Edição 490 | 08 Agosto 2016

O legado e os erros de planejamento das Olímpiadas do Rio de Janeiro

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João Flores da Cunha

Para Alberto Reppold, “a despoluição da Baía da Guanabara era uma meta real, e houve falta de vontade política de diferentes entes públicos se articularem para efetivamente resolver essa situação”

“O nível de consciência social que nós temos hoje é muito maior” em relação ao que significa ser sede de megaeventos esportivos na comparação com antes dos Jogos Pan-Americanos do Rio, em 2007, diz Alberto Reinaldo Reppold Filho, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Ele aponta como grande desafio para o legado olímpico no Rio a utilização futura das instalações esportivas que foram construídas para os Jogos, que correm o risco de se tornar “elefantes brancos”. Para ele, o legado deveria ter sido planejado já no momento da candidatura.

Em entrevista concedida por telefone à IHU On-Line, Reppold critica as dificuldades de diálogo e os problemas de articulação entre as instâncias federal, estadual e municipal na organização dos Jogos do Rio. Essa foi uma das causas pelas quais não foi cumprida a promessa de despoluição da Baía da Guanabara, que era “aquilo que de mais importante havia na candidatura” do Brasil para sediar as Olímpiadas. Isso significa que “não vai haver praticamente nenhum legado ambiental nos Jogos do Rio de Janeiro”, segundo ele.

Alberto Reppold é professor e diretor da Escola de Educação Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS e coordenador do Centro de Estudos Olímpicos da mesma universidade. É membro da Academia Olímpica Brasileira e professor visitante da Academia Olímpica Internacional (Grécia). É doutor em Educação pela Universidade de Leeds, Inglaterra (2000), mestre em Educação pela UFRGS (1988), especialista em Desportos Coletivos pela Universidade do Estado de Santa Catarina – UFSC (1985) e licenciado em Educação Física pela UFRGS (1983).

 

Confira a entrevista.


IHU On-Line – O noticiário recente sobre os Jogos foi dominado por problemas na Vila Olímpica. A linha 4 do metrô foi inaugurada às pressas, e ainda não funcionando totalmente. Em comparação com outros Jogos, esses problemas e ajustes de última hora são comuns? Ou trata-se de algo exclusivo do Rio?

Alberto Reppold – Toda cidade apresenta algum problema próximo dos Jogos, mas algumas cidades têm apresentado problemas maiores. É o caso de Atenas, em que houve muitas dificuldades, e no nosso caso, no Brasil, há vários problemas. Efetivamente, algumas obras não estarão concluídas dentro do prazo que havia sido estabelecido. Os problemas que nós vimos agora na Vila Olímpica são muito sérios, eles não poderiam estar acontecendo em tal intensidade. O volume de problemas que apareceu na Vila Olímpica é muito grave e isso tem muito a ver com os contratos que são feitos, com a falta de fiscalização das obras, de planejamento, de combate à corrupção de recursos. As obras dos Jogos do Rio de Janeiro são problemáticas quando comparamos com Jogos anteriores. É comum vermos problemas menores nos Jogos, mas nós temos no Brasil problemas muito grandes, e isso é muito sério.


IHU On-Line – Em relação a esses contratos, o Estado do Rio de Janeiro declarou estado de calamidade pública, o que lhe permite adotar medidas excepcionais, como a dispensa de licitação, por exemplo. Medidas de flexibilização como essa são comuns na organização de Jogos Olímpicos ou trata-se de um caso único?

Alberto Reppold – Não é incomum em megaeventos. Em Copas do Mundo de futebol, é mais comum. No caso dos Jogos Olímpicos, não é tão comum, mas acontece. A crítica sobre isso é que, de forma geral, o motivo para que se faça isso talvez não seja o mesmo do que no Brasil. Aqui o argumento sempre é o de que “nós estamos em cima da hora e agora temos que fazer as obras”, e as obras precisam ter uma legislação que possibilite que elas sejam feitas mais rapidamente. 

