Edição 498 | 28 Novembro 2016

A insistência da cordialidade

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João Vitor Santos

Robert Wegner observa como o homem cordial segue firme e forte no Brasil, numa sociedade hierárquica e que resiste a encarar e combater as desigualdades

O cientista social Robert Wegner destaca que Sérgio Buarque de Holanda escreve Raízes do Brasil no contexto de um Brasil dos anos 30, vindo de uma sociedade baseada em três pilares: latifúndio, monocultura e escravidão. A abolição da escravidão, em 1888, faz esses pilares balançarem, mas os efeitos só são sentidos no tempo de Sérgio. É quando, segundo Wegner, tem-se a impressão de que a democracia política ou democracia social chega para ficar. Mas é só impressão, na verdade é um problema ainda não resolvido. “No Estado Novo tivemos avanço nos direitos sociais sem democracia política e sem garantia dos direitos civis. Durante o governo JK, tivemos uma sociedade democrática, com direitos civis e direitos políticos, incapaz de realizar a reforma agrária defendida pela esquerda e pelos liberais”, contextualiza o cientista, na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line.

E, de lá para, analisa Wegner, persiste a dificuldade da sociedade brasileira em “conciliar liberdade e igualdade”. “Para Sérgio Buarque, o homem cordial não caiu do céu”, completa o professor, ao lembrar que é nesse caldo que emerge o conceito desse sujeito enraizado na hierarquização e pouco preocupado com as desigualdades. 

Na perspectiva de Wegner, o preço pelo fato de o Brasil não resolver esse problema é a perpetuação do homem cordial na sociedade e na política nacional. “O caso mais recente foi o do ministro do governo, Geddel Vieira, a justificar as pressões feitas sobre o ex-ministro da Cultura Marcelo Calero”, exemplifica. É assim, segundo Wegner, que o Brasil segue como “uma sociedade hierárquica, vale dizer, cordial”.

Robert Wegner é graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Paraná, realizou seu mestrado e doutorado em Sociologia pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro. É pesquisador da Casa de Oswaldo Cruz/Fundação Oswaldo Cruz. É professor e coordenador do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde - COC/Fiocruz. Na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC-Rio, é professor do Departamento de Ciências Sociais e do Departamento de História. 

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - No que a leitura de Raízes do Brasil pode inspirar a pensar o Brasil de 2016?

Robert Wegner - Raízes do Brasil nunca é o mesmo livro. Em primeiro lugar, em um sentido mais concreto, poucos livros passaram por tantas mudanças. Sérgio Buarque fez diversas modificações no texto desde a primeira edição, de 1936, até a 5ª edição, de 1969. Estas mudanças e os sentidos delas geram uma série de debates entre os estudiosos da obra de Sérgio Buarque de Holanda e os estudiosos dos intérpretes do Brasil em geral. Finalmente, no ano em que completa 80 anos, graças à iniciativa de Lilia Schwarcz e Pedro Monteiro, Raízes do Brasil ganhou uma edição crítica onde aparecem todas essas mudanças. 

Em segundo lugar, em sentido mais geral, iria dizer mais abstrato, Raízes do Brasil continua se modificando. Quer dizer, todos os livros mudam a partir da experiência concreta da leitura. Como os leitores mudam, os livros nunca são os mesmos. Mas acredito que vivenciamos isso com Raízes do Brasil de modo mais radical. Como ele foi escrito como um ensaio que fazia perguntas para as quais não dava respostas fechadas, seus comentários podem sempre ser articulados de novas maneiras, mais ou menos como acontece quando você balança um caleidoscópio.

 

IHU On-Line - Desde as perspectivas das Ciências Sociais, qual o legado de Raízes do Brasil?

Robert Wegner - Falando do ponto de vista estritamente conceitual, nenhum. Sérgio Buarque de Holanda foi o primeiro autor a citar a obra de Max Weber  no Brasil e o primeiro a utilizar tipos ideais weberianos para pensar o Brasil, como o “patrimonialismo”. Além de autores alemães, Sérgio conhecia bem sociólogos norte-americanos. Então ele articula conceitos de todos esses autores. 

Mas a verdadeira contribuição dele é menos conceitual do que a de propor o exercício de pensar o Brasil com Weber. Na tese clássica de Weber, nas suas origens, o capitalismo moderno tem uma afinidade eletiva com o protestantismo, que provocou uma revolução interior nos seus crentes. A partir da conversão, o protestante passa a fazer uma distinção entre o mundo exterior e o mundo interior, decide moldar o seu mundo interior a partir dos desígnios de deus e, a partir disso, transformar o mundo exterior a sua imagem e semelhança. A personalidade moldada a partir daí, na bigorna de deus, era a que estava apta para se submeter ao ideal de neutralidade científica acima dos sentimentos, transformar a natureza a partir da tecnologia produzida pelo homem e submeter-se a leis abstratas colocadas acima dos seus interesses. 

