Edição 496 | 31 Outubro 2016

Um outro status de luto

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João Vitor Santos | Tradução Walter O. Schlupp

As sociólogas norte-americanas Jennifer Branstad e Nina Cesare estudam a morte em redes sociais e como, diante desse suporte, o luto é vivenciado

A experiência da morte de alguém conhecido mobiliza não só sentimentos, mas também ações. Quem já vivenciou essa experiência em comunidades menores, sabe que esses lugares literalmente param para realizar os atos fúnebres. E, depois, ainda há todos os ritos do estado de luto. Porém, a experiência “moderna” tem subvertido um pouco essa lógica. “Nos países ocidentais, especialmente nos Estados Unidos, a dor foi relegada à esfera privada, familiar, em meados do século XX”, pontuam as sociólogas Jennifer Branstad e Nina Cesare, ao lembrarem que a morte deixa de ser “experienciada” em comunidade e passa para uma esfera privada. “Especialistas sugeriam às pessoas próximas de quem faleceu que tocassem rapidamente em frente, sendo que discussões sobre morte e tristeza muitas vezes se limitavam a pequeno círculo de amigos íntimos e familiares”, completam.

Jennifer e Nina observam que as redes sociais parecem estar trazendo uma outra forma de vivenciar o luto. Não chega a ser um resgate da forma clássica de luto em comunidade, mas também faz a dor da perda extrapolar a esfera do privado, do pequeno círculo. “Mudanças sociais — como a introdução da mídia social — podem estar contribuindo para redirecionar o processamento social da morte. Podemos estar assistindo a uma abertura do conversar sobre a morte”, analisa a dupla, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. “Em nosso estudo, descobrimos que as pessoas compartilham emoções (como dor e tristeza) e também informações, inclusive artigos”.

Jennifer Branstad e Nina Cesare são sociólogas, doutorandas no Departamento de Sociologia da Universidade de Washington, Estados Unidos. Têm-se envolvido em uma série de projetos de pesquisa que usam os dados do Twitter para estudar o mundo social. Na sua atual pesquisa, analisaram 39 perfis do Twitter de pessoas falecidas e as compararam com outros, do Facebook, para estudar as conversas e o comportamento das pessoas diante da morte. O jornal El Pais, 28-08-2016, publicou uma reportagem sobre a pesquisa.


Confira a entrevista.


IHU On-Line- Como a morte aparece nas redes sociais?

Jennifer Branstad e Nina Cesare - A morte aparece de várias maneiras nas redes sociais. Pessoas podem fazer postagens sobre seus amigos falecidos e membros da família e compartilhar informações (incluindo artigos da imprensa) sobre pessoas falecidas que elas podem ou não ter conhecido fora da internet. Muitas vezes, o perfil do usuário falecido continua a existir após sua morte e pessoas continuam interagindo com esse perfil. A forma como a morte é reconhecida pode variar, dependendo da relação entre o sobrevivente e o falecido, e da estrutura da plataforma de mídia social utilizada.


IHU On-Line - De que forma as pessoas reagem à morte nas redes sociais?

Jennifer Branstad e Nina Cesare - Reações à morte variam consideravelmente. Trabalhos anteriores de Brubaker  e colegas constatam que os sobreviventes muitas vezes compartilham sentimentos muito pessoais e emocionalmente carregados sobre a morte e sobre a pessoa falecida na mídia social. Em nosso estudo, descobrimos que as pessoas compartilham emoções (como dor e tristeza), e também informações, inclusive artigos. Também constatamos que no Twitter alguns indivíduos comentam sobre a natureza da morte. Esses comentários são, por vezes, confirmações e julgamentos sobre a causa da morte (como condução imprudente) ou sobre a pessoa que morreu (como terroristas).

Em alguns casos, a morte de indivíduos desconhecidos recebe muita atenção e a pessoa falecida torna-se símbolo de um problema maior. Por exemplo, depois de um/a adolescente ser assassinado/a por alguém com doença mental, pessoas usaram o Twitter para comentar sua morte trágica e conclamar para a reforma da saúde mental.


IHU On-Line - É possível afirmar que as redes sociais proporcionam novas formas de se vivenciar o luto? Quais são as particularidades desse luto?