Em outros lugares, essa legislação diz respeito normalmente às comunidades que têm de ser deslocadas em função das obras. Então, às vezes, há alterações na legislação para permitir a entidades governamentais de forma mais intensa a retirada das famílias e o seu deslocamento para outros lugares, às vezes não seguindo aquilo que está estabelecido na legislação, de respeito aos direitos humanos e assim por diante. No Brasil, a legislação que surgiu para dar conta dessas questões, das obras da Copa e dos Jogos Olímpicos, se deve justamente a uma incompetência de órgãos públicos para fazer um planejamento adequado. Isso é um fato. Se nós não tivéssemos essas mudanças na legislação, não conseguiríamos chegar à conclusão dessas obras nunca. 

É claro que isso favorece uma série de aspectos que nós estamos vendo serem reportados. Os valores das obras são muito elevados, a qualidade não é adequada, por conta da falta de fiscalização. O que aconteceu em Porto Alegre com as obras da Copa, que tiveram de ser refeitas depois, por conta da péssima qualidade, é muito provável que vá acontecer no Rio de Janeiro também. É um grande problema, que mostra justamente a nossa incompetência de planejamento para esses grandes eventos.


IHU On-Line – Sobre o planejamento, existem muitos órgãos encarregados das Olímpiadas: a Autoridade Pública Olímpica, o Comitê Rio 2016, e instâncias municipais, estaduais e federais. Existe clareza sobre quais responsabilidades pertencem a qual órgão no planejamento dos Jogos? 

Alberto Reppold – Existe, em termos de governança, uma estrutura que estabelece isso, de alguma forma. Mas há uma grande dificuldade de diálogo entre os diferentes segmentos. Apenas na instância pública federal, há vários ministérios envolvidos. Há a segurança, a questão sanitária, ministério de Ciência e Tecnologia, além do ministério do Esporte. Então, há uma dificuldade tremenda de articulação dessas ações em nível federal. Isso também acontece nas outras instâncias: há várias secretarias estaduais e municipais que estão envolvidas nisso. Há uma dificuldade de articulação entre os diferentes níveis, federal, estadual e municipal. 

Então, sim, há uma ideia de como as coisas deveriam funcionar, quais são as competências de cada um, mas às vezes há sobreposições e há dificuldade de diálogos entre os diferentes segmentos. Por exemplo, quando se fala da poluição no Rio de Janeiro e da dificuldade que se tinha para fazer a despoluição da Baía da Guanabara, uma das grandes dificuldades é justamente a de que há vários órgãos envolvidos e a falta de diálogo entre eles acaba inviabilizando que se faça uma obra assim. É um problema de articulação.


IHU On-Line – A promessa de despoluição da baía da Guanabara tem sido feita desde antes dos Jogos Pan-Americanos, e que acabou não sendo cumprida nem sequer para as Olímpiadas. O que se pode concluir disso? Era uma expectativa irreal, ou foi efetivamente uma dificuldade de esses órgãos se articularem e conseguirem fazer essa obra?

Alberto Reppold – Não era uma expectativa irreal. A obra poderia ter sido executada. Uma das causas foi justamente essa dificuldade de diferentes entes públicos se articularem de maneira a poder fazer funcionar. Uma obra como essa não acontece de um dia para o outro. Em uma região vasta como aquela, envolve todo um trabalho de saneamento, um trabalho de educação ambiental... Acabou não sendo feito, e isso era o que de mais importante havia na candidatura do Rio de Janeiro. Era justamente o que a candidatura poderia produzir e deixar de melhoria para a cidade. Então, era uma meta real colocada, e houve falta de vontade política de diferentes entes públicos se articularem para efetivamente resolver essa situação. Quem acaba perdendo com isso é, obviamente, a população do Rio de Janeiro.


IHU On-Line – “Legado” se tornou uma palavra corrente para se falar dos megaeventos no Brasil há mais de uma década, desde antes dos Jogos Pan-Americanos. Que apontamentos podemos fazer em relação ao legado dos megaeventos esportivos no Brasil?

