Edição 490 | 08 Agosto 2016

O esgotamento da política como efeito inevitável da globalização

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Márcia Junges | Tradução Eduardo Herrmann

Reconfiguração do campo político não significa o seu fim, mas a necessidade de repensar práticas e formas de organização, frisa Sérgio Villalobos-Ruminott. Fascismo contemporâneo “não opera em nível cognitivo-categorial”, mas nos afetos e na sua manipulação midiática

Em nossos dias, a tendência é “identificar o fascismo com movimentos de direita, no sentido tradicional. Mas é aqui que devemos começar a ser mais precisos, pois o fascismo cruza o campo social de maneira transversal e horizontal, penetrando nos corpos, como diria Foucault, e não apenas mediante a interpelação doutrinária”, observa o sociólogo chileno Sérgio Villalobos-Ruminott, professor da Universidade de Michigan, Estados Unidos. Em sua análise, “o fascismo contemporâneo não opera em nível cognitivo-categorial, mas em nível dos afetos e de sua manipulação midiática, produzindo clichês emotivos e formas identitárias da política. Um dos afetos mais poderosamente mobilizados pelas novas lideranças de direita é, precisamente, o medo. Contudo, não se trata mais do medo hobbesiano (...), mas de medos concretos, não da possibilidade indeterminada da morte violenta (Hobbes), mas da possibilidade de que essa morte seja causada pelas mãos do imigrante, do terrorista, do delinquente, do homossexual, do dissidente, essas categorias identitárias produzidas e reforçadas midiaticamente”.

Acerca do esgotamento da política, Villalobos-Ruminott ressalta que isso não significa seu fim, “e sim sua metamorfose histórica, pois já não se pode remeter o âmbito da imaginação nem o das práticas políticas exclusivamente ao espaço delimitado do Estado-nação e suas instituições. Nesse sentido, o que se esgota é uma forma histórica de pensar e de praticar a política, constituindo-se em par de igualdade uma nova organização do poder, desterritorializada ou anômica, que está diretamente relacionada com a codificação corporativa transnacional dos imperativos nacionais, sejam eles políticos, sociais ou econômicos”. Resumindo, “o esgotamento da política é um efeito inevitável do atual processo de globalização, mas, a menos que tenhamos uma noção unilateral e homogênea de poder (que Foucault destruiu definitivamente), esta reconfiguração, longe de ser o fim da política, também aponta a possibilidade e a necessidade de reimaginar nossas práticas e nossas formas de organização”.

Sérgio Villalobos-Ruminott é professor associado de Estudos Latino-Americanos e Espanhóis da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos. Licenciado em Sociologia e graduado em Crítica Cultural pela Universidade ARCIS, é mestre e PhD em Literatura Latino-Americana pela Universidade de Pittsburgh e autor dos livros Soberanías en suspenso. Imaginación y violencia en América Latina (Buenos Aires: La Cebra, 2013) e Heterografías de la violencia. Historia, Nihilismo, Destrucción (Buenos Aires: La Cebra, 2016).

 

Confira a entrevista.


IHU On-Line - Em que medida pode-se falar numa “exaustão” da política em nosso tempo? O que ela significa e para onde aponta?

Sergio Villalobos-Ruminott - O esgotamento da política que experimentamos hoje tem várias dimensões. Por um lado, trata-se de um esgotamento dos imaginários e ordens conceituais que organizaram o horizonte moderno, se lermos esse horizonte em termos de uma tradução jurídica republicana ou em termos de um processo permanente de emancipação e institucionalização democrática; se enfatizarmos os processos constituintes da democracia, como diriam Claude Lefort  e Cornelius Castoriadis , entre outros; ou se considerarmos a modernidade política ocidental de acordo com uma teologia marxista emancipatória, para a qual a revolução se apresenta como desfecho inevitável da história.