Jennifer Branstad e Nina Cesare - O processamento social da morte e do luto depende de época e lugar. Nos países ocidentais, especialmente nos Estados Unidos, a dor foi relegada à esfera privada, familiar, em meados do século XX. Nessa época, especialistas sugeriam às pessoas próximas de quem faleceu que tocassem rapidamente em frente, sendo que discussões sobre morte e tristeza muitas vezes se limitavam a pequeno círculo de amigos íntimos e familiares. Mudanças sociais — como a introdução da mídia social — podem estar contribuindo para redirecionar o processamento social da morte. Podemos estar assistindo a uma abertura do conversar sobre a morte. Não podemos dizer que a mídia social está necessariamente causando essa mudança, mas de alguma forma pode estar ajudando ou facilitando isso.


IHU On-Line - Como a morte nas redes sociais tensiona as esferas da vida pública e privada?

Jennifer Branstad e Nina Cesare - O grau de visibilidade da morte nos espaços de mídia social — se é um evento público ou privado — depende da mídia social em questão. Em nosso estudo, vemos luto no Facebook como uma experiência bastante íntima, uma vez que luto visível nesse site se limita à rede social de um usuário. Aviso de falecimento no Twitter pode ser uma experiência mais pública, uma vez que o Twitter funciona tanto como divulgação de informações quanto como espaço social.


IHU On-Line - Que associações e dissociações podemos fazer entre a comunicação das mortes em redes sociais e a editoria de obituário, tradicional, ainda praticada na imprensa?

Jennifer Branstad e Nina Cesare - Nosso estudo não procura traçar paralelos entre esses dois fenômenos. No entanto, podemos dizer que o luto público não é um fenômeno novo. Embora o século XX se caracterize por uma "privatização" da morte nas sociedades ocidentais, vemos exemplos de luto público aflorando de tempos em tempos. Obituários são exemplo disso. Em nosso artigo , percebemos o reconhecimento da morte em mídias sociais como apenas mais uma forma de luto público — embora num contexto novo, mais imediatamente interativo.


IHU On-Line - Há distinções, no tratamento da morte, entre Twitter e Facebook? Quais?

Jennifer Branstad e Nina Cesare - Pesquisas anteriores verificaram que as comunicações no Facebook e MySpace são muito íntimas e pessoais (vide estudos de Brubaker e colegas). Nesses sites, as pessoas mandam mensagens íntimas de luto, assim como suas memórias sobre o falecido. Muitas vezes, essas mensagens se dirigem diretamente à pessoa falecida (como "sinto sua falta").

Em nosso artigo, registramos tendências semelhantes no Twitter. Entretanto, constatamos também que no Twitter as pessoas expressam uma ampla gama de sentimentos e comentam diretamente sobre e para pessoas que não conheciam na vida real. Por causa da estrutura e das normas do Twitter, os laços não são necessariamente dirigidos ou retribuídos no Twitter, significando que qualquer pessoa pode dirigir um comentário para qualquer outra pessoa usando o símbolo @. Isso implica que os usuários que podem não estar envolvidos de alguma outra maneira numa conversa sobre a morte de um usuário podem ficar sabendo do falecimento tanto quanto oferecer sua reflexão sobre vida e legado do usuário.


IHU On-Line - A morte no chamado mundo real não ocorre ao mesmo tempo que a "morte" nas redes sociais. Que tensionamentos provoca essa vida virtual de quem já partiu?

Jennifer Branstad e Nina Cesare - Quando as pessoas são confrontadas com perfis de usuários falecidos, elas podem ser motivadas a pensar mais sobre eles e/ou expressar opiniões sobre eles. Nós reconhecemos que os eventos de vida são visíveis nas mídias sociais, mas nosso estudo não aborda diretamente esta associação.


IHU On-Line - O que ocorre quando uma pessoa morre e seu perfil continua ativo numa rede social?

Jennifer Branstad e Nina Cesare - Sites de mídia social variam em seus termos de uso sobre os usuários falecidos. Facebook  e Twitter  possuem páginas específicas com orientações sobre essa situação.■

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