Edição 487 | 13 Junho 2016

Francisco Suárez e seus diálogos atemporais com as questões do espírito humano

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Márcia Junges | Edição Leslie Chaves

Para João Vila-Chã, o pensamento do estudioso amplia os horizontes das reflexões acerca da realidade, extrapolando demarcações cronológicas

Um pensador que ultrapassa a barreira dos tempos que não viveu, construindo reflexões dialógicas, abrangentes e interpretativas sobre as inquietações humanas. Assim Francisco Suárez é definido por João Vila-Chã. Para o filósofo, Suárez, “para além das contingências do concreto histórico, soube sempre, ao longo da sua obra, debater as grandes questões do espírito humano, muitas das quais ainda hoje podem e devem ser nossas, entre as quais não apenas as perenemente integrantes da reflexão metafísica, mas também as eternamente recorrentes acerca da relação entre Igreja e mundo, entre Estado e Sociedade, ou dos Povos entre si”. 

Ao longo da entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, Vila-Chã analisa o legado desse estudioso que é considerado um dos expoentes nos âmbitos da reflexão teológica, jurídica e politológica. De acordo com o filósofo, Suárez, “grande pensador da Companhia de Jesus, certamente mais teólogo de vocação do que filósofo, mas nem por isso sem deixar de merecer estar ainda hoje entre um dos mais exímios pensadores metafísicos de todos os tempos e com isso também da Lei e do Direito no seu todo, tem muito para nos ensinar acerca de realidades incontornáveis da vida humana em sociedade como sejam o papel do Estado e das outras instituições mediadores das nossas relações com a dimensão social do mundo, e assim também fazer-nos entender a enorme relevância de conceitos como o de bem comum e responsabilidade social e, talvez mais que tudo, sobre o que seja a complexidade, aliada aos respectivos imperativos, da justiça, do amor e da paz”.  

João Vila-Chã é licenciado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia de Braga da Universidade Católica Portuguesa – UCP, obteve o Diplom-Hauptprüfung (Katholischer Theologie) na Philosophisch-Theologische Hochschule Sankt Georgen em Frankfurt am Main, Alemanha, e é doutor em Filosofia pelo Boston College. Durante dez anos foi diretor da Revista Portuguesa de Filosofia (2000-2009) e professor na UCP. Atualmente leciona na Universidade Gregoriana de Roma, é presidente da Conferência Mundial das Instituições Universitárias Católicas de Filosofia, COMIUCAP na sigla em francês, e membro do conselho editorial da revista CONCILIUM. 

 

Confira a entrevista.


IHU On-Line - Por que razão pensadores como Francisco Suárez não têm o devido reconhecimento nas universidades?

João Vila-Chã - Antes de mais, importa sublinhar que Francisco Suárez (1548-1617), homem da Companhia de Jesus , é um dos melhores exemplos que temos, na Igreja e fora dela, de dedicação à Universidade, ao estudo e à reflexão, muito embora as estruturas de então não sejam mais necessariamente as dos nossos dias, embora a Ideia de fundo seja ainda hoje uma daquelas que permanece viva e que, para bem da Igreja e das nossas diversas sociedades, assim deve continuar. E essa era a ideia de um saber orgânico, em permanente busca de fundamento, em constante processo de atenção ao real circundante. 

Como estudioso e universitário, mas Jesuíta acima de tudo, Francisco Suárez percorreu um bom pedaço de mundo para o seu tempo: nascido em Granada, foi estudante em Salamanca, onde iniciou o estudo do Direito ainda adolescente, e depois seguiu com a Filosofia e a Teologia, mas como professor ocupou posições em lugares tão diversos como Valladolid e Roma — aqui tendo chegado em 1580 para ensinar naquela que hoje é a Universidade Gregoriana —, Alcalá e, finalmente, Coimbra a partir de 1597 e para o resto do que haveria de ser a sua acadêmica. Suárez faleceu em Lisboa, a 25 de setembro de 1617, encontrando-se hoje o seu túmulo na igreja de São Roque, talvez a mais importante referência histórica da presença da Companhia de Jesus na capital de Portugal. 


IHU On-Line - A partir da escola ibero-americana, quais são os motivos para recuperar um autor do século XVI como Francisco Suárez nos dias de hoje? 

João Vila-Chã - O padre Francisco Suárez deixou-nos uma obra monumental, da qual dispomos já de aproximadamente 30 volumes editados, sendo que outros ainda esperam por quem os possa publicar de forma devida e em concomitância com as exigências fundamentais de um tal trabalho, que são muitas. Os escritos de Suárez alcançaram ampla difusão tanto na Europa como na América do Sul, existindo hoje em dia grupos de trabalho, tal como o liderado pelo professor Culleton  da UNISINOS, dedicados à pesquisa do que foram e são alguns dos traços mais importantes relativos à difusão do pensamento da chamada segunda Escolástica  na América Latina. 

