Edição 207 | 04 Dezembro 2006

Arendt e a reflexão sobre a violência política

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IHU Online

Dando continuidade à discussão suscitada pela edição 206 da IHU On-Line, publicada na semana passada, em 27-11-2006, a professora de Filosofia e Estudos das Mulheres na Universidade de Binghamton, em Nova Iorque, Estados Unidos, Bat-Ami Bar On foi enfática na entrevista exclusiva que concedeu: “Arendt é a grande referência teórica para uma reflexão mais profunda acerca da violência política”, e ela certamente reagiria à iconização da qual está se tornando protagonista. Arendt “acreditava que seu pensamento e sua obra ocupavam um espaço híbrido entre teoria, história e, às vezes, jornalismo”.

Ph.D. pela Ohio State University, Bar On leciona em Binghamton, desde 1991. Suas áreas de pesquisa e ensino são teorias da violência, teoria social e política e filosofia sociopolítico feminista. Suas publicações incluem as obras Daring to Be Good: Essays in Feminist Ethico-Politics. New York: Routledge, 1998; Jewish Locations: Traversing Racialized Landscapes. Lanham, MD: Rowman and Littlefield, 2001 e The Subject of Violence: Arendtean Exercises in Understanding. Lanham, MD: Rowman and Littlefield, 2002. Publicou, ainda, inúmeras antologias e artigos de jornais.

IHU On-Line - Qual é a atualidade do pensamento de Arendt para a construção de uma ética-política feminista?

 Bat-Ami Bar On
- Creio que Arendt teria desaprovado o termo "ética política", devido à distinção por ela estabelecida entre "ética” e “política". Isso não significa que a política, na visão de Arendt, fosse destituída de valor e meramente uma área de poder. Ao contrário. Arendt foi uma das téoricas do século XX que considerava a política normativa. Foi, também, uma das teóricas políticas mais importantes desse mesmo século.  O fato de Arendt ser uma escritora prolífica (o que ela julgava uma incapacidade de conseguir pensar sem escrever) deixou como legado uma grande variedade de fontes escritas disponíveis à análise e ao uso das feministas para acompanhar a discussão acerca de políticas normativas, e as feministas têm se utilizado dos insights de Arendt, e também dos insights de outros grandes teóricos. Arendt exerceu grande influência nas obras de Seyla Benhabib, Iris Marion Young e Maria Pia Lara, que nela encontraram aspectos únicos quanto ao entendimento da esfera pública e à ênfase no discurso como ação na política, e na própria ação. Iris Marion Young também recorreu a Arendt em sua reflexão sobre poder, responsabilidade política e moral, e a diferença entre ambas. Kathleen Jones viu em Arendt uma fonte de inspiração para repensar a questão da autoridade. Shoshana Felman considera a obra de Arendt sobre o julgamento de Eichman importante para que se pense a respeito das leis. Em minha opinião, Arendt é a grande referência teórica para uma reflexão mais profunda acerca da violência política.

IHU On-Line - E quanto à participação política das mulheres, a filosofia arendtiana serve de parâmetro e inspiração?

Bat-Ami Bar On
- Penso que Arendt se oporia ao uso de sua tese como medida de conduta de quem quer que seja. Contudo, de fato ela acreditava que o diálogo, talvez nos moldes do diálogo socrático, era extremamente importante para a política. Assim, mulheres que desejem travar um diálogo político com Arendt, utilizando suas obras como um interlocutor, deverão encontrar nelas uma boa companhia. Arendt também acreditava que o discurso pode ser performativo, e algumas de suas obras podem ser bastante inspiradoras para as mulheres que admitem a possibilidade de envolvimento político. Leitoras dos relatos biográficos de Rahel Varnhagen e Rosa Luxemburgo encontrarão nestas duas personagens, na representação de Arendt, pelos perfis por ela retratados, exemplos de escolhas e atos muito comoventes.

IHU On-Line - Uma das grandes preocupações dessa filósofa em relação à Modernidade era a tentação do homem para a interiorização e a conseqüente perda do espaço público, ou a dignidade política. Essa preocupação ainda vale para o sujeito político contemporâneo?

