Edição 498 | 28 Novembro 2016

O supercérebro da sociedade em Midiatização

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Os pesquisadores Pedro Gilberto Gomes e Elson Faxina lançam livro que debate a maneira pela qual a sociedade, imersa nas novas tecnologias de comunicação e conexão, conforma um novo modo de ser no mundo

Nossas sociedades, complexas e conectadas, formaram uma imensa rede cuja figura de linguagem pode ser retomada a partir de Joel Rosnay, já na década de 1970, que falava de um supercérebro, uma película pensante global. “Essa visão unificada é como um cérebro, com a diferença que, ao passo que as células do cérebro humano cumprem uma função química, não têm pensamento, as células do supercérebro são moléculas pensantes, porque são seres humanos”, analisa o professor doutor e pesquisador em Comunicação Pedro Gilberto Gomes, em entrevista concedida pessoalmente à IHU On-Line.

A entrevista é realizada no contexto da publicação do livro Midiatização: um novo modo de ser e viver em sociedade (São Paulo: Paulinas, 2016), lançado recentemente. O professor doutor e pesquisador em Comunicação Elson Faxina, da Universidade Federal do Paraná, que também é autor da obra e concedeu entrevista por e-mail, chama atenção para a emergência de uma nova ecologia social. “O grande desafio é entender que o ser humano de hoje é diferente do ser humano de ontem, e não apenas por uma evolução humana natural, mas essencialmente pelas conexões trazidas pelas novas tecnologias”, aponta.

Pedro Gilberto Gomes é Pró-reitor Acadêmico da Universidade do Vale do Rio dos Sinos - Unisinos. Possui graduação em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, especialização em Teologia pela Pontificia Universidad Católica de Santiago, mestrado e doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo - USP. Atualmente atua, também, como professor titular da Unisinos. É autor e organizador de diversos livros, dos quais destacamos 10 Perguntas para a produção de conhecimento em comunicação (São Leopoldo: Editora Unisinos, 2013), Da Igreja Eletrônica à sociedade em midiatização (São Paulo: Edições Paulinas, 2010) e Filosofia e ética da comunicação na midiatização da sociedade (São Leopoldo: Editora Unisinos, 2006).

Elson Faxina possui graduação em Comunicação Social - Habilitação Polivalente, pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná, mestrado em Ciências da Comunicação, na área de Cinema, Rádio e Televisão, pela ECA/USP e doutorado em Comunicação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos. É autor e organizador de diversas obras, entre elas Pensando com Darcy Ribeiro (São Paulo: Escola Nacional Florestan Fernandes, 2013), Pensando com Caio Prado Júnior (São Paulo: Escola Nacional Florestan Fernandes, 2013) e Pensando com Celso Furtado (São Paulo: Escola Nacional Florestan Fernandes, 2013).

Confira a entrevista. 

 

IHU On-Line – No que consiste o processo de Midiatização? 

Pedro Gilberto Gomes – O processo de midiatização é uma interpretação que fazemos hoje a partir do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Unisinos, em que procuramos olhar o conjunto de redes sociais, interações e meios de comunicação que criam uma espécie de novo modo de ser no mundo, uma nova ambiência. Isso significa um olhar mais amplo do que o de perceber os meios em suas singularidades. Há um conjunto de interconexões e inter-relações, o qual chamamos de sociedade em midiatização, onde as pessoas e principalmente as novas gerações já nascem sob este signo. Para os mais velhos, os imigrantes digitais, o telefone é somente um telefone, enquanto para as novas gerações é inimaginável uma vida sem tablet, sem Ipad, sem essas tecnologias. Então é bem mais amplo, não se trata de um estudo dos meios de comunicação individualmente, mas a concepção de que está havendo uma grande ambiência na sociedade contemporânea, aquilo que chamamos de o novo modo de ser e viver em sociedade.