Na Europa, especialmente ao longo do século XVII, mas mesmo até já bem entrado o século XX, o pensamento suareziano encontrou ampla difusão ou foi motivo de cerrada discussão, seja no interior dos âmbitos definidos pela própria Companhia de Jesus, seja, sobretudo, em ambiente Protestante, muito especialmente na Alemanha. Nos séculos XIX e XX, contudo, e isso muito especialmente a um certo aspecto do movimento tomista derivado do impulso renovador que Papa Leão XIII  concedeu ao pensamento filosófico de São Tomás de Aquino , o nome de Francisco Suárez não deixou de estar associado a certas moções divisórias dentro da intelectualidade católica, e isso e até mesmo dentro da própria Companhia de Jesus. Seja como for, não se trata de nada que nos deva surpreender, sobretudo tendo em conta o fato de aqueles serem tempos em que o debate intelectual era vivido com máxima intensidade e todos os detalhes, mesmo em campo puramente metafísico, invariavelmente mereciam a mais acérrima discussão. 

Penso ainda que a história do pensamento, filosófico e teológico, ou a mera expressão literária do mesmo, em qualquer língua, nunca é apenas uma questão de tempo, mas tem sobretudo a ver com uma certa sincronia das problemáticas, com uma recorrente repetição das interrogações mais fundamentais, com um constante esforço por responder em cada momento, época ou situação, às principais questões que se colocam, aquelas que mais facilmente se entendem, mas também todas as outras, inclusive as que, por definição, sempre permanecem revestidas com a justa roupagem do mistério ou da simples incompreensão. 

Julgo, por isso, que o melhor pensamento é sempre o que se revela mais aberto, mais dialógico, mais abrangente, mais capaz de explicar, ou nos fazer integrar, a realidade que nos circunda. Ora é isso mesmo que, em meu entender, e malgrado o necessário anacronismo das expressões, se dá com Francisco Suárez, homem do seu tempo, mas também homem que, para além das contingências do concreto histórico, soube sempre, ao longo da sua obra, debater as grandes questões do espírito humano, muitas das quais ainda hoje podem e devem ser nossas, entre as quais não apenas as perenemente integrantes da reflexão metafísica, mas também as eternamente recorrentes acerca da relação entre Igreja e mundo, entre Estado e Sociedade, ou dos Povos entre si. 

Não é certamente por acaso que Francisco Suárez é hoje considerado um dos principais fundadores do Direito Internacional, ou seja, de toda uma forma de pensar que, em nossos dias, nos faz confrontar diretamente com muitas das questões implantadas no centro de realidades como a Organização das Nações Unidas - ONU, a União Europeia e outras instâncias de mediação internacional. Enfim, penso que o grande pensador da Companhia de Jesus, certamente mais teólogo de vocação do que filósofo, mas nem por isso sem deixar de merecer estar ainda hoje entre um dos mais exímios pensadores metafísicos de todos os tempos e com isso também da Lei e do Direito no seu todo, tem muito para nos ensinar acerca de realidades incontornáveis da vida humana em sociedade como sejam o papel do Estado e das outras instituições mediadores das nossas relações com a dimensão social do mundo, e assim também fazer-nos entender a enorme relevância de conceitos como o de bem comum e responsabilidade social e, talvez mais que tudo, sobre o que seja a complexidade, aliada aos respectivos imperativos, da justiça, do amor e da paz.  


IHU On-Line - Qual é a contribuição fundamental de Suárez para o debate da filosofia contemporânea?

João Vila-Chã - Para além da complexidade da sua metafísica, da sua gnoseologia  e dos muitos outros aspectos filosóficos que se situam na base do seu pensamento teológico, a obra de Francisco Suárez toca-me sobretudo em seus aspetos jurídicos, em sua compreensão de algumas das grandes questões que ainda hoje se estudam em âmbitos como os da ciência e filosofia política, em sua doutrina sobre o Direito e o Estado, enfim, como pensador da justiça e da paz, ou, como poderíamos dizer na sequência de um dos mais importantes textos herdados do magistério de Bento XVI , como pensador da caridade na verdade. 

Nesse sentido, não duvido de que ao reconhecer a universalidade da vocação humana como ser no mundo, o pensamento tanto metafísico como político de Francisco Suárez pode ainda constituir, como de fato deve, estímulo forte e fecundo para a reflexão filosófica e teológica, jurídica e politológica dos nossos dias. Não esqueçamos, só para dar um exemplo, que a discussão relativa à teoria da guerra justa, nos nossos dias como no que à sua história se refere, não pode prescindir, para ser corretamente entendida, do que sobre a mesma pensou e escreveu o grande pensador de Salamanca e Coimbra.


