Edição 496 | 31 Outubro 2016

Festa e prazer para memória de quem se foi

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João Vitor Santos

Rafael Villasenor olha para a morte desde a cultura mexicana e analisa a importância de se “aprender a morrer” hoje

A morte é “uma transcendência para o além”. Essa é a formulação mexicana para o fim da vida, segundo o doutor em Ciências da Religião Rafael Lopez Villasenor, que nasceu em Arandas, no México, e vive desde 1991 no Brasil. O curioso é compreender que essa concepção se dá a partir da cultura de povos originais e da inferência de colonizadores. “A origem se encontra nas tradições dos indígenas astecas, que acreditavam na transcendência da vida após a morte”, explica. Villasenor recorda que o catolicismo tentou, “mas não conseguiu mudar o passado pré-hispânico do culto aos mortos”. “A festa do dia dos falecidos passou a fazer parte da resistência indígena, sobretudo nas culturas asteca e maia destruídas pelos colonizadores espanhóis”, analisa. 

Assim, a marca da cultura mexicana, mesmo com predomínio do catolicismo, é a festividade em que as pessoas contam em memória aos entes e satirizam a própria morte. “Costuma-se visitar o cemitério e levar cestas para fazer piquenique, tequila para brindar pelos que partiram e até bandas de música típica”, destaca Villasenor, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Para ele, no México, joga-se “muito bem o sagrado e o profano, o medo e a ironia, através do sincretismo religioso do culto à morte”.

Entretanto, Villasenor reconhece que a “vida moderna” reconfigura as relações com a morte em diversas partes do mundo. É como se desaprendêssemos a morrer. “A morte nas metrópoles deixou de ter expressão social e familiar humanizada”, pontua. “Hoje, o homem morre em maior número em instituições hospitalares e outros centros de apoio a doentes e idosos, rodeado de tecnologia, mas em grande solidão afetiva. A morte perdeu o lugar físico e simbólico de sempre, isto é, a casa”, completa. Por isso, defende que “o ato de morrer faz parte da constante renovação da vida e é inerente à condição humana”.

Rafael Lopez Villasenor é mexicano, missionário Xaveriano. Possui doutorado em Ciências Sociais, com ênfase em Antropologia, e mestrado em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC-SP. Possui graduação em Teologia pelo Centro Universitário Assunção e graduação em Filosofia pelo Instituto de Filosofia Xaveriana. É assessor e membro do Centro de Estudos Bíblicos – CEBI. Integra, ainda, a equipe interdisciplinar de assessores da Conferência dos Religiosos do Brasil – CRB e coordena o Centro de Estudos Missionários Latino-Americano - CEMLA.

 

Confira a entrevista.


IHU On-Line - Como compreender a morte? Ela se dá como fim ou plenitude da vida?

Rafael Lopez Villasenor - Compreender e aceitar a morte é uma tarefa muito difícil, por tratar-se de uma realidade irreversível, mesmo que para nós cristãos seja a plenitude da vida. Ela sempre chega de surpresa, até mesmo quando o enfermo se encontra em um estado de saúde delicado, mas continua lutando pela vida. 

A morte pode ser compreendida como o fim da vida, como meta alcançada no sentido em que faz pensar na situação existencial que ocupamos neste mundo. Mas a morte é a marca do fim da nossa caminhada, é também o começo de uma nova realidade transcendente como plenitude. Pensar a morte como fim de tudo, para o cristão, é inaceitável. Entretanto, a única certeza que temos é que um dia todos iremos passar pela experiência da morte que não poderemos narrar, apenas vivenciar.

Quando a morte se anuncia na nossa vida ou dos seres da nossa intimidade através da doença incurável, ou nas premissas de uma sentença irreversível, ficamos abalados. Portanto, pensar a morte nos faz pensar a vida, não se pode pensar em viver sem lembrar em morrer, viver é morrer. Como se diz popularmente: "só morre quem está vivo". Nascer, crescer, viver e morrer fazem parte do processo biológico. Contudo, muitas vezes esquecemos que, biologicamente, estamos sempre morrendo, as células morrem, são eliminadas e surgem outras.