Elson Faxina – Olhar e analisar os meios de comunicação, as mediações, os processos de recepção é fundamental, mas parece-nos insuficiente neste momento em que as novas tecnologias da comunicação não têm mais uma incidência apenas no processo informativo ou de entretenimento, mas criam novas práticas sociais para além dos conteúdos emitidos por esses meios. Criam, na realidade, novos modos de convivência, de estar junto, de gostar e desgostar, de “curtir” e “descurtir”... multiplicam infinitamente as comunidades, criam nova temporalidade, borram as distâncias. Por isso, trata-se do estudo desse novo ambiente complexo, possibilitado pelas novas tecnologias da comunicação, que chamamos de uma nova e grande ambiência social, envolvendo tanto os meios de comunicação — antigos e novos — quanto as novas maneiras de acessá-los, manuseá-los, anexá-los ao próprio fazer diário, que levam a um novo modo de ser — individual e em sociedade —, nova convivência humana, novas formas de cognição, de apreensão do conhecimento. 

 

IHU On-Line – E como se conforma esse novo modo de ser?

Pedro Gilberto Gomes – Primeiro, esse novo modo de ser não está fechado, está em processo. É difícil determinar o que será, mas o que se pode dizer é que as gerações mais novas começam a quebrar paradigmas que eram dados como totalmente estabelecidos, tais como a ideia de espaço e tempo. Por exemplo, as novas gerações interagem entre si via redes sociais como nós estamos conversando face a face. Nós, os antigos, achamos que esta é a verdadeira interação, ao passo que para os mais jovens não funciona assim, necessariamente, ou seja, interação é interação, sem hierarquias, seja via redes sociais ou pessoalmente. Às vezes dois irmãos estão em quartos diferentes e se falam por Skype, Facebook ou Whatsapp. Mesmo eu, que sou imigrante digital, faz anos que não escrevo uma carta, mas mando e-mail, falo por Skype etc. 

Essa é uma configuração que está mudando o espaço, e o conceito de presença e participação é questionado. A dimensão do tempo também está mudando. Por quê? Porque eu estou no Brasil e entro no Skype e posso conversar com alguém na Coreia, mesmo havendo 12 horas de diferença. O tempo se torna quase que instantâneo. Antigamente, mandava-se uma carta e ela levava quase seis meses para chegar ao destinatário, viajando de caravela, o que, às vezes, resultava que o remetente ou o destinatário pudessem estar mortos quando a carta chegasse ao destino. Mesmo na história da Companhia de Jesus, isso ocorreu com Santo Inácio de Loyola  e São Francisco Xavier  — este último já havia morrido quando chegaram cartas endereçadas a ele.

No caso do Facebook, se eu compartilho alguma coisa com algum amigo na rede social e isso aparece na timeline dele, seus contatos podem (re)compartilhar novamente a mensagem com outras pessoas. Mas, se de repente, eu decido que quero recolher essa mensagem, eu até posso recolher, mas o texto inicial já se foi e está na rede, porque ele tem vida própria, é exponencial. Tudo isso vai criando um modo distinto das pessoas agirem e se relacionarem. A mesma coisa podemos pensar sobre a participação, em que uma pessoa é tão presente a um evento se ela está lá pessoalmente ou se ela participa via Facebook, Twitter, YouTube etc. Não se trata de uma coisa fechada, estanque, senão de um fenômeno que estamos apenas começando a perceber.

Elson Faxina – Como disse Pedro Gilberto, o conceito de presença e participação está sendo questionado. Como as comunidades desterritorializadas ganharam espaço para se multiplicarem exponencialmente com essas tecnologias, a participação presencial tornou-se apenas uma forma de estar presente e não a única. Hoje integramos dezenas ou centenas de comunidades com milhares de pessoas com as quais nunca estivemos em contato pessoal, mas nos falamos com uma frequência que nem mesmo a maioria das comunidades geográficas possibilita. E mais, nos sentimos tão presentes quanto nossa presença é sentida e desejada por esses nossos interlocutores.

 

IHU On-Line – Trata-se de um processo em permanente devir...

