Edição 486 | 30 Mai 2016

A experiência jesuíta na primeira globalização – Desafios e descobertas a partir do século XVI

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Márcia Junges | Edição João Vitor Santos

José Eduardo Franco e Carlos Fiolhais apresentam outra perspectiva de globalização em seu livro, baseada na experiência jesuítica de conexão, relação e troca entre culturas
Jesuítas, Construtores da Globalização. Ctt, Lisboa (2016)

Na atualidade, o conceito de globalização é diretamente associado ao neoliberalismo econômico. O que está por trás é uma ideia de mundo sem barreiras ou fronteiras, como se todos os povos fossem um. Quando a Companhia de Jesus se lança pelo mundo “pós-descobrimento”, havia uma busca pela globalização. Entretanto, era outra ideia de globalização. “Os jesuítas contribuíram desde o século XVI para a chamada primeira globalização, designadamente como missionários, educadores e pesquisadores nas vastas redes formadas pelos impérios português e espanhol. Destacaram-se como construtores de uma nova relação entre povos e culturas tão diferentes e até então desconhecidas umas das outras”, explicam José Eduardo Franco e Carlos Fiolhais. Essa outra perspectiva de globalização se materializa na experiência dos jesuítas que “não só levaram a cultura e a ciência europeias juntamente com a mensagem cristã da Europa até outros continentes, como recolheram para a Europa dados novos sobre os quatro cantos do planeta”.

Franco e Fiolhais trazem à luz essa outra ideia de globalização através do livro Jesuítas, Construtores da Globalização (Lisboa: Ctt, 2016). A obra revisita a história mundial da ordem religiosa, mas centrada na relação dos Jesuítas com a história da globalização portuguesa pouco mais de 200 anos após a Restauração da Companhia de Jesus em 1814. Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Franco e Fiolhais refletem sobre o legado jesuítico na busca pela justiça, tendo em perspectiva a dureza das injustiças do mundo de hoje. “Neste tempo de globalização acelerada em que vivemos, a experiência e a reflexão de Vieira e de outros intelectuais jesuítas poderiam muito bem nos ajudar a construir um mundo melhor”, apontam. “Hoje a globalização assume novas facetas, mas a ideia de ajuda e solidariedade à escala global continua a fazer sentido”, completam.

José Eduardo Franco é investigador-coordenador na Universidade Aberta, Diretor da Cátedra FCT/Infante Dom Henrique para os Estudos Insulares Atlânticos e a Globalização (FCT/Universidade Aberta/CLEPUL/APCA), diretor-adjunto da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa - FLUL. Doutorou-se na École des Hautes Études en Sciences Sociales - EHESS de Paris. Entre os seus livros, destacam-se O Mito de Portugal (Lisboa: Roma Editora, 2000); O Mito dos Jesuítas em Portugal e no Brasil, Séculos XVI-XX, 2 vols. (Lisboa: Gradiva, 2006-2007); e Padre Antonio Vieira e le Donne. Il mito barocco dell'universo femminile, com Isabel Morán Cabanas (Roma: Aracne Editrice, 2013).

Carlos Fiolhais é professor catedrático de Física da Universidade de Coimbra, especializado em Física da Matéria Condensada e em História das Ciências, é autor de mais de 50 livros, de 160 artigos científicos e de mais de 500 artigos de divulgação. Foi Diretor do Centro de Física Computacional da Universidade de Coimbra e da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra. Dirige o Rómulo – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra e é o responsável pela área do Conhecimento da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Entre os seus livros mais recentes, destacam-se Biblioteca Joanina, com Paulo Mendes (Lisboa: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2013); e História da Ciência em Portugal (Lisboa: Arranha-Céus, 2013).

 

Confira a entrevista.


IHU On-Line - Qual é a importância dos Jesuítas como construtores da globalização? Como podemos compreender essa globalização à qual o livro se refere?

José Eduardo Franco e Carlos Fiolhais - Os Jesuítas contribuíram desde o século XVI para a chamada primeira globalização, designadamente como missionários, educadores e pesquisadores nas vastas redes formadas pelos impérios português e espanhol. Destacaram-se como construtores de uma nova relação entre povos e culturas tão diferentes e até então desconhecidas umas das outras. Os Inacianos não só levaram a cultura e a ciência europeias juntamente com a mensagem cristã da Europa até outros continentes, como recolheram para a Europa dados novos sobre os quatro cantos do planeta. No Brasil, na Índia, na China e no Japão introduziram a moderna ciência então emergente.

Por outro lado, por processos de aculturação, receberam as línguas e culturas locais. Os missionários jesuítas, em geral muito bem preparados, ajudaram a constituir, com os seus escritos, a primeira base de dados global sobre diversas geografias, plantas, animais, etnias e modos de vida do nosso planeta. Foram também os criadores das primeiras experiências de trabalho em rede numa escala planetária ao criar a primeira rede global de ensino formada por colégios que obedeciam essencialmente às mesmas regras nos continentes onde se implantaram. Com a circulação de professores e alunos criaram laços de intercâmbio. 

 

IHU On-Line - E no caso da globalização portuguesa, especificamente, quais são as maiores contribuições da Companhia de Jesus?