IHU On-Line - Que chave de leitura as religiões são capazes de fornecer para a construção de um entendimento sobre a morte? E no que o diálogo inter-religioso pode contribuir para a formulação do conceito de morte?

Rafael Lopez Villasenor – Nós humanos procuramos dar sentido à morte por meio de crenças, mitos e ritos religiosos. Gostaríamos de ser eternos neste mundo, mas sabemos que é impossível. Portanto, nos vários rituais fúnebres sempre fica expressa a função das religiões de aliviar a dor e fortalecer a esperança. Em algumas religiões é destacado o sentimento de perda, mas em outras é celebrada com alegria a vida após a morte. 

É difícil dizer que o diálogo inter-religioso pode contribuir para formular um conceito da vida pós-morte, pois existem diversas concepções da morte nas religiões. Assinalamos de forma breve algumas formas de encarar a morte: 

 

Cristianismo

Como cristãos, acreditamos no Deus da Vida e vemos a morte como a passagem para a Vida Eterna. Ela não é uma tragédia, porém a plenitude da vida. O próprio Jesus afirma: "Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, mesmo que esteja morto, viverá". São palavras que nos dão a certeza de que a morte não é fim de tudo, que morrer não é um drama, nem um tabu, mas é viver junto com Deus. 

 

Judaísmo

Para os judeus, existe a sobrevivência do espírito após o fim desta vida. Porém, não oferece uma posição bem clara e única da vida após a morte, permitindo várias interpretações. 

 

Islamismo

No islamismo, Alá criou o mundo e trará de volta à vida todos os mortos no último dia. As pessoas serão julgadas e uma nova vida começará depois da avaliação divina. Esta vida terrena é a preparação para o céu ou para o inferno, dependendo do julgamento divino que o ser humano tiver.

 

Religiões de matrizes africanas

Nas religiões de matrizes africanas, o morto é conduzido espiritualmente a viver junto aos ancestrais. Assim, a morte é uma manifestação espiritual. A vida vai continuar entre as divindades africanas. O nascimento e a morte são momentos sagrados, que marcam a passagem de um estado a outro.

 

Espiritismo

Entre os espíritas existe a crença de que todos os seres humanos são espíritos reencarnados para evoluir. A morte é a passagem do espírito do mundo físico para a sua verdadeira vida no mundo espiritual. E mesmo no paraíso o espírito está em constante evolução para o aperfeiçoamento. 

 

Budismo

O Budismo prega a reencarnação. Após a morte, o espírito volta em outros corpos, subindo ou descendo na escala dos seres vivos, tanto homens como animais, de acordo com a própria conduta. Por isso a doutrina ensina a evitar o mal, praticar o bem e purificar o pensamento. 

 

Hinduísmo

Também para o Hinduísmo a vida após a morte é centrada na reencarnação. O espírito ligado a este mundo por meio de pensamentos, palavras e atitudes. Quando o corpo morre ocorre a transmigração. O espírito passa para o corpo de outra pessoa ou para um animal, vai depender das ações, pois a toda ação corresponde uma reação.

Portanto, vemos que, cristãos, islâmicos e judeus acreditam na ressurreição após a morte. Os espíritas, budistas e hinduístas creem na reencarnação como processo de evolução ou de purificação. O que encontramos em comum nas diferentes religiões é que o homem encara a morte como uma passagem de um mundo para outro, de uma realidade material para uma espiritual.


IHU On-Line - No México, os rituais da morte lembram uma festa. Como compreender a forma com que essa cultura encara a morte e faz a memória de seus mortos?

Rafael Lopez Villasenor - O dia dos mortos é vivido no México como uma festa com muita alegria, muitas flores, comida, e caveiras sorridentes de açúcar. A morte nesta festa é ridicularizada e celebrada com músicas, bebidas alcoólicas e rezas. Marca o calendário festivo do imaginário da cultura popular, celebrada de maneira especial e única. Mistura muito bem o sagrado e o profano, o medo e a ironia, através do sincretismo religioso do culto à morte. 