Pedro Gilberto Gomes – Exatamente. Cada ponto de chegada é ponto de partida para uma nova caminhada. Além disso, como é uma sociedade em rede, cada ponto permite uma entrada. Vivemos em um tempo onde não existe um centro que determina valores, tais como a ética. Não existe um centro, é um rizoma, diria Deleuze.  As pessoas quando estão em uma rede, não percebem que estão imersas e para percebê-la é preciso olhá-la de cima, fazer um zoom out. A rede, a propósito, é um conjunto de “nadas” com limites e com nós, e quando se tiram os limites fica um buraco enorme. Para os chamados migrantes digitais há a tendência de fazer julgamentos, atribuindo valores, dizendo o que é bom ou o que é ruim. Esta experiência é a tentativa de aplicar à realidade os nossos critérios, só que para quem nasceu sob o signo da digitalidade os critérios são outros. É por isso que crianças de dois anos já sabem mexer em um tablet ou celular, porque fazer essas coisas tem o mesmo valor que aprender a andar de bicicleta e caminhar, pois como uma criança novinha não sabe nada, tudo o que ela aprende tem o mesmo valor.

 

IHU On-Line – O livro faz um recorrido histórico desde Platão  e os pós-platônicos até os autores da teoria da complexidade. Como esse processo ajuda a compreender a midiatização?

Pedro Gilberto Gomes – Algumas pessoas dizem que não acontece nada no mundo que um grego não tenha pensado ou falado. Esse livro é fruto de duas pesquisas, uma delas se debruçava sobre a questão da unicidade das coisas. Teilhard de Chardin  é uma grande inspiração nesse trabalho, e ele considera que a humanidade é uma reta em direção à noosfera, e tudo o que sobe converge, passando da história para a supra-história, que no caso dele, por ser cristão, era o próprio Cristo. A ideia de noosfera de Chardin vem do (grego) nous, que significa mente, aí analisamos quem trabalhou com o tema e percebemos que começava em Platão e em Plotino.  Evidentemente não pegamos todos os filósofos antigos, mas pegamos uma linha de alguns daqueles que foram platônicos ou neoplatônicos, inclusive na Idade Média. Essa escolha foi feita porque gostaríamos de ver a questão da complexidade e da visão unitária. 

Na ciência moderna o grande autor foi Aristóteles  com a taxonomia, com a divisão, de modo que o paradigma era ir dividindo e analisando as partes todas. Platão analisava a partir da unidade. É claro que não se pode simplesmente pegar as teses e fazer aplicação direta, mas podemos perceber aproximações. E é nesse sentido que o pensamento da complexidade converge, porque percebemos que o mundo como um todo é complexo e não podemos fazer superespecializações, porque elas não são capazes de dar a compreensão do todo. Na Comunicação é o seguinte: se várias pessoas fazem pesquisas e analisam os meios de forma individualizada — estudos só sobre TV, outros só sobre Internet, outros ainda só sobre jornal —, mesmo que somemos os resultados de cada pesquisa, eles não dão a totalidade. Porque a soma das partes é menor que o todo, porque o todo é a relação, o todo é complexo, daí nossa visita a Maturana,  Morin  e à teoria da complexidade.

 

IHU On-Line – De que maneira o conceito de noosfera de Teilhard de Chardin contribui metodologicamente para compreendermos a Midiatização como um novo modo de ser?

Pedro Gilberto Gomes – Trabalhamos ainda mais no livro, depois de ter visto a questão da midiatização na academia, centramo-nos no pensamento de dois pensadores que foram profetas de seu tempo e perceberam coisas que estamos vendo hoje, um deles é Teilhard de Chardin. O livro da Midiatização se centra a partir de uma perspectiva trazida pela obra de Chardin, chamada O Fênomeno Humano (São Paulo: Editora Cultrix, 1995), em que há uma visão a partir da complexidade e da consciência de que, quanto mais aumenta a população terrestre, mais a terra se comprime e cria-se uma película pensante. 

