Edição 488 | 04 Julho 2016

Uma Antropologia Filosófica para compreender o “nosso tempo”

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Márcia Junges | Edição João Vitor Santos

O maior legado da obra filosófica de Lima Vaz, na opinião de Marcelo Perine, é o diálogo que trava com a cultura contemporânea, a fim de entender o hoje

A conexão da obra de Lima Vaz com a atualidade é materializada pelo professor de Filosofia da PUC-SP Marcelo Perine, numa formulação do próprio Vaz, publicada em 1996, no número 75 da Revista Síntese, sobre a ideia do que consiste o esforço do conceito: “[é] tentar encontrar os núcleos de inteligibilidade que se ocultam sob as aparências e, se possível, ordená-los num discurso coerente”. “Ao fazer isso, segundo Lima Vaz, ‘a única missão que a filosofia pode assumir é oferecer à prática critérios fundados em razão e tendo em vista fins racionais para que, obedecendo-os, ela possa se exercer como prática sensata’”, completa Perine. Assim, o professor entende que ao atribuir essa missão à filosofia, Vaz torna sua obra “um convite permanente ao diálogo com a cultura contemporânea em vista da compreensão de seus problemas”, interconectando o conceito à prática cotidiana. “Acredito que o maior legado da obra filosófica de Lima Vaz para o diálogo com a cultura contemporânea seja, precisamente, o seu empenho na compreensão do nosso tempo”, reitera Perine.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Perine também faz uma verdadeira retomada na obra de Vaz, compreendendo a “Antropologia Filosófica” como “uma obra que já nasceu madura”. “A obra passou por um período de elaboração de mais de 20 anos e foi amplamente ‘testada’ em diferentes públicos de estudantes de filosofia, que, como sabemos, costumam ser bastante exigentes”, explica. Ele ainda destaca que, talvez por esse exercício de conexão com o mundo atual, o pensamento do filósofo jesuíta tem grande repercussão na Filosofia brasileira. “Prova de que a recepção da obra de Lima Vaz tem se aprofundado no Brasil é o lançamento, a partir de 2012, da Coleção Estudos Vazianos por Edições Loyola, que publica principalmente teses de doutorado sobre Lima Vaz”, completa.

Marcelo Perine possui graduação em Filosofia e em Teologia. Também é mestre e doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC-SP, foi Coordenador da Área de Filosofia da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES nos triênios 2005-2007 e 2008-2010. Atua na área de Filosofia, com ênfase em História da Filosofia Antiga, Ética e Filosofia política. 

 

Confira a entrevista.


IHU On-Line - Qual é a importância da Antropologia Filosófica  dentro do conjunto da obra vaziana?

Marcelo Perine - O tomo I da Antropologia Filosófica  de Lima Vaz foi publicado em 1991 e o tomo II  em 1992. Na “Advertência preliminar” que abre o primeiro tomo, o autor informa a seus leitores que a primeira versão do livro foi redigida como texto básico para o curso de Antropologia Filosófica ministrado no Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, de 1968 a 1972. Informa ainda o autor que uma versão atualizada foi preparada para o curso ministrado em 1989 e 1990 na Faculdade de Filosofia do Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus, hoje Faculdade de Filosofia e Teologia, a Faje.

Como se vê, a obra passou por um período de elaboração de mais de 20 anos e foi amplamente “testada” em diferentes públicos de estudantes de filosofia, que, como sabemos, costumam ser bastante exigentes. Além desse dado, por si só expressivo da qualidade da obra, note-se que a Antropologia é a primeira obra, sem sentido estrito, publicada por Lima Vaz. O volume de Escritos de filosofia I , de 1986, e o segundo volume dos Escritos de filosofia , de 1988, são coletâneas de textos anteriormente publicados. Assim, a Antropologia filosófica é a primeira obra sistemática do conjunto da obra vaziana. E, pelo que foi dito acima, trata-se de uma obra que já nasceu madura.


IHU On-Line - Quais são os eixos, as ideias fundamentais que articulam esse escrito?

