Edição 489 | 18 Julho 2016

Os limites do reconhecimento masculino sobre a mulher

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

João Vitor Santos | Tradução Eduardo Herrmann

Antonietta Potente reconhece que hoje há movimentos sensíveis a questões femininas. Porém, reitera que isso ainda se dá numa posição varonil, que desconsidera os espaços e caminhos abertos pelas próprias mulheres ao longo da história

Não há quem negue que os movimentos feministas abriram espaços no espectro social para as mulheres, colocando-as no mesmo grau que os homens. Entretanto, há mais nuances que parecem ainda não terem sido compreendidas. Isso fica claro quando a teóloga Antonietta Potente analisa a figura da mulher na Igreja de hoje, inspirada pela imagem de Maria Madalena. Para ela, a sensibilidade do papa Francisco para com o outro abre as portas da Igreja para refletir sobre muitos temas, entre eles o feminino no catolicismo. 

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Antonietta ainda enfatiza: “Tenho a impressão de que [o papa, os homens] me trata sempre, e a minhas companheiras mulheres, como pobrezinhas, a não ser que reflitamos os paradigmas que eles têm em seu imaginário”. Ela chama atenção como esse detalhe ruidoso na relação entre o masculino e o feminino sempre existiu e se perpetua desde o anúncio feito por Madalena, quando os homens não compreendem a mensagem. 

Antonietta Potente é doutora em teologia moral e religiosa da Congregação das Irmãs Dominicanas de São Tomás de Aquino. Lecionou em diferentes centros de estudos e universidades teológicas da Itália até 1994, quando foi viver na Bolívia. Lá, seguiu sua atividade de docência e escritora. Buscando uma integração maior, morou com uma família indígena nos arredores de Cochabamba. De volta à Itália, desde 2012, colabora com a Faculdade de Filosofia da Universidade Estatal de Verona. Além disso, segue sua atividade de escritora, acompanhando comunidades de base em diferentes lugares. Seus temas de reflexão são místico-política, relações interculturais e inter-religiosas a partir de uma perspectiva da diferença sexual. Entre suas publicações, estão Un bene fragile. Riflessioni sull’etica (Milano: Mondadori 2011), Umano piú umano (Firenze: Piagge edizioni, 2013), È vita ed è religiosa: una vita religiosa per tutti (Milano: Paoline, 2015) e Vestire gli ignudi (Bologna: EDB, 2016).

 

Confira a entrevista.


IHU On-Line - Como a senhora compreende a figura de Maria Madalena? Qual sua importância para o cristianismo?

Antonietta Potente - Parece que, dentro do imaginário cristão, Maria Madalena é a que mais resgata a ousadia feminina. Falo do imaginário porque, por si só, como todas as mulheres bíblicas, sua história se situa em um nebuloso mistério, onde cada uma de nós encontra algo de si. Essa proximidade não se encaixa em devotos critérios morais – pecadora ou santa –, mas também dentro de seu infinito desejo e de sua proximidade ao mistério. Em uma hermenêutica um pouco extemporânea das clássicas hermenêuticas sobre as escrituras cristãs, me perguntaria se não foi ela a mulher sangrando que toca por trás o manto de Jesus sem pedir permissão a ninguém, empurrando entre a multidão.

Na história desse imaginário cristão, todo mundo disse algo sobre ela e, lamentavelmente, sendo a narração cristã uma narração masculina, a morfologia dessa mulher se tornou sempre mais etérea. É interessante saber que, nos primeiros séculos da experiência cristã alternativa, entre as mães do deserto, todas ou quase todas aquelas mulheres que percorrem o deserto têm o nome de Maria. Como se fosse para se deixar adotar por essa mulher, que talvez para elas incorpora as características de uma mulher fora dos cânones varonis. É ela que permite a cada uma ser “a outra Maria”.


IHU On-Line - Como a figura de Maria Madalena pode contribuir para reflexões acerca do espaço e papel da mulher na Igreja? É possível afirmar que o apagamento do protagonismo feminino, na história da Igreja, se dá na mesma proporção em que a figura de Madalena é relegada?

Antonietta Potente - Na Ordem Dominicana , desde suas origens, Maria Madalena é considerada como a padroeira, junto a Santo Domingo , da mesma Ordem Dominicana, e a ela se dava o nome de “apóstola dos apóstolos”. Isso me parece muito significativo, e me leva a pensar que se hoje, na Igreja, queremos resgatá-la, não é uma grande novidade. O mesmo acontece com toda a teologia sobre as mulheres e, sobretudo, a eclesiologia em torno delas. Parece que não conseguimos dar passos muito relevantes. Há algo como uma constante repetição do que, há muitos séculos, de alguma forma alguém havia intuído, sobretudo as místicas e os místicos.