Outro autor é o McLuhan,  que fala da questão da aldeia global, começando pela ideia de tribalização, que foi o primeiro movimento dos humanos em função do gregarismo; depois fala da destribalização em função da escrita, que chega ao seu auge com a invenção do alfabeto, afinal não existe nada mais fragmentador e fragmentado que o alfabeto — essa radical divisão não está diretamente relacionada à escritura, porque sabemos que a escritura inicialmente era feita por meio de símbolos; e, por fim, com a eletricidade e o rádio, McLuhan passou a sustentar que estaríamos vivendo uma retribalização, mas não de pequenas aldeias, senão de âmbito global, isto é, voltamos à tribo não como um retorno saudosista, mas à tribo como aldeia global.

Em um primeiro momento após a publicação de suas obras, houve um boom do pensamento de McLuhan e depois ele começou a ser criticado, com a divisão da história dos meios de comunicação em quentes e frios, onde o meio quente não permite participação e o meio frio permite mais participação.  No século XXI, lendo seus textos, podemos perceber que várias de suas intuições estão muito presentes em nossas sociedades. Na base do pensamento de McLuhan estava Teilhard de Chardin, sobretudo no argumento de que os meios de comunicação são mais do que veículos de entretenimento e informação e são, também, extensões tecnológicas dos seres humanos que expressam a evolução do ser humano e da sociedade. Temos hoje uma “glotribalização”. Vale lembrar Joel Rosnay,  autor de O Homem simbiótico (Petrópolis: Vozes, 1997), publicado na década de 1970, que sustenta que a sociedade involucrada forma um supercérebro. Então toda essa visão unificada é como um cérebro, com a diferença que, ao passo que as células do cérebro humano cumprem uma função química, não têm pensamento, as células do supercérebro são moléculas pensantes, porque são seres humanos.

 

IHU On-Line – Como a ecologia comunicacional inaugura uma nova ecologia social?

Pedro Gilberto Gomes – Essa é a grande questão, o problema do novo modo de ser no mundo. A sociedade se estrutura a partir dessa nova realidade em que todas as coisas ficam unidas em relações de modo complexo, com inter-relações e interconexões, estabelecendo uma nova ambiência que tem incidência no modo de ser das pessoas.

Elson Faxina – É preciso entender que as tecnologias não são aparatos distantes, estanques, que funcionam de forma isolada da pessoa, elas são exatamente a concretização de uma ampliação desejada do ser humano, seja superando limites físicos, seja criando um novo tempo e um novo espaço. Essas tecnologias ampliam o alcance de meus braços, pernas e, fundamentalmente as da comunicação, eliminam as distâncias e outros obstáculos até então impostos. Isso significa viver num ambiente social completamente novo, em que as prioridades são alteradas porque os modos de estar-juntos mudaram. Nesse contexto, as maneiras de compreender e acessar a política, a economia, a cultura, a religião, de se informar e se entreter passam por enormes transformações. Por isso dizemos que vivemos em uma nova sociedade.  

 

IHU On-Line – De que ordem são os desafios para compreendermos o contexto social em que estamos inseridos, onde as tecnologias são, também, parte da constituição humana e de suas relações?

Elson Faxina – O grande desafio é entender que o ser humano de hoje é diferente do ser humano de ontem, e não apenas por uma evolução humana natural, mas essencialmente pelas conexões trazidas pelas novas tecnologias. Elas se tornaram as novas estradas, novos transportes, novas salas de estar, novos bares, novos lugares de reunião, novos espaços de aprendizagem e, não raramente, novos ombros de consolo, novos confessionários e divãs. Em decorrência, surge um novo ser humano, porque sonha, deseja, pensa, age e se realiza de forma diferente. O pensar desse novo ser humano não é mais um processo inicialmente intelectual para depois ir à prática, é um processo misto, como se pensássemos com os dedos. Se o que fiz não valeu, não ficou bom, deleto e refaço uma, duas, dez vezes se necessário, inclusive com menos tempo do que exigia o processo anterior para fazer a primeira vez. O refazimento é a prática do pensar hoje.

