Edição 490 | 08 Agosto 2016

Continuidade, transformação ou apenas rotulagem incorreta?

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Andrej Angrick | Tradução Walter O. Schlupp

O fascismo enquanto movimento social e em sua forma de governo é uma massa étnica reduzida exclusivamente a si mesma, que busca apenas a si mesma e atua exclusivamente em prol do próprio bem, adverte Andrej Angrick

“Convencer, negociar ou mesmo tolerar não são características do fascismo; o que importa é a realização da sua vaga utopia, na qual tudo que perturba é eliminado.” A reflexão é do historiador alemão Andrej Angrick, em artigo escrito especialmente à IHU On-Line. E acrescenta: “Fascismo é a retirada ‘para si mesmo’, agir ‘para si mesmo’, onde esse ‘si mesmo’ era e é, por assim dizer, posse dos líderes autoritários do movimento, como se estivesse claramente esboçado e (numa dicotomia) fosse ao mesmo tempo objeto do anseio e da gana por transformação”.

Andrej Angrick estudou História, Língua Germânica, Educação e Filosofia. A partir de 1997, trabalhou como assistente de pesquisa na Fundação Hamburgo para a Promoção da Ciência e da Cultura Jan Philipp Reemtsma. Concluiu seu doutorado na Universidade Técnica de Berlim, com uma dissertação sobre os Einsatzgruppen. É autor, entre outras obras, de Besatzungspolitik und Massenmord. Die Einsatzgruppe in der südlichen Sowjetunion 1941–1943 (Política de ocupação e assassinatos em massa - Einsatzgruppe na União Soviética 1941-1943, Hamburgo: Hamburger Edition, 2003) e Die “Endlösung” in Riga: Ausbeutung und Vernichtung 1941–1944 (A "Solução Final", em Riga. A exploração e destruição; 1941-1944, Darmstadt: WBG, 2006).


Confira o artigo.

 

O fascismo e sua ramificação radical posterior, o nazismo aniquilador alimentado por um nacionalismo exacerbado, se devem, dentre outras causas, à crise e até mesmo ao colapso dos impérios monárquicos. Com o fim do Império Alemão e da monarquia imperial austro-húngara, até mesmo do multiétnico Império Russo, o mapeamento geopolítico da Europa suscitou a época, em formulação positiva, da independência das nações-por-língua e, em formulação negativa, da formação de estado nos diferentes grupos nacionais preexistentes e concorrentes entre si. Havia muito que este fora o objetivo dos diversos movimentos nacionais. Ao mesmo tempo foram submetidos a uma ideologização. Procuraram formar um novo mundo, com regras próprias e em forte concorrência, oposição e defesa contra outra ideologia a fazer promessas de salvação: o bolchevismo de qualquer matiz. 

Após a eliminação do podre domínio tradicional monárquico e aristocrático mancomunado no seio familiar havia séculos, havia essa fantasia de uma possível reconfiguração do mundo como "nosso próprio lugar". Isso ajuda a explicar por que o aparente contraste entre um passado reprocessado segundo o entendimento próprio (o propagado idílio rural, inspiração na Idade Média ou na Roma Antiga, como os feixes dos lictores no fascismo italiano) puderam se aliar à empolgação pela tecnologia moderna (Marinetti ) ou ao entusiasmo arquitetônico (Albert Speer  e Giuseppe Terragni , p. ex.). E isso, sem qualquer contradição. Para os protagonistas do novo tempo, falando em termos figurados, um "legionário de motocicleta" ou um "viking com metralhadora na mão" não eram contradições, mas a junção de combinações adequadas. Isso por si só ainda não desembocaria em fascismo, mas o equiparia. Dois aspectos são cruciais:

Primeiro: O fascismo atua para e a partir da massa pré-formada que é o ser humano, o grupo étnico [Volkskörper], que mesmo sendo diversificado e estruturado, não deixa de ser um coletivo. Somente se age a partir dessa massa e para uma massa (na formulação de Canetti ) assim codificada. Fascismo é a retirada "para si mesmo", agir "para si mesmo", onde esse "si mesmo" era e é, por assim dizer, posse dos líderes autoritários do movimento, como se estivesse claramente esboçado e (numa dicotomia) fosse ao mesmo tempo objeto do anseio e da gana por transformação. Essa transformação, segundo o discurso autorrefencial do movimento, geralmente se dava como reação à política real e podia oscilar na direção: ora a sanguinolenta eliminação de elementos plebeus (a "Noite das Facas Longas"  , em que foi assassinada a elite da SA), ora a inclusão de grupos malvistos, como os chamados "germanos de butim" (alemães étnicos nos Bálcãs). A massa, portanto, se modificava mediante exclusão (muitas vezes sanguinolenta) e por inclusão (inicialmente hesitante).