Marcelo Perine - Antes de falar dos eixos ou das ideias fundamentais que articulam o escrito, chamo a atenção para o que Lima Vaz, na introdução do primeiro tomo, chama de tarefas fundamentais a serem cumpridas por uma Antropologia filosófica. Cito as suas palavras: “a elaboração de uma ideia do homem que leve em conta, de um lado, os problemas e temas presentes ao longo da tradição filosófica e, de outro, as contribuições e perspectivas abertas pelas recentes ciências do homem; uma justificação crítica dessa ideia, de sorte a que possa apresentar-se como fundamento da unidade dos múltiplos aspectos do fenômeno humano implicados na variedade das experiências com que o homem se exprime a si mesmo, e investigados pelas ciências do homem; uma sistematização filosófica dessa ideia do homem tendo em vista a constituição de uma ontologia do ser humano capaz de responder ao problema clássico da essência: o que é o homem?” (p. 10 s.).

A Antropologia Filosófica de Lima Vaz, em sua parte sistemática, se desenvolve em três seções. A primeira expõe as categorias do corpo próprio, do psiquismo e do espírito, como as “Estruturas fundamentais do ser humano”, que culmina na vida segundo o espírito. A segunda seção apresenta as “Relações fundamentais do ser humano”, a saber, as categorias da objetividade, da intersubjetividade e da transcendência. Finalmente, na terceira seção, reflete sobre a “Unidade fundamental do ser humano” em torno das categorias da realização e da pessoa.

As densas páginas da conclusão, intitulada “A pessoa humana entre o tempo e a eternidade”, são a chave de abóbada de seu sistema, justamente porque na autorrealização do ser humano como pessoa é que opera a síntese entre as categorias de estrutura e as de relação constitutiva do ser humano. No final da exposição do “Objeto e método da Antropologia Filosófica”, que abre a parte sistemática da obra, Lima Vaz afirma que a ideia de um humanismo personalista é a palavra final da Antropologia filosófica. É em torno dessa ideia que a sua obra cumpre, ex opere operato, as tarefas fundamentais de uma Antropologia filosófica por ele anunciadas.


IHU On-Line - Como essa obra foi recebida à época de sua publicação e qual é o seu impacto hoje?

Marcelo Perine - O primeiro tomo, contendo a parte histórica e a primeira seção da parte sistemática, tem uma trajetória editorial de maior sucesso do que o segundo tomo, que contém a segunda e a terceira seções da parte sistemática. Até junho de 2014, o primeiro tomo alcançou 14 mil exemplares em 12 reimpressões, e até setembro de 2013 o segundo tomo ultrapassou 8,5 mil exemplares em seis reimpressões. Esses números, fornecidos por Edições Loyola, indicam que a obra teve um sucesso editorial pouco comum para livros de filosofia que, em sua grande maioria, não ultrapassam a primeira edição.

Infelizmente, não tenho notícias sobre recensões e/ou resenhas sobre a obra em periódicos acadêmicos nacionais. Provavelmente a Biblioteca Pe. Vaz  dispõe dessa informação. Em todo caso, o fato de continuar a ser reimpressa é um indicativo de seu impacto atual, após 25 anos de sua publicação.


IHU On-Line - Passados cinco anos, quando o senhor analisou diversos aspectos da obra de Lima Vaz, pode-se dizer que sua recepção em termos gerais foi aprofundada no Brasil? Por quê?

Marcelo Perine - Lembro-me ainda, com certa emoção, da entrevista sobre o tema “Pe. Vaz e o diálogo com a modernidade”, publicada no nº 197 do IHU On-Line , na qual, ao responder à pergunta sobre quem retoma o pensamento do Pe. Vaz no Brasil, eu me referi ao crescente número de dissertações de mestrado e de teses de doutorado sobre diferentes aspectos da sua obra, e indiquei as duas publicações de Rubens Godoy Sampaio, Metafísica e modernidade (Loyola, 2006), resultado de sua tese de doutorado dirigida por mim, e também à sua dissertação de mestrado, O ser e os outros, publicado pela Unimarco Editora (2001). Naquela ocasião, afirmei também que, malgrado o grande interesse pela obra do Pe. Vaz, não pensava que se pudesse falar de uma retomada do seu pensamento por algum filósofo brasileiro.