Por outro lado, esse esgotamento também está relacionado com a transformação histórica da relação de soberania moderna, escrita na tradição do que Carl Schmitt  chamou “o nomos da terra”, portanto, está relacionado com a desterritorialização da mesma soberania que diz respeito às formas institucionais e territoriais modernas. Em outras palavras, o esgotamento da política não expressa seu fim, e sim sua metamorfose histórica, pois já não se pode remeter o âmbito da imaginação nem o das práticas políticas exclusivamente ao espaço delimitado do Estado-nação e suas instituições. Nesse sentido, o que se esgota é uma forma histórica de pensar e de praticar a política, constituindo-se em par de igualdade uma nova organização do poder, desterritorializada ou anômica, que está diretamente relacionada com a codificação corporativa transnacional dos imperativos nacionais, sejam eles políticos, sociais ou econômicos.

Em última instância, o esgotamento da política é consequência da transformação histórica da relação soberana moderna e da série de ordens institucionais e conceituais que a definiram, para dar lugar não a uma etapa meramente tecnocrática e pós-política, mas a novas formas e novas práticas que se movem no sentido contrário ao marco estado-nacional. Estamos em meio a essa reconfiguração política do mundo, e o velho marco nacional parece deslocado pela imposição de um novo contrato social, no qual os atores centrais já não são as figuras consulares da tradição moderna (sujeito, povo, nação etc.), mas sim as corporações transnacionais que já não respondem a interesses nacionais e que não podem ser limitadas por esses interesses. Então, para resumir, o esgotamento da política é um efeito inevitável do atual processo de globalização, mas, a menos que tenhamos uma noção unilateral e homogênea de poder (que Foucault  destruiu definitivamente), esta reconfiguração, longe de ser o fim da política, também aponta a possibilidade e a necessidade de reimaginar nossas práticas e nossas formas de organização.


IHU On-Line - Quais são as conexões dessa exaustão com o aumento do fascismo e do crescimento de representantes de direita em todo o mundo?

Sergio Villalobos-Ruminott - Há uma conexão direta. Porém, teríamos primeiro que concordar sobre o que queremos dizer com fascismo hoje em dia. Não se trata de uma referência mecânica ao fenômeno histórico do fascismo italiano, nem ao que, na América Latina, alguns chamaram de “neofascismo”, para denunciar o caráter brutal das recentes ditaduras militares no Cone Sul. Mas tampouco se trata de populismo em geral, nem dos processos de mobilização social ancorados em uma interpelação ao popular nacional, com claras fronteiras identitárias e corporativistas. E este é um problema muito delicado, pois se trata de saber se o neofascismo é, ou não, uma categoria adequada para pensar nas reconfigurações ideológicas e de poder da atualidade. 

Tomemos como exemplo o brilhante trabalho de Hannah Arendt  sobre As Origens do Totalitarismo (1951), e recordemos que Arendt foi uma das primeiras teóricas que problematizaram o fascismo europeu. No entanto, em sua análise se produz uma indiferenciação entre o fascismo, o nazismo e o stalinismo, o que se deve ao fato de que o seu livro, paradigmático em muitos sentidos, não esconde sua orientação anticomunista e termina relacionando todos estes processos sob o rótulo de totalitarismo. A consequência imediata dessa definição não é apenas a falta de precisão analítica, mas também a aplicação fantasmática da democracia liberal como única alternativa ao totalitarismo. Claro que isso reforçou a narrativa excepcionalista das democracias liberais ocidentais (as mesmas que só foram possíveis devido a uma longa história de colonialismo e pela exploração de suas classes trabalhadoras), organizando o campo político entre amigos (democratas, liberais) e inimigos (totalitários), o que serviu tanto para demonizar o nazismo, o fascismo e o comunismo soviético quanto para ocultar os elementos e as práticas totalitárias (e fascistas) dos regimes liberais ocidentais, no marco histórico da Guerra Fria. Ou seja, o fascismo foi relacionado, por um lado, ao fenômeno totalitário e, por outro, a uma série de categorias macropolíticas (Estado, Nação, Soberania, Povo etc.), que tornam difícil perceber suas formas micropolíticas contemporâneas.