O “homem cordial”, para Sérgio Buarque, diz respeito a nós, brasileiros e brasileiras, que não passamos por aquela revolução interior protestante. E o livro é uma reflexão sobre o que seria da nossa sociedade, que tentava seguir o modelo do capitalismo ocidental, mas que seus indivíduos não estariam aptos a fazer ciência, não tinham interesse em transformar o mundo pelo trabalho e não viam porque deveriam se submeter a leis abstratas e abrir mão das suas vontades imediatas. Que tipo de capitalismo poderia surgir a partir daí?

 

IHU On-Line - Em sua obra, Holanda fala de um Brasil do século XIX que estaria em franca desintegração. Como compreender essa desintegração que analisa e em que medida é possível associar ao atual momento político, econômico e social do país?

Robert Wegner - Para Sérgio Buarque, toda a sociedade brasileira, sua economia e suas instituições políticas, estava baseada no tripé latifúndio, monocultura e escravidão. No decorrer do século XIX e especialmente com a abolição da escravidão, em 1888, esta sociedade não seria mais a mesma. Sérgio Buarque escreve na década de 1930, quando, para ele, estas mudanças estavam sendo vivenciadas de modo mais definitivo. Entre 1889 e 1930, durante a primeira república, a estrutura da sociedade brasileira não se modificou tanto, mas a partir de 1930, sim.

De lá para cá, parece que temos ou democracia política ou democracia social. Por exemplo, no Estado Novo  tivemos avanço nos direitos sociais sem democracia política e sem garantia dos direitos civis. Durante o governo JK  tivemos uma sociedade democrática, com direitos civis e direitos políticos, incapaz de realizar a reforma agrária defendida pela esquerda e pelos liberais. Nossa dificuldade é conciliar direitos civis, direitos políticos e direitos sociais. Dificuldade de conciliar liberdade e igualdade.

 

IHU On-Line - É possível afirmar que o homem cordial enfraquece as instituições democráticas? Por quê?

Robert Wegner - Sim. Conceitualmente, o homem cordial é aquele que não vê porque deveria se submeter a leis que valham para todos igualmente, a seguir normas burocráticas, a distinguir o bem público dos interesses privados. Não é possível que instituições democráticas funcionem desse modo.

 

IHU On-Line - Que homem cordial vive hoje no cenário político brasileiro?

Robert Wegner - O caso mais recente foi o do ministro do governo, Geddel Vieira , a justificar as pressões feitas sobre o ex-ministro da Cultura Marcelo Calero  para que intervisse na decisão técnica do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico - IPHAN e liberasse a construção de um prédio de 30 andares perto do centro histórico de Salvador. Em primeiro lugar, é claro que Geddel argumentou que estava agindo em nome de um bem geral, em nome do desenvolvimento econômico que beneficiaria a todos, mas trata o fato de que ele seria diretamente favorecido como um mero detalhe. Mais eloquente do que as suas palavras, é a naturalidade com que as pronuncia. Em segundo lugar, ele naturaliza o fato de ter tentado modificar uma decisão técnica de um órgão do Estado. 

Para além do momento político e do apoio que a grande imprensa tem dado ao governo Temer, chama a atenção para o fato de que ela não venha dando grande importância ao caso. É como se fosse esperado de um político que fizesse isso. A imprensa não abandonou o caso por causa dos desdobramentos, mas a questão em si, do uso da influência do cargo público para benefício privado, parece não ter sido suficiente, em si mesmo, para reprová-lo. 

Se fosse aprofundar o caso, no que diz respeito à imprensa, teria que diferenciar, por exemplo, como a Folha de S.Paulo  e O Globo têm tratado do caso.

 

IHU On-Line - Qual a importância de pensar na formação cultural para compreender movimentos políticos e econômicos de um país?

Robert Wegner - Este tipo de exercício tem sido muito criticado nas Ciências Sociais contemporâneas, que costuma ser chamado, pejorativamente, de “culturalismo”. Contudo, embora ache muito difícil fazer isso, considero uma tarefa fundamental, perceber como a cultura afeta a política e a economia e como estas modificam constantemente a cultura. 

O perigo é tratar a cultura como algo estanque. Um dos primeiros críticos de Raízes do Brasil e do conceito de homem cordial, Dante Moreira Leite , apontava para um paradoxo: o conceito de cultura veio se gestando desde fins do século XIX e foi bem sucedido no século XX substituindo as explicações racialistas e biologizantes. Contudo, para ele, o conceito de cultura pode se tornar tão estanque quanto o antigo conceito de cultura. É preciso ficar atento para não fazer isso. 