Prova de que a recepção da obra de Lima Vaz tem se aprofundado no Brasil é o lançamento, a partir de 2012, da Coleção Estudos Vazianos por Edições Loyola, que publica principalmente teses de doutorado sobre Lima Vaz. Inaugurada com a obra de Elton Vitoriano Ribeiro , Reconhecimento ético e virtudes , que confronta as obras de Alasdair MacIntyre  e de Charles Taylor  com a de Lima Vaz, foi seguida pela de Cláudia Maria Rocha de Oliveira , Metafísica e ética. A filosofia da pessoa em Lima Vaz como resposta ao niilismo ético (2013), e pela de Maria Celeste de Sousa , Comunidade ética. Sobre os princípios ontológicos da vida social em Henrique Cláudio de Lima Vaz (São Paulo: Loyola, 2014). Esta seria a ocasião para me redimir de alguns lapsos nos quais incorri na entrevista de 2006, por não me referir a outros trabalhos importantes sobre a obra de Lima Vaz. Felizmente a minha aluna Maria Celeste de Sousa, que na ocasião fazia a sua tese de doutorado sob minha orientação na PUC-SP, incluiu na bibliografia de sua obra o inventário atualizado das teses e dissertações, mas também uma série de outros textos sobre Lima Vaz. Remeto o leitor interessado às páginas finais dessa obra.

Ainda sobre a recepção do pensamento de Lima Vaz no Brasil, é preciso mencionar a Coleção Obra filosófica inédita de Henrique Cláudio de Lima Vaz, também publicada por Edições Loyola, sob o patrocínio da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia - Faje, em cuja biblioteca se encontra o Memorial Padre Vaz , contendo todo o acervo de seus textos inéditos, sob a forma de manuscritos e de gravações em áudio e em vídeo. A Coleção foi inaugurada com a publicação da tese doutoral de Lima Vaz, defendida na Pontifícia Universidade Gregoriana em 1953, traduzida do latim por Juvenal Savian Filho : Contemplação e dialética nos diálogos platônicos (2012). Em 2014 foi publicado, sob coordenação de Arnaldo Fortes Drummond , um primeiro conjunto dos Manuscritos Hegelianos, com o título A formação do pensamento de Hegel.


IHU On-Line - Qual considera o maior legado de Lima Vaz para o diálogo com a cultura contemporânea ? 

Marcelo Perine - Creio que o maior legado da obra filosófica de Lima Vaz para o diálogo com a cultura contemporânea seja, precisamente, o seu empenho (no sentido hegeliano do “esforço do conceito”) na compreensão do nosso tempo. Como ele escreveu em um memorável texto de 1996, publicado no número 75 da Revista Síntese , o esforço do conceito consiste em “tentar encontrar os núcleos de inteligibilidade que se ocultam sob as aparências e, se possível, ordená-los num discurso coerente”. Ao fazer isso, segundo Lima Vaz, “a única missão que a filosofia pode assumir é oferecer à prática critérios fundados em razão e tendo em vista fins racionais para que, obedecendo-os, ela possa se exercer como prática sensata”. Tendo realizado de maneira exemplar a missão que ele atribui à filosofia, a sua obra é um convite permanente ao diálogo com a cultura contemporânea em vista da compreensão de seus problemas.


IHU On-Line - Lima Vaz constatava o avanço prodigioso da razão técnica e a indigência da razão ética em nossa civilização. A partir desse diagnóstico, em que aspectos sua filosofia promove uma reflexão e uma crítica ao individualismo e à indiferença de nosso tempo?

Marcelo Perine - A pergunta está decalcada sobre o que Lima Vaz afirma ser o “enigma de uma civilização tão prodigiosamente avançada na sua razão técnica e tão dramaticamente indigente na sua razão ética”. Esta afirmação que, em certo sentido é, verdadeiramente, um diagnóstico de nossa civilização, aparece no final de uma reflexão sobre o problema da comunidade ética, publicado em 1991, no número 52 da Revista Síntese, e reformulado para ser incluído nos seus Escritos de filosofia III. Filosofia e cultura (Loyola 1996). É, portanto, no contexto do problema da comunidade ética que o diagnóstico deve ser compreendido. Ora, a reflexão de Lima Vaz sobre esse problema se conclui apontando dois problemas que permanecem desafiando o pensamento social e político contemporâneo. Cito: “O primeiro é o problema do reconhecimento, ou seja, do conhecimento do outro numa relação de reciprocidade que permita a sua aceitação no mesmo nível de universalidade, na medida em que ambos se apresentam como portadores ex aequo dos mesmos direitos e correspondentes deveres (...), sendo ambos, como indivíduos pretensamente universais, proclamados como fonte primeira de valor”. O segundo problema “é o da rearticulação dos níveis estruturais do existir comunitário em face da dissolução das comunidades tradicionais ao choque da modernidade”.

O pressuposto do primeiro problema é a “prioridade lógica e axiológica dos indivíduos sobre o seu existir comunitário”, de modo que “o fundamento da relação recíproca do reconhecimento reflui da comunidade para os próprios indivíduos”. Por força “do postulado da autonomia do indivíduo como primeiro princípio da ordem das razões do ser-em-comum social ou a absolutização de sua praxis”, a comunidade se revela incapaz de assegurar as razões o reconhecimento e de mostrar-se como comunidade ética. E como consequência da expansão e do predomínio da ideologia individualista nos tempos modernos, ocorreu uma “hipertrofia da estrutura binária indivíduo-sociedade”, que se tornou o obstáculo intransponível para a constituição, nos tempos modernos, de um sistema organizador dos costumes (ethos) das comunidades históricas (tradicionais), que hoje convivem num espaço-tempo cada vez mais, efetivamente, universal.


IHU On-Line - Em que sentido Lima Vaz aponta para uma ética a partir de sua Antropologia Filosófica?

Marcelo Perine - No final da Introdução ao primeiro tomo da sua Introdução à ética filosófica (Escritos de Filosofia IV (Loyola, 1999)), Lima Vaz afirma que o pressuposto necessário da Ética filosófica é “uma concepção antropológica que dê razão das características originais do agir ético, sobretudo da correlação entre o agir e o ser total do agente em suas componentes estruturais – somáticas, psíquicas e espirituais – e em suas relações específicas com o mundo, a comunidade e a transcendência” (p. 26 s.). A Antropologia filosófica tem, portanto, com relação à Ética, um estatuto fundador. E mais, uma concepção antropológica que dê razão da correlação entre o agir e o ser total do agente só pode encontrar o seu princípio e fundamento numa metafísica do Bem.

Eis porque a última palavra do segundo tomo da Antropologia Filosófica de Lima Vaz é uma citação de uma importante obra de Robert Spaemann , Felicidade e benevolência. Ensaio sobre ética (Loyola 1996), cuja tradução e publicação na Coleção Filosofia foi patrocinada por Lima Vaz: “não há Ética sem Metafísica”.


IHU On-Line - A partir dessa análise, em que sentido se pode falar numa filosofia da pessoa tomando em consideração o seu legado filosófico?

Marcelo Perine - Voltando à resposta da pergunta anterior, na continuação da citação que fiz do primeiro tomo da Introdução à ética filosófica, Lima Vaz afirma que o estatuto fundador da antropologia filosófica com relação à Ética “permite finalmente definir a realização humana numa perspectiva essencialmente ética, e mostrar na personalidade ética a mais elevada manifestação da pessoa” (p. 27).

Ao concluir a exposição sobre o Objeto e método da Antropologia filosófica, no início da sua parte sistemática do primeiro tomo da sua Antropologia, que, como indiquei acima, culmina na categoria de pessoa como categoria final e sintética da Antropologia filosófica, Lima Vaz afirma: “A ideia de um humanismo personalista é, portanto, a palavra final da Antropologia filosófica” (p. 168). Realiza-se, portanto, na obra da maturidade filosófica, a inspiração personalista que está na origem da sua elaboração filosófica. Conforme consta na sua Biobibliografia, publicada no volume Cristianismo e história (Loyola, 1985), organizado por Carlos Palácio em homenagem aos seus 60 anos, as obras de Mounier  e de Maritain , bem como a assídua leitura da Revista Esprit, ocuparam lugar capital na sua formação filosófica, desempenhando o papel de primeiro instrumento de interpretação do mundo moderno nos seus aspectos políticos e sociais.


IHU On-Line - Além de Platão , como se apresenta a influência e a marca de Tomás de Aquino  e Hegel  na formação do pensamento vaziano?

Marcelo Perine - Sobre as influências de Platão e de Hegel no método ou no procedimento filosófico de Lima Vaz remeto à brilhante e ainda insuperada análise de Rubens Godoy Sampaio  na segunda parte de seu livro Metafísica e modernidade. Método e estrutura, temas e sistema em Henrique Cláudio de Lima Vaz (Loyola 2006). Especificamente sobre Hegel, a análise mais recente e, a meu ver, mais completa, é a Introdução, intitulada “Perfil hegeliano do filósofo cristão”, escrita por Arnaldo Fortes Drummond  para o já citado segundo volume da Coleção Obra filosófica inédita de Henrique Cláudio de Lima Vaz, A formação do pensamento hegeliano (Loyola 2014). 

