Edição 487 | 13 Junho 2016

Escola Ibero-Americana e a Filosofia sobre um mundo em expansão

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Márcia Junges

Autores de grande envergadura teórica surgem na inflexão entre o Velho e o Novo Mundo, observa Alfredo Culleton. Pré-evento sobre a Escola acontece em junho próximo e colóquio Internacional para lembrar 400 anos de morte de Suárez está marcado para setembro de 2017

Discutir a Escola Ibero-Americana, contextualizando esse período na consolidação da Filosofia no “Novo Continente”, é uma das temáticas abordadas pelo Prof. Dr. Alfredo Culleton, coordenador do PPG Filosofia Unisinos, na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Segundo ele, os temas de estudo em voga nesse momento são aqueles “próprios de um tempo novo, de um mundo em expansão que exige novas significações. É necessário repensar uma economia global, o valor da moeda, a moralidade dos juros, as relações internacionais e um direito correspondente, uma moral internacional, as relações interculturais, a restituição, o matrimônio, novas concepções de Estado, governo, propriedade privada, escravidão e liberdade. Em termos de filosofia especulativa, se faz necessário repensar, sobretudo, a Metafísica como fundamento último de qualquer outro saber”. Cronologicamente a Escolástica Latino-Americana ou Segunda Escolástica pode ser delimitada entre a chegada dos espanhóis ao “Novo Continente” e os primeiros movimentos independentistas que tiveram lugar na América Latina em meados do século XVIII.

Tendo em vista os 400 anos de morte do filósofo espanhol Francisco Suárez, a serem celebrados em 2017, Culleton revela que, por meio de uma parceria do PPG Filosofia Unisinos com o Instituto Humanitas Unisinos – IHU, está sendo organizado um Colóquio Internacional sobre esse pensador, que ocorrerá entre 25 e 28 de setembro de 2017. Já no dia 21 de junho de 2016 acontece o lançamento do Colóquio Internacional. O evento contará com as conferências do prof. Dr. João Vila-Chã (PUG Roma e COMIUCAP), prof. Dr. Marcelo Fernandes de Aquino (Unisinos) e prof. Dr. Alfredo Culleton (Unisinos). O PPG Filosofia Unisinos também promove o curso A Escolástica Ibero-americana e o Direito Indígena (passado e presente). As disciplinas ocorrem de 16 a 28 de junho de 2016, entre 14 e 17 horas. Mais detalhes do programa e inscrições disponíveis em http://bit.ly/1ZKL3iD.

Culleton destaca que a Unisinos conta em seu acervo com 75 obras de Francisco Suárez, em diversas edições e traduções, desde a sua primeira edição do De virtute de 1613, até as mais recentes edições do De Legibus ou do De fide, de 2015. Além das obras do próprio autor, a universidade possui um significativo número de livros que analisam os escritos de Suárez. 

Alfredo Santiago Culleton é graduado em Filosofia pela Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – Unijuí, mestre e doutor também em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Concluiu pós-doutorado na área na Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos. Atualmente é coordenador do Programa de Pós-Gradução em Filosofia da Unisinos e vice-presidente da Société Internationale Pour L'etude de La Philosophie Médiévale - SIEPM, e pesquisa especialmente a Filosofia Medieval e o Direito pré-moderno. É autor, entre outras obras, de Ockham e a lei natural (Florianópolis: EdUFSC, 2011). 

 

Confira a entrevista.


IHU On-Line - Qual é o contexto histórico e filosófico da Escolástica Ibero-Americana?

Alfredo Culleton - O contexto histórico do que pode ser chamado de Escolástica Latino-Americana ou Segunda Escolástica, é aquele situado cronologicamente entre a chegada dos espanhóis ao “Novo Continente” e os primeiros movimentos independentistas que tiveram lugar na América Latina em meados do século XVIII. Eu digo aos meus alunos que, no final do século XV, o mundo que era ‘plaino’ ficou ‘redondo’, uma verdadeira revolução na compreensão de mundo, um mundo que se abria a tudo, ao mercado, à evangelização, e a um projeto de civilização. 

Os espanhóis, desde o início, tinham um projeto civilizatório, com vice-reinados e uma organização política que incluía a fundação de universidades, aos moldes das mais consagradas na Península Ibérica como Alcalá de Henares, Évora e, sobretudo, Salamanca, “alma mater” das latino-americanas. Já em 1538, na atual Ilha de Santo Domingo, em 1551 foram duas: San Marcos, em Lima, Peru, e a Universidade da Nova Espanha, no México; a primeira em maio, a segunda em setembro. A estas se seguiram San Antonio Abad de Cusco, Charcas, Cordoba, Ecuador, Guatemala, e assim por diante, chegando a contar, no final do século XVII, com 23 universidades, que não só recebiam alunos crioulos, partilhando dos cursos e grades curriculares de Salamanca, mas conferiam títulos e graus acadêmicos, como qualquer universidade de primeiro nível. 

