Edição 489 | 18 Julho 2016

Fragmentação e estagnação econômica: o que resta ao Mundo Árabe?

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Carla A. R. Holand Mello

“O desenvolvimento econômico dos países do Oriente Médio e do Norte da África é constrangido significativamente pela falta de capacidade tecnológica e uma alta alocação ineficiente de recursos, e tal ineficiência está baseada na economia política doméstica”, afirma Carla A. R. Holand Mello.

Carla A. R. Holand Mello é graduada e mestra em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, onde também é doutoranda em Estudos Estratégicos Internacionais. Atuou no curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria – UFSM e atualmente é professora no curso de Relações Internacionais da Unisinos.

 

Eis o artigo.

 

A despeito de todo o discurso unificador do pan-arabismo  do passado, o Mundo Árabe vive uma permanente fragmentação. O caminho para uma resposta satisfatória é apontado por Hudson (1999, p. 15) apud Ferabolli (2009): “[...] os obstáculos para a unidade [árabe] situam-se em quatro categorias: fatores sociopolíticos internos; interesses econômicos que não se sustentam; a estrutura dos sistemas árabe/não árabe de Estado; e os padrões estratégicos, econômicos e culturais exógenos.”.

Uma observação acerca dos pontos levantados acima é que o sistema de Estados do Mundo Árabe carece de mecanismos básicos de accountability  intraestatal, prejudicando suas instituições e seu desenvolvimento econômico. Essa conjugação de fatores tem origem no período de estruturação destes Estados no pós-II Guerra Mundial e se agravou ainda mais quando os regimes passaram a enfrentar desafios e resistências internas a partir de meados dos anos 1970 e tiveram de dar alguma resposta para manterem-se no poder, seja abrindo suas economias, seja pautando-se por um aparelho estatal mais repressivo, seja utilizando-se de modelos patrimonialistas e privilegiando alguns grupos, como burocratas ou empresários. Pode-se afirmar que a origem destes fatos se deu nos níveis sistêmico, regional e estatal.

Segundo a análise de Brach (2008) de cunho mais econômico, a despeito de uma situação geoestratégica geral favorável entre três continentes, com excelentes conexões com o mar e vias navegáveis e em direta proximidade com a União Europeia – um dos maiores polos econômicos do mundo – o desempenho dos países árabes em geral, mas, sobretudo, dos países do Mediterrâneo Árabe, se encontra aquém de suas possibilidades. Além disso, os países árabes do Oriente Médio e Norte da África (OMNA) se mostraram menos atrativos economicamente do que outras regiões em desenvolvimento. A autora considera que países não árabes e pertencentes à região, casos de Turquia, Israel e Irã, possuem padrão econômico mais elevado e, portanto, não se enquadram em quadro tão alarmante.

Há grandes disparidades de renda, por exemplo, entre grupos diferentes de países da região, como os países árabes do Mediterrâneo e os países do Golfo Árabe, o que uma avaliação agregada dos países do OMNA acaba por ocultar. Brach (2008) também mostra a situação dos fluxos líquidos de investimentos externos diretos (IED), os quais, tanto para o agregado de países do OMNA, quanto do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), quanto dos países do Mediterrâneo Árabe, se mostram baixos se comparados com outras regiões do mundo em desenvolvimento como América Latina e Caribe ou a África Subsaariana.

Duas hipóteses são levantadas pela autora para este quadro: o desenvolvimento econômico do OMNA é constrangido significativamente pela falta de capacidade tecnológica e uma alta alocação ineficiente de recursos; e a ineficiente alocação de recursos nos países OMNA está baseada na economia política doméstica em cada país e resulta em parte dos prevalentes sistemas políticos e socioeconômicos da região (BRACH, 2008).

Entretanto, não há um acordo sobre o porquê de os países árabes terem lidado com a globalização de forma tão deficiente. Programas internacionais encabeçados por organismos internacionais como o FMI e o Banco Mundial, bem como iniciativas da União Europeia e dos Estados Unidos, foram aplicados nestes países para aumentar sua competitividade através de privatizações e abertura comercial, porém sem sucesso. O PIB dos países árabes da região chegou a experimentar uma queda nas últimas décadas (BRACH, 2008).

Observando-se o aspecto político, Owen (2005) argumenta que a partir dos anos 1990 – o que se poderia considerar como um ensaio para a Primavera Árabe dos anos 2010 – os principais temas analisados no Oriente Médio eram os seguintes: política de desenvolvimento econômico e reestruturação, o impacto do reavivamento religioso contemporâneo (cristão e judaico, bem como muçulmano), a mudança de papel dos militares, a prática de democracia multipartidária e a evolução dos regimes de partido único. Em quase todos os países do Oriente Médio, um período de entusiasmo pela centralização e planejamento foi seguido por um processo de reajustamento forçado, no qual mudanças no clima econômico global, carência de recursos e pressões sociais de baixo exerceram todos papéis importantes.

Nesse contexto, o que poderia ter sido um período de avanços e organização estatal, tornou-se, a partir dos anos 1990, uma lenta marcha rumo ao que ficou conhecido como Primavera Árabe, a qual, na realidade, tem se mostrado, desde então, mais um período de agonia e desestruturação do sistema de Estados no OMNA, do que um movimento de avanços rumo ao desenvolvimento econômico e de instituições democráticas. A modernização com base em participação social e crescimento econômico não foi desencadeada. A possibilidade de reconfiguração territorial da região é uma realidade latente, bem como o fortalecimento ou surgimento de regimes de maior apelo fundamentalista, utilizando o islã político como base. Isto, por sua vez, poderia acarretar uma continuação da ingerência externa histórica verificada na região. Desta perspectiva, o futuro do Mundo Árabe é incerto mais uma vez. 

 

Referências

BRACH, Juliane. Constraints to Economic Development and Growth in the Middle East and North Africa. GIGA Working Papers. GIGA Research Programme: Institute of Middle East Studies. 2008. Disponível em:

FERABOLLI, Silvia. Relações internacionais do mundo árabe: os desafios para a realização da utopia pan-arabista. Curitiba: Juruá, 2009. 177 p.

OWEN, Roger. State, Power and Politics in the Making of the Modern Middle East. Routledge. London, 2005. ISBN 0-203-40976-0.

 

Expediente: 

Coordenador do curso: Prof. Ms. Álvaro Augusto Stumpf Paes Leme

Editor: Prof. Dr. Bruno Lima Rocha

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