Edição 499 | 19 Dezembro 2016

Poema de João Cabral de Melo Neto é emblema da miséria nordestina

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Vitor Necchi

A atualidade de Morte e vida severina em tempos de retirantes globais

Entre as efemérides deste 2016 que se encerra, os 60 anos da primeira publicação do poema Morte e vida severina, do pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999), é uma das mais significativas para a literatura e - sem exagero - para a cultura brasileira. Não há como lê-lo sem ter em mente o contexto social e econômico da época em que foi escrito, entre os anos de 1954 e 1955.

No Nordeste da década de 1950, a morte era uma força precoce e devastadora. Calor, seca, desnutrição, pobreza, concentração fundiária, coronelismo – este é o mundo árido e brutal onde o personagem Severino empreende sua epopeia trágica enunciada conforme a tradição medieval pelo autor, que concebeu versos preferencialmente heptassílabos (redondilha maior), variando vocábulos regionais com outros de registro erudito.

João Cabral nasceu em Recife (Pernambuco) e passou sua infância nos engenhos de açúcar de propriedade de sua família. Neste ambiente arraigado na tradição fundiária e econômica do Nordeste, costumava ler cordéis para os empregados, impregnando-se de referências próprias do ambiente regional.

Uma encomenda

Morte e vida severina é sua obra mais conhecida, fruto de uma encomenda de Maria Clara Machado, que em 1951 fundou a escola de teatro Tablado, no Rio de Janeiro. João Cabral era diplomata e estava trabalhando desde 1950 em Londres, durante o governo de Getúlio Vargas, até que – nas palavras do próprio poeta – um idiota denunciou que ele e outros quatro diplomatas estariam implantando uma célula comunista no Itamaraty, época em que o Partido Comunista do Brasil estava na ilegalidade.

Um despacho presidencial de março de 1953 afastou os cinco do serviço diplomático, e João Cabral retornou para o Recife, a fim de trabalhar no escritório do pai e garantir o sustento da família. Retomou a carreira diplomática em 1954, depois de recorrer ao Supremo Tribunal Federal. Nesse intervalo, encontrou Maria Clara, que era filha de Aníbal Machado, seu amigo. Ela pediu que o poeta escrevesse um auto de Natal para encenar com o seu grupo. Assim surgiu Morte e vida Severina – Auto de Natal pernambucano. Maria Clara, porém, leu o texto e o devolveu, alegando que não teria como montá-lo.

O editor José Olympio queria lançar a primeira coletânea do poeta. Como Morte e vida severina era grande, o autor retirou as marcações próprias da montagem teatral, e o poema integrou o livro Duas águas, lançado em 1956. Logo caiu nas graças de escritores, intelectuais e pessoas alinhadas ao pensamento de esquerda. O também poeta e diplomata Vinicius de Morais foi um que se maravilhou com a história de Severino. A princípio, João Cabral ficou contrariado, pois sua pretensão era alcançar com sua poesia os “sujeitos analfabetos que ouvem cordel na feira de Santo Amaro, no Recife” – o que não deixava de ser um tanto ingênuo, posto a elaboração formal do poema.

Dez anos depois da estreia editorial, o texto ganhou mais projeção com a montagem teatral dirigida por Silnei Siqueira. Era 1966, quando, durante um jantar, João Cabral recebeu a carta do jovem diretor solicitando autorização para montar um espetáculo em que Morte e vida seria musicado por outro estreante, o compositor e cantor Chico Buarque de Holanda. No livro A literatura como turismo [Cia. das Letras], a cineasta Inez Cabral, filha do poeta, escreveu: “Ele ficou preocupadíssimo ao saber que sua poesia ganharia música. Porém, nunca se sentiu no direito de cercear qualquer criação nascida de seu trabalho”.

Capibaribe

Em 2007, na apresentação que fez da edição de Morte e vida lançada pela editora Alfaguara, Braulio Tavares conta que, para Gilberto Freyre, havia pelo menos dois nordestes: o agrário e o pastoril; o litorâneo da cana-de-açúcar e o sertanejo das fazendas de gado. Estabelecendo uma lógica paralela, Braulio propõe que, a partir da poesia de João Cabral, também se pode identificar dois nordestes: “o seco e o úmido; o da pedra e o da lama; o que é mumificado vivo pelo sol e o que é apodrecido pelo mar”. A geografia, os traços regionais e as condições sociais dos anos 1950 são decisivas para a constituição da poesia cabralina.