Dessa maneira, porém, hoje tendemos a identificar o fascismo com movimentos de direita, no sentido tradicional. Mas é aqui que devemos começar a ser mais precisos, pois o fascismo cruza o campo social de maneira transversal e horizontal, penetrando nos corpos, como diria Foucault, e não apenas mediante a interpelação doutrinária. Nesse sentido, o fascismo atual já não opera em nível ideológico ou macropolítico somente, mas em nível dos afetos e das práticas sociais (por isso a análise biopolítica foucaultiana talvez não seja uma continuação nem um complemento da crítica de totalitarismo de Arendt, e sim uma alternativa). E é isso que explica a relação entre o esgotamento da política moderna e a proliferação de movimentos e lideranças de “direita”. Ou seja, o fascismo contemporâneo não opera em nível cognitivo-categorial, mas em nível dos afetos e de sua manipulação midiática, produzindo clichês emotivos e formas identitárias da política. Um dos afetos mais poderosamente mobilizados pelas novas lideranças de direita é, precisamente, o medo. Contudo, não se trata mais do medo hobbesiano, indeterminado e que mitologicamente remete ao Leviatã , mas de medos concretos, não da possibilidade indeterminada da morte violenta (Hobbes ), mas da possibilidade de que essa morte seja causada pelas mãos do imigrante, do terrorista, do delinquente, do homossexual, do dissidente, essas categorias identitárias produzidas e reforçadas midiaticamente (fearmongering).


IHU On-Line - Em que sentido devemos problematizar a questão do fascismo para podermos tecer uma crítica radical do nosso presente?

Sergio Villalobos-Ruminott - Creio que minha resposta anterior aborda isso. No entanto, acrescentaria que precisamos criar uma nova concepção do fascismo, atenta a essas transformações históricas e conceituais, para combater criticamente as formas cotidianas de fascismo e para sermos capazes de imaginar uma forma de política que não tente normatizar as práticas de resistência que estão ocorrendo, mas sim que se alimente dessas práticas de luta e resistência sem tentar operá-las segundo o paradigma do intelectual iluminista. Pois, e talvez esse é o ponto mais problemático, há fascismo à direita e à esquerda nos movimentos políticos tradicionais. 

Em outras palavras, as macroidentidades políticas tradicionais já não são suficientes, precisamos reformular um novo horizonte político radical e antifascista, atento às problemáticas de gênero, de minorias sexuais, questões de identidade étnica, direitos da natureza, dos animais etc. Para resumir, correndo o risco de ser mal interpretado, eu diria que esse horizonte em construção é a grande tarefa que temos adiante e, sem saber exatamente como articulá-la, eu diria que é imprescindível manter uma posição antipatriarcalista, antimilitarista e anticapitalista. Isso é o mínimo.

 

Radicalização do fascismo histórico

Mas uma segunda questão para pensar está relacionada à forma com que o neoliberalismo radicaliza o fascismo histórico, reforçando a antropologia política própria do direito burguês moderno e reduzindo-a a uma versão do humano como homo economicus, inscrito na lógica hiperprodutivista que marca a continuidade entre as antropologias hipotéticas do século XVI, a concepção da raça humana própria do nazismo, e a atual concepção do humano própria da antropologia neoliberal. Se a vida é o plano sobre o qual se organiza a série de dispositivos biopolíticos modernos, para controlá-la e administrá-la não seria o nazismo, mas a própria modernidade capitalista que se ergue sobre esta invenção, sendo o nazismo nada mais nada menos que sua invenção espetacular. Assim, os microfascismos contemporâneos seguem operando sobre o mesmo plano, radicalizando a vertente biopolítica e levando o conflito até a lógica devastadora do capitalismo atual. O neoliberalismo facilita um microfascismo flexível e excepcional, que já não responde às representações morais ou ideológicas do humano, mas se adapta à flexibilidade própria do padrão de acumulação atual.

Isso nos leva, finalmente, a compreender o fascismo por uma perspectiva histórica, como uma manifestação biopolítica que se encontra diversificada e disseminada graças às mesmas lógicas desterritorializantes do capitalismo, que já não responde ao modelo centro/periferia, mas se dissemina de forma axiomática, como observavam Deleuze  & Guattari  nos anos 1980. E aqui está a parte mais delicada dessa relação, pois a leitura oficial da crise do comunismo como triunfo definitivo do modelo de vida americana, de democracia liberal e parlamentarista, foi promovida para enfatizar os excessos totalitários como algo do passado, o que nos impede de ponderar a radicalização biopolítica do neofascismo na atualidade, questão manifestada na predominância dos aparatos de segurança, no controle midiático da política, na corporativização transnacional dos mercados, no predomínio da antropologia neoliberal e na instauração de um regime de exceção permanente definido pelos imperativos da acumulação capitalista contemporânea.

