Edição 500 | 13 Março 2017

O canto que corre solto no pampa do sul da terra

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Ricardo Machado

Demétrio Xavier descreve as especificidades da cultura do pampa no Rio Grande do Sul, no Uruguai e na Argentina

Pensar a produção cultural, especialmente a música, e suas relações com a geografia de onde emerge é um exercício que requer ultrapassar o caráter caricaturesco de sua aparência mais superficial. Demétrio Xavier, músico especializado em música crioula sulista, faz isso com o rigor que o tema merece. “Em alguma medida, os horizontes amplos, o deserto, o vento, a planura... timbram o canto de raiz folclórica. Lembro que Yupanqui dizia que, segundo seu pai, ao aproximar-se de alguém, deve-se usar o caminho mais largo, para ser visto por todos os lados”, conta Demétrio, em entrevista por e-mail à IHU On-Line. “‘Pampa’ – muitas vezes flexionado no feminino, formato hispano-americano que nunca havia sido utilizado pelos literatos do estado passa a ser o universo de intersecção identitária do Rio Grande do Sul com o Prata. Ritmos da pré-cordilheira ou do oeste argentino são incluídos ‘na grande Pampa’”, complementa.

Demétrio Xavier é um músico porto-alegrense, especializado na música crioula do Uruguai e da Argentina. Atuando no Rio Grande do Sul e nos dois países platinos, enfatiza sua pesquisa na obra do argentino Atahualpa Yupanqui, tendo traduzido e gravado, em versão bilíngue, seu poema maior, “O Pajador Perseguido”. Venceu a Califórnia da Canção Nativa, festival de música gaúcha, em 2009, com uma poesia musicada por Marco Aurélio Vasconcellos, “A Sanga do Pedro Lira”. Conduz na FM Cultura de Porto Alegre o programa Cantos do Sul da Terra, dedicado à música e à literatura do sul do continente e indicado em 2012 para o Prêmio Press.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como se caracterizam os “cantos do sul da terra”, especialmente os relacionados ao bioma Pampa?
Demétrio Xavier – Há uma relação entre a paisagem e o discurso artístico popular que vai além do determinismo redutor ou caricaturesco, do tipo “tropical, logo alegre e sensual” ou “temperado, logo intimista e reflexivo”. Não por outra razão, sábios originários conceberam a consigna “Runa Allpakamaska – O Homem é Terra que anda”.

Em alguma medida, os horizontes amplos, o deserto, o vento, a planura... timbram o canto de raiz folclórica. Lembro que Yupanqui dizia que, segundo seu pai, ao aproximar-se de alguém, deve-se usar o caminho mais largo, para ser visto por todos os lados. Um dia, repeti essa frase a um amigo crioulo das serras de Córdoba. Ele disse que não reconhecia sua gente nela; o serrano é cheio de esconderijos, atalhos, cavernas, curvas, horizontes mais próximos.... como a paisagem que o abriga.

Talvez, sim, os cantos pampianos encontrem na milonga, no estilo, na huella, no triunfo, em grande parte, uma expressão da paisagem.

IHU On-Line – Como a geografia do Pampa impacta na produção cultural, especialmente na música?
Demétrio Xavier – O Bioma empresta fauna e flora, clima e imagética, para serem ingredientes da música. A demografia – os grandes espaços abertos – e as formas tradicionais de produção, assim como a constituição étnica, concluem esse desenho.

IHU On-Line – Que pampa é este cantado em verso no cancioneiro sulista?
Demétrio Xavier – De algum tempo para cá, os compositores e escritores vêm usando uma circunscrição algo mágica do Pampa. Trata-se de um espaço que não corresponde ao bioma, mas também não considera que paisagens bem distintas das que o compõem também se chamam “pampa”, nos países vizinhos. “Pampa” – muitas vezes flexionado no feminino, formato hispano-americano que nunca havia sido utilizado pelos literatos do estado, passa a ser o universo de intersecção identitária do Rio Grande do Sul com o Prata. Ritmos da pré-cordilheira ou do oeste argentino são incluídos “na grande Pampa”.

De todos os modos, segundo bons autores, Pampa sempre foi antes uma referência literária e intelectual do que popular – o que pode estar mudando com a consolidação do Bioma.

IHU On-Line – O cantor e compositor Vitor Ramil tem um song book chamado Estética do Frio, cuja referência comparativa é a música popular brasileira. Para os uruguaios, no entanto, o pampa frio é o da Argentina. Que semelhanças e diferenças há na produção musical pampiana nestes três países?
Demétrio Xavier – Uruguaios dizem “más desubicado que brasilero en invierno”. Sem dúvida o clima se presta para uma definição de identidade em traços básicos. Uruguaios não costumam chamar seu campo, sua penillanura (quase planície, por causa das coxilhas) de pampa. A Argentina possui pampas específicos, como nomes de localidade oriundos de uma condição de planície sem maiores acidentes e povoações. Assim, a chamada Pampa Húmeda, semelhante ao sudoeste gaúcho, em nada se parece a Pampa de los Guanacos , Pampa del Infierno ou Pampa de Achala .

Mesmo assim, na região do bioma Pampa se encontrará grande diversidade de sonoridades. As milongas dos três países, por exemplo, tão emblemáticas, não são idênticas. Há ainda ritmos que não têm vigência no Rio Grande, como a Cifra, compartilhada pelos países platinos – e representatividade diferente no uso de instrumentos como o acordeom.

IHU On-Line – Como a música de Atahualpa Yupanqui expressa uma ethicidade do pampa argentino?
Demétrio Xavier – Yupanqui é um autor capaz de cobrir um território musical imenso. O pampa é um dos ambientes em que sua música transita. Em suas milongas, estilos, huellas, enfim, no que de pampiano há em seu cancioneiro e em sua literatura, aparece a honradez, a gravidade, a introspecção, a generosidade, a coragem, o amor ao silêncio, como itens constitutivos dessa identidade.

IHU On-Line – Qual a influência da cultura indígena na cultura pampiana?
Demétrio Xavier – Há um aporte imenso na linguagem e forte ainda na culinária, em certos costumes típicos. Musicalmente, essa influência será mais notável na zona do litoral argentino, com o chamamé e outros formatos.■

Leia mais
- Misa Criolla, o cristianismo latino na sonoridade do Sul da Terra.

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