Alberto Reppold – Sobre a questão do legado, há algo que é conhecido por todas as pessoas que trabalham com megaeventos esportivos: ele precisa ser planejado já na candidatura. Quando o Brasil se candidatou aos Jogos Olímpicos, era sempre citada a questão do legado. Mas ele precisa ser efetivamente planejado de uma maneira que seja viável. Se nós pensarmos em relação ao legado educacional: o que efetivamente os Jogos Olímpicos nos trouxeram de legado educacional? Praticamente nada. Há um programa só, o programa Transforma, da prefeitura do Rio de Janeiro, com algum apoio do governo federal, que é um projeto de formação de professores para a escola. O legado educacional poderia ser uma das grandes contribuições que os Jogos poderiam deixar, mas isso não vai acontecer. O legado ambiental envolvia a despoluição de que falamos. Não vai haver praticamente nenhum legado ambiental nos Jogos do Rio de Janeiro. 

Sob o ponto de vista da infraestrutura esportiva, são muitas as instalações esportivas construídas no Rio de Janeiro. Então, há um legado. Nosso grande desafio será: não foi pensado efetivamente o que vai ser feito com essas instalações, e isso envolve gestão de espaços físicos. O que vai acontecer com esses espaços, será que eles vão ser mantidos depois? Alguns desses espaços são enormes. Vai ser um grande desafio para nós, porque temos um bom legado em termos de infraestrutura, mas poderemos cair, e as coisas parecem se encaminhar nessa direção, em uma situação de termos apenas elefantes brancos, ou seja, as instalações ficarem lá e não serem utilizadas para praticamente nada. Esse será o grande desafio: lidar com esse legado.

Há uma preocupação, que deve ser reconhecida também, com as instalações temporárias. Elas têm um custo, e serão desmontadas. Algumas delas vão simplesmente desaparecer, como a estrutura da área da vela. Outras vão ser transformadas em escolas, ou seja, uma utilização efetiva. Há uma utilização no Parque Olímpico que vai ser depois demolida e o material todo vai ser usado para construir duas escolas. Há uma preocupação também com esse tipo de legado, de não deixar elefantes brancos – mas alguns ficarão.

Em termos de mudanças estruturais na cidade do Rio de Janeiro, de mobilidade urbana, muita coisa foi feita, mas não se atingiu o nível que se esperava. Entre estações de metrô e BRT, não se chegou ao nível esperado. Mas também precisamos reconhecer que houve uma melhoria. Houve também um avanço na área onde foi criado o Museu do Amanhã, uma área que foi totalmente reformulada, na qual foram envolvidos custos privados, e creio que vai ser um grande legado. 

Do ponto de vista da Vila Olímpica, das instalações e dos apartamentos, tivemos problemas de construção no passado e que até hoje são discutidos na Justiça com as obras que foram feitas para a vila dos Jogos Pan-Americanos. Não sabemos como isso vai funcionar, e vamos ter mais clareza com o tempo, mas já vimos que a Vila Olímpica já apresentou alguns problemas. 

Em termos de legado, o nosso problema foi não termos pensado antecipadamente essas coisas com mais clareza. Algumas coisas aconteceram, e outras não vão acontecer. Sob o ponto de vista das instalações esportivas, e de projetos vinculados a ela, fica esse grande desafio. O Tribunal de Contas da União – TCU colocou um limite para o Ministério do Esporte apresentar um programa de legado. Veja bem: os jogos estão começando e nós ainda não temos um plano de legado. Essa é a pressão atual que o TCU está colocando sobre o Ministério do Esporte: como as instalações esportivas vão ser utilizadas depois dos Jogos. Isso deveria ter sido pensado muitos anos atrás, e até agora o Rio de Janeiro não conseguiu resolver isso.


IHU On-Line – Em relação à transparência: nós temos condições ou teremos, no futuro, de saber quanto os Jogos custaram ao poder público? 