Portanto, mais do que incensar e até desejar o retorno de um ambiente do passado, num modo saudosista, quase idílico — aliás, que existe muito mais no sonho do passado do que no real vivido —, devemos estar imersos nesse novo modo de ser e estar no mundo, em que essas tecnologias se tornaram nossas extensões — as extensões de nossas nervuras, como dizia McLuhan — para então entender as novas formas de realização humana, de sonhos de felicidade.

 

IHU On-Line – De que maneira poderia ser possível resolver o paradoxo de que nossas sociedades evoluíram exponencialmente em termos tecnológicos, mas parecem continuar indigentes em termos éticos?

Elson Faxina – O livro não faz e nem se propõe a fazer essa análise comparativa entre esses dois fenômenos, que por ora parecem incongruentes, mas aponta os desafios de se compreender essa sociedade complexa que surge com essa evolução tecnológica. E um dos maiores desafios para esta nova sociedade é, necessariamente, a questão da ética. Quando as coisas tinham fronteiras mais claras, quando as comunidades, os lugares de imersão social eram palpáveis, quando o real e o virtual eram fenômenos completamente distintos, era mais fácil estabelecer fronteiras entre a ética e a não-ética. Mas agora que o concreto e o abstrato, o palpável e não palpável, o físico e o virtual se mesclam de forma exuberante, o ético e o não-ético parecem perder a dimensão que se tinha antes.

Novas Tecnologias e o problema ético

Fato é que as novas tecnologias fizeram eclodir os desejos de onipresença e de diferenciação individual que sempre estiveram em nós, dando vazão inclusive a certos comportamentos narcísicos. Hoje importa mais o ‘estar’ do que o ‘como estar’ na mídia, seja ela a tradicional, as redes sociais ou apenas as conectivas. O estar ausente da mídia gera um sentimento de ‘não ser’. Portanto, o não ser é muito pior do que o ser criticado. O antigo adágio "fale bem ou fale mal, mas fale de mim" nunca foi tão assertivo como agora.

Para esta nova sociedade a ética não tem mais a importância que tinha antes. Ela é uma possibilidade, um desejo, uma busca, mas...

Isso preocupa, mas não é o fim do mundo. O problema ético sempre foi o calcanhar de Aquiles da humanidade. Entendo que, com o aflorar desse novo ambiente social, em que tudo parece possível, ao nosso dispor, os primeiros desejos que afloram e ganham corpo são, naturalmente, os do instinto. Mas não tenho dúvidas de que os demais desejos — de realização social, de harmonia, de convivência, de vincular-se ao outro como forma de realização do eu etc. — virão na sequência. Ainda vivemos a primeira infância dessa nova sociedade, agora midiatizada ou em processo de midiatização. Será necessário esperar o aflorar da juventude desse novo modo de ser, e depois a maturidade, não sem antes passar pela adolescência. Esperar não significa aguardar, mas acreditar e se engajar para que isso aconteça. Se não nos dedicarmos a isso, corremos o risco de termos uma sociedade vivendo eternamente na primeira infância, povoada de ingenuidades e de conhecimentos meramente instintivos, superficiais.

Portanto, mais do que criticar esta nova sociedade, devemos arregaçar as mangas na busca de experiências éticas de fácil absorção, com práticas querigmáticas, ritualísticas, acessíveis. Até agora tratamos muito a ética como uma reflexão cuja compreensão estava ao alcance de poucos, distante dos menos letrados, embora quase sempre são eles os que têm os melhores exemplos de comportamento ético. Hoje precisamos aterrissar esse conceito às práticas cotidianas. Ou seja, assim como se acessa uma tecnologia “pensando com os dedos”, a compreensão do que é ético deverá seguir o mesmo preceito. Isto é, passar antes pela experiência pessoal e coletiva. Talvez esta seja uma marca deste novo ambiente social: a teoria vem depois da prática. Ou ainda, a teoria é resultado prático da experiência vivida que, ao ser revivida, é pensada.