Octavio Paz , no livro O labirinto da solidão , vê nestas manifestações culturais que a vida é a morte e que a morte é a vida. Quem pensa a morte, celebra e pensa também a vida. Não é por acaso que a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – Unesco, em 2003, reconheceu a celebração do dia dos mortos na cultura mexicana como Patrimônio Cultural e Imaterial da Humanidade. 

 

Memória aos mortos

Entre as muitas tradições do dia dos mortos, há um destaque especial para os altares com oferendas aos mortos. É uma das formas de fazer memória aos mortos. Esses altares são preparados nas casas das famílias e podem variar de região para região, mas com uma estrutura parecida. Iluminam a memória dos familiares e amigos que os falecidos deixaram. No altar, colocam as fotografias dos falecidos com velas para cada alma. As flores sempre ocupam um lugar especial representando a brevidade da vida. Não podem faltar as toalhas bordadas, as velas, o incenso, a comida e as bebidas. Sobre o altar, além das imagens da Virgem de Guadalupe  e de santos, pode haver fotos, instrumentos de trabalhos e de diversão dos falecidos.

Também a Igreja Católica, no dia dos falecidos, oferece missas especiais para os fiéis defuntos nos cemitérios e nas igrejas. Este dia é considerado particular para visitar os cemitérios, para levar flores, velas, alimentos e passar o dia no campo santo.


IHU On-Line - Em que medida o sincretismo religioso mexicano pode ser compreendido a partir do ícone de La Santa Muerte ? E como a cultura mexicana se constitui a partir dessa relação entre crenças católicas e mesoamericanas?

Rafael Lopez Villasenor - Em alguns lugares do território mexicano existe a faceta obscura e ambígua da morte, conhecida como o culto à Santa Muerte, figura "sagrada" e venerada, resultado do sincretismo entre crenças católicas e tradições indígenas. Tem muitas representações, mas uma das mais comuns e sincrética é com a corporatura esquelética, vestida com um longo manto e carregando um ou mais objetos. O manto costuma ser branco, mas representações da figura variam de pessoa a pessoa, de acordo com o pedido do devoto ou do ritual a ser apresentado.

Este culto sincrético era clandestino até poucos anos atrás. As orações, rezas e outros rituais eram feitos de maneira privada em casa, mas nos últimos anos a veneração tornou-se pública, sobretudo na Cidade do México.  Os devotos fazem altares e oferecem velas, frutas e tequila em troca da realização de seus pedidos e desejos relacionados com amor, emprego e saúde.

Para algumas pessoas, a Santa Muerte é considerada como o anjo da morte, carregando uma gadanha  e uma balança. Ela também pode estar vestida com um manto vermelho e uma coroa dourada. Nesta forma, muitas pessoas a veem como uma variação sincrética de Nossa Senhora de Guadalupe. Inclusive, sua festa é o 15 de agosto, festividade oficial da Igreja Católica da Assunção de Maria .

 

Culto marginalizado

O culto à Santa Muerte está presente em pequenos setores da sociedade mexicana, sobretudo na classe mais popular, trabalhadora e urbana. Embora, nos últimos anos, em decorrência de imigrações, também se estendeu aos Estados Unidos. A devoção atrai os indivíduos que estão em situações extremamente difíceis, sem esperança, mas também existe esta devoção por parte de pequenos setores de profissionais da classe média e até mesmo de pessoas ricas. Alguns dos devotos estão associados com o crime organizado, ligado aos cartéis do narcotráfico. A Igreja Católica repudia e condena este tipo de devoção obscura. Ainda considera o culto ofensivo e satânico, mas a maioria de seus seguidores que dizem ser católicos não se importam. 


IHU On-Line - Como a ideia de ressurreição se constitui na cultura popular mexicana?

Rafael Lopez Villasenor - Não diria que se trata de uma ideia de ressurreição, mas da visão da morte como transcendência para o além. A origem se encontra nas tradições dos indígenas astecas, que acreditavam na transcendência da vida após a morte, ponderada através dos sacrifícios humanos, que tinham sua importância religiosa, política e social dentro da cultura Asteca. Os sacrifícios aconteciam para a renovação da energia cósmica divina, pois os deuses deram a vida ao homem, sacrificando a sua própria vida. 