Nesse sentido, o fim da Guerra Fria, mais do que abrir caminho ao fim da história, radicalizou a razão imperial ocidental, facilitando o estabelecimento dessa racionalidade, agora articulada em torno da Pax Americana, herdeira natural da larga tradição do imperialismo ocidental. Os imperativos do desenvolvimento e da segurança, última expressão da filosofia da história do capital, agora estão defendendo uma guerra global permanente que não é um acidente, mas sim uma prática constitutiva do capital.


IHU On-Line - No caso dos EUA, como analisa a situação do incremento do fascismo no processo eleitoral em curso, por exemplo, com a candidatura de Trump ?

Sergio Villalobos-Ruminott - Em resposta às especificações acima mencionadas, comecemos então dizendo que o “fenômeno Trump” é fascista e quase nazista em um sentido plenamente tradicional. Apesar dos óbvios paralelos entre a Alemanha e a Itália dos anos 1930 e Estados Unidos hoje — a vinculação entre política e espetáculo, a mesma representação do Führer e do Duce como Messias, os elementos de fanatismo nacionalista e a compulsão em recuperar “o Destino Manifesto” do país, perdido devido à corrupção da classe política e à presença de elementos estrangeiros que desvirtuam a pureza do projeto nacional —, o certo é que o “fenômeno Trump” expressa de maneira muito clara uma série de esgotamentos e crises norte-americanas, de ordem política, institucional e ideológica. Destacarei apenas três aspectos.

1) Estamos vivendo um esgotamento do bipartidarismo e da concentração do poder não apenas em dois partidos (o Democrata e o Republicano), mas também em dois setores da elite dirigente norte-americana. O bipartidarismo e o complexo sistema eleitoral que o permite e o justifica é o resultado de uma ação deliberada de expropriação da vontade popular (ou da soberania popular) e de concentração de poder em uma classe dominante que está dividida historicamente entre um setor industrial tradicional e um setor mercantil-financeiro que se viu potencializado pela hegemonia neoliberal pelo menos desde os governos de Ronald Reagan . É nesse contexto que a figura de Trump, reforçada pelo discurso manipulativo das mídias (monopolizadas, por sua vez, pela direita conservadora mais recalcitrante), aparece revestida com elementos messiânicos.

2) A isso deve-se acrescentar a crise econômica norte-americana, prolongada graças aos cortes orçamentários das políticas públicas (saúde, educação, previdência social etc.), e relacionada com a forte ingerência corporativa na definição das prioridades de investimento, nas políticas tributárias (permissivas com o grande capital) e nos processos de privatização e de corrupção estrutural das práticas empresariais. De fato, a dívida norte-americana é incontrolável e, no entanto, não apenas se eliminam os recursos destinados a políticas públicas, mas também se realizam enormes investimentos na guerra, o que, a propósito, confirma a guerra não como uma forma extrema, mas como uma maneira habitual de acumulação capitalista na atualidade.

3) Por fim, a perda de relevância do país em nível geopolítico e econômico (que se deve em grande parte à emersão da China no contexto global) se traduz na chamada afronta à “alma nacional” e está relacionada ao que William Spanos  denominou “a síndrome de Vietnã”, ou seja, a narrativa da derrota e da traição que havia levado o país a perder seu curso excepcional (muito parecido com a Dolchstosslegende, tese alemã da punhalada nas costas). É essa “síndrome” que nos permite explicar o surgimento de narrativas grosseiras, porém eficientes na produção de estigmas e na manipulação afetiva do “público”, já não apenas em nível dos meios de comunicação de massa, mas também em nível dos Think Tanks, que têm assumido a clássica função mediadora e crítica das humanidades (daí os frequentes ataques neoliberais às humanidades e à universidade em geral, na América e no mundo todo). 

