Edição 496 | 31 Outubro 2016

Católicos e protestantes, significados de um processo de (re)aproximação

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Ricardo Machado

Vítor Westhelle faz uma revisão do contexto histórico da Reforma Protestante e analisa seus impactos nas sociedades contemporâneas

O protestantismo emerge no contexto do Renascimento, também, como uma forma de resistência e como uma espécie de decreto final às heresias por meio do retorno profundo ao evangelho. “Ora, embora para os reformadores este movimento ad fontes era voltar às escrituras, já de início a volta da tradução latina da bíblia para os originais grego e hebraico revelou níveis de originalidade que levaram não a um fechamento de sentido, mas pelo contrário, o sentido das fontes era cada vez mais complexo e variado”, avalia Vítor Westhelle em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

Os movimentos de aproximação entre a Igreja Católica e a Igreja Protestante, que vêm sendo realizados, pelo menos, desde o Concílio Vaticano II, têm nos recentes movimentos do Papa Francisco e da Arcebispa Antje Jackelén, passos importantes no processo de reaproximação. “Estes gestos são de alto valor simbólico enquanto lideranças das igrejas, que institucionalmente definiram-se como propostas eclesiais distintas, indicam que buscam o mesmo fim. O significado é que os representantes destas instituições se encontram como que para abonar o que já há muito acontece a nível de base no ecumenismo cotidiano que ocorre nas comunidades locais”, sustenta o professor.

Vítor Westhelle é graduado em Teologia pela Escola Superior de Teologia – EST, de São Leopoldo, e mestre e doutor em Teologia pela Lutheran School of Theology at Chicago – LSTC. Leciona Teologia Sistemática na LSTC e na EST, e participa em comissões editoriais de oito publicações de três continentes. Suas pesquisas concentram-se sobre a teologia contemporânea a partir de uma perspectiva latino-americana.

 

Confira a entrevista.


IHU On-Line - O que significou há quase 500 anos a divisão dos cristãos em católicos e protestantes?

Vítor Westhelle - O evento foi traumático ao se desdobrar no confronto de diferentes forças políticas, eclesiais e econômicas (devemos lembrar que a Reforma acontece no surgimento e consolidação do capitalismo financeiro). E por não ter sido um evento simplesmente “religioso” teve as repercussões que até hoje ressoam, tanto na política quanto na economia e na igreja. Se na política a repercussão foi que não havia mais direitos políticos herdados e inalienáveis (nobreza), na economia foi de que esta tinha seu âmbito de autonomia (o livre comércio) e, finalmente, na igreja a Reforma anunciou e representou o fim das heresias, argumentos eram julgados pela consciência e pela razão em base nas escrituras que qualquer pessoa tinha o direito de interpretar.


IHU On-Line - Quais são os dons da Reforma Protestante?

Vítor Westhelle - Há duas maneiras de definir o que “dom” significa neste contexto. Uma é a tendência separatista que surge com a Reforma e que entendeu estes “dons” de maneira variada, que nos traz tanto a piedade privada, que é uma forma de misticismo protestante, indo ao outro extremo até ao “evangelho da prosperidade”. Estes seriam extremos da interpretação do “Espírito do Capitalismo” de Max Weber.  Já a outra maneira de entender “dons” nos remete à interpretação da Reforma como um movimento de renovação da própria igreja cristã. Esta tendência também comporta um grande espectro. Este se estende desde entender-se como uma voz de protesto sempre alerta e nunca adaptada ao status quo, até no outro extremo em que se argumenta que o protestantismo representa dentro do catolicismo o que representa uma ordem religiosa, como Jesuítas, Dominicanos, Xaverianos, Verbitas etc. Esta última versão tem sido defendida, ao meu conhecimento, apenas em meios Luteranos. Assim há muitos “dons” e maneiras de entendê-los, a questão é saber se o espírito é o mesmo, como alerta o Apóstolo Paulo.

 

IHU On-Line – De que maneira a Reforma Protestante abriu caminho para a emergência de outras confissões religiosas cristãs? 

Vítor Westhelle - O protestantismo resultou no fim das heresias porque surgiu concomitantemente com o Renascimento e sua insistência de voltar às fontes (ad fontes) para estabelecer critérios de autoridade. Ora, embora para os reformadores este movimento ad fontes era voltar às escrituras, já de início a volta da tradução latina da bíblia para os originais grego e hebraico revelou níveis de originalidade que levaram não a um fechamento de sentido, mas pelo contrário, o sentido das fontes era cada vez mais complexo e variado. Esta volta às fontes exigia decisões que precisavam de argumento no fórum do exercício da razão. Isto, é claro, levou tanto à humildade no fazer asserções teológicas, como também a ousadas interpretações que a liberdade política, que a mesma Reforma protagonizou e o livre mercado proporcionou. Daí porque o protestantismo tem criado críticos dos mais audazes e inovadores e tem escorado os fundamentalismos que são sustentados política e economicamente por quem decide onde o movimento ad fontes termina, isto é, alguém tem a autoridade e o poder de dizer de qual bebedouro é permitido beber. Isto agora é determinado por forças políticas e, sobretudo, econômicas que a Reforma do século XVI desatrelou da igreja.


IHU On-Line - Passados cinco séculos, o que significa a reaproximação entre as duas tradições? 

Vítor Westhelle - Há dois anos, em um gesto inusitado o Papa Francisco  recebeu a Arcebispa Antje Jackelén,  da maior igreja luterana do mundo, a Igreja da Suécia. Agora, neste dia 31 de outubro, na catedral de Lund , haverá uma cerimônia ecumênica seguida de um evento público na Arena de Malmö , cidade próxima a Lund, na Suécia, com a participação do Papa e da Arcebispa. Estes gestos são de alto valor simbólico enquanto lideranças das igrejas, que institucionalmente definiram-se como propostas eclesiais distintas, e indicam que buscam o mesmo fim. O significado é que os representantes destas instituições se encontram como que para abonar o que já há muito acontece a nível de base no ecumenismo cotidiano que ocorre nas comunidades locais.


IHU On-Line – Que movimentos de aproximação foram realizados nas últimas décadas entre as Igrejas Católica e Protestante?

Vítor Westhelle - Movimentos de aproximação acontecem já desde os tempos da Reforma. Por exemplo, já 20 anos depois de Lutero  afixar as 95 Teses  que provocaram o movimento da Reforma, seu mais próximo companheiro e colaborador, Felipe Melanchthon,  ao assinar um documento reformatório, ainda o fez com a ressalva de que se submeteria ao poder papal para que este viesse a aceitar as bases teológicas do movimento protestante. Mas institucionalmente não houve grandes avanços até o Concílio Vaticano II (1962-1965), que marcou uma abertura da Igreja de Roma ao mundo contemporâneo (aggiornamento) e a realidade da pluralidade eclesial. 

Desde então significativos avanços teológicos foram logrados principalmente pela participação católica-romana na Comissão de Fé e Constituição, do Conselho Mundial de Igrejas (do qual a Igreja Católica não faz parte). Com a participação da Igreja de Roma produziram-se documentos seminais para relações ecumênicas, como o Documento de Lima (Batismo, Eucaristia e Ministério, 1982). Mas nada se compara à “Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação”  firmada pelo Secretariado Para Unidade dos Cristãos do Vaticano e a Federação Luterana Mundial em 1999. Este documento calça um caminho em que obstáculos que pareciam intransponíveis foram removidos.


IHU On-Line – Na sua avaliação, o que explicaria a não universalização do Luteranismo no Brasil e no mundo?

Vítor Westhelle - Entre as grandes famílias confessionais, católicos, presbiterianos, metodistas, batistas, luteranos, anglicanos etc., são apenas os luteranos cuja maioria ainda não se encontra no terceiro mundo. Mas já são perto de 50% e em pouco tempo a maioria dos luteranos estará fora de seu berço nativo ou dos EUA para onde muitos luteranos emigraram. Mas, porque o movimento luterano não se torna um fenômeno de massas deve-se em grande medida a sua proposta teológica que é ser uma minoria que busca transformações. Este está para a massa como fermento. E o fermento só é ativado quando se mistura à massa.


IHU On-Line – O senhor acredita que restou alguma ferida aberta entre católicos e protestantes?

Vítor Westhelle - Certamente feridas sempre estão por aí. Mas estas são lembranças da condição humana em que a saúde do corpo é como a do Cristo ressurreto que leva consigo as marcas da cruz.


IHU On-Line – Qual a importância de se celebrar os 500 anos da Reforma Protestante e o que isso impacta no aprimoramento e avanço do diálogo inter-religioso?

Vítor Westhelle - É importante lembrar que por parte de luteranos e luteranas existe consciência, nem sempre lembrada por toda gente, de que a linguagem utilizada em referência aos 500 anos é importante. Assim tem-se evitado de usar “jubileu”, “celebração” e outros ufanismos. Comemorar é buscar em conjunto a memória do que foi tão decisivo na vivência destas pessoas que arriscaram suas próprias vidas na defesa de princípios e no amparo da liberdade. ■

 

Leia mais

- 500 Anos da Reforma: Luteranismo e Cultura nas Américas. Artigo de Vítor Westhelle publicado no Cadernos Teologia Pública, nº 97. 

- A Reforma. Um ato de liberdade. Entrevista especial com Vítor Westhelle publicada nas Notícias do dia, de 31-10-2013, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

- Os desafios do luteranismo, hoje. Entrevista especial com Vítor Westhelle publicada na revista IHU On-Line, nº 280, 03-11-2008. 

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