O próprio Sérgio Buarque chegou a dizer, diversas vezes, que caiu nessa armadilha. Mas podemos fazer uma leitura muito mais dinâmica do seu livro.

 

IHU On-Line - A partir de Raízes do Brasil, o que podemos analisar sobre as desigualdades do Brasil?

Robert Wegner - Para Sérgio Buarque, o homem cordial não caiu do céu. A explicação sociológica para sua origem era o mundo rural baseado no latifúndio, na escravidão e na monocultura, que gerou a grande família patriarcal, na qual o pai era o senhor que regia seus agregados, sua grande família, a partir dos seus interesses arraigados e das suas caprichosas vontades, a partir dos impulsos do coração. Esta era a gramática que todos, inclusive as mulheres, os filhos, escravos, homens livres aprendiam a falar. Ou seja, o que estruturava esta sociedade que dá origem à cordialidade é uma profunda desigualdade e a naturalização de hierarquias sociais.

Falar de cordialidade hoje, no mundo rural e no mundo urbano, nas classes médias, é falar na resistência à diminuição das desigualdades sociais. Não se deve reduzir a oposição aos governos do PT a isso, pois há muitos outros motivos para ser crítico aos anos Lula e Dilma: a corrupção mesmo e o modelo de desenvolvimento completamente desantenado de qualquer preocupação ambiental. Os governos do PT foram desenvolvimentistas com 50 anos de atraso. Contudo, um dos elementos que saltaram aos olhos ao observar a oposição aos governos petistas, seja nas manifestações de rua seja nas redes sociais, foi um incômodo muito grande à redução das desigualdades. Acho que isso explica um pouco o tom raivoso de uma parcela muito grande da oposição.

O Brasil é uma sociedade hierárquica, vale dizer, cordial. Sem o combate à desigualdade, que pode ser feita por outros governos e de outros modos, não é possível uma sociedade liberal e democrática.

 

IHU On-Line - O senhor já considerou Raízes do Brasil “Um ensaio entre o passado e o futuro” . Mas, no Brasil de hoje e iluminado pela obra, que futuro é possível vislumbrar?

Robert Wegner - Quando escrevi este ensaio sobre o ensaio, estava começando a vislumbrar a ideia que Sérgio Buarque estava escrevendo um livro dirigido às classes médias urbanas, pensando mais na dinâmica da sociedade do que na organização do Estado. É bom lembrar que, até a década de 1930, as interpretações do país eram formuladas sempre com a intenção de propor uma determinada forma de organização política. Casa Grande & Senzala , publicado por Gilberto Freyre  em 1933, rompe com isso. O livro de Sérgio, três anos depois, também. 

Contudo, diferentemente de Casa Grande & Senzala, Raízes do Brasil discute muito os movimentos políticos, desde o integralismo e o comunismo até o liberalismo, passando pelos católicos. No entanto, no fecho do livro, Sérgio Buarque não se define. As resenhas da época eram quase unânimes: Sérgio teria descrito magnificamente bem a psicologia social do brasileiro, como se dizia na época, mas teria falhado em apresentar uma solução política que se adequasse àquela. 

Meu palpite era que a intenção de Sérgio era a inversa. Não tratar o homem cordial como algo estanque e se perguntar qual arquitetura política poderia desenhar a sua morada. Mas se dirigir às classes médias urbanas dizendo mais ou menos assim: vocês provêm do mundo rural patriarcal, que é a fonte da cordialidade. Agora, diante das rápidas transformações pelas quais está passando o Brasil, o que vocês querem fazer daquilo que o mundo patriarcal fez de vocês? Os anos 1930 traziam esta oportunidade de redefinição. Ao mesmo tempo em que a descrevia, Sérgio Buarque estava colocando a cordialidade em questão. 

Mais tarde, Sérgio Buarque veio a dizer que o homem cordial era um defunto. Mas penso que o tiro de misericórdia só podia – ou só pode – ser dado por um ato político dos cidadãos. Por isso que Raízes do Brasil é um livro em aberto. Sua interpretação depende da nossa atitude no mundo da política. 

IHU On-Line - Deseja acrescentar algo?

Robert Wegner - A cordialidade continua boa para pensar o Brasil, mas há futuros possíveis para além dela.■

Leia Mais

- Raízes do Brasil: uma obra aberta que convida para o diálogo. Entrevista com Robert Wegner, publicada na revista IHU On-Line número 205, de 20-11-2006.

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