Nos sacríficios para a cosmovisão mesoamericana, o sangue representava a vida, como o líquido que sacia a sede dos deuses. Ou melhor, o Sol, sendo ele mesmo parcialmente constituído de sangue dos deuses. Assim como a água, o sangue era necessário à vida na terra e à vida celestial. Se isso não ocorresse, o Sol não mais se moveria pelo céu, a terra ficaria escura e fria, assim todas as criaturas pereceriam. Logo, os sacrifícios representavam a continuidade da vida e justificavam as guerras, pois é através delas que se conseguem os sacrifícios mais valiosos: os mais fortes prisioneiros de guerra.

Os enterros indígenas eram acompanhados de oferendas com dois tipos de objetos: os que o morto havia utilizado em vida e os que poderia precisar em sua viagem ao submundo dos mortos. Desta maneira, a elaboração de objetos funerários era diversificada, de acordo com o tipo de morte e da personalidade do defunto. Os mortos eram enterrados com as roupas e joias que tinham usado em vida. As cinzas dos que eram queimados se introduziam em panelas de barro e nelas ficavam as joias como propriedade do falecido. 

 

A tradição hoje

No México atual, as tradições não desapareceram, apenas foram ressignificadas. Costuma-se visitar o cemitério e levar cestas para fazer piquenique, tequila para brindar pelos que partiram e até bandas de música típica como o "mariachi"  que cantam homenageando os mortos e satirizando a morte. Ainda hoje, algumas pessoas costumam deixar bebidas alcoólicas no panteão . Acreditam que à noite os mortos podem sair dos túmulos e beber tequila ou outras bebidas, junto com a comida que lhes foi ofertada pelos familiares. Inclusive, o dia dos mortos é um dia de festa e prazer. Por isso é fundamental a música, a comida, as flores, as bebidas que ajudam a alegrar a data dos que partiram para outra vida.

Enfim, no dia dos mortos as pessoas levam a refeição para os mortos, onde pode se passar o dia lavando os túmulos e decorando-os com muitas flores. Lá se reza, se chora, se canta e, eventualmente, se embriagam, porque, afinal, a morte é um fenômeno inseparável da vida. A melhor forma de enfrentar a morte, para o mexicano, é rir e brincar com ela como parte da vida.


IHU On-Line - Qual o papel da cultura popular – em sentido amplo - na constituição das interfaces da morte? É possível afirmar que age como uma hermenêutica dos conceitos religiosos acerca da morte?

Rafael Lopez Villasenor - Ao longo da história, o catolicismo tentou, mas não conseguiu mudar o passado pré-hispânico do culto aos mortos. Apenas através do tempo fomentou-se uma nova forma religiosa, criando um sincretismo religioso. Por mais que os missionários católicos tenham tentado acabar com os costumes indígenas do culto aos mortos, somente conseguiram modificar estas tradições e transferir a celebração para a data da festa cristã do dia de "todos os santos" e dos "fiéis defuntos". Mas, a tradição da comemoração dos mortos permaneceu mais ou menos semelhante ao costume dos povos indígenas. 

Como parte da herança cultural das tradições, a população foi dando cada vez mais destaque à festividade do dia dos mortos, pensada de forma transcendente e como parte de uma hermenêutica para o catolicismo. Muito embora isso ocorra de forma sincrética, que mistura o sagrado e o profano, a cultura indígena e o catolicismo popular. Assim, acaba criando várias interfaces da celebração do dia dos mortos.

 

Resistência indígena

A festa do dia dos falecidos, com o tempo, passou a fazer parte da resistência indígena, das raízes nativas, sobretudo nas culturas asteca e maia destruídas, em grande parte, pelos colonizadores espanhóis. Atualmente, é a festa que a morte invade a vida e a vida invade a morte, como dois movimentos do mesmo evento que dão sentido à existência humana.


IHU On-Line - Como o senhor analisa a forma como a cultura popular brasileira encara a morte e faz a memória dos seus mortos, tendo em perspectiva a cultura mexicana?