Para dar um exemplo preciso, no ano de 2005 surge um “livro” de Samuel Huntington  intitulado Quem somos nós? Os desafios à identidade nacional americana, que repetia os mesmos defeitos de sua “célebre” intervenção anterior, A guerra das civilizações (1996), em que a complexidade geopolítica pós-Guerra Fria era reduzida a uma representação caricata do mundo dividido entre Oriente e Ocidente. De maneira similar, a obra de 2005 abordava os imigrantes latinos que, segundo Huntington, eram resistentes ao projeto americano, pois longe da sacrificialidade individualista e industriosa da WASP Nation (White Anglo-Saxon Protestants), os latinos eram católicos, coletivistas, relaxados e relutantes em assimilar a língua e os valores culturais americanos, o que reforçava o diagnóstico neoconservador de uma crise na sociedade americana (diagnóstico que pode ser encontrado inclusive nas primeiras especulações de Daniel Bell ), e já sabemos o que está em jogo com esses discursos sobre a crise moral e a perda do caráter. Sim, esse é um discurso “acadêmico” e com influência direta em Washington, então não deveriam causar estranheza os surtos paranoicos e xenófobos dos últimos anos, todos eles, agora, agrupados em um fraco, porém convincente, programa de governo, o "programa" de Donald Trump.

 

Sintoma escandaloso

Aqui se pode acrescentar uma série de considerações, sobretudo relativas à preponderância do projeto neoliberal, à firme articulação dos neoconservadores, ao papel policial do exército norte-americano e à configuração de uma forma pós-estatal de poder, relativa ao conglomerado corporações-mídia-exército, que patrulha o mundo apelando ao discurso da segurança e do inimigo. Neste complexo contexto, Trump é mais que um problema, é um sintoma escandaloso da crise endêmica da tradição democrática ocidental, ou, pelo menos, do projeto de democracia americana, um sintoma, em outras palavras, da reconfiguração da razão imperial moderna em termos de Pax Americana.


IHU On-Line - Que outros candidatos além de Trump (fora do âmbito federal) surgem como representantes dessa linha política?

Sergio Villalobos-Ruminott - Precisamente porque não há uma linha política própria em Trump, mas sim um conjunto de vulgaridades e clichês emotivos que permitem reorganizar o campo político em termos grosseiros, porém eficientes, teríamos que pensar não nos casos mais óbvios (Sarah Palin , Ben Carson , Paul LePage , Scott Walker , Rick Santorum  etc., todos eles furiosos anti-intelectuais e oportunistas), mas na reconfiguração ideológica do setor conservador do Partido Republicano, aquele setor que, por um lado, está disposto a defender liberdades civis tais como a liberdade de expressão (contra a censura do “politicamente correto”) e o livre acesso às armas (contra as tentativas de regulação de um mercado totalmente alheio ao controle do Estado), porém, por outro lado, está disposto a morrer defendendo uma série de instituições tradicionais que assegurariam, segundo eles, a integridade do American Way Of Life. Daí a forte oposição ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, ao aborto e à maternidade controlada, aos subsídios à saúde ou ao desemprego, à gratuidade na educação etc. 

Pois é nessa estranha amálgama entre liberalismo econômico e conservadorismo moral que encontramos as bases do neofascismo contemporâneo, pelo menos na América do Norte. E o sobressalente disso tudo é que a tal amálgama não foi facilitada pela Contrarreforma católica que vivemos como reação à Teologia da Libertação  na última parte do século XX na América Latina, mas por uma série de seitas de caráter protestante, que reivindicam a excepcionalidade americana e a doutrina do Destino Manifesto como horizonte de permissividade que os libera de prestar contas à história sobre os excessos cometidos em nome da "democracia" americana.