Bat-Ami Bar On
- Esta é a razão para nos preocuparmos com o sujeito político contemporâneo. Arendt não se preocupava apenas com a tentação à interiorização. Preocupava-se também com a percepção que se tem da política e da participação política, as quais considerava subjacentes à subjetividade política. A preocupação de Arendt se justificava, e deve ser nossa preocupação também, pois o que falta hoje, talvez ainda mais do que no passado, são incentivos internalizáveis para que se adentre a esfera política pública e lá se permaneça mesmo que não nos tornemos políticos profissionais. Nossos conceitos a respeito de uma boa vida não incluem a participação política contínua, e temos por hábito ver os políticos como pacientes ou possíveis herdeiros de uma parcela dos bens públicos. Não temos um senso de coragem política adequada a um envolvimento político contínuo, especialmente em épocas e locais não-heróicos. Também carecemos de uma noção de outras virtudes políticas.

IHU On-Line - A destituição do humano, à qual se refere Arendt, é um conceito atual? Podemos entender os totalitarismos do século XXI com essa denominação?

Bat-Ami Bar On
- Arendt acreditava na existência de um certo tipo de libertação humana típica da modernidade, dentre as condições possíveis do totalitarismo. Em suas afirmações a respeito da libertação moderna, Arendt tanto se assemelha quanto difere de Marx, compartilhando com ele a visão de que a atualidade destrói as emaranhadas teias das relações humanas. Estamos testemunhando uma nova versão de libertação, trazida pela globalização capitalista, que dilui não apenas o capital, mas também o trabalho. A libertação atual é uma condição possível do fundamentalismo dos dias atuais (religioso ou nacionalista) que possui características totalitárias.

IHU On-Line - A banalidade do mal como produto da execução autômata do burocrata moderno vale como argumento explicativo para os regimes de exceção que existem hoje? Ela criou esse conceito tomando em consideração como seu contrário o conceito kantiano de autonomia?

Bat-Ami Bar On
- "A banalidade do mal" não é, necessariamente, um efeito da burocratização. Arendt a define como um efeito da "insensibilidade," em sua opinião um traço de Eichmann, e de outros que ele apoiava, e um exemplo passível de generalização. Ser "insensível" como Eichmann é ser monológico devido a uma incapacidade de ver o mundo sob a perspectiva do outro e, em seguida, repensar as próprias crenças sob a luz do ponto de vista diverso. Este tipo de "insensibilidade" ou monologismo é comum, e para que não participemos dele, é necessário fazermos um treinamento e um retreinamento de nós mesmos “para sairmos em visita” a outras pessoas, diferentes de nós, de modo a torná-las parte de nosso senso comunitário sem, contudo, assimilá-las ao que já somos. Claro que o indivíduo "insensível" não é autônomo no sentido kantiano. Não é evidente, contudo, que o indivíduo "sensível" seja autônomo no sentido kantiano, isto é, um autolegislador que legisla leis universais sem o benefício da imaginação de como a vida pode ser sob outras perspectivas porque não existem outras perspectivas, exceto a perspectiva única e exclusiva da razão. O indivíduo "sensível" talvez seja alguém como Sócrates que, de acordo com Arendt, estava ciente da natureza dialógica do pensamento, e cuja descrição kantiana não era simples.

IHU On-Line - Arendt dizia que não era filósofa, mas que sua profissão era a teoria política. Quais são suas principais contribuições para se repensar a política na atualidade?

