Edição 499 | 19 Dezembro 2016

Morte e vida severina, ano 60

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Antonio Carlos Secchin

Em entrevista, o poeta João Cabral de Melo Neto destacou Antonio Carlos Secchin entre todos os professores, pesquisadores e críticos que se debruçaram sobre a obra dele: “Foi quem melhor analisou os desdobramentos daquilo que pude realizar como poeta”, disse. A intimidade com a obra cabralina não é recente, pois a tese e a dissertação de Secchin trataram da obra do poeta. Na edição comemorativa dos 60 anos de publicação de Morte e vida severina, lançada pela editora Alfaguara neste ano, ele escreveu a apresentação do poema mais conhecido do poeta pernambucano, destacando que se trata de um “autor admirável pela obstinação em rejeitar as vias fáceis e fluidas do lirismo, e pela ousadia de percorrer severamente os caminhos mais íngremes da linguagem, para neles vislumbrar e colher os sinais e as palavras que aguardam, sem pressa, o momento de nascer no corpo do poema”. A IHU On-Line publica na íntegra o texto de Secchin que está na edição comemorativa de Morte e vida severina.

Antonio Carlos Secchin é poeta, ensaísta, crítico literário e professor. Graduado em Português - Literaturas de língua portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ (1973), mestre (1979) e doutor (1982) em Letras (Letras Vernáculas) pela UFRJ. Membro efetivo da Academia Brasileira de Letras e professor emérito da UFRJ. Sua tese e sua dissertação, ambas orientadas por Afrânio Coutinho, tratam da poesia de João Cabral de Melo Neto. Autor do livro João Cabral: A poesia do menos, (São Paulo: Duas Cidades, 1987. 2.a ed. rev. ampliada. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999) que ganhou os prêmios Instituto Nacional do Livro - MEC e Sílvio Romero - ABL.

Eis o texto.

Sessenta anos após sua publicação, Morte e vida severina é a mais famosa obra de João Cabral de Melo Neto. Seu sucesso foi tanto que, às vezes, parecia desagradar seu autor, como se a luz excessiva sobre esse livro relegasse todos os demais a uma injusta penumbra. Não é exagero afirmar que Morte e vida... se transformou no maior êxito editorial da poesia brasileira, já contabilizando cerca de cem edições, sem falarmos nas transposições e leituras que legou para outros veículos como a televisão, o cinema, o teatro e a história em quadrinhos.

A literatura de João Cabral formou-se no intervalo entre a escrita culta da casa-grande, de onde ele veio, e a voz da senzala, onde descobriu a fabulação do cordel, a métrica popular, o gosto pela narrativa e pela representação de um mundo de coisas concretas, ao alcance das mãos e dos olhos. 

Vários poetas podem habitar o mesmo poeta. Às vezes, em pacífica e tácita convivência, outras em aberto conflito. A poesia é regida pelos signos da mudança, rejeitando o conformismo que se torna sinônimo de sua morte; por isso, não surpreende que, ao longo da existência, o artista vá configurando e reconfigurando sucessivas versões de si mesmo, sem que em nenhuma delas resida sua verdade. Durante o percurso, não é raro que se fale em “fases do poeta” e muitas vezes o autor se desconhece desse outro que ele já foi. Assim, muitos escritores renegam ou reformulam drasticamente os escritos de juventude, embora pouco se saiba dos que tenham renegado os da velhice... Ficou célebre a frase com que Murilo Mendes encerrou a apresentação de suas Poesias, de 1959, justificando as numerosas alterações efetuadas nos textos das edições originais: “Não sou meu sobrevivente, e sim meu contemporâneo”.

Em João Cabral a questão é um pouco mais complexa. No caso de Murilo, a diacronia pareceu desarmar o conflito mediante a supressão de textos considerados obsoletos ou excessivamente tributários das tribos de 1922. Já no autor pernambucano temos a presença simultânea de dois padrões poéticos que geram práticas textuais bastante diferenciadas. Refiro-me às famosas Duas águas, título de volume publicado em 1956 e em cujas orelhas, não assinadas, o próprio João Cabral esclarece: “de um lado poemas para serem lidos em silêncio /.../ cujo aprofundamento temático /.../ exige mais do que leitura releitura; de outro lado, poemas para auditório, numa comunicação múltipla, poemas que, menos que lidos, podem ser ouvidos”. O texto que inaugurava a “segunda água” era, exatamente, Morte e vida severina. 

