Edição 489 | 18 Julho 2016

O mosaico das “Madalenas”

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

João Vitor Santos

Wilma Steagall De Tommaso olha para Madalena das artes, um ícone que tem uma face revelada para cada tempo, em movimentos que a transformam em muitas

Há historiadores que buscam a compreensão de um tempo através do que foi produzido nele. É dentro dessa perspectiva que a arte revela. Numa rápida e despretensiosa pesquisa na Internet por “representações artísticas de Maria Madalena”, se passa facilmente de 85 mil ocorrências. São rostos e mais rostos de uma personagem envolta em muitas dúvidas sobre quem de fato foi essa mulher. Para Wilma Steagall De Tommaso, professora no Museu de Arte Sacra de São Paulo, o fascinante reside aí. É pensar o que esse mosaico diz da personagem sobre cada tempo em que foi representada. “Cada período da era cristã criou uma Madalena que satisfizesse suas necessidades e anseios, e assim Maria Madalena vem sendo submetida até nossos dias a uma plástica cultural”, destaca, lembrando que cada nuance dessas teve seu papel na preservação da memória dessa mulher pelos tempos.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, a professora faz um passeio pela história da arte sacra ancorada nas formas como Madalena é lida e constituída. As versões começam na Idade Média, quando “era retratada na arte como uma mulher da nobreza”, cuja “vida era uma lição de arrependimento e esperança”. No período da Reforma se tem o primeiro revés, e ela passa a ser “a penitente”. “O papel de Maria Madalena como exemplo de penitência e intercessora tornou-se uma arma essencial de propaganda contra os princípios luteranos e defesa da doutrina tridentina do mérito”, explica Wilma.

Confessando-se uma apaixonada pela discípula, a professora segue seu passeio pelas concepções pós-Concílio de Trento. “Talvez não seja exagero sugerir que Maria Madalena ressurgiu das deliberações do Concílio de Trento como um símbolo da Igreja triunfante e da verdadeira fé”, arrisca-se. “Temos de reconhecer que a beleza interior de Madalena brilha por meio de todas as acusações, leituras equivocadas e lama lançadas contra ela”, completa, ao analisar a Madalena que atravessa o Concílio vaticano II e chega ao século XX, banhada pelo cinema.

Wilma Steagall De Tommaso é doutora em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP, professora no Museu de Arte Sacra de São Paulo – MAS-SP. Integra o grupo de pesquisa Núcleo de Estudos em Mística e Santidade – NEMES, da PUC-SP. Entre suas publicações sobre o tema, destacamos Maria Madalena nos textos apócrifos e nas seitas gnósticas (Caderno de Pesquisa, v. 1, p. 74-94, 2006) e Maria Madalena até a arte contemporânea (Ciberteologia Revista de Teologia & Cultura. São Paulo: Paulinas, 2009. v. 2. p. 87-103).

 

Confira a entrevista.


IHU On-Line - Para a senhora, quem foi Maria Madalena e qual sua importância para o cristianismo?

Wilma Steagall De Tommaso - Maria Madalena é na verdade Maria de Magdala. Maria é seu nome e Magdala, cidade da Galileia, próxima a Nazaré, onde ela nasceu. Ela foi uma discípula de Jesus, de quem Ele expulsou sete demônios. Nesse momento aconteceu uma metanoia, uma completa conversão, e após esse fato divisor de águas, nunca Maria Madalena abandonaria seu Mestre. 

O mais importante é que Maria Madalena é a prova de que, mais que uma doutrina, o cristianismo é um encontro, uma experiência pessoal. Um encontro com o Amor, única possibilidade para poder mudar radicalmente a vida, dando-lhe sentido. Maria Madalena é o exemplo desse encontro. Além de ser, sobretudo, a testemunha-chave da Ressurreição, maior evento do cristianismo. 

Cada membro da Igreja que caminha para a busca da transcendência deveria se identificar com Maria Madalena, a pecadora que muito amou. Ter sido uma pecadora fez Maria Madalena muito humana, seu exemplo se torna para o cristão a esperança da salvação apesar das fraquezas, dos pecados e da culpa inerente à humanidade. 


IHU On-Line - Quais os relatos mais antigos de Madalena que destacaria? Como é retratada nesses registros?

Wilma Steagall De Tommaso - Os documentos mais antigos são os Evangelhos canônicos, onde Maria Madalena é a mulher mais citada, porém a pesquisa sobre Maria Madalena nos Evangelhos Canônicos leva à  frustração pelo escasso número de dados que revelam sobre a identidade desta  mulher. Ela também não é citada nos Atos dos Apóstolos, nas Epístolas, nem no Apocalipse de João, mesmo tendo sido citada 14 vezes nos Evangelhos.

Penso que é importante frisar o que está escrito nos Evangelhos sobre Maria Madalena: em uma leitura atenta podemos saber pelo Novo Testamento que Jesus expulsou de Maria Madalena sete demônios. Depois deste episódio que está no evangelho de Lucas, o evangelista também relata que Madalena seguiu e serviu a Jesus, junto a outras mulheres, com seus próprios recursos. Esta é uma importante informação, pois o fato de as mulheres disporem de seus recursos tem um significado de peso. Elas não faziam parte do grupo que seguia Jesus para realizarem tarefas como cozinhar, cuidar das roupas e outros serviços domésticos. As mulheres seguiam Jesus porque eram também discípulas. Sobre isso, Mateus conta que essas mulheres estiveram com Jesus desde o tempo em que Ele pregou na Galileia até quando Jesus foi a Jerusalém no final de seu ministério.

A cena da ressurreição

Quando Jesus foi levado para ser crucificado, Marcos e Mateus contam que Madalena e outras mulheres o seguiam de longe. Quando Jesus foi sepultado, Marcos escreveu que Madalena estava entre as mulheres que observaram onde o corpo foi sepultado. No amanhecer do primeiro dia da semana, Mateus e Marcos falam que Madalena e outras duas mulheres foram embalsamar o corpo de Jesus. Ao encontrar o sepulcro aberto, ela foi correndo avisar Pedro e João, segundo o evangelista João.

Um anjo próximo ao sepulcro aberto anuncia à Madalena e às outras mulheres que Jesus havia ressuscitado, segundo Mateus. Lucas ainda acrescenta que depois do anúncio do anjo Madalena vai dar a boa nova aos discípulos. Marcos e João a privilegiam como primeira testemunha da Ressurreição. São estes os episódios que podem ser lidos nos Evangelhos Canônicos sobre Maria Madalena.

Depois da ressurreição, o desaparecimento

Com o Noli me Tangere , João Evangelista concluiu de forma bela e poética a participação de Madalena nos Evangelhos. No entanto, as histórias sobre a vida dessa Maria proliferaram no imaginário do povo cristão. Inconformismo com a ausência? As muitas versões sobre o seu paradeiro após a Ressurreição trouxeram muitas histórias sobre ela. 

O que não está nos Evangelhos

Não há nos Evangelhos nenhuma referência a que Madalena tenha sido uma mulher pecadora ou uma mulher adúltera. O texto em que Lucas conta sobre a mulher que lavou os pés de Jesus com suas lágrimas, secou com seus cabelos e os ungiu com perfume é conhecido como a história da pecadora anônima. O interessante é que este texto está no capítulo 7 do Evangelho de Lucas e, quando Lucas refere-se à Madalena sobre a expulsão dos sete demônios, está no capítulo 8. Foi esta proximidade de textos uma das alternativas que pode explicar como as duas mulheres se tornaram homônimas. A mulher anônima recebeu um nome e Maria Madalena se tornou a pecadora arrependida.

Maria Madalena também não era irmã de Marta e de Lázaro. Os irmãos Maria, Marta e Lázaro eram de Betânia, uma região próxima a Jerusalém. Maria Madalena era de Magdala, uma cidade que ficava na região da Galileia.

Em nenhum dos Evangelhos Canônicos encontra-se qualquer citação que sugira que Madalena e Jesus tiveram algum relacionamento especial ou íntimo. Os apóstolos eram casados, se Jesus tivesse constituído uma família, não haveria motivos para que este fato fosse omitido. Os apócrifos gnósticos  mencionam uma predileção a Maria Madalena, mas não há ênfase a um possível casamento. O celibato para os sacerdotes só aconteceria depois de séculos. 

Faces de Maria Madalena

Há uma questão que gostaria de acrescentar, que é fundamental para compreensão do personagem Maria Madalena. No Ocidente, três Mulheres fazem uma Maria Madalena. São elas: a pecadora anônima, Maria de Betânia e a Maria Madalena. No Novo Testamento há poucos elementos, de forma geral, para que se possa ter uma noção da vida pessoal daqueles que protagonizam as suas histórias. Os Evangelhos são breves. Priorizam a vida pública de Jesus, não a vida privada daqueles que lá aparecem. Por isso, é um trabalho quase que insano querer decifrar a biografia, mesmo dos que mais estão lá citados. Maria Madalena, por exemplo, é mais citada que a Virgem Maria. No entanto, a posição de Maria, a mãe de Jesus, não deixou por isso de ser menos reconhecida, nem perde em importância. 

Assim, temos referências escassas sobre Maria Madalena, tornando-a um personagem enigmático. Ela é apresentada de uma forma livre, isto é, não está vinculada a nenhum homem: pai, marido ou filho, fato que contrariava os costumes judaicos da época. Quando não se encontra explicação, o imaginário coletivo cria saídas para os enigmas. É interessante como com Maria Madalena, ao longo dos dois mil anos de cristianismo, ocorre essa constante tentativa de decifrar o mistério. A cada época surgem histórias, geralmente fantásticas, que procuram desvendar o enigma. Quem realmente foi esta mulher?

Mesmo em relação ao que está nos Evangelhos Canônicos, no Ocidente ocorreu uma fusão: são de três diferentes mulheres que durante séculos “formaram” uma só Maria Madalena. 

As confusões sobre as mulheres

A identidade de Maria Madalena — de quem Jesus expulsou sete demônios e que foi testemunha da paixão e da Ressurreição — fundiu-se então com a da pecadora anônima, que está no final do capítulo 7 do Evangelho de Lucas — mulher que lavou, ungiu e secou com os cabelos os pés de Jesus na casa de Simão, o fariseu — e também é identificada com a Maria de Betânia irmã de Marta e de Lázaro. Maria de Betânia, no Evangelho de João, unge também Jesus com um valioso perfume de nardo. A pecadora anônima que aparece no Evangelho de Lucas. Maria de Betânia e Maria Madalena passaram a ser consideradas a mesma pessoa. Não há nos Evangelhos uma narração em que apareça Maria Madalena ungindo Jesus.

A confusão sobre a identidade destas mulheres remonta ao século III, pois foi ao final do século VI que o Papa Gregório Magno (540-604)  pôs fim à questão ao declarar que Maria Madalena, Maria de Betânia e a “pecadora” de Lucas eram a mesma pessoa.


IHU On-Line - Como Madalena foi reproduzida pelas artes até a Idade Média? E como foi reproduzida durante e ao final da Idade Média?

Wilma Steagall De Tommaso - Na Idade Média, Maria Madalena foi muito cultuada, prova simples é verificar as numerosas igrejas, locais santos que foram erguidos na época em sua homenagem e devoção. Surgiram também muitas lendas sobre ela. Sua personalidade acrescida daquela de Maria de Betânia e da pecadora anônima estava perfeitamente conformada.

O período entre os séculos XI e XIII foi o ponto alto do culto da Virgem Maria, santa e imaculada, mas o modelo para os meros mortais pecadores era Maria Madalena, pois ela foi pecadora e pelo arrependimento alcançou a santidade. Dentre muitos relatos há um que teve grande influência nas artes, seja na literatura, no teatro, na pintura e na escultura. A obra do frei dominicano Jacopo de Varazze , Legenda Áurea: vida de santos , que no ano 2000 foi traduzida e editada no Brasil pela Companhia das Letras. Esclarecendo: Legenda — aquilo que deve ser lido no que se refere à vida dos santos; Áurea — pelo grande valor, de ouro. 

A Legenda Áurea é um tratado hagiográfico em que foram compiladas as vidas dos santos que até então eram conhecidos pelos leigos cristãos pela tradição oral. Este gênero literário que se tornou muito popular no século XIII e nos posteriores, tinha como finalidade a edificação da fé do fiel através do exemplo da vida daqueles que a Igreja considerava como santos.

Madalena por Varazze

De acordo com a narração de Varazze, 14 anos depois da Ascensão de Cristo, um grupo de discípulos de Jesus foi expulso da Judeia pelos infiéis. Estes cristãos eram Lázaro, suas irmãs Maria Madalena e Marta, Martila criada de Marta, os beatos Maximino e Cedôneo, o cego curado por Jesus e outros cristãos. Os judeus os obrigaram a subir em uma barca sem vela nem leme para que morressem no mar, porém a Divina Providência não só cuidou deles, como os conduziu até o porto de Marselha, no sul da França. Foi lá que Maria Madalena fez várias pregações que converteram muitas pessoas. Mais tarde, parte do grupo se dirigiu a Aix-en-Provence e se tornaram os evangelizadores da Provença.

Maria Madalena, no entanto, retirou-se à gruta de Sainte-Baume e se dedicou à penitência e à contemplação e assim viveu durante trinta anos até a sua morte. Sete vezes ao dia, nas horas canônicas da oração, os anjos a transportavam ao céu para que assistisse aos ofícios. A gruta de Sainte-Baume, desde a Idade Média até hoje, ainda é um lugar de peregrinação. 

Em 1293, quando foi editada a Legenda Áurea, foi imenso o seu sucesso, não só na Itália, mas em outros lugares. Em relação à santa Maria Madalena, que já era conhecida e venerada, seu prestígio aumentou consideravelmente. A devoção e a peregrinação aos lugares em que a santa viveu ou naqueles em que se dizia haver suas relíquias também passaram a ser mais visitados.

 

IHU On-Line - Ainda na perspectiva das artes, como compreender as mudanças na forma como Madalena é representada a partir do Concílio de Trento ? 

Wilma Steagall De Tommaso - Na Idade Media, Maria Madalena era retratada na arte como uma mulher da nobreza, foi pecadora, mas sua vida era uma lição de arrependimento e esperança. Era também santa, foi uma poderosa pregadora e apóstola. No século III, Hipólito de Roma  lhe dera o título de apostola apostolorum, sempre mantido pela Igreja.

Madalena pós-reforma

Com o evento da Reforma , século XVI, o protestantismo destruiu imagens, pintou de branco os afrescos de suas igrejas, que se tornaram tão nuas como as sinagogas ou as mesquitas. A Igreja de Roma, se opondo a essa atitude radical protestante, vestiu de esplendor suas igrejas, decorando-as com quadros, afrescos, esculturas, lápis-lazúli, bronze, mármores e ouro.

Os sacramentos, que segundo a Igreja eram meios para se obter a salvação, foram também atacados pelos protestantes. Lutero , baseando-se em seus estudos no Novo Testamento, aceitava unicamente o batismo e a eucaristia como memória. A Igreja de Roma, no entanto, mantinha os sete sacramentos, incluindo a confirmação, a penitência, a unção dos enfermos, o sacerdócio e o matrimônio. O protestantismo negava a necessidade da confissão, pois o batismo limpava a mancha do pecado original e, portanto, era em si mesmo o verdadeiro sacramento da penitência. Considerava que o sacramento da eucaristia era meramente simbólico, uma comemoração da última ceia; os protestantes não aceitavam a transubstanciação.

O papel de Maria Madalena como exemplo de penitência e intercessora tornou-se uma arma essencial de propaganda contra os princípios luteranos e defesa da doutrina tridentina do mérito. Também com este papel compensava a ideologia protestante. Aos olhos dos protestantes que proibiam as imagens e a arte religiosa, a intercessão dos santos não tinha autoridade bíblica e, consequentemente, a utilização de imagens chegava a ser idolatria.                                                                                                                   

Concílio de Trento

O efeito que o Concílio de Trento teve sobre a figura de Maria Madalena foi duplo e de muita repercussão, tanto por suas declarações sobre os sacramentos como no que se refere às diretrizes relativas à arte religiosa. Talvez não seja exagero sugerir que Maria Madalena ressurgiu das deliberações do Concílio de Trento como um símbolo da Igreja triunfante e da verdadeira fé.

Após o Concílio de Trento, ao mesmo tempo em que se impunha uma nova iconografia, foi se formando um vasto vocabulário simbólico por toda a Europa, no qual os artistas se baseavam para realizar suas obras, tanto as religiosas como as profanas. Esta cultura simbólica se propagou pelas academias que floresciam nos séculos XVI e XVII. Nestas escolas se ensinavam as “receitas” das representações psicológicas, isto é, “a expressão das paixões”, e nos manuais se obtinha a explicação dos atributos.

A Maria Madalena da Idade Média se despoja dos trajes finos e das joias, passa a ser retratada como penitente. Seus atributos são o alabastro que contém o perfume, o livro, longos cabelos soltos, um crânio que significa a fugacidade da vida, o crucifixo, dentre outros. Passa a ser a famosa Madalena arrependida.

 

IHU On-Line - Que imagem de Madalena chega ao século XXI, em especial no cinema?

Wilma Steagall De Tommaso - Na maioria dos filmes bíblicos — há mais de trinta épicos ou histórias morais que apresentam a santa —  aprendemos que Maria Madalena é uma linda mulher sedutora e pecadora. Ela é tentadora. Temos alguns exemplos: O Rei dos reis (1927), A maior história já contada (1965), O famoso Jesus de Nazaré de Franco Zeffirelli  (1977), até A Paixão de Cristo, de Mel Gibson  (2004). Também apresentam a Madalena da Tradição, o amálgama das três mulheres, conforme falado anteriormente.

Esse fato está diretamente ligado com a arte cristã Ocidental que desenvolveu e deu como código de identificação à Maria Madalena o de uma mulher sempre sedutoramente bela. Esses elementos visuais transferidos da arte para o cinema em que trajes, cenários e toda atmosfera visual são traduzidos de um meio para outro, acabam criando uma autenticidade histórica. As atrizes que já representaram Maria Madalena sempre são mulheres muito bonitas, como Jacqueline Logan, Anne Bancroft, Claudia Cardinale, Monica Bellucci etc. Em A espada e a cruz (1959), a atriz Yvonne De Carlo interpreta uma bela sedutora. Em A última tentação de Cristo (1988) de Scorsese , as tatuagens e os lábios carnudos de Barbara Hershey estabeleceram um novo padrão para as imagens voluptuosas de Maria Madalena.

Madalena na lama

Em A Paixão de Cristo (2004), Mel Gibson apresenta sua Madalena coberta de lama. Em entrevista, Mel Gibson declarou: “Eu joguei lama nela. E quanto mais lama eu jogava, mais bonita ela ficava”. Se conseguirmos entender verdadeiramente o significado da declaração de Gibson, reconheceremos que seu comentário pode ser visto através de uma lente mais ampla, tanto em relação à Madalena em geral quanto à sua apresentação na história do filme. Entre suas muitas metamorfoses na arte cristã e na teologia, Maria Madalena foi transformada de uma santa matronal em uma pecadora, e de uma pecadora em uma prostituta.

Parafraseando Mel Gibson, temos de reconhecer que a beleza interior de Madalena brilha por meio de todas as acusações, leituras equivocadas e lama lançadas contra ela. Por muitos séculos Maria Madalena foi festejada como uma penitente, uma mulher que representou uma alienação e uma reconciliação com Deus ao rejeitar sua (suposta) vida anterior para seguir Jesus. E isso ainda é importante para compreender a salvação como algo possível a qualquer um, não importa quão graves sejam seus pecados. Muitas pessoas veem a Maria Madalena da Tradição como uma das pessoas mais humanas do Evangelho. Ela é alguém com quem muitos acham que podem se identificar: uma pessoa que cometeu erros e no final escolheu o caminho certo.


IHU On-Line - Maria Madalena, e por óbvio suas representações, estão sempre envoltas a muitas polêmicas. Uma delas é com relação à representação da Santa Ceia, de Leonardo da Vinci. Gostaria que a senhora analisasse algumas especulações que se faz em torno desse quadro.

Wilma Steagall De Tommaso - As polêmicas aconteceram por causa do livro de Dan Brown , que foi um sucesso de vendas porque justamente fala abertamente que Jesus de Nazaré e Maria Madalena foram casados. Não fosse o parágrafo antes de iniciar a história em que o autor diz que “todas as descrições de obras de arte, arquitetura, documentos e rituais secretos neste romance correspondem rigorosamente à realidade”, seria apenas mais um romance de ficção. Brown baseou sua história em um livro, O santo Graal e a linhagem sagrada , de três jornalistas ingleses nos anos 80. Esse livro foi publicado no Brasil em 1993 pela Editora Nova Fronteira, li e achei tudo uma grande bobagem.

Juntando arte, arquitetura, seitas esotéricas, o livro O santo Graal e a linhagem sagrada e alguns fatos da tradição cristã, tudo transportado para nossa época, Brown escreveu um romance que conseguiu vender milhões de exemplares, mas que não se sustenta. Vários livros-resposta foram escritos por teólogos, historiadores, combatendo a “verdade dos fatos” que o autor pregava, sem falar dos muitos documentários produzidos. 

A Santa Ceia

A verdade é que João Evangelista sempre foi retratado imberbe  por ser o mais jovem dos discípulos. Não conheço pintura ou escultura que o retrate com barba. O cabelo comprido era moda na época de Jesus. Maria Madalena não faz parte da Santa Ceia de Leonardo Da Vinci, não conheci ainda nenhum historiador da arte que negue esse fato.

 

IHU On-Line - Por que muitos seguidores de Madalena foram perseguidos? Que imagem de Madalena esses seguidores constituíram e em que medida essa perseguição destruiu tais perspectivas artísticas?

Wilma Steagall De Tommaso - A pesquisa sobre Maria Madalena nos Evangelhos Canônicos leva à frustração pelo escasso número de dados que revelam sobre a identidade desta mulher. Ela também não é citada nos Atos dos Apóstolos, nas Epístolas, nem no Apocalipse de João, mesmo tendo sido citada 14 vezes nos Evangelhos. Os evangelistas preocuparam-se em detalhar a vida pública de Jesus; sabe-se muito pouco da vida daqueles que o rodeavam. 

Alguns textos apócrifos, “reservados e secretos”, revelam, no entanto, uma Maria Madalena amada por Jesus de uma forma diferente, uma discípula que não apenas servia a Jesus, porém uma líder que faz sombra a Pedro, causando ciúme na comunidade apostólica. Ela é também o “espírito da sabedoria”, o que a torna um “prato cheio” para o gnosticismo que surgia a partir do primeiro século da Era Cristã.

Assim, surgiram várias seitas gnósticas que acreditavam que a salvação vem através do profundo conhecimento de si e de Deus, que a causa da destruição era a ignorância e, para se chegar à perfeição, o homem deveria buscar o conhecimento (gnose). Foram várias e ecléticas as correntes gnósticas e muitas compartilhavam a ideia de que o mundo - portanto a carne e a matéria que o compunham - estava irremediavelmente corrompido e controlado por forças malignas, e que só o espírito era puro.

Segundo algumas seitas gnósticas, Deus não é o criador nem o governador do mundo, por isso há um enorme abismo entre Ele e o homem. Deus será sempre estranho e incognoscível ao homem, a não ser que o homem se converta no destinatário de uma revelação sobrenatural. Ao parecer dos gnósticos, Deus, o ser supremo do amor, não poderia ter criado este mundo caótico e malvado. Por esta razão, atribuem a criação do mundo a uma deidade menor e imperfeita, o Demiurgo .

Apócrifos

Em alguns textos apócrifos do cristianismo, Maria Madalena se apresenta muitas vezes como uma líder que anuncia o Cristo aos apóstolos, visto que recebia d’Ele ensinamentos que os outros não entenderiam. Há também a disputa de poder em relação a Pedro, que sente ciúme por ela ter sido a preferida do Senhor. No Evangelho apócrifo de Felipe, Jesus beijava Maria Madalena na boca, o que era uma forma de passar conhecimento (Felipe v. 31). Esse texto deixa implícito que Maria Madalena era companheira de Jesus, no sentido da mulher que consuma com o homem o ato sexual. No entanto, não se pode deixar de considerar que o amor erótico também era usado para exemplificar e expressar as experiências místicas. Nesse Evangelho de Felipe, a união espiritual entre Jesus e Maria Madalena, expressa por meio da sexualidade humana, é também uma metáfora da união de Jesus com a Igreja, assim como no Cântico dos Cânticos  pode ser interpretado como uma alegoria do amor de Yaweh por Israel, seu povo. A união de Jesus e Maria Madalena pode ser aqui o símbolo da perfeita união espiritual. 

No Evangelho apócrifo de Tomé, Jesus diz que fará de Maria Madalena um homem, porque toda a mulher que se tornar homem entrará no Reino dos Céus (Tomé v. 114). Esse texto reflete um dualismo radical na essência da fé gnóstica. O princípio feminino é a carne. Só renunciando a ela pode-se voltar para o mundo perfeito, ou seja, o espiritual que consiste no masculino primordial. Quando Jesus diz que fará de Maria Madalena um homem, quer dizer que vai torná-la “espiritual”.

De maneira geral, os apócrifos não contribuíram como a Legenda Áurea na forma artística como Maria Madalena foi representada através dos séculos, porém o mesmo não acontece com a produção literária que sempre se serviu destes textos apócrifos.

Cátaros

Podemos dizer o mesmo dos cátaros, movimento herético da Idade Média na França, do grego katharos (puros), homens que acreditavam em dois deuses assim como os gnósticos do cristianismo primitivo, um bom e outro mau, hostis um ao outro desde a humanidade. Para os cátaros, a matéria era essencialmente má, e o homem, um alienado, condenado a viver no reino da perdição. O objetivo principal do ser humano era ir ao encontro da perfeição e participar da comunhão do mundo espiritual. Acreditavam na redenção dos espíritos e na reencarnação, na transmigração das almas do homem para o homem e do homem para os animais, quer dizer, na metempsicose . Rejeitavam a crença na existência do Purgatório e do Inferno uma vez que, ao final, tais espaços estariam na própria Terra. 

Essas concepções divergem totalmente da doutrina cristã. Essa heresia foi amplamente combatida pelas ordens dominicana, que têm Santa Maria Madalena como patrona, e franciscana, cujo fundador, São Francisco, era devoto da santa a ponto de uma das capelas inferiores da Basílica de Assis ser dedicada a ela. A Maria Madalena que os cátaros cultuavam é a do gnosticismo, não a dos Evangelhos. Não há registros de obras artísticas dos cátaros que retratem Maria Madalena.

 

IHU On-Line - Qual a sua representação de Maria Madalena preferida? Por que escolhe essa (ou essas) obra(s)?

Wilma Steagall De Tommaso - A iconografia de Maria Madalena é extensa, pois nenhum personagem feminino na história da arte cristã apresentou tantas mudanças culturais ao longo dos séculos. Ela foi retratada na Paixão, junto à cruz; na descida do corpo de Jesus da cruz; no Sepulcro vazio com as santas mulheres; no Noli me tangere; nas cenas da sua história na Legenda Áurea e foi a heroína da Contrarreforma como penitente. Dos vários aqui já apresentados, destaco dois que me são caros:

 

Começo com Fra Angélico: Noli me Tangere 

Esse afresco está na primeira cela do andar superior do Museu San Marco, em Florença, antigo convento da ordem Dominicana. Obra do Beato Angélico , frade dominicano, por volta de 1440, representa exatamente o momento em que Jesus aparece à Maria Madalena após a Ressurreição. 

Fra Angélico nos apresenta um momento em que Jesus diz à Maria Madalena, Noli me tangere, “Não me retenhas”; o que o afresco mostra não é um distanciamento, nem uma recusa, mas um convite que aponta a passagem da vida imanente à transcendente. Em um rápido olhar aparece a delicadeza da cena que intui uma personalidade rica de espírito e contemplação. Fra Angélico jejuava e rezava antes de pintar, havia desenvolvido a precisão e a consciência das cores, o afresco reflete uma luz beatíssima que passa do branco ao dourado e se liquefaz no olhar de quem o contempla.

“Eu vi o Senhor”, dirá Maria Madalena aos discípulos logo após, tornando-se para sempre a Apostola apostolorum!

 

El Greco, Domenicos Theotocopoulos (1541-1614) é considerado o pintor místico da Contrarreforma.

Das muitas Madalenas que El Greco retratou, essa se destaca, sobretudo, por sua originalidade. Madalena Penitente com o crucifixo, executada entre 1585-1590, portanto, quando El Greco já era um homem de meia idade.

Com os cabelos castanho-avermelhados e seus olhos, em outras telas, antes fixos para o céu, contemplam agora com doçura um pequeno crucifixo à sua frente. Ela tem a mão direita sobre o peito e aponta com a esquerda para o crânio. Não há o pote de essências, nem tampouco a paisagem. O tom de maior austeridade da obra, os gestos das mãos e o olhar aludem ao benefício que a meditação no sacrifício do Cristo pode trazer para a transitoriedade da vida aqui na terra. É uma demonstração explícita da evolução de El Greco em direção a uma expressão de espiritualidade interior.  


IHU On-Line – Como compreender o papel da arte sacra na Igreja? Em que medida é possível que, ao longo da história, houve um desejo de fazer permanecer apenas a perspectiva clássica europeia? E como observar isso através dos muitos retratos de Madalena?

Wilma Steagall De Tommaso - Em dois mil anos de cristianismo, não há outro personagem que tenha estimulado tanto a imaginação de artistas, escritores e outros estudiosos como Maria Madalena. Sabemos pouco a respeito dela, no entanto, a cada período da era cristã criou-se uma Madalena que satisfizesse suas necessidades e anseios, e assim Maria Madalena vem sendo submetida até nossos dias a uma plástica cultural. 

A Igreja Católica, a partir do Concílio Vaticano II , mudou o Missal  e fez a separação das três mulheres, e assim tirou de Maria Madalena o epíteto de penitente. Na celebração do Domingo de Páscoa, data máxima para os cristãos, quando é lido o Evangelho de João 20, Maria Madalena é privilegiada como a primeira testemunha da Ressurreição de Jesus, o evento mais importante do cristianismo. No século XX se produziu pouca arte religiosa, pois a Igreja, já há algum tempo, deixara de funcionar como grande mecenas da arte, daí o número escasso de imagens de Madalena nesse século, em relação aos anteriores. 

No século XXI, o lançamento do livro O Código Da Vinci de Dan Brown provocou muitas polêmicas, assim como o lançamento de diversos livros-resposta. Esse romance suscitou também muita pesquisa e despertou o interesse de fiéis e de leigos que buscavam respostas e explicações para a notícia bombástica, para a maioria, de que Jesus de Nazaré fora casado com Maria Madalena e dessa união nascera uma filha. Aquilo que parecia desmerecer o cristianismo trouxe o benefício do interesse pela busca da verdade dos fatos. Muitos fiéis que nada sabiam sobre Madalena passaram a conhecê-la. 

Madalena em perspectivas

Ao longo de dois mil anos de cristianismo, torna-se claro que cada período criou a Madalena que lhe convém. O interesse do nosso período em Maria Madalena é alimentado por movimentos e aspirações muito diferentes. O movimento feminista, na busca histórica, encontrou a Maria Madalena, onde alguns textos gnósticos sugerem que ela deveria estar no lugar de Pedro na Igreja Católica. Essa visão estimulou a pesquisa sobre Maria Madalena na Igreja primitiva para se obter argumentos a favor da ordenação das mulheres. 

O estudo hagiográfico permite levantar questões que nos conduzem a um melhor entendimento da função dos santos nos diversos períodos históricos e servem de parâmetro ao pesquisador sobre como a espiritualidade é expressa de formas diferentes no tempo e no espaço e como foi, ao correr dos séculos, retratada por pintores, escultores, poetas e escritores. 

Parece que, ainda hoje, a figura de Maria Madalena não possui mais a força de difusão da mensagem cristã que a santa encarnou durante tantos séculos, mas ainda fica a pergunta: teria Maria Madalena perdido a sua capacidade de levar a mensagem de vida e de amor no alabastro que traz consigo para uma sociedade mais materialista do que espiritual, mais individualista que comunitária? 

Reconhecimento da Igreja

A boa notícia é que, há pouco, o papa Francisco elevou a celebração de Santa Maria Madalena, comemorada todo 22 de julho, à categoria de festa litúrgica no calendário romano. O Vaticano explicou que a decisão foi decretada pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos por "expresso desejo do Santo Padre Francisco". A nota oficial segue informando que “a Santa Sé informou que esta iniciativa pretende destacar a importância de Santa Maria Madalena, descrita como ‘um exemplo de verdadeira e autêntica evangelizadora’, uma mulher que foi ‘mensageira e anunciou a boa notícia da Ressurreição do Senhor’. O Santo Padre Francisco tomou esta decisão no marco do Jubileu da Misericórdia para assinalar a relevância desta mulher que mostrou um grande amor por Cristo e que foi tão amada Ele”.

Quem sabe, essa decisão seja uma inspiração para artistas, que tomem Madalena pela mão em sua juventude e nos reapresentem a santa para nos dar a chance de recuperar a esperança na vida e no amor.

Arte sacra pós-Vaticano II

O Concílio Vaticano II deu aos artistas a direção da arte tal como deveria ser apresentada em suas igrejas. A melhor forma de avaliar esses cinquenta anos passados é observar o que está sendo produzido pelos artistas pós-concílio. Para a Igreja bimilenar, cinquenta anos não é muito tempo, as imagens de santuários como o de Lourdes, na França, Fátima, em Portugal, Aparecida, no Brasil, e de outras igrejas com obras realizadas no século XXI talvez deem uma dimensão mais clara de como está se conformando a arte da Igreja pós-Vaticano II. 

Apresento dois exemplos de Santa Maria Madalena na arte pós-Concílio: Marko Ivan Rupnik   (1954), esloveno de Zadlog, e Cláudio Pastro  (1948), brasileiro de São Paulo, considerado o maior artista sacro do Brasil e reconhecido em todo mundo. Esses dois grandes artistas, que têm muitos discípulos, entenderam que a linguagem litúrgica, ao longo dos séculos, purificou-se daquilo que era psicológico demais, afetivo e sentimental demais, para chegar a uma essencialidade simbólica, metafórica, de um lado, mas sabem se alimentar da objetividade da Revelação de Cristo, utilizam para isso uma linguagem que pode ser reconhecida a qualquer momento da História pelo povo cristão.

Penso que mesmo antes da elevação da celebração de Santa Maria Madalena à festa litúrgica, os artistas pós-Vaticano II já tenham intuído que a beleza de Maria Madalena não é apenas física. Sua maior beleza, talvez, seja o seu incondicional amor a Jesus Cristo. Rupnik se expressa na maravilha dos mosaicos, Cláudio Pastro, com traços simples e marcantes; ambos retratam o maior evento do cristianismo. Contemple e tire suas conclusões!■

Últimas edições

  • Edição 537

    A fagocitose do capital e as possibilidades de uma economia que faz viver e não mata

    Ver edição
  • Edição 536

    Juventudes. Protagonismos, transformações e futuro

    Ver edição
  • Edição 535

    No Brasil das reformas, retrocessos no mundo do trabalho

    Ver edição