IHU On-Line - Qual é a relevância de Suárez na Companhia de Jesus?

João Vila-Chã - A história intelectual da Igreja tem altos e baixos, momentos bons e momentos menos bons, aspectos exemplares e outros que merecem ser tidos em conta para serem corrigidos. Por isso, penso que há toda uma leitura da história intelectual da Companhia de Jesus que se pode fazer a partir do modo como a mesma projeta a sua missão de serviço ao Evangelho de Jesus Cristo e à Igreja e tal articula em função de um método e de um conjunto de objetivos mais ou menos precisos e concretos. 

Sou, pois, de parecer que, de uma forma ou de outra, o pensamento de Francisco Suárez desempenhou um papel fundamental na determinação do rosto filosófico da Companhia de Jesus, na Europa e fora dela, e isso malgrado o fato de não raro as suas posições, independentemente de terem sido corretamente defendidas ou não, terem sido transformadas em motivo de polêmica acadêmica e conflito político, mesmo em relação a outras interpretações, também elas legítimas, do pensamento de São Tomás de Aquino. 

Mas se há um aspecto que devo salientar do modo suareziano de pensar, e que julgo definitório do modo jesuítico de enfrentar o real, então diria que o mesmo está na persistente integração de especulação e experiência, de exploração ontológica do ser e da determinação positiva das condições reais da existência. Mas num tempo em que a Companhia de Jesus, e bem, passou a reconhecer de novo a vitalidade de questões sociais e políticas para a sua autocompreensão como instância de ação missionária da Igreja no mundo, eu diria ainda que um dos aspectos mais particularmente salientes no contributo intelectual deste notável pensador jesuíta para o nosso tempo passa e passará pela sua compreensão da lei, da sua natureza, valor e limites, pela sua visão tendencialmente cosmopolita e global do mundo e, com isso, dos problemas inerentes à nossa ontologia social, ao direito no seu todo, mas com realce particular para as grandes questões do Direito Internacional, do Estado de Direito e, tudo somado, no que às condições da Justiça e da Paz diz respeito.


IHU On-Line - Quais são suas obras fundamentais e o que elas representam no conjunto teológico da Companhia?

João Vila-Chã - A edição das Obras Completas de Francisco Suárez comporta na atualidade, pelo menos, 28 volumes e, contudo, está ainda longe de ficar completa. No centro da nossa atenção hoje não podem deixar de estar as suas Disputationes metaphysicae (1597), o seu De Anima (1621) e o De legibus (1612). 


IHU On-Line - Por que Suárez é considerado um dos autores mais importantes da segunda escolástica?

João Vila-Chã - A importância de Suárez no âmbito da segunda escolástica deriva simplesmente do fato de o mesmo estar entre os seus autores mais influentes, mais renomados, mais profundos e, certamente, mais genialmente consequentes de todo esse período de pensamento. Mais que tudo, a sua importância deve-se ao papel por ele desempenhado na definição do que haveria de ser o perfil dominante da filosofia e da teologia na Companhia de Jesus, pelo menos até 1773, data da sua supressão às mãos do Papa Clemente XIV . 

Para nós, a sua importância deriva ainda do fato de em Suárez termos uma das pontes mais fecundas, ou seja, um dos principais momentos de transição entre o mundo medieval e a época moderna. Nesse sentido, é de realçar o fato de Suárez ter sido lido, e por vezes estudado com grande entusiasmo, por figuras essenciais do pensamento moderno, tais como René Descartes , Thomas Hobbes , Leibniz , Pufendorf , Vico  e muitos outros que, com mais ou menos nomeada, não deixaram de dar o seu contributo para a história do pensamento na sua expressão moderna. 


IHU On-Line - Qual foi a recepção do pensamento de Suárez após sua morte?

João Vila-Chã - Depois da sua morte, como já dito, ocorrida em Lisboa a 25 de setembro de 1617, Suárez continuou a desempenhar, por vezes em ambiente de grande polêmica e tensão, tanto política como eclesial, um papel muito significativo no interior da atividade intelectual da Companhia de Jesus, registrando-se uma forte influência do Doutor Exímio, título que o próprio Papa lhe concedeu, até já bem entrado o século XX, e agora a nível internacional não poucas instituições, entre elas a UNISINOS e a COMIUCAP (Conferência Mundial das Instituições Universitárias Católicas de Filosofia, em português), entendem por bem promover no que se refere ao estudo da sua obra, à consideração dos seus efeitos, à aprendizagem que, como intelectuais, na Igreja e fora dela, podemos fazer a partir de um dos mais importantes gênios filosóficos e teológicos de todo um século. 