Penso em Meister Eckhart  e toda sua escola formada também por mulheres. Não acredito que o destino das mulheres na Igreja seja relacionado apenas com Maria Madalena, mas também com aquele imaginário próprio que se tem sobre a mulher em geral e na fé cristã, a partir da mesma Maria, mãe de Jesus de Nazaré. A ela também fizeram cumprir um papel que refletia a mentalidade varonil e sacerdotal, e que não foge nunca daquelas coordenadas masculinas sobre as mulheres que eles sentem: mãe, irmã e nada mais. Mãe que os cuida e irmã que os serve.

Sempre falaram sobre nós e poucas vezes pediram que falássemos sobre nós mesmas. O mesmo acontece na Igreja atual. Desde a Igreja atual, estão dizendo o que fazer conosco: chamar-nos ou não de diaconisas. E sobre isso fazem eternas discussões sobre quem disse sim e não, e tudo isso porque são eles que têm de decidir. E se isso não nos interessar? Se a nós não importar ser ou não ser admitidas em tudo isso? Qual seria o problema? Uma desobediência mais? O reconhecimento das mulheres, dentro de uma perspectiva de diferença sexual, passa por outro caminho, e são os caminhos das mesmas mulheres que podem ou não podem coincidir com uma instituição totalmente varonil.


IHU On-Line - Hoje, em especial nesse pontificado, quando se fala em mais espaço para a mulher na Igreja, logo se associa à ideia de ordenação de diaconisas. Mas será esse o espaço mais importante para as mulheres, a maior conquista? Em que medida esse debate acerca das diaconisas cessa e inebria um debate mais amplo sobre o espaço para mulheres na estrutura da Igreja?

Antonietta Potente - Em parte já respondi sobre esse tema, mas poderia acrescentar que, por parte da Igreja e da sensibilidade do Papa Francisco, falta reconhecimento histórico sobre o papel das mulheres – todas as mulheres – na história. Tratam a nós um pouco como os pobres: eles nasceram pobres – o que não é verdade – e nós nascemos “menores de idade”. A diferença nesse momento é que Papa Francisco é mais sensível com respeito aos outros, e parece que se sente culpado de tantos males da Igreja e da humanidade em geral, e é como se quisesse pedir perdão e tentar fazer gestos que resgatem a posição da Igreja. Mas não se dá conta de que, ao longo da história, algo aconteceu: nós, mulheres, elaboramos nossa hermenêutica, nossa filosofia e sabedoria de vida. Porém, isso ele não percebeu. Tenho a impressão de que me trata sempre, e a minhas companheiras mulheres, como pobrezinhas, a não ser que reflitamos os paradigmas que eles têm em seu imaginário.


IHU On-Line - Em que medida a estrutura piramidal da Igreja hoje cessa potências femininas? E que outras potências são diminuídas dentro desse modelo?

Antonietta Potente - Eu, por minha experiência, vejo que as mulheres livres seguem seus caminhos. O problema pode ser para algumas que, por algum motivo, não conseguiram abandonar esse imaginário de servidão. Penso em algumas congregações religiosas que nasceram para servir os sacerdotes e monges e daí não saíram. Nesse sentido, penso que a culpa também é de nós, as mulheres teólogas, que não as ajudamos a fazer um caminho de conscientização feminina. 

Para fazer isso, é necessário criar outra teologia, outra antropologia e filosofia. Não é suficiente falar de Deus maternal, nem de suas entranhas, porque sobre isso podem falar também os homens, pelo fato de que eles sentem as entranhas e o útero como um espaço também deles, porque dali nasceram e não se pode negar isso. Uma teologia de mulheres vai mais além; usando as palavras de Jesus com Nicodemos , não é suficiente renascer desde o útero da mãe, porque as dores do parto seriam mais uma vez da mulher, e não dele. É necessário nascer de novo desde o vento, que não se sabe de onde vem e para onde vai. No entanto, para a teologia varonil, é importante saber tudo, para saber também que ninguém retira deles seus papéis e seu poder – ainda que sempre menores – sobre a vida dos e, sobretudo, das demais.