A obra trava um complexo diálogo com as fontes cultas e populares da literatura espanhola, abastecendo-se também no rico manancial do folclore nordestino. E é justamente essa reciclagem do antigo que acaba tornando-se, paradoxalmente, um dos fatores de renovação da poesia de João Cabral, que injeta doses maciças de veio crítico nesse seu aproveitamento das formas da tradição. 

Morte e vida... foi classificada pelo autor como um “auto de natal pernambucano”, mas a transposição do mito de nascimento de Cristo ocorre, no poema, pela atenuação ou perda dos componentes laudatórios-religiosos do discurso cristão. Ainda assim, preservam-se ostensivos traços de convergência entre a “matriz” da narrativa cristã e a apropriação que dela fez João Cabral. Em ambas, o pai da criança se chama José, é carpinteiro e morou na cidade de Nazaré; há também os vizinhos e seus presentes, que correspondem aos dos reis magos. Nessa releitura laica da chegada do menino-Deus, a esperança, embora precária, encontra-se no território humano: será pelo universo do trabalho que o recém-nascido poderá algum dia redimir-se.

Severino empreende um périplo em direção à vida, representada, no Recife-ponto-final do percurso, pela cena do nascimento. A morte, porém, é sua renitente companheira de viagem, insinuando ao retirante a frágil condição de seu “aluguel” com a vida, na medida em que ele, desde o berço, já se encontra predestinado à morte severina: “Que é a morte de que se morre/ de velhice antes dos trinta,/ de emboscada antes dos vinte,/ de fome um pouco por dia”. 

Tanto na origem da travessia, nos limites da Paraíba, quanto em todos os cenários subsequentes, Severino se defronta com a onipresença da morte, ora consumada, como no funeral de um lavrador (“Esta cova em que estás,/ com palmos medida,/ é a conta menor/ que tiraste em vida./ É de bom tamanho,/ nem largo nem fundo./ É a parte que te cabe/ neste latifúndio”), ora potencial, conforme declara uma rezadeira, para quem cantar a morte representa o ofício mais rentável da região (“As estiagens e as pragas/ fazem-nos mais prosperar./ E dão lucro imediato./ Nem é preciso esperar/ pela colheita. Recebe-se/ na hora mesma de semear”).

João Cabral utiliza a ironia como arma certeira para opor-se ao transbordamento sentimental. O leitor é atingido pela crueza dos quadros descritos sem que sejam necessários os excessos verbais comumente advindos de um paternalismo piedoso. Em uma cena passada no Recife — o diálogo entre os dois coveiros que comparam a transatlânticos os caixões dos bem-nascidos (ou bem-morridos, eu diria) — o tom beira o sarcasmo. Os coveiros equiparam as alas dos ricos a bairros de belas avenidas, pois sequer a morte elimina a ocupação seletiva do (sub)solo; ao contrário, ela duplica, mesmo sob sete palmos, as barreiras sociais erguidas acima da terra. Adiante, quando do nascimento da criança, apesar do clima festivo, ressoa a fala talvez involuntariamente cruel de um vizinho: “Minha pobreza tal é/ que não tenho presente melhor./ Trago papel de jornal/ para lhe servir de cobertor./ Cobrindo-se assim de letras/ vai um dia virar doutor”.

Em sua obra convivem, numa tensão jamais apaziguada, a primeira água de um Cabral cerebral e a segunda água de um João do chão. Num e noutro, o imperativo da construção se faz presente: nele, a poesia dita comunicativa é elaborada na tensão entre o erudito e o popular, nunca é um ingênuo veículo de formas pré-existentes. Por isso a “segunda água”, sendo popular, não é populista: populista é o discurso que se apropria indébita e acriticamente da vertente popular.

Num ensaio sobre o sertão de João Cabral, me referi à inexistência de conselhos ou encorajamentos aos deserdados do Nordeste. Em sua poesia, quase não se encontra um sertanejo “personalizado”, que possua um boi, uma esperança, um chinelo. Só encontramos o sertanejo, figura exemplar, conjugação potencial de traços localizáveis em séries de severinos. Como também é figura exemplar na literatura brasileira o poeta João Cabral de Melo Neto, autor admirável pela obstinação em rejeitar as vias fáceis e fluidas do lirismo, e pela ousadia de percorrer severamente os caminhos mais íngremes da linguagem, para neles vislumbrar e colher os sinais e as palavras que aguardam, sem pressa, o momento de nascer no corpo do poema. ■

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