Relevância filosófica

A Filosofia se enquadra dentro deste universo: toda universidade estaria alicerçada nos estudos filosóficos clássicos, sobretudo da tradição grega e medieval, e já em 1524 o México tem a primeira imprensa, assim como Lima em 1551. Casas editoriais estas que não só publicavam material para a evangelização em línguas nativas, que era justificativa inicial, mas textos filosóficos de grande relevância como a ‘Lógica Mexicana’ de Antonio Rubio , de 1603. Este texto, o primeiro escrito por um espanhol formado na Universidade do México, teve uma infinidade de edições ao longo dos anos e foi adotado por grande parte do mundo ibérico como livro base. Este é apenas um exemplo da relevância dos estudos filosóficos desenvolvidos nas Américas, já no século XVI.            


IHU On-Line - Quais são os autores fundamentais dentro desse período na Europa e na América?

Alfredo Culleton - Do universo ibérico frisamos a tradição oriunda da chamada Escola de Salamanca, entre os quais destacamos: Francisco de Vitoria , Luís de Molina , Juan de Mariana , Martín de Azpilcueta , Domingo de Soto , Diego de Covarrubias . Entre os que, ainda que nascidos na Europa, atuaram na América Latina e os que aí nasceram se destacam Bartolomé de las Casas , Tomás de Mercado , José de Acosta , Antonio Rubio, Antonio Vieira , Francisco José de Jaca , Alonso de Sandoval , entre tantos outros. Naturais das Américas citamos Diego de Avendaño , Antonio Ruiz de Montoya , Juan de Espinosa Medrano , Alonso Briceño , Jeronimo Valera , Leonardo Peñafiel .


IHU On-Line - E quais são as temáticas centrais em discussão nesse tempo?

Alfredo Culleton - Os grandes temas são os próprios de um tempo novo, de um mundo em expansão que exige novas significações. É necessário repensar uma economia global, o valor da moeda, a moralidade dos juros, as relações internacionais e um direito correspondente, uma moral internacional, as relações interculturais, a restituição, o matrimônio, novas concepções de Estado, governo, propriedade privada, escravidão e liberdade. Em termos de filosofia especulativa, se faz necessário repensar, sobretudo, a Metafísica como fundamento último de qualquer outro saber.

 

IHU On-Line - Qual é a relação entre a escolástica ibero-americana e o direito indígena?

Alfredo Culleton - Pensar a relação entre os povos originários e os conquistadores foi um desafio desde a chegada dos espanhóis e portugueses; direitos morais, jurídicos e políticos estão na pauta dos intelectuais e acadêmicos em ambos os lados do Atlântico e amplamente desenvolvidos pela Escola de Salamanca. Há uma preocupação por equacionar dominação com salvação, e o tema do direito de conquista e evangelização está na ordem do dia. Como seria feito isto? Sob que limites legais, morais e políticos? Isto produzirá uma longa bibliografia cujo exemplar mais significativo é a Controvérsia entre Bartolomé de Las Casas  e Ginés de Sepúlveda , acontecida em Valladolid em 1550.


IHU On-Line - Como se deu o desenvolvimento da Escolástica na América Latina?

Alfredo Culleton - Como foi dito, a Escolástica Latino-americana se desenvolve nas recentemente criadas universidades. Diferentemente à Universidade de Salamanca, à qual são devedoras enquanto inspiração, as universidades da hispano-américa nos apresentam diferentes matizes quanto ao tipo de fundação. Umas são “Mayores”, oficiais ou gerais, com uma organização similar e amplidão de privilégios, principal e essencialmente os salmantinianos. Outras são universidades menores, de cátedras e privilégios limitados, com faculdades restringidas para graduar. Umas nascem pontifícias, mas com ulterior aprovação real. Outras são erigidas pela monarquia, para as que se pede logo a aprovação pontifícia. Umas são fundações independentes de qualquer outra entidade. Outras têm como base os conventos e colégios de dominicanos, agostinianos e jesuítas, e os seminários tridentinos. Muitas universidades tiveram sua origem nos privilégios gerais para graduar – pontifícios, com passe régio - concedidos aos dominicanos e jesuítas. Também a Ordem dos Pregadores costumava pedir o documento fundacional específico. Alguns não foram universidades no sentido pleno, mas academias universitárias, com faculdade para graduar, e que durante o período hispano se esforçaram por alcançar a categoria universitária com privilegio direto e específico. Todos esses centros acadêmicos desenvolvem conhecimento e, na medida do possível, soluções aos problemas.