 

Dispositivos emocionais

Talvez seja aqui onde teríamos de pensar não apenas no fascismo como categoria operacional, mas nas variantes da teologia política neoimperial, sobretudo se considerarmos o claro caráter político e expansivo das práticas religioso-culturais dessas igrejas que funcionam como contenção de movimentos sociais progressistas (penso, sobretudo, nos grupos evangelistas fundamentalistas). Não é por acaso que todas elas sejam anti-islamistas, reforçando a representação caricata do Islã e do Oriente Médio em geral. Ou seja, há uma coerência surpreendente entre a ordem dos fundamentos neoimperiais ancorados em uma política identitária e partidária que divide o mundo entre bons e maus e as práticas neofascistas cotidianas que são alimentadas e manipuladas pela política midiática e seus dispositivos emocionais e reforçadas pela proliferação de cultos religiosos que se encarregam de confirmar a mesma versão providencial da história.


IHU On-Line - O que significa a retomada de um certo protagonismo de movimentos como a KKK ?

Sergio Villalobos-Ruminott - Penso que a reaparição da KKK na cena política é conjuntural e menor, responde melhor a uma pulsão reprimida e relacionada a uma “narrativa da derrota”, que confortou os setores conservadores do Sul norte-americano contra o predomínio ianque. Trata-se de movimentos racistas e de superioridade branca tradicionais, que estão emoldurados em formas doutrinárias já historicamente deslocadas, porém se mantiveram latentes devido ao aparente caráter excepcionalista e autorreferencial da história norte-americana e à desescolarização de sua população civil. No entanto, com a presidência de Obama, produziu-se uma segunda narrativa nesses setores, relativa à invasão ou ocupação do país por inimigos da democracia americana, garantidos na negligência dos liberais antipatriotas. 

O mesmo presidente Obama é considerado não apenas um muçulmano praticante, mas também fraudulento (por ter nascido supostamente estrangeiro). Porém, além do profundo racismo que torna possível a reaparição do KKK e que explode midiaticamente graças aos discursos incendiários de Donald Trump, precisamos ter mais cuidado com as formas de racismo que não estão tão obviamente expressadas, mas que são mais determinantes na configuração do cenário político e social do país. Refiro-me a um racismo cultural puro que, em nome do multiculturalismo e da tolerância, do humanismo e da compaixão, segue operando de acordo com uma representação "branqueada" (como diria Bolívar Echeverría ) da alma americana, mais que da cor da pele. Ou seja, além do óbvio racismo tradicional, deve-se confrontar o profundo racismo cultural que alimenta o excepcionalismo e que define as formas micropolíticas do neofascismo norte-americano.

 

Privatização neoliberal da polícia

Por exemplo, a crescente violência policial contra a população afro-americana não é nem nova nem casual, ela expressa tanto o longo processo de constituição de um racismo cultural que expõe o projeto de políticas institucionais, quanto uma reorientação geral dos objetivos e imperativos da polícia segundo o novo contrato social neoliberal. De fato, a função pública dos aparatos policiais tradicionais é codificada pelos imperativos neoliberais de eficácia, controle e segurança, o que faz com que a polícia não se entenda como servidora pública, mas como um contingente militar em uma espécie de “guerra urbana permanente”. E, nesta reorientação, o racismo, em todas as suas manifestações, funciona como argumento pertinente para justificar as delimitadas práticas de segurança que afetam os afro-americanos. A privatização neoliberal da polícia (e não apenas nos Estados Unidos) faz uso pragmático do racismo, ou de qualquer outra forma de produção de estigmas culturais, para justificar sua atuação repressiva, que está sempre orientada em função do lucro e da acumulação.

Assim, a falta de educação historicamente informada, a manipulação midiática e a produção de clichês emotivos, o racismo brutal da KKK e as formas mais sofisticadas de racismo cultural, em consonância com uma forma flexível de filosofia da história capitalista, vão configurando o cenário biopolítico no qual o neofascismo é uma atitude natural da convivência política contemporânea.


IHU On-Line - Como os EUA têm lidado com seus movimentos sociais e as demandas dos mais pobres? Percebe um avanço nesse sentido em relação às décadas anteriores?