José Eduardo Franco e Carlos Fiolhais - Os descobrimentos portugueses conduziram a um império que se estendia por quatro continentes. A Companhia de Jesus ajudou a fixar a presença portuguesa nos territórios ultramarinos, tanto na África como no Brasil e no Oriente, através da sua rede de missões e das expedições de exploração do território recolhendo e centralizando informações. Criaram os primeiros meios linguísticos de contato intercultural com a preparação dos primeiros dicionários bilingues (português-tupi, português-mandarim, português-japonês etc.), gramáticas e catecismos. As primeiras histórias gerais de povos e civilizações notáveis como a chinesa e a japonesa foram produzidas em língua portuguesa e dadas a conhecer ao mundo ocidental na época moderna, contribuindo para afirmar a língua portuguesa como língua de cultura e como a primeira língua da globalização.


IHU On-Line - Em que sentido Inácio de Loyola  contribuiu para que fosse possível encarar a crítica e a mudança de concepções tradicionais para chegar a uma inovação na construção do saber?

José Eduardo Franco e Carlos Fiolhais - O fundador dos Jesuítas não foi propriamente um cientista, nem um filósofo, foi antes um grande líder espiritual, criador de um método de crescimento espiritual: os Exercícios Espirituais , que se tornou o mais influente manual de espiritualidade da época moderna. Todavia, o seu método ascético com a valorização que fez das dimensões sensível, intuitiva e imaginativa do ser humano em paralelo com a dimensão racional acabou por afirmar o homem como um todo uno e indivisível, ultrapassando velhos maniqueísmos que desvalorizavam o corpo e as chamadas realidades temporais. O otimismo antropológico promovido por Inácio de Loyola e pelos outros padres do grupo fundador da Companhia favoreceu o estudo, a pesquisa, o discernimento das melhores estratégias, o aperfeiçoamento de meios e a demanda de maiores recursos para facilitar a finalidade da Ordem que, obviamente, era o anúncio de Cristo para toda a humanidade.


IHU On-Line - Qual é a principal contribuição dos jesuítas para a ciência? Em que sentido eles renovaram a ciência da Idade Moderna?

José Eduardo Franco e Carlos Fiolhais - Os Jesuítas nascem no século XVI, quando desponta a Revolução Científica , que explodiu no século XVII. Através dos seus colégios e das suas redes de missões, os Jesuítas recolheram dados sobre uma diversidade enorme de aspectos da história natural e da história humana que ajudaram a mudar a mundividência medieval e contribuíram para rever o conhecimento científico em várias disciplinas. 

Por seu lado, houve uma aposta forte na preparação científica dos jesuítas com mais talento nas áreas da matemática, da astronomia, da física, da filologia, tornando-os peritos em domínios úteis para o diálogo com outras culturas e civilizações tão avançadas quanto a europeia. Esta preparação especial favorecia o intercâmbio científico, nomeadamente entre o Ocidente e o Oriente, e, neste âmbito, os Jesuítas tornaram-se grandes divulgadores da Ciência na Época Moderna. Por exemplo, a geometria de Euclides . Os telescópios e os relógios mecânicos chegaram à China através de jesuítas, que passaram a ocupar lugares de chefia no observatório astronômico do paço imperial de Pequim. E foi também através dos jesuítas que a medicina ocidental chegou ao Japão.


IHU On-Line - Os jesuítas têm um modelo particular de construir o saber que tenha influenciado a Modernidade via globalização? Como ele se caracteriza?

José Eduardo Franco e Carlos Fiolhais - O seu ideário de tudo ser orientado ad maiorem gloriam Dei (para maior glória de Deus) acabou por fazer deles atores da história que procuraram compreender o mundo na sua diversidade e complexidade, especializando-se no diálogo com o outro, tendo sempre em vista a expansão da palavra de Deus.  Podemos dizer que os jesuítas são, nessa época, os especialistas do outro, do diálogo da Igreja com o mundo, falando mais para fora do que para dentro. Nesta demanda do conhecimento no respeito pelo outro, geraram um intercâmbio que trouxe uma nova visão da humanidade como diversa e una ao mesmo tempo.


IHU On-Line - Quais foram os principais limites da globalização jesuíta?

José Eduardo Franco e Carlos Fiolhais - Os limites da globalização de marca jesuíta estiveram na dificuldade da cultura e mentalidade europeias e de alguns setores da Igreja, com ascendente na Europa, em aceitar os processos e métodos usados pela Companhia. Em especial na adaptação cultural e religiosa, no recurso ao comércio para sustentar o projeto de expansão missionária, tendo essa postura inculturacionista e empreendedora gerado muitas críticas e mal entendidos. Em alguns domínios, o seu modo de atuação era demasiado avançado para ser compreendido pela mentalidade do tempo. 

De fato, os jesuítas tiveram razão antes do tempo ao defenderem, por exemplo, a generalização da escola a todas classes sociais, ao promoverem a adaptação do cristianismo em civilizações muito diferentes da ocidental tornando-se precursores de metodologias que só vieram a ser bem aceitas pela Igreja no século XX. Por outro lado, a sua proximidade e colaboração com alguns detentores de poