Edição 489 | 18 Julho 2016

A Magdala de Maria

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João Vitor Santos | Tradução Moisés Sbardelotto

Marcela Zapata-Meza trabalha nas escavações em Magdala, cidade em que Jesus teria encontrado Madalena. O objetivo é saber mais sobre o povo que conheceu e seguia o Cristo

Pela tradição, que se constitui a partir das interpretações dos textos bíblicos, essencialmente os evangélicos, Jesus seguia pela Galileia quando encontrou uma mulher. Ela, chamada Maria, sofria de muitos males. Cristo a salva dos males, libertando-a de sete demônios. Extasiada pela mística de Jesus, passa a segui-lo e, mais tarde, se torna a anunciadora do Cristo Ressurreto. Entre os cristãos primitivos, passa a ser chamada Maria de Magdala, ou Maria da cidade de Magdala (em aramaico). Mas que cidade era essa? E o que pode revelar dessa mulher? Questões como essas norteiam as pesquisas que são feitas hoje nesse local. “A arqueologia é muito importante para uma maior compreensão das terras da Bíblia, para cotejar as fontes escritas com a evidência e ser muito objetivos na hora de expor os resultados”, destaca Marcela Zapata-Meza, pesquisadora que atua no sítio arqueológico onde se imagina ser a cidade de Maria Madalena.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Marcela reconhece que pouco se tem revelado sobre essa figura. “Não há nenhuma evidência de fato que nos refira à pessoa de Maria Madalena arqueologicamente, mas, por analogia, podemos dizer que era uma mulher judia, observante das suas leis e tradições”, explica. No entanto, a pesquisadora reforça a importância das recentes descobertas, pois revelam muito da sociedade da época e que permite que, a partir daí, se infira acerca dos primeiros cristãos. “Podemos falar do quarto de banho de purificação ritual descoberto em 2015. Essa descoberta nos leva a compreender que essa sociedade dava um valor agregado à água como fonte de vida”, exemplifica, destacando a principal característica de Magdala.

Marcela Zapata-Meza é arqueóloga da Universidade Anáhuac do México, especializada em arqueologia bíblica e egiptologia, com mestrado em Filosofia, especialização em Filosofia e Fenomenologia das Religiões, Pluralismo Religioso. Ela vem trabalhando nas escavações do sítio arqueológico de Magdala, em Isarel . Entre suas publicações, destaca-se Las religiones del mundo: historia, filosofía y credo (México: Hermanos Porrúa & Universidad Anáhuac del Sur, 2005).

 

Confira a entrevista.


IHU On-Line – O que as pesquisas arqueológicas revelam sobre quem foi Maria Madalena? Quais suas origens e o que se sabe sobre a sua vida antes de conhecer Cristo?

Marcela Zapata-Meza – As escavações que a Universidade Anáhuac do México realizou em colaboração com a Autoridade de Antiguidades de Israel e a Universidade Nacional Autônoma do México - UNAM desde 2010 revelaram dados muito importantes e interessantes sobre a vida cotidiana da população da antiga Taricheae (Magdala) durante a sua ocupação no século I. Hoje, sabemos que era um povoado portuário com atividades relacionadas com a pesca, a salga do pescado e sua conservação, além de atividades comuns, como a preparação, moagem e armazenamento de diversos alimentos. Não há nenhuma evidência de fato que nos refira à pessoa de Maria Madalena arqueologicamente, mas, por analogia, podemos dizer que era uma mulher judia, observante das suas leis e tradições, que deve ter realizado atividades comuns às mulheres daquele tempo, nada fora do normal.


IHU On-Line – Quais são as descobertas mais recentes no sítio arqueológico de Magdala e o que revelam sobre Madalena e os cristãos primitivos?

Marcela Zapata-Meza – Essa informação não nos revela nada sobre Maria Madalena, nem sobre os primeiros cristãos. No entanto, podemos falar do quarto de banho de purificação ritual descoberto em 2015. Essa descoberta nos leva a compreender que essa sociedade dava um valor agregado à água como fonte de vida. A água que alimenta os banhos de purificação rituais é de origem subterrânea (mananciais). Essa característica torna Magdala um lugar único e especial em termos de pureza física e espiritual.


IHU On-Line – O que é possível inferir sobre o papel da mulher na sociedade da época? E em que medida, com base nessas evidências, é possível considerar que Madalena subvertia o lugar tradicional da mulher da época?

Marcela Zapata-Meza – O papel da mulher no século I era de ser protetora da família (como continua sendo nos nossos dias). A mulher não tinha um papel nas questões de religião nem de política. Portanto, as mulheres de Magdala deveriam ter mantido a união familiar, sendo os pilares da casa. Eu não acho que Maria Madalena mudou esse papel durante o século I, no entanto, depois de ser libertada de sete demônios, algo muda na sua vida, que a faz seguir Jesus e se converter na apóstola dos apóstolos. O seu exemplo teve um impacto positivo sobre a visão e o papel das mulheres ao longo do tempo.


IHU On-Line – Quais as características do local onde se encontra o sítio de Magdala?

Marcela Zapata-Meza – O assentamento contemporâneo de Migdal está ao lado de um penhasco e é um lugar que se ocupa com a finalidade das casas de verão ou de fim de semana para aqueles que vivem em cidades grandes como Jerusalém e que buscam escapar para um lugar tranquilo como é a Galileia. Ela fica a cinco quilômetros da cidade de Tiberíades. Entre Tiberíades e Migdal, a cada dia, estabelecem-se mais comunidades tanto de judeus quanto de árabes.


IHU On-Line – Que relatos e evidências se têm sobre o destino de Maria Madalena depois da crucificação?

Marcela Zapata Meza – De acordo com os Evangelhos, ela é a testemunha da crucificação e a primeira testemunha da ressurreição de Jesus. Também foi ela quem levou a notícia aos demais apóstolos. Certamente, ela voltou para a Galileia junto com os seus discípulos e a sua mãe, como Jesus lhes disse. Até agora, não há nenhuma fonte verídica que nos dê dados sobre a vida de Maria Madalena depois de Pentecostes , mas seguramente ela assumiu um papel de apóstola pregando a boa nova.


IHU On-Line – Poderia detalhar o que é e como se realiza o trabalho de arqueologia bíblica?

Marcela Zapata-Meza – A arqueologia é uma ciência social, cujo objeto de estudo é o homem que nos deixou evidências da sua vida ao longo da história. O arqueólogo trabalha com objetos que muitas vezes correspondem a lixo, somado com um trabalho multidisciplinar (muitas disciplinas que, a partir do seu campo de estudo, fornecem dados que o arqueólogo põe em conjunto para uma interpretação mais precisa do passado do homem). A arqueologia bíblica é um campo da arqueologia ou uma especialização, como seria a egiptologia, os especialistas em cultura maia ou inca etc. Isto é, o objetivo é o mesmo, mas as metodologias de trabalho variam, dependendo das escolas de arqueologia e dos contextos com os quais se esteja defrontando.


IHU On-Line – Como entende o papel da arqueologia para o aprofundamento dos estudos bíblicos?

Marcela Zapata-Meza – A arqueologia é muito importante para uma maior compreensão das terras da Bíblia, para cotejar as fontes escritas com a evidência e ser muito objetivos na hora de expor os resultados. A fé não deve interferir nas investigações. A ciência e a fé se complementam, mas nem tudo em que se acredita terá uma comprovação arqueológica. O homem só pode compreender de Deus e dos mistérios da religião aquilo que, com a sua razão, conseguir conhecer. A arqueologia não deve se ver permeada por nenhum credo, para que a interpretação seja veraz e confiável perante todos os públicos.


IHU On-Line – A partir da perspectiva arqueológica, o que é possível inferir sobre a figura de Jesus Cristo? Em que medida as perspectivas bíblicas contribuem para esse trabalho arqueológico?

Marcela Zapata-Meza – Elas nos oferecem um panorama da vida, dos costumes, das tradições, das relações comerciais e sociais da época em que Jesus viveu. Esse panorama nos permite localizar Jesus no contexto histórico e entender mais a sua vida, os seus seguidores e os habitantes durante o primeiro século. ■

 

Leia mais...

- A cidade de Maria Madalena como era nos tempos de Jesus. Reportagem publicada por Vatican Insider, em 11-06-2014, e reproduzida nas Notícias do Dia, de 12-07-2014, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

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