Rafael Lopez Villasenor - No Brasil não existe o folclore cultural indígena da morte. Aqui há o costume de rezar missa no sétimo dia para o falecido, que não é prática seguida em outros países, nem consta no missal romano católico  ou no ofício de defuntos . A origem da missa de sétimo dia, historicamente, vem dos tempos da colônia quando existiam dificuldades de deslocação até o velório e, dadas as condições climáticas tropicais, o falecido devia ser enterrado em até 24 horas. Então, para celebrar a memória do ente falecido e dar tempo de avisar a todos os familiares e amigos distantes, marcava-se uma missa uma semana após a morte para estes conseguirem chegar. 

 

Morte no sertão

Na tradição do sertão nordestino até o século XX, cultivou-se a crença de que se morrer uma criança, esta torna-se anjo. As mães faziam a conta de rebentos, somavam filhos e anjinhos. Também as mães não deviam chorar a morte da criança, pois poderia fazer com que as lágrimas molhassem as asas do anjo. Anjos com asas molhadas não podem voar. 

Inclusive, na literatura brasileira encontramos o livro de João Cabral de Melo Neto , com o título Morte e Vida Severina , publicado em 1955, que faz alusão ao sofrimento, por meio do poema dramático, que relata a dura trajetória do retirante sertanejo em busca de uma vida mais digna na capital pernambucana. 

 

Distinções mexicanas

No México, por sua vez, onde a maioria dos habitantes são católicos, existe uma variedade de cerimônias sincréticas em torno da morte, que misturam o sagrado e o profano de maneira original e irônica. A festa do dia dos mortos marca o calendário festivo do imaginário da cultura popular mexicana, conservando tradições regionais próprias das culturas tradicionais de cada lugar e família. Recordam-se e homenageiam-se os entes queridos que passaram para "outra vida". Como destaquei anteriormente, nesta data, a morte é ridicularizada em charges, caveiras de açúcar com nomes, pão dos mortos (pão doce de polvilho), músicas, bebidas alcoólicas, entre outras formas de ser celebrada. 

A celebração da festividade varia de região para região, mas tem uma estrutura parecida. Em todas as partes do território mexicano é uma festa popular, onde o povo se diverte de maneira original com a ideia da morte. É uma festividade muito colorida, celebrada com uma alegria irônica, com oferendas de comidas, flores, bebidas alcoólicas, incenso, velas e rezas. Não podem faltar as caveiras sorridentes de açúcar com nome das pessoas, o pão dos mortos , as bandeirinhas de papel colorido que decoram ruas e cemitérios para celebrar a vida que invade a morte. 


IHU On-Line - Como o senhor observa as experiências e crenças dos “sem religião” com relação à morte?

Rafael Lopez Villasenor - É bom esclarecer que ser "sem religião" no Brasil não significa não acreditar em Deus ou na transcendência, mas ter uma religiosidade própria de vários elementos e fragmentos religiosos de maneira sincrética, independentemente de qualquer instituição religiosa. Não ter religião oficialmente não significa necessariamente ser ateu ou arreligioso, mas tem o sentido de abandonar a instituição religiosa e às vezes criar um sincretismo religioso de acordo com as necessidades subjetivas. A maioria dos "sem religião" acredita na transcendência e na vida após a morte como um novo começo.

 

Faces dos “sem religião”

De acordo com nossa pesquisa, existem vários tipos de "sem religião". Numa primeira classificação que podemos fazer, estão os "sem religião" sincréticos. São aqueles com uma crença que se desdobra e se diversifica com uma autonomia para circular por várias tradições religiosas de maneira livre, sem necessidade de vincular-se a nenhuma delas; procuram-se elementos religiosos subjetivos.

Uma segunda categoria são os "sem religião" em trânsito religioso, que se movimentam livremente questionando as instituições religiosas e os novos modelos institucionais que derivam da interpenetração de ideias, crenças, doutrinas, o que promove a circulação religiosa ou o afastamento das instituições.

Outra classificação são os "sem religião" céticos, que se desvinculam da instituição religiosa. Essa desvinculação ocorre ao longo de sucessivas experiências de mobilidade religiosa e frustrações. O ceticismo não tem uma vinculação direta com a ausência de um sistema de crenças, mas com a perda da religiosidade.

