Edição 493 | 19 Setembro 2016

Os heróis nacionais apagados pela repressão

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João Vitor Santos

Rafael Guimaraens destaca a importância de se recontar histórias como a do sargento Soares. Para ele, é por essas vidas apagadas pelo regime que se pode chegar à face da ditadura militar no Brasil
O Sargento, o Marechal e o Faquir (Libretos: Porto Alegre, 2016)

A história da ditadura militar no Brasil é ainda como um grande mosaico com pontos vazados, um período da história envolto em muita névoa. O jornalista e escritor Rafael Guimaraens acredita que só será possível completar esse mosaico e olhar com clareza para esse período do Brasil quando se fizer a devida memória de personagens que viveram toda dureza e atrocidade desse momento. “Nenhum país do mundo superou períodos traumáticos com base no esquecimento. Pelo contrário, a verdade é essencial para uma Nação se reerguer. Por isso, é preciso lembrar, pesquisar histórias não contadas, encontrar personagens desconhecidos e construir a memória de toda a dramaticidade que a ditadura representou”, diz. É esse desejo que o inspira no livro O sargento, o marechal e o faquir (Porto Alegre: Libretos, 2016), lançado recentemente. A obra reconstrói o que foi “um dos primeiros e mais violentos crimes cometidos pela ditadura, que foi o assassinado do sargento Manoel Raymundo Soares”.

A publicação é resultado de suas pesquisas sobre o fato, conhecido no Rio Grande do Sul como “Caso das Mãos Amarradas”. Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Guimaraens destaca a importância desse sargento, encontrado morto com as mãos amarradas, logo no começo do regime militar. “Creio que o sargento Soares tem todas as características e qualidades para ser considerado um herói nacional”, destaca. O jornalista ainda lembra que o militar era extremamente dedicado, disciplinado e colaborativo. Entretanto, tais características não o faziam cego, sendo ainda capaz de lutar contra o que achava errado. “Sua resistência ao autoritarismo nas Forças Armadas e, posteriormente, ao golpe, diz respeito à politização decorrente de suas leituras e do enorme senso de justiça. Era um ser humano preocupado com seu povo, que sofria com a fome e a desesperança”, analisa.

Rafael Guimaraens é jornalista. Trabalhou no Coojornal, periódico que foi publicado mensalmente e editado pela Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre entre 1974 e 1982. Também atuou como editor de política no Diário do Sul. É autor dos livros Tragédia da Rua da Praia (Porto Alegre: Libretos, 2005), vencedor do Prêmio O Sul Nacional e os Livros como melhor narrativa longa, em 2005; A Enchente de 41 (Porto Alegre: Libretos, 2013), eleito melhor livro de não-ficção da Associação Gaúcha de Escritores; Teatro de Arena – Palco de Resistência (Porto Alegre: Libretos, 2007), vencedor do Prêmio Açorianos, Livro do Ano, em 2009. Entre outras produções artísticas, é autor do roteiro Musical da Legalidade, encenado diante do Palácio Piratini, com direção de Luciano Alabarse. O jornalista ainda integrou a Comissão da Verdade do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul.


Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - Que história da ditadura militar no Brasil revela O sargento, o marechal e o faquir (Porto Alegre: Libretos, 2016)?

Rafael Guimaraens - Ele trata do chamado “Caso das Mãos Amarradas”, um dos primeiros e mais violentos crimes cometidos pela ditadura, que foi o assassinato do sargento Manoel Raymundo Soares. Seu corpo foi encontrado junto à Ilha das Flores , em Porto Alegre, com as mãos atadas às costas, após ser preso em uma emboscada. Ele foi barbaramente torturado durante oito dias e mantido ilegalmente por cinco meses na Ilha do Presídio .


IHU On-Line - Como o senhor compreende a figura de Manoel Raymundo Soares? Qual foi seu papel no movimento dos sargentos ?

Rafael Guimaraens - Foi um dos principais líderes do Comando dos Sargentos, uma espécie de vanguarda do movimento de sua categoria por dignidade e direito à representação parlamentar. Autodidata, de origem muito humilde, mudou-se de Belém do Pará para o Rio de Janeiro, com o objetivo de servir ao Exército. Com 20 anos já atingira o posto de sargento. Por sua inquietação e senso de Justiça, envolveu-se na mobilização dos sargentos, cujos representantes eleitos em 1962 foram cassados. Com a radicalização da conjuntura pré-golpe, seu grupo passou a defender as reformas de base proposta pelo Governo Jango . Por sua inteligência e formação política, era um dos estrategistas do Comando dos Sargentos.