Ainda sobre Platão, permito-me remeter ao artigo “Um Platão no caminho filosófico de Lima Vaz”, que publiquei no nº 123 da Revista Síntese (2012), pouco depois do lançamento da tradução de sua tese de doutoramento como volume VIII de seus Escritos de Filosofia (Loyola 2011). Na conclusão desse artigo relembro que na entrevista concedida a Marcos Nobre  e José Marcio Rego, publicada em Conversas com filósofos brasileiros (Editora 34, 2000), quando foi interrogado sobre os conceitos mais representativos da sua posição filosófica, como eles surgiram e como os via naquele momento, Pe. Vaz afirmou que se vinculava a uma tradição para a qual a filosofia eleva-se sobre o transitório em busca de princípios que são também fundamentos, e que os conceitos fundacionais que o acompanharam ao longo de sua evolução são o de “ato de existir”, recebido de Tomás de Aquino, que é a pedra angular da Metafísica.

É notável que nos últimos anos da produção filosófica de Lima Vaz encontram-se três grandes artigos sobre Santo Tomás, publicados na Revista Síntese: “Tomás de Aquino: pensar a metafísica na aurora de um novo século” (n. 73, 1996), “Presença de Santo Tomás de Aquino no horizonte filosófico do século XXI” (n. 80, 1998) e “A metafísica da Ideia em Tomás de Aquino” (n. 90, 2001). Esses textos foram incorporados ao volume VII dos Escritos de Filosofia. Raízes da modernidade (Loyola, 2002), publicado poucos dias antes de seu falecimento.

 

Numa conversa, a importância de Tomás revelada

Sobre Tomás de Aquino não posso perder a ocasião de concluir a resposta com o testemunho pessoal. Depois que deixei a Companhia de Jesus e me estabeleci em São Paulo, como professor da PUC-SP, mantive contato regular com o Pe. Vaz, a quem recorria para alguma consulta bibliográfica ou para solicitar sua ajuda diante de alguma questão filosófica. Em uma dessas ocasiões, em meados de 1996, antes de concluir uma conversa telefônica, Pe. Vaz me disse algo assim: “Marcelo, você vai receber o último número da Síntese e verá que publiquei um texto sobre Santo Tomás. Penso que seria interessante que você desse a conhecer aos seus colegas da PUC esse texto no qual me empenhei muito”. Para uma pessoa “de caráter comedido até a desmesura”, hipérbole com que um biógrafo antigo caracterizou Aristóteles, e que apliquei ao Pe. Vaz num texto em sua homenagem (Diálogos com a cultura contemporânea, p. 157), a recomendação de que eu divulgasse o seu artigo entre os colegas da PUC-SP traduz a importância que o Pe. Vaz atribuía a esse ciclo de estudos sobre a metafísica de Santo Tomás de Aquino.


IHU On-Line - Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?

Marcelo Perine - Só gostaria de expressar mais uma vez o impagável débito de gratidão pelos anos de convivência e colaboração com o Pe. Vaz, a começar pelos quatro anos em que, como estudante de teologia na PUC-Rio, ele foi meu Superior religioso; posteriormente na presença à distância ao longo dos cinco anos que passei em Roma para o doutorado em Filosofia na Gregoriana (foi ele quem me sugeriu fazer o doutorado sobre Éric Weil); em seguida, pelos oito anos de colaboração como professor na Faculdade de Filosofia dos Jesuítas, como Editor da Coleção Filosofia e da Revista Síntese; e, finalmente, mas não por último, pela compreensão e amizade que continuou me dedicando desde que deixei a Companhia de Jesus em 1994 (desse período conservo algumas cartas breves, precisas, mas sempre afetuosas). Por essas e muitas outras razões dediquei a ele, in memoriam, meu livro Platão não estava doente (Loyola 2014), nomeando-o como um de meus amigos incomparáveis. ■

 

Leia mais...

- O Platão de Lima Vaz. Entrevista com Marcelo Perine, publicada na revista IHU On-Line, número 374, de 26-09-2011.

- Platão e a ação política dos filósofos. Entrevista com Marcelo Perine, publicada na revista IHU On-Line, número 294, de 25-05-2009.

- Ética e política segundo Henrique C. de Lima Vaz. Entrevista especial com Marcelo Perine, publicada nas Notícias do Dia, de 30-05-2007, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

- Pe. Vaz e o diálogo com a modernidade. Entrevista com Marcelo Perine, publicada na revista IHU On-Line, número 197, de 25-09-2006.

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