Encontramos também os "sem religião" agnósticos, que têm certa dificuldade para a compreensão da existência de Deus, por acreditarem que tal entidade seja inacessível ou incognoscível por parte do entendimento humano, na medida em que ultrapassa o método empírico de "comprovação científica", o que não impede que se possa acreditar em Deus. 

Finalmente, estão os "sem religião" ateus. Eles são adeptos ou não de teorias marxistas, que questionam de maneira racional e empírica a existência de Deus.


IHU On-Line - A vida nas grandes metrópoles, a partir da modernidade, da explosão tecnológica, traz a perspectiva pragmática para várias esferas da vida. Em que medida, a partir desse pragmatismo, é possível se afirmar que o luto e a experiência da morte são abreviados? Quais as consequências?

Rafael Lopez Villasenor - Atualmente, a morte nas metrópoles deixou de ter expressão social e familiar humanizada, como morrer em casa, acompanhado pela família, amigos, e assistido pelos últimos ritos religiosos, como acontecia há alguns anos. Hoje, o homem morre em maior número em instituições hospitalares e outros centros de apoio a doentes e idosos, rodeado de tecnologia, mas em grande solidão afetiva. A morte perdeu o lugar físico e simbólico de sempre, isto é, a casa. Ela tornou-se estranha, perdeu o lugar natural de sempre, a vida, a vida do próprio ser, a vida da própria família. Perdeu o seu lugar na imensa teia de relações que constituem a vida. Isto porque a morte não cabe nos conceitos de êxito, de sucesso e de felicidade da modernidade, a convertendo em um tabu. A morte é vista como uma derrota para a ciência. 

A modernidade, cheia de tecnologias, tenta levar-nos a esquecer de que ao nascermos passaremos por momentos de alegrias e tristezas, de saúde e de doença, de sofrimento e conforto, até o dia em que morreremos. Sabemos, mas não aceitamos que vivemos na espera de morrer, porque se a morte na modernidade não tem sentido, também a vida não faz sentido. Parece trágica a realidade finita: cada dia vivido é um dia morrido, ou cada dia a mais é um dia a menos de vida!

A filosofia do mundo moderno pretende suprimir a morte, a dor, o envelhecimento e o luto do ente que partiu. Para Edgar Morin , o homem é um ser para a morte. Para o autor, o sentimento da morte é de uma ruptura, de um mal, de um desastre, isto é, sentimento traumático. Consciência de um vazio, de um nada, que se abre onde havia plenitude individual.


IHU On-Line – E, em particular, para o senhor, o que é a morte?

Rafael Lopez Villasenor - A morte não é apenas um evento da biologia ou uma derrota para a ciência. Ela é um processo, enquanto se vive se morre. A morte é uma presença a cada instante da vida, e não apenas um acontecimento que vem ao encontro de modo extemporâneo, decretando o fim de tudo. O ser humano como um ser finito que deve aprender a morrer. A morte mostra quanto o ser humano é frágil, pequeno e revela o limite da natureza humana.

O ato de morrer faz parte da constante renovação da vida e é inerente à condição humana, é algo que o ser humano sempre teve dificuldade em aceitar. A morte, assim como a doença e o sofrimento, são parte integrante da condição humana, somos seres feitos para morrer. Enquanto se vive, morre-se, o que significa que vive-se a morte, cada dia mais de vida é um dia a menos e um dia mais perto da finitude, é uma presença a cada instante da vida, e não apenas um acontecimento que lhe vem ao encontro de modo extemporâneo, declarando-lhe um fim.


IHU On-Line - Deseja acrescentar algo?

Rafael Lopez Villasenor - Gostaria apenas de concluir dizendo que, apesar de que nos últimos anos a vida é mais longa, se vive mais, parece ser subjetivamente muito breve e sentimos que passa muito depressa. É uma vida repleta de ocupações e preocupações materiais, diante das quais a sociedade exige que respondamos prontamente. Até que um dia, inesperadamente, nos chega a própria morte. Infelizmente, a vida e a morte são companheiras inseparáveis, mistérios inesgotáveis.■

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