IHU On-Line - Relatos de casos de insurgência no Exército, ainda mais no período da ditadura militar, são bem pouco conhecidos. O que faz com o que o “Caso das Mãos Amarradas” se torne público e tão conhecido?

Rafael Guimaraens - Na época, ainda não havia a censura ferrenha à imprensa, decretada pelo AI5 , dois anos mais tarde. Assim, a descoberta do corpo teve grande repercussão pela brutalidade do crime, até porque inicialmente não se sabia que se tratava de um perseguido político.


IHU On-Line - De que forma é possível compreender resistências à ditadura a partir da figura e da experiência de Manoel Raymundo Soares?

Rafael Guimaraens - O sargento Soares era um servidor exemplar, disciplinado e colaborativo, como demonstra seu prontuário, a que tive acesso. Sua resistência ao autoritarismo nas Forças Armadas e, posteriormente, ao golpe, diz respeito à politização decorrente de suas leituras e do enorme senso de justiça. Era um ser humano preocupado com seu povo, que sofria com a fome e a desesperança.


IHU On-Line - Como o assassinato do sargento Soares se constitui em ato contra a ditadura? Que aproximações são possíveis de se fazer com as práticas e casos de tortura que vieram anos depois no período mais pesado do regime militar no Brasil?

Rafael Guimaraens - A tortura já existia. Vários opositores do regime, incluindo companheiros de Soares, foram torturados logo após o golpe. Um deles, Manuel Alves, suicidou-se após ter sido cruelmente torturado nos primeiros dias de abril de 1964. A partir do AI5, a tortura tornou-se sistemática, aliada à parte de direitos que existiram nos primeiros anos da ditadura, como o habeas corpus.


IHU On-Line - Como observa a figura do marechal Castelo Branco  e seu papel na fixação do regime ditatorial — e linha dura — no Brasil?

Rafael Guimaraens - É um tema polêmico, mas acredito que Castelo Branco pretendia que a presença dos militares no poder fosse mais curta. Tratava-se de afastar o “perigo” do comunismo, cassando, prendendo e exilando os oposicionistas mais ativos, fechando as entidades que resistiam à ditadura, enfim, limpando a área para a volta de uma democracia formal, livre de riscos. Mas foi pressionado pelos setores mais duros das Forças Armadas a adotar novas medidas autoritárias. Queria ficar na história como o presidente que livrou o Brasil do comunismo e reinstaurou a democracia. Porém, ficou marcado como um presidente autoritário, um ditador.


IHU On-Line - Qual a importância de se recontar, fazer a memória, de tantas histórias de vítimas, muitas figuras pouco conhecidas, quase anônimas? Em que medida essas histórias contribuem para tecer o mosaico desse período da História do Brasil?

Rafael Guimaraens - É produção de memória, um antídoto ao esquecimento implantado no Brasil pela Lei da Anistia . Nenhum país do mundo superou períodos traumáticos com base no esquecimento. Pelo contrário, a verdade é essencial para uma Nação se reerguer. Por isso, é preciso lembrar, pesquisar histórias não contadas, encontrar personagens desconhecidos e construir a memória de toda a dramaticidade que a ditadura representou.


IHU On-Line - Ainda sobre a grande nebulosidade que se tem acerca do regime militar no Brasil, não seria momento de se apostar e voltar às histórias da ditadura apagadas pela repressão e censura? Com relação ao jornalismo, qual seu papel nesse processo?

Rafael Guimaraens - Há um déficit muito grande de informações e providências. Mesmo os governos de Lula e Dilma Rousseff, de quem se poderia esperar medidas para o esclarecimento daquele período, foi tímido. Fizeram algumas coisas, mas foram insuficientes. É certo que muitas iniciativas como a revisão da Anistia esbarraram no Judiciário, com a cumplicidade do Congresso e da grande mídia.


IHU On-Line - No que a história O sargento, o marechal e o faquir pode nos inspirar para os dias de hoje?

Rafael Guimaraens - Pode inspirar no sentido de valorizar os que se posicionaram contra o autoritarismo e defenderam o povo. Neste sentido, creio que o sargento Soares tem todas as características e qualidades para ser considerado um herói nacional. ■ 

 

Leia mais...

- A história do sargento rebelde. Reportagem do jornal Zero Hora, reproduzida nas Notícias do Dia de 11-08-2016, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

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