Como vivemos em uma sociedade em que o parecer e o aparecer — usando conceitos de Michel Maffesoli,  em seu livro No fundo das aparências (Petrópolis: Vozes, 1996) — existem inclusive à revelia do ser e do existir, precisamos exercitar a prática da ética para além do ser estável e da existência concreta. Creio que a prática a ser acessada, experimentada aqui é o exercício da empatia, que é o alicerce do pensar ético.

 

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Elson Faxina – Embora o livro não se dedica a fazer nenhuma análise de processos comunicacionais específicos, ele nos permite entender o verdadeiro reboliço que essas novas tecnologias criam no interior das pessoas e das sociedades. Um exemplo é o excesso de informações que essas tecnologias da comunicação, especialmente as mídias sociais, produzem. Isso leva a um volume quase indigesto de dúvidas, gerando uma natural instabilidade individual e, portanto, social, clamando por explicações totalizantes, palpáveis, de fácil compreensão. De um modo geral, isso leva o indivíduo a filtrar, acessando apenas as informações que lhe dão estabilidade, aquelas que reforçam o que ele já pensa. E, nesse contexto, interessa menos a informação, as diferentes verdades sobre um mesmo fato, e mais a sua interpretação, o comentário, a opinião. 

O problema é que a opinião é um atalho perigoso para o conhecimento, porque ela pode prescindir de outras verdades, e esse é um terreno propício à intolerância, ao fascismo, o que é muito comum depois de grandes transformações epocais, como esta que estamos vivendo. Hoje não temos tempo de ler e refletir sobre tudo e, em decorrência, pensamos a partir de manchetes e não da análise dos conteúdos, dos diferentes pontos de vista. E um pensamento de manchete é naturalmente excludente, porque ele precisa fazer um recorte, se firmar em algo para chamar a atenção.

Um exemplo claro surge nesses tempos de impeachment, de operação Lava Jato, onde sobejam conclusões que não resistem a uma segunda linha de leitura, a um segundo argumento distinto. Em decorrência, estamos esgueirando os limites da intolerância, do fascismo, do clamor por justiceiros, mais do que por Justiça. Para usar a imagem que criei da primeira infância que estaríamos vivendo, é como se permitíssemos a essa criança brincar com faca. Mas, ainda assim, creio que a solução está mais em dialogar com essa “criança”, do que proibi-la de usar os artifícios em seu entorno.

Por isso, há que se dar tempo ao tempo. Esses momentos confusos, em que predominam os comportamentos de manada, levarão a um cansaço, porque em última instância cada ser humano não quer ser massa, quer ser indivíduo, reconhecido como único, e é nessa forma de “individuação” desejada que devemos canalizar nossas energias. Precisamos começar a apostar nessas tecnologias também como espaços de multiplicação de informações que a velha mídia sempre omitiu e, estranhamente, continua omitindo.■

Leia Mais

- Um projeto para o nosso tempo. Artigo de Pedro Gilberto Gomes publicado nas Notícias do Dia, de 19-3-2011, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU. 

- A nova versão do meio como mensagem. Entrevista especial como Pedro Gilberto Gomes publicada na revista IHU On-Line, nº 357, de 11-4-2011.   

- A tecnologia digital está colocando a humanidade num patamar distinto. Entrevista especial como Pedro Gilberto Gomes publicada na revista IHU On-Line, nº 289, de 13-4-2009.

- O impacto da midiatização na sociedade latino-americana. Entrevista especial com Pedro Gilberto Gomes publicada nas Notícias do Dia, de 30-8-2008, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU. 

- Processo de midiatização: da sociedade à Igreja. Entrevista especial com Pedro Gilberto Gomes publicada nas Notícias do Dia, de 18-11-2007, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

- Processos Midiáticos e Construção de Novas Religiosidades. Cadernos IHU ideias, edição nº 8, disponível.  

- Teologia e Comunicação: reflexões sobre o tema. Cadernos IHU ideias, edição nº 12.

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