Alberto Reppold – Há uma preocupação grande com isso. O nível de consciência social que nós temos hoje é muito maior. Se pensarmos em relação aos Jogos Pan-Americanos que nós tivemos no Brasil, nem a sociedade brasileira, nem a mídia, nem os órgãos governamentais tinham muita clareza sobre tudo o que significava um megaevento esportivo. Inclusive as organizações sociais que estão envolvidas nisso, principalmente aqueles segmentos que perdem com os Jogos, geralmente nas comunidades mais pobres da população. Hoje há um entendimento muito maior sobre o que significam esses eventos.

Existe um controle dos órgãos públicos responsáveis, tanto no nível federal quanto estadual e municipal. Isso está sendo acompanhado sistematicamente em relatórios que precisam ser prestados e em cobranças que são feitas pelos tribunais de contas. Há uma cobrança da mídia, que está mais atenta hoje. Diria que a transparência não é a que gostaríamos. Ela poderia ter começado já em uma discussão preliminar sobre se deveríamos ter trazido os Jogos para o Rio de Janeiro. Isso acontece em outras cidades e deveria ter acontecido. Nós teríamos que ter uma discussão pública em relação aos investimentos que precisam ser feitos. 

No final, teremos condições de saber quanto de dinheiro público federal foi investido no Rio de Janeiro, e com bastante detalhe. Há contas que devem ser prestadas depois, o Tribunal de Contas vai ficar em cima disso e nós teremos uma estimativa razoável do que foi gasto em termos de recursos. O penúltimo relatório aponta para 40% de investimentos públicos e 60% de investimentos privados, mas eu tenho dúvidas sobre isso.


IHU On-Line – A partir do lançamento da Agenda Olímpica 2020 , o COI faz sinalizações de mudanças em relação ao modelo dos Jogos através da redução de custos. Os megaeventos devem mudar a partir de agora?

Alberto Reppold – Sim, e inclusive já estão mudando. Já houve uma decisão de incluir novos esportes, como experiência. Em Tóquio, em 2020, teremos beisebol e softball, que faziam parte dos Jogos e estão retornando, e a entrada do skate, do surfe e da escalada, que são esportes voltados para a juventude. O Comitê Olímpico Internacional tem feito muitas pesquisas, principalmente junto aos jovens, e tem percebido que algumas modalidades esportivas não caem no gosto da geração mais jovem. Algumas provas de atletismo, por exemplo, como o arremesso de peso, não têm apelo junto à juventude. Os jovens querem outro tipo de esporte. Os jogos olímpicos de inverno já começaram a fazer modificações nesse sentido, os jogos olímpicos da juventude têm feito experiências positivas, e, a partir da Agenda 2020, os Jogos de Tóquio também vão introduzir novas modalidades, em caráter experimental.

Há outras mudanças importantes, como o fato de os Jogos acontecerem apenas em uma cidade, a qual precisa passar por muitas transformações, e isso é muito oneroso para uma cidade. Então há a possibilidade de termos mais jogos funcionando ao mesmo tempo em cidades diferentes, como é a Copa do mundo. É uma ideia interessante que visa reduzir os custos para a cidade. 

Há a questão de uma aproximação entre Jogos Paralímpicos e Jogos Olímpicos, talvez em um único evento que pudesse congregá-los. Há a ideia de modalidades mistas. Também tem a questão da sustentabilidade, que passa a ter uma relevância muito maior e a partir de agora precisa ser incorporada no dia a dia das práticas esportivas e do COI. Surgiram muitas ideias, e, em uma discussão pública, recebeu-se mais de 40 mil sugestões, que foram sistematizadas em cerca de 1.200 ideias-chave e acabaram culminando em 40 recomendações.

Isso mostra que há preocupações com o futuro dos Jogos, e que eles precisam mudar. Para seguirem existindo, eles precisarão mudar. Não há dúvida sobre isso. Eles devem mudar para atender às futuras gerações, que terão outros interesses. Outro aspecto importante é repensar quais são os tipos de patrocinadores que o movimento olímpico vai querer associar ao seu nome. Esse somatório de ideias e de recomendações que surgiram indicam que há ao menos uma vontade por parte do COI de fazer mudanças. Algumas já estão acontecendo e outras maiores irão acontecer. No futuro, teremos outros Jogos, diferentes dos que temos hoje.■

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