Bat-Ami Bar On
- Arendt se distanciou da filosofia por acreditar que a própria filosofia, a partir de Platão, havia se distanciado da política. Porém, Arendt não se considerava apenas uma cientista política, pois criticava a ciência política na medida em que fosse conduzida sob pressupostos positivistas. Ela acreditava que seu pensamento e sua obra ocupavam um espaço híbrido entre teoria, história e, às vezes, jornalismo. Eu penso que seu posicionamento em relação ao próprio pensamento e obra serve de exemplo sobre como conduzir o projeto de repensar a política de hoje, pois sugere idéias sobre como fazê-lo, não do ponto de vista da teoria ideal (como faz John Rawls), mas sem que se desista de um horizonte normativo, caracterizado, na visão de Arendt, por um profundo apreço pela liberdade. Há algo mais que se pode extrair de Arendt se nos dispusermos a repensar a política atual, e que está intimamente ligado ao que foi exposto acima, ou seja, devemos repensá-la sem idéias preconcebidas acerca do que é bom e certo, e devemos pensar sobre nossos conceitos acerca da política quando sobre ela refletirmos. Se tentarmos recorrer a Arendt para a obtenção de ferramentas conceituais específicas para que se repense a política, devemos submeter também essas ferramentas à reflexão crítica.

IHU On-Line - A própria Arendt sabia-se inclassificável nas escolas de pensamento tradicionais. Como ela absorve e supera as lições de seus mestres filosóficos (Husserl, Jaspers, Heidegger e Bultmann)?

Bat-Ami Bar On
- Creio que Dana Villa fez um ótimo trabalho ao tentar mostrar como Arendt modificou a fenomenologia (especialmente a versão de Heidegger), ao mesmo tempo em que a organizou, na tentativa de compreender a política e os fenômenos políticos. Contudo, não é apenas o fato de Arendt ter ou não seguido seus mestres que determina a dificuldade em enquadrá-la nas escolas de pensamento tradicionais. As demais escolas de pensamento onde não pôde ser enquadrada eram políticas. Arendt não era liberal nem conservadora, e muito menos socialista. Tampouco era republicana, embora tivesse sido classificada como tal. Atualmente, alguns a consideram uma teórica agônica da democracia, uma classificação inexistente anteriormente e que parece mais adequada, contanto que se admita a combinação ímpar das diversas influências sofridas por Arendt.

IHU On-Line - Em relação ao perdão, o entendimento de Arendt de que se perdoa o agente, e não o ato, pode dar espaço para se pensar em uma maior tolerância entre os seres humanos?

Bat-Ami Bar On
- Para mim, as idéias de Arendt sobre o perdão são bastante perturbadoras. Além disso, o perdão é essencial na complexa concepção de Arendt sobre política, pois é o perdão necessário para que os atores sejam libertados de seus atos anteriores, contanto que acarretem em alguma infração ou possuam conseqüências negativas. Arendt também salienta que não se pode perdoar todos os atores, pois certos atos são imperdoáveis. A classe de atos imperdoáveis inclui genocídio, tortura, assassinato de cunho político. A classe de atos perdoáveis que ela sugere parece trivial – têm de ser do tipo de pecado considerado por Jesus como ato perdoável. Mas talvez não o seja e Arendt, que já havia identificado a classe de atos imperdoáveis, na realidade nos convoca a considerar a maioria dos atos mais semelhantes aos pecados do que normalmente fazemos. Se for esse o caso, então eu creio que ela esteja nos convidando a cultivar um certo nível de tolerância do qual atualmente não dispomos. Arendt, entretanto, teve um desafio maior. Ela não nos convidou a meramente tolerar (e nesse sentido suportar algo que sofremos), mas a incluir, especialmente na esfera da política, a esfera que ela julgava ser a mais importante. Tolerância e inclusão são muito diferentes um do outro, e a tolerância não é uma condição para a inclusão. A inclusão pressupõe tratar os outros como nossos semelhantes ao mesmo tempo em que reconhecemos as diferenças. Na minha opinião, Arendt acreditava que se pudermos fazer isso, poderemos perdoar no sentido que interessa à política.

IHU On-Line - Gostaria de acrescentar algum aspecto não-questionado?

Bat-Ami Bar On
- Gostaria de externar minha preocupação a respeito da possível iconização de Arendt. Ela era uma grande pensadora e como tal deve ser tratada. Entretanto, existe a tendência de se iconizar grandes pensadores, algo que Arendt desaprovaria. Grandes pensadores o são enquanto seu pensamento venha de encontro ao nosso, enquanto fizerem parte de nosso senso comunitário. Grandes pensadores podem pertencer a diversos sensos comunitários ao longo do tempo e do espaço.

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