Sergio Villalobos-Ruminott - A complexidade do sistema político norte-americano permite que a série de processos de organização e participação a nível de movimentos sociais fique deslocada, até marginalizada, graças à convergência da política formal com o espetáculo publicitário montado pelas grandes cadeias de informação. Dessa forma, movimentos pelos direitos das minorias sexuais, pelo meio ambiente, pelos direitos dos imigrantes e contra o racismo e a violência policial (Black Lives Matter!) são reduzidos a expressões de descontentamento conjuntural e são demonizados, reduzidos a formas de ressentimento e de parasitismo social. A velha promessa da democracia representativa está cada vez mais exposta na sua falsidade (não apenas processual), e a mesma instituição bipartidária, o sistema eleitoral indireto e a instituição dos superdelegados, fazem da cena eleitoral uma farsa que tende a confirmar o status quo.

Porém, há um descontentamento crescente nos setores mais vulneráveis da sociedade, e esse descontentamento tende a ser contido com os apelos simplistas e nacionalistas à crise sempre presente de segurança. Mais que um avanço, o que se expressa é uma situação exemplar, na qual, por um lado, os movimentos sociais têm sido neutralizados e “localizados”, impedindo-os de se articularem em um plano mais universal e propositivo, e, por outro lado, têm sido mediados pela representação partidária, que se considera a única via democrática. No entanto, isso não é definitivo nem está plenamente assegurado. Talvez aí resida a pertinência de uma candidatura como a de Bernie Sanders , não tanto na viabilidade formal de seu programa, mas também no efeito de ressonância e estímulo que sua campanha produziu, polarizando o discurso da política formal e fazendo enunciáveis uma série de situações que, na inércia burocrática da política partidária, tendiam a ser desconsideradas ou, simplesmente, silenciadas.

 

Cálculos pragmáticos e partidários

De fato, é interessante o processo político aberto com Sanders. Primeiro, o fato de que houve uma campanha alternativa às práticas hegemônicas do Partido Democrata e do bipartidarismo norte-americano, há anos sobrecodificado pelos interesses corporativos e por Wall Street. Segundo, sua retórica se volta a uma população passiva, relutante em aceitar a armadilha eleitoral, e com baixa participação a nível de eleições regulares, incorporando também novos setores de jovens que não necessariamente votarão em Hillary Clinton . Terceiro, sua campanha não foi financiada por grandes corporações, mas por mais de um milhão de contribuintes, com uma média de 27 dólares per capita. 

Quarto, tem incluído no "dizível" do discurso político uma consciência progressista que se autodenomina democrática e socialista, fazendo, como diria Rancière , emergir um discurso desconhecido dentro dos estreitos limites do procedimentalismo norte-americano. De uma outra maneira, seu discurso alterou o campo de enunciação e moveu o centro político, até pouco tempo definido unitária e monopolicamente pelas mídias e seus grupos de especialistas tautológicos. Seu lema “A future to believe in” (“Um futuro para acreditar”) expressava, mais do que uma doutrina coerente, uma sensação de desespero em um país que não pode seguir sendo visto homogeneamente como centro ou metrópole, na medida em que a mesma reestruturação capitalista permitiu gerar em seu interior múltiplas periferias (Flint, Detroit, Arkansas, Mississippi, New Jersey etc.). 

E que a tudo isso se chame de “revolução” não é menor, resgatando uma palavra esquecida pelas línguas catastrofistas que definem a batida. No entanto, era difícil que ganhasse e, se ganhasse, seria ainda mais difícil governar, pois necessitaria de um parlamento que já é composto por 60% de milionários e monopolizado por representantes republicanos. Porém, e isso é o relevante, sua campanha visava outra coisa, pelo menos para muitos que o apoiavam ou o apoiam, pois o processo não termina nas primárias nem na eleição presidencial (questão que atinge o governo Obama: ter destruído sua própria base social, desarmando suas demandas a partir de um presidencialismo iluminista). Sua campanha não visava apenas uma vitória eleitoral, mas também a possibilidade, única no país nos últimos anos, de inserir uma intensidade no social que não se extingue com o evento eleitoral, uma intensidade que marcasse aos jovens, que vitalizasse os velhos, que alegrasse os cidadãos em geral, que não foi desprezada em nome de cálculos pragmáticos e partidários. 