João Cabral dizia que sempre escreveu poemas sobre Recife longe da cidade: no início dos anos 1940, mudou-se para o Rio de Janeiro; depois disso, em decorrência da carreira diplomática iniciada em 1945, que o levou a trabalhar em diversos países: Equador, Espanha, Estados Unidos, França, Inglaterra, Paraguai, Portugal, Senegal e Suíça. É de Recife que vem a recorrência do rio Capibaribe como elemento estruturante de importantes obras de João Cabral. Braulio sugere que se pode pensar em uma trilogia a partir do rio, embora esta não seja uma elaboração original do poeta: O cão sem plumas (escrito em 1949-1950), O rio (1953) e Morte e vida severina (1954-1955).

Braulio descreve que, em O cão sem plumas, “o poeta reconstrói o rio e o ambiente que o cerca, até a chegada ao mar, pelos filtros de sucessivas metáforas e símiles que se entrecruzam: cão, espada, bandeira, maçã...”. Em O rio, o tratamento feito pelo autor é mais documental, geográfico. Conforme Braulio, o poema teria sido escrito com o auxílio da mapoteca do Itamaraty e é “repleto dos sonoros topônimos pernambucanos”. E em Morte e vida severina, que descreve a caminhada do retirante Severino que percorre a linha do rio até Recife, o mangue e o mar, a fim de escapar da seca. Na primeira obra, a voz que emana do texto é do poeta; na segunda, do próprio rio, que trata de si mesmo em primeira pessoa; em Morte e vida severina, são diversos personagens espalhados ao longo do leito que se enunciam.

Morte precede a vida

O título do poema já lança uma senha para se entender o universo descrito, ao inverter o sintagma vida e morte – a morte precede a vida – e ao adjetivar o substantivo próprio Severino. O texto é estruturado em 18 passos que contam a travessia de Severino, um retirante que foge da seca e da morte, em busca de uma vida melhor próximo ao litoral.

Outra divisão é possível, se for considerada a temática. Da parte um a nove, tem-se a marcha de Severino até Recife, costeando o Capibaribe - mesmo quando o rio quase definha em meio à aridez da paisagem. Da parte dez em diante, a história se desenrola na metrópole.

O conjunto dessas partes compõem o auto de Natal que culmina com o nascimento de uma criança. Antes da natividade, a morte é uma presença constante, pontuando as cenas. Severino busca a salvação, mas toda a sua jornada é confrontada com vidas que se encerram. As últimas seis cenas apresentam o nascimento do filho de José, mestre carpina – franca alusão à tradição cristã.

João Cabral foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1968. No fim dos anos 1980, retornou ao Brasil. Sua mulher, Stella Maria Barbosa de Oliveira, morreu em 1986. Depois disso, ele se casa com a poeta Marly de Oliveira. Durante toda a sua vida sofreu com intermitentes dores de cabeça, tanto que a aspirina era um traço distintivo em sua vida e mote para alguns textos.

Ao final da vida, estava cego e deprimido. Avesso à religiosidade – mesmo que este universo seja latente em sua obra mais conhecida, que já ganhou mais de cem edições -, conta-se que, quando morreu, em 1999, estava de mãos com Marly, orando.

Principais Obras - Poesia 

Pedra do sono (1942) 

Os três mal-amados (1943) 

O engenheiro (1945) 

Psicologia da composição (1947) 

O cão sem plumas (1950) 

O rio (1954) 

Paisagens com figuras (1956) 

Morte e vida severina (1956) 

Uma faca só lâmina (1956) 

Quaderna (1960) 

Dois parlamentos (1961) 

Serial (1961) 

A educação pela pedra (1966) 

Museu de tudo (1975) 

A escola das facas (1980) 

Auto do frade (1984) 

Agrestes (1985) 

Crime na Calle Relator (1987) 

Sevilha Andando (1990)

Leia Mais

- A secura do sertão nos versos de João Cabral de Melo Neto. Revista IHU On-Line número 310, de 05-10-2009.

- “Meu Deus e meu conflito”. Teologia e literatura. Entrevista com Waldecy Tenório, publicada na revista IHU On-Line, número 251, de 17-03-2008.

- O filme e a poesia como dádiva e ressurreição. Entrevista com Waldecy Tenório, publicada na revista IHU On-Line, número 321, de 15-03-2010.

- João Cabral e jornalismo literário: "A literatura não é o terreno das facilidades e das liquidações". Entrevista especial com José Castello, publicada nas Notícias do Dia de 20-01-2008, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

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