Segundo: O segundo fator é facilmente identificável: o fascismo tornado Estado na Europa queria crescer, ser império; a massa étnica acima citada se considerava raça superior e se legitimava por sua natureza essencial. Nesse processo, essa natureza tem o direito de fazer o que quiser, sem quaisquer sanções: reassentar, assassinar, expulsar. Convencer, negociar ou mesmo tolerar não são características do fascismo; o que importa é a realização da sua vaga utopia, na qual tudo que perturba é eliminado.

Para fins de distinção: por mais que se justifique a crítica contra o bolchevismo, este, em sua origem, quanto eu entenda, queria levar a todas as pessoas a sua ideologia, seu projeto de sociedade, ainda que debaixo do chicote. Muitos adeptos desse constructo até hoje não entendem que Stalin  e Mao  se transformaram nos maiores assassinos em massa de todos os tempos. (Aí não há muito para ficar cismando, mas isso são outros quinhentos.) Já um fascista ou nacional-socialista ficaria perturbado, caso seu regime fosse muito brando. Característica essencial da sua ideologia é o afastamento, a autorreferência pura. A pertença não pode (ou apenas raramente) ser conseguida pela opção do indivíduo; antes ela lhe está dada, literalmente conforme a figura de linguagem "está no sangue"; quem tiver a ascendência correta não pode estar tão errado; quem for de ascendência estranha dificilmente poderá ser parte da massa fascista, por mais que se esforce.

Resumindo, então: o fascismo enquanto movimento social e em sua forma de governo é uma massa étnica reduzida exclusivamente a si mesma, que busca apenas a si mesma e atua exclusivamente em prol do próprio bem. Uma característica é a ânsia por conquista, por conseguir mais território, além de eliminar sistemas concorrentes e suas populações, que também podem ser marginalizadas a ponto se tornarem hilotas [escravos]. 

 

Fascismo x separatismo

Voltemos o holofote para o presente. Será que o que acabamos de descrever (se é que o leitor concorde com a descrição) estaria presente de forma palpável, seria transferível para hoje? Ou será que tudo nos parece muito distante? O passado, uma terra incógnita, com projetos de sistemas que tiveram seu tempo e, ao custo de milhões de vidas, não foram concretizados, inclusive não têm herdeiros para jamais realizá-los. Observando-se a retórica política, chama a atenção que, formalmente, existem conceitos que pretendem gerar identidade: Sin Fein, fundado como braço político do I.R.A., significa "nós mesmos". Dificilmente se poderá entender isso como a massa acima descrita; na questão da Irlanda (do Norte), com a qual pretendo iniciar o quadro, o que está e esteve em jogo é a autodeterminação e a reunificação. Essa demanda readquiriu atualidade também na UE, com o "Brexit " da Grã-Bretanha: o Sin Fein  defendia a unificação da Irlanda do Norte com a República [da Irlanda], porém de forma democrática mediante votação; de modo algum é objetivo dos nacionalistas irlandeses expandir um império próprio às custas de outras nações e grupos populacionais. 

Contrastando com o fascismo acima, o que interessa não é expansão territorial, mas regionalização, em alguns casos até autoexclusão com redução, desmembramento. Exemplos são os movimentos separatistas na Catalunha, no País Basco e na Escócia, mediante saída, redução a seu próprio território, porém como integrante da UE. Isso dificilmente retrata um novo fascismo em movimentos nacionalistas. Diferente em seu potencial é a vontade expansionista (presentemente amansada) de consideráveis parcelas populacionais da Sérvia e da Albânia. Ali a busca por ampliação territorial, [o recurso] à lenda da derrota e a obrigação de corrigir o passado que foi mal na batalha do "campo dos melros" [Kosovo], visam criar ou uma Grã-Sérvia ou uma união do Kosovo com a Albânia. Entrementes essas iniciativas parecem ter deixado de ser atraentes para a maioria da população; muitos jovens preferem a segurança material e vantagens econômicas. Estas são proporcionadas pela União Europeia, mas sem fortalecer o sentimento de raiz, uma sensação de "nós".