IHU On-Line - Qual é a importância dos estudos ibero-americanos para o mundo contemporâneo?

Alfredo Culleton - Muito dos problemas contemporâneos não podem ser resolvidos com os paradigmas desenvolvidos na chamada Modernidade. Os clássicos modernos como Hobbes , Descartes , Locke , mesmo o Kant  e o seu Direito Cosmopolita, não dão conta de auxiliar na solução dos problemas políticos e morais contemporâneos. Não que uma filosofia do passado consiga, mas com certeza certos conceitos desenvolvidos pela Segunda Escolástica podem auxiliar para pensar novas respostas. É o caso da Corte Internacional de Direitos Humanos, que se vale de conceitos como o de ius gentium (direito de gentes), desenvolvido especialmente por Francisco Suárez, para tratar crimes de guerra e violações a tratados internacionais. Da mesma maneira, esse conceito pode ser de grande utilidade para pensar temas de diálogo inter-religioso, interculturalidade, direito de propriedade e direito indígena.    


IHU On-Line - Qual é a relação entre a Unisinos e o Instituto de Escolástica Ibero-Americano? Por que esses estudos ocorrem aqui?

Alfredo Culleton - Desde 2010 a Unisinos está comprometida com o Projeto Scholastica Colonialis, desenvolvida juntamente com o professor Roberto Pich (PUCRS), que envolve o apoio de agências de fomento nacionais e internacionais para desenvolver pesquisa nessa área.

A Unisinos, pela sua tradição jesuíta, pela sua magnífica biblioteca, o seu exclusivo acervo do Memorial Jesuíta, por contar com vários Programas de Pós-Graduação que teriam como desenvolver pesquisa relativa a esse tesouro, como é o caso do PPG Filosofia, PPG Direito, PPG História, programas estes que têm pesquisadores de alto nível, já trabalha estes temas. As pessoas quando pensam em Escolástica Ibero-americana, já pensam na Unisinos. A Unisinos tem essa vocação de acervo e excelência.


IHU On-Line - Qual é a importância do acervo de Suárez na Biblioteca da Unisinos?

Alfredo Culleton - A Biblioteca Unisinos conta em seu acervo com 75 obras, em diversas edições e traduções, desde a sua primeira edição do De virtute de 1613, até as mais recentes edições do De Legibus ou do De fide, de 2015. Além desta coleção de obras do próprio autor, o acervo conta com um significativo número de comentários sobre os escritos de Suárez. É notável que o memorial Jesuíta da Unisinos guarda em seu acervo desta qualidade, único no Brasil, mantendo viva através destas obras, a memória de um dos mais importantes pensadores do século XVII, e com certeza o intelectual jesuíta mais renomado. A atualidade da obra de Suárez fica evidente pelo expressivo volume de publicações que a seu respeito vêm sendo editadas em importantes casas editoriais europeias e norte-americanas.


IHU On-Line - Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado? 

Alfredo Culleton - Em 2017 se completam 400 anos da morte do Francisco Suárez, e a Unisinos se honra em realizar um Colóquio Internacional, no qual pretende trazer os mais renomados especialistas na sua obra. Estaremos focando os estudos durante esses dias em três áreas: a primeira sobre Metafísica, em função da obra Disputações metafísicas; a segunda sobre Filosofia Prática, tratando sobre o Direito, a moral e as relações internacionais na obra de jesuíta granadino, e uma terceira sessão sobre Suárez e a atualidade. Em breve divulgaremos a programação.

 

Leia mais...

- Ninguém aceita a morte por suposição. Edição número 269, Revista IHU On-Line, de 18-08-2008.

- A interculturalidade medieval. Edição número 198, Revista IHU On-Line, de 02-10-2007. 

- IHU Repórter, perfil de Alfredo Culleton. Edição número 343, Revista IHU On-Line, de 13-09-2010. 

- “A verdade é uma formulação de linguagem”. Edição número 363, Revista IHU On-Line, de 30-05-2011. 

- A humanidade condensada na literatura. Edição número 444, Revista IHU On-Line, de 02-06-2014..

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