Precisamos conhecer melhor a obra deste complexo autor, analisar com sempre mais detalhe a história das suas influências, nomeadamente no que diz respeito à reconfiguração da Europa e do mundo a partir dos grandes impulsos recebidos deste brilhante pensador, por certo situado em posição de proeminência entre os mais penetrantes, rigorosos e exemplares em toda a história da Companhia de Jesus.  


IHU On-Line - Por que suas obras ainda não estão traduzidas ao português?

João Vila-Chã - Em Português há ainda um enorme trabalho a fazer no sentido de tornar acessíveis alguns dos textos filosóficos mais notáveis alguma vez produzidos em solo português. Ultimamente algo se tem feito, sobretudo em Coimbra e Lisboa, mas especialmente nesta última cidade graças à liderança de investigadores como o professor Pedro Calafate, da universidade estatal local. O atraso na disponibilidade das grandes obras do pensador que marcou tão fortemente a história intelectual da Companhia e da Universidade de Coimbra, e hoje tem sepultura na cidade de Lisboa, é inseparável do que, depois da expulsão dos jesuítas de Portugal e dos territórios sob sua dominação, se tornou a elite intelectual de Portugal: fortemente influenciada pelo positivismo, de pendor antimetafísico, certamente renitente à compreensão, ou simples aceitação, da ideia de que entre os membros da Companhia de Jesus se possa encontrar um pensamento com o fulgor, e a pertinência, de um Francisco Suárez.


IHU On-Line - Quais são os nexos possíveis entre o pensamento de Suárez e o diálogo intercultural?

João Vila-Chã - Em meu entender, o nexo mais evidente passa pela absoluta necessidade de, em cada época, se descortinar mediante reflexão séria e profunda aquilo que Suárez fez para a sua época, nomeadamente ao desenvolver um quadro conceptual aberto ao desenvolvimento de uma linguagem que fosse propensa à descoberta do que há de comum entre todos os seres humanos, das exigências da sua dignidade pessoal e, como tal, essencialmente partilhável entre todos os povos e todas as culturas, entre mundos que entre si tanto podem ser semelhantes e próximos como imensamente diversos e distantes, e, contudo, sempre fundamentalmente humanos, atribuição que no caso de Francisco Suárez é inseparável da sua mais profunda visão cristã acerca do ser humano e do mundo no seu todo. 

Penso, com efeito, que o padre Suárez continua a ser um imprescindível parceiro no esforço intelectual de repensar as condições em que nos toca viver e testemunhar a fé em Cristo no mundo global dos nossos dias, um mundo aberto a sempre novas e sempre mais diferenciadas condições, mas também um mundo cheio de objeções, não raro de todo inaceitáveis à consciência cristã, ao que são, concretamente em âmbitos como o da economia e da ecologia, do direito e da política, muito especialmente no tocante às questões relativas à natureza e ao valor da família constituída em função da alteridade sexual e da sua mais fundamental abertura ao dom da vida, as posições mais essenciais do magistério eclesial. Com Francisco Suárez, com efeito, muito se pode aprender no que se refere às grandes implicações intelectuais e morais de uma autêntica defesa e promoção da dignidade humana e assim também no que concerne às exigências mais fundamentais de processos eticamente válidos e moralmente responsáveis relativos à construção de um mundo melhor, com mais justiça e paz. 


IHU On-Line - Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?

João Vila-Chã - Agradeço a oportunidade que me foi dada de me expressar sobre uma das figuras mais emblemáticas do que pode e deve ser o trabalho intelectual na Companhia de Jesus ao serviço da Igreja e de um mundo melhor. Enfim, sou mesmo de parecer que o modo como Francisco Suárez foi capaz de integrar a reflexão teológica com as aportações mais essenciais da Filosofia e do Direito permanecem ainda hoje, e eventualmente no futuro que virá, uma das conquistas mais fabulosas do carisma inaciano em face de alguns dos mais perenes, difíceis e desafiantes desafios com que a nossa real condição humana confronta a inteligência da fé ou, simplesmente, as premissas da própria esperança.■

 

Leia mais...

- Fundamentalismo ateu deslocou debate para dinâmica política. Entrevista especial com João Vila-Chã publicada na revista IHU On-Line, nº 315, de 16-11-2009.

- A fúria do ateísmo contemporâneo tem cariz quase religioso. Entrevista especial com João Vila-Chã publicada na revista IHU On-Line, nº 245, de 26-11-2007.

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