Em outras regiões, de integrantes recentes da UE, as regras desta paralisam o apetite nacionalista, a vontade de recuperar territórios de outrora com partes da respectiva população. Na Romênia prevaleceu a experiência de que também é possível conviver com a Moldávia como ex-nação-coirmã (as cores nacionais são bem parecidas), dispensando o retorno desses antigos territórios da Grã-Romênia; assim o jovem membro da UE não precisa assumir os problemas sociais dos parentes pobres. 

O problema da Transilvânia (entre Hungria e Romênia), ou da Dobrudcha setentrional (entre Romênia e Bulgária) deixou de existir para a experiência própria; com as fronteiras abertas, a pessoa pode viajar para o local objeto da sua saudade, inclusive morar lá. Assim a massa fascista perde quantidade e agressividade. Mesmo entre os grupos fascistas, nacionalistas alemães ou francamente nazistas na Alemanha o retorno ou a ampliação do território (buscando a volta da Prússia Oriental, da Silésia ou da Alsácia) não estão na agenda.

 

Adorando ídolos “errados”

E como poderiam?  Semelhante demanda, quando apresentada, é antes uma reminiscência do passado, num pedido de doação dirigido aos idosos, uma legitimação própria de autoafirmação na História; mas ante o mundo de geopolítica globalizada, vertiginosamente modificado pela tecnologia, ela é absurda. Esses territórios antigos são visitados pelos velhos (naturalmente há fascistas e nacionalistas alemães convictos entre eles), porém mais com pesar; visitam os lugares da própria juventude, porque esse tempo não voltará, fazem parte de uma geração prestes a se despedir. Em contrapartida, gente proveniente de outros países enche de vida a velha terra natal, só que não de vida alemã. Viajam para o passado e acabam admitindo a própria derrota — esta a minha impressão após conversas com integrantes dessa geração e posição política. E em países outrora fascistas como a Itália ou Espanha isso não mais parece um movimento popular, o fascismo deixou de ser atraente. Há muito que a Itália arquivou seu projeto de “mare nostrum”. Na Espanha de cunho castelhano centralizador somente nomes de rua lembram a época do caudilho Franco , enquanto o governo central procura se defender contra diversos movimentos autonomistas, fazendo concessões às administrações regionais; nem mesmo algum (entrementes raro) adepto do franquismo há de proferir seriamente um "viva la muerte".

Essa impressão pode não combinar com a presença de muitos homens de cabeça raspada e/ou tatuados (também há cada vez mais mulheres); em público se apresentam marciais, atávicos, cujos distintivos muitas vezes são símbolos proibidos do fascismo ou reutilizam suas imagens; comportam-se provocativamente, como que ameaçando violência, despertam insegurança, metem medo. Mas serão realmente fascistas e nazistas? Eles próprios talvez o acreditem e estejam convictos de, no tocante à Alemanha, serem herdeiros legítimos de Hitler  e Himmler , usando o lema da SS "Minha honra se chama fidelidade" no casaco ou até tatuado. Engano deles e da sociedade, que geralmente aceita essa autointerpretação. Não são nazistas, e sim, em sua maioria (mesmo que muitos trabalhem, o que é mais frequente do que se supõe), elementos associais a usarem esse aparato simbólico e codificador do fascismo, sem tê-lo entendido minimamente — à parte o antissemitismo generalizado e profunda rejeição da ideologia parlamentar.

Ocorre que o nazismo é uma ideologia que é preciso digerir e entender antes de se adotá-la. Essas pessoas muitas vezes não dispõem das técnicas culturais sequer para ler "Mein Kampf", contextualizá-lo e modernizá-lo para os tempos atuais. Não, para essas pessoas as "runas da SS" são sinais mágicos. Ouso afirmar, inclusive, que não poucas dessas pessoas (que justamente não o sabem) seriam vítimas do nazismo caso este voltasse, pois os assassinos do Terceiro Reich excluíram, detiveram e em muitos casos liquidaram pessoas associais, alcoólatras, vândalos e tatuados (tatuagem era considerada indício de propensão criminosa) sob o código "14f13", para que não contaminassem a comunidade. Neste aspecto os integrantes desses grupos estão adorando ídolos errados.

