia, e não posso dizer ao certo o quanto isso diferia relativamente à formação das mulheres cristãs. Sugere-se nos filmes que os judeus eram mais liberais relativamente à formação das mulheres.

Edith, no filme, precisou enfrentar a descrença dos homens na sua capacidade intelectual. Fica sugerido que apenas chegou aonde chegou por ter sido assistente de Edmund Husserl . No entanto, sabemos que isso não basta para alçar ninguém à glória internacional, como foi o seu caso. Ela foi uma intelectual consistente e dedicada.

A Alemanha nazista é a Alemanha de todos nós, recoberta de relações e implicações pessoais, isto segundo o filme. Edith sofre um misto de perseguição e amor por parte de Franz Heller, intelectual que abraçou o nazismo. Mas esta perseguição é dúbia, pois parece que o próprio comportamento de uma mulher liberada o provocou, seduzindo com seu pioneirismo intelectuais que a cercavam. Mas isso não a culpabiliza, é apenas uma nova possibilidade sedutora.

IHU On-Line – O que significava ser mulher no contexto do campo de concentração? Essa condição é tratada na narrativa da vida de Edith Stein construída pelo filme?
Luiz Vadico – Essa questão não é tratada no filme, pois, logo ao chegar ao campo de concentração, Edith faz sua escolha pelo sacrifício imediato, trocando sua vida pela de uma menina. É o contexto da Sétima Morada, na sexta a alma espera. Espera pelo quê? Pelo momento do testemunho e sacrifício: dar voluntariamente a vida por um amigo. Não existe sacrifício maior.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?
Luiz Vadico – Uma das questões mais relevantes do filme é “ninguém vem ao Cristo sem carregar a sua cruz”, e isso é muito importante. A cruz de Edith Stein era ser mulher, judia e intelectual, num momento histórico em que isso não era nenhuma vantagem. Ser uma convertida num contexto de perseguição apenas agravou a sua situação.

Por outro lado, a diretora quer nos dizer: seja você diante das circunstâncias do mundo. E essa mensagem do filme não é apenas direcionada às mulheres. Ninguém – em nenhum contexto – vai ao Cristo sem sacrifícios, mas este Cristo do filme não é apenas uma afirmação de fé católica, mas uma afirmação de que o encontro com o eu, com o amor incondicional, só é possível com Deus.

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