IHU On-Line - No cristianismo primitivo não havia essa organização piramidal, sendo uma Igreja muito mais circular. Em que momento, como e por que a Igreja assume essa configuração?

Antonietta Potente - Deixando privilégios, terminando com essa ânsia de ser a única, de tomar um espaço que é de outros e outras. Impressiona-me, sobretudo na Itália, a nível midiático, ver como se dá um peso especial ao que a Igreja diz. Se aguarda o que ela diz, a pensam como a instituição que pode resolver. Os primeiros cristãos sempre rechaçaram essa visibilidade (carta a Diogneto) , sempre lutaram contra estar na mesa onde se decide a sorte da humanidade por parte dos donos. Nossa opção não é ser bons, fazer o bem porque todo o mundo nos vê e sabe de nós, mas sim viver bem com mulheres e homens de qualquer cultura e religião, que buscam o mesmo.


IHU On-Line - Como mudar essa estrutura piramidal e como as discussões sobre os espaços e papéis das mulheres e do laicato podem contribuir para essa “reforma”? Que relação é possível estabelecer com os movimentos de Francisco em seu pontificado?

Antonietta Potente - Não se trata de uma reforma que vem do alto e, além disso, eu não considero as instituições se já se colocam desde o início nessa posição. Trata-se de uma mentalidade que mudamos desde baixo, até que se perceba no “alto”. Francisco é um homem que salvou a cara da Igreja, mas não muda muito. O alto segue existindo. Pessoalmente, me interessa a reforma da humanidade, a da Igreja é pouca coisa dentro do que deve ser transformado na humanidade. 

Certamente, se a Igreja seguisse impedindo a transformação em direção à inclusão e à paz da humanidade, isso seria muito grave e haveria que lutar para que ninguém a escutasse: “façam o que eles dizem, mas não façam o que eles fazem” é um antigo adágio. É preciso que voltemos a ser pessoas ativas na transformação das relações humanas e com o cosmos, porém chamando a todo o mundo: cada cultura, religião, cada beleza e bondade e suas respectivas boas e belas experiências. Os leigos devem ser mais criativos, no entanto, desde o Concílio Ecumênico Vaticano II , cresceram demais à imagem e semelhança do clero.


IHU On-Line - A senhora viveu muito tempo entre camponeses aimará na Bolívia. Qual é e como compreender o papel das mulheres nessas comunidades indígenas e no que podem nos inspirar?

Antonietta Potente - São sábias e fortes como as mulheres do começo do cristianismo.


IHU On-Line - Como a senhora tem observado o atual momento da Bolívia? A perspectiva do “Bem Viver” sucumbe ao desenvolvimentismo capitalista?

Antonietta Potente - A dificuldade para a Bolívia, como para todos os países em caminho de transformação, é a de conseguir sobreviver com suas mudanças em um sistema mundial que não permite mudanças. O problema não são esses países, mas sim o sistema, que todo o mundo deveria enfraquecer dia após dia. A Bolívia segue sendo uma tentativa muito interessante, porém já não tem grandes apoios.


IHU On-Line - Como observa a Lei de Identidade de Gênero boliviana ? Quais são os avanços e limites? Como compreender as posições dos bispos que entram em choque com Evo Morales?

Antonietta Potente - A Bolívia, como outros países, tenta responder a novas tomadas de consciência por parte da sociedade. Porém a Igreja, quanto ao processo de mudança política, não soube encontrar o seu lugar. Desde o início, em um processo de transformação, a Igreja desempenhou um papel demasiado crítico até se tornar, pouco a pouco, contrária, e isso porque sentiu que algo – por sorte, digo eu – estava acontecendo e aconteceu sem ela.

Assim foi e assim se seguiu, no meu modo de ver, piorando dia após dia. Isso porque à Igreja interessam os pobres, e não sua capacidade de se tornarem capazes de um futuro com autonomia. Os indígenas são um mundo, e esse mundo agradou à Igreja quando estava calado – assim como as mulheres –, mas o papel mudou. Isso não quer dizer que tudo o que acontece na Bolívia é perfeito, absolutamente não, mas na Bolívia não podemos mais voltar atrás. 


IHU On-Line - Deseja acrescentar algo?

Antonietta Potente - A história das mulheres sempre foi muito parecida com a história dos povos e das categorias sociais mais fracas. Mas nós demos sinais muito bonitos de que vamos além. ■

Últimas edições

  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição
  • Edição 543

    Ontologias Anarquistas. Um pensamento para além do cânone

    Ver edição