 

Povo estranho

Significa isto que o fascismo realmente não existe mais? Não bem, pois ele está travando uma última batalha, cujo desfecho ainda não está definido, de modo que o próprio potencial futuro do fascismo não está definido. Como movimento talvez ele não tenha o poder de expandir-se, de ganhar adeptos mediante visão futura de território imperial (nenhum nazista vai se armar para transformar Königsberg ou Danzig novamente em cidades alemãs); mas ele ganha adeptos na defesa do próprio país-núcleo contra intrusos que inundam o território não via militar, mas por imigração maciça, sob responsabilidade última da República Federal e da política de Angela Merkel  com uma humanitas mal-entendida e mediante abolição de convenções europeias internas (acordo de Schengen ), de modo a levar à total metamorfose do país dentro de uma ou duas gerações. Assim a citada massa seria tomada de modo hostil, ou encaroçaria. Os alemães, italianos, espanhóis seriam incorporados pelos imigrantes e pelo califado vindouro, perdendo sua identidade — esse é o cenário projetado não só pelos radicais de direita, mas também pelo centro burguês, sendo aceito até por trabalhadores social-democratas.

Esse prognóstico tenebroso fecha com as impressões de que os governos dos países-núcleo europeus, Alemanha, França, Grã-Bretanha e também a Holanda, tomaram emprestado bilhões de euros para salvar os bancos, embora faltem fundos para a manutenção de infraestrutura, e o crescente empobrecimento de amplos setores, mesmo da população na ativa, não seja resolutamente combatido, uma vez que há verba "para os outros", mas não "para nós". No orçamento da República Federal da Alemanha, 50% são despesas de transferência (renda mínima, pensões etc.); isso não incomoda os críticos, uma vez que esse sistema já é considerado infiltrado por grupos (ciganos imigrados, asilados etc.) que deveriam ter sido barrados. E se uma retirada então não for possível, como promete o referendo "Brexit" na Grã-Bretanha, atualmente muito apreciado pelo "Front National" [francês], pelos "finlandeses verdadeiros" ou, na Alemanha, pelo NPD e pela AfD como opção para o próprio país, então é melhor a autorrealização na ruína do que ser parte de um povo estranho...

Essa preocupação está aumentando na maioria dos alemães; em junho de 2016 mais da metade dos pesquisados em enquete manifestou que "se sente estrangeiro no próprio país".

 

Política de imigração inteligente

Mas se o brado de luta "Alemanha para os alemães" servir não só para afastar ou regular a (forçada) emigração em massa — como fazem de forma ordenada países de imigração como os EUA, Austrália e, na Europa, a Suíça, sem negar que esses estados tenham constituição democrática — mas também [servir para incitar a] violência em massa com motivação política (primeiro se incendeiam os alojamentos, depois se matam refugiados, depois se perseguem etnias inteiras, o que é tolerado por partes da sociedade), apelando-se para "forças de libertação nacional", para a criação de "zonas de terra natal" mediante terror e violência, então o espírito do fascismo de forma alguma está morto, sua massa pode estar "encaroçada", porém com potencial de atuação no próprio terreno e a possibilidade de voltar a crescer. Se o fenômeno do fascismo regional pode ser limitado ou até marginalizado vai depender muito de uma política de imigração inteligente.

Temo que as instituições democráticas não estejam captando bem a situação suscitada por elas mesmas, inclusive porque conhecem muito mal o cotidiano das pessoas que contribuiriam para o novo crescimento das massas fascistas.  As instituições as estigmatizam, tentam bancar o pedagogo, assim as entregando à ridicularização, provocando mais ainda sua oposição. Depois elas vão se surpreender, quando um movimento dirigido (o grau de organização é tal que não cabe a designação Mob [turba, multidão descontrolada]) se radicalizar e, na pior das hipóteses, implementasse um programa de expulsão e assassinato. Nessa interpretação, a câmara de gás de Auschwitz seria um modelo histórico que já precisaria ser imitado. No jargão provocativo dos radicais de direita já se fala novamente em "botar fogo". Nessa utopia ao menos a pátria ficaria livre e só mais pertenceria àqueles que são parte do todo — com mente e pertença étnica corretas.

 

Leia mais...

- Violência e resistência da força-tarefa nazista. Entrevista com Andrej Angrick, publicada na revista IHU On-Line, nº 438, de 24-03-2014.

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