Não é muito, é verdade, mas essa é a intensidade que não deve ser perdida, o fogo de uma paixão democrática que tem sido sistematicamente extinguido pelo neoliberalismo e sua antropologia gerencial, individualista e calculista. Em certo sentido, não ter sido nominado foi o melhor que podia acontecer a Sanders, pois o relevante de sua campanha está em haver deixado clara a necessidade do ativismo social, das organizações de luta, únicas capazes de tensionar e polarizar o estreito consenso partidário entre democratas e republicanos. Ainda que esteja claro que isso não basta.


IHU On-Line - Em que medida o Brexit pode estimular posições fascistas e inclusive xenófobas na Europa e até em outras partes do mundo, inclusive nos EUA? Percebe o Brexit como uma derrocada da União Europeia e também de retrocesso ao aprofundamento da democracia? Por quê?

Sergio Villalobos-Ruminott - O Brexit  expressa, de fato, um retrocesso no projeto da Comunidade Europeia, mas deveria se perguntar até que ponto essa comunidade se considera uma instância universal de proteção à paz e à democracia. Obviamente, há que se apostar sempre em todos esses pequenos processos de institucionalização e, desde esse ponto de vista, a saída do Reino Unido da União Europeia é lamentável, sobretudo porque foi possível graças à mobilização de estigmas e medos mais ou menos similares aos utilizados nos Estados Unidos para demonizar os imigrantes. Porém, além disso, a pergunta de fundo tem a ver com o caráter, as prerrogativas e as limitações da mesma União Europeia, e com o problema das hierarquias internas e da redefinição da relação soberana em termos de uma territorialidade continental, porém não universal. 

Na verdade, o projeto de uma Paz Perpétua (Kant ) fundada em uma federação de nações modernas (europeias, racionais, brancas) sempre foi tido como o reverso material ao colonialismo europeu e suas políticas expansivas, até metade do século XX, graças ao fim da Segunda Guerra Mundial, à consolidação da América como novo poder global e à perda posterior dos territórios coloniais no norte da África. Desde então, a Europa tem desenvolvido uma relação clientelista com os Estados Unidos, que começa com o Plano Marshall  e se consolida com a política de alinhamento contra o comunismo. Neste breve contexto histórico, se poderia dizer que a chamada União Europeia não equivale à realização tão desejada dessa federação de nações, e que o Brexit é tanto um retrocesso quanto um sintoma da condição ambivalente da ordem geopolítica contemporânea.

Essa ambivalência, que também se expressa na situação paradoxal do imperialismo norte-americano (que alcança uma presença militar em nível mundial nunca antes vista, porém que é cada vez mais difícil de ser definida em termos nacionais), constitui uma situação de interregno, que não necessariamente equivale a um processo transitório para uma nova etapa histórica, mas expressa uma situação inédita. Nossa atualidade está órfã de projetos, carece de uma filosofia da história que prometa um futuro para o qual se dirigir; nem o progresso liberal infinito nem a revolução aparecem como possibilidades para um tempo em que se aprendeu a desconfiar da filosofia da história. 

Talvez por isso o interregno, longe de sinalizar um fim da história em um sentido negativo, não seja apenas uma possibilidade (maior que a concretude) de reimaginar o mundo mais além dos esquemas e dos imaginários políticos modernos. Indubitavelmente, para isso se necessita de uma clara consciência histórica (que os neoconservadores se dedicaram a proibir e destruir permanentemente), mas também é indispensável entender as limitações históricas e geográficas dos projetos políticos passados, que não alcançam suficiente força para confrontar o capitalismo contemporâneo, o mesmo que já não se satisfaz com a exploração dos homens, ameaçando-os cada vez mais com a devastação do planeta.

 

Possibilidade aberta

Por fim, gostaria de concluir dizendo que o esgotamento da política moderna não é, necessariamente, um sintoma da dominação pós-política da factualidade capitalista, mas uma condição fundamental para repensar a política além das figuras consulares da tradição metafísica ocidental (poder, vontade, sujeito, racionalidade, previsibilidade, inimigo). Essa possibilidade está aberta, não é predominantemente monopólio dos intelectuais e sempre tem lugar, ainda que insistamos em traduzi-la de acordo com as coordenadas de uma língua em desacordo com as dinâmicas da história.

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