Edição 207 | 04 Dezembro 2006

O Rei da Vela

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V Ciclo de Estudos sobre o Brasil: Intérpretes do Brasil - Estado e Sociedade


No próximo dia 5 de dezembro, o Brasil será pela última vez interpretado. A última palestra do V Ciclo de Estudos sobre o Brasil: Intérpretes do Brasil – Estado e Sociedade terá como tema o livro O Rei da Vela, de Oswald de Andrade. A obra de Oswald de Andrade (1890-1954) representou fortemente o libelo contra a cultura do passado. O livro reflete as condições do Brasil na década de 1930, focalizando em especial São Paulo e Rio de Janeiro. É apresentado um amplo panorama da sociedade, figurando várias classes sociais, suas relações e crises.
O evento será conduzido pela professora da Unisinos, Maria Helena Campos de Bairros e acontecerá na sala 1G119, às 19h30min.

IHU On-Line - Qual é a atualidade da obra de Oswald de Andrade?

Maria Helena
- Oswald de Andrade, poeta, romancista e dramaturgo, produziu uma obra que representa um marco na literatura brasileira, sobretudo, em relação ao uso da linguagem e às formas de representação ficcional.  Influenciado pelos movimentos de vanguarda européia e pelo desejo de mudança no cenário cultural brasileiro, foi uma espécie de porta-voz dos anseios de parte da intelectualidade brasileira, no século XX, na década de 20, principalmente em São Paulo. Nessa década, atuou de forma decisiva na organização da semana de Arte Moderna e na apresentação de manifestos que teriam repercussão em fases subseqüentes da produção cultural brasileira. Autor de espírito irreverente e combativo escreveu uma poesia que pode ser considerada precursora de um outro movimento que vai marcar a cultura brasileira na década de 60: o Concretismo. Suas idéias, ainda nessa década, reaparecem também no Tropicalismo.

A narrativa romanesca, Memórias sentimentais de João Miramar, também chama a atenção pela linguagem e pelo processo de construção. O romance apresenta uma técnica de composição revolucionária, se comparado aos romances tradicionais: são 163 episódios numerados e intitulados, que constituem capítulos-relâmpagos, revelando as influências da linguagem do cinema. São fragmentos, recortes e colagens utilizadas para narrar.
O Rei da Vela, peça escrita em 1933 e publicada em 1937, focaliza a sociedade brasileira dos anos 30.  Devido ao seu caráter pouco convencional,  foi  encenada pela primeira vez apenas em 1967,  integrando o movimento tropicalista.

IHU On-Line -Como o Brasil é retratado na obra? Quais as semelhanças com o Brasil de hoje?

Maria Helena
- O Rei da Vela focaliza a história de Abelardo (desdobrado na figura do duplo I e II) e Heloísa, ela uma representante da aristocracia paulista do café, já falida; ele um novo rico que precisava de um sobrenome tradicional. Ambos buscam, através do casamento, a resolução para seus problemas relacionados à projeção social. No eixo do enredo está a história de amor, que desvela as mazelas das relações marcadas por interesses. O paradoxo acentua-se ainda mais pelos nomes dos protagonistas que se referem a uma história de amor do século XII.Esses nomes reforçam o contraste entre as relações marcadas pelo amor e as estritamente regidas por interesses. Nesse sentido, a peça ataca pilares da sociedade brasileira, muito caros, em especial durante o período da ditadura militar, 1967, ano em que a peça foi encenada pela primeira vez. Ao atacar Deus, Pátria e Família, a peça procura questionar e desmascarar cada uma dessas referências, a fim de desvelar as mazelas de uma nova classe social que estava emergindo: a dos industriais. Além da desconstrução das representações das relações matrimoniais e comerciais, o texto de Oswald retrata a crise dos cafeicultores que afetou especialmente o Brasil, logo após crack de 29, agravando-se com a derrota da Revolução Constitucionalista de 1932. Ainda que datadas, as  questões morais e econômicas, tematizadas pela peça, mostram-se atuais. A “aristocracia” rural brasileira ainda é bastante dependente da agricultura de mono cultivo, subsidiada por políticas governamentais. Outro aspecto relevante, tematizado pela peça, diz respeito ao enriquecimento através da usura, prática vigente na contemporaneidade e legitimada pelas instituições bancárias.

IHU On-Line - Que figuras importantes ganham espaço nas páginas do livro?

Maria Helena
- Pode-se afirmar que ainda são figuras recorrentes personagens como Abelardo, que enriqueceu de forma não muito lícita, que está em busca de reconhecimento social e  Heloísa, que já viveu na opulência, mas que não titubeia em se deixar usar para manter a vida abastada. Soma-se a esses personagens o norte-americano, Mister Jones, o capitalista e banqueiro que se aproxima de Heloísa com o consentimento de Abelardo que vê na relação extraconjugal mais uma possibilidade de obter lucros. Essa personagem assinala ainda mais o grau de submissão de Abelardo e do país colonizado que sucumbe diante do capital externo. Nesse sentido, as personagens ainda simbolizam figuras emblemáticas que procuram a qualquer custo projeção social e econômica.
  
IHU On-Line - Como a senhora classifica Oswald de Andrade como intérprete do Brasil?

Maria Helena
- Oswald de Andrade, como intérprete do Brasil, soube captar a essência de um processo de transformação de um País calcado no modelo agrário de monocultura que, de uma hora para outra, se transforma em um modelo industrial, representado pela alegoria da fábrica de velas. É a transição de um modelo marcado pela conspurcação e pela usura que ainda reflete na atualidade.  Assim, a pátria é vista, no texto, como pobre e subordinada aos países ricos. A metáfora que traduz essa situação é representada por Abelardo e Heloísa que, respectivamente, sintetizam a transformação e a  deterioração do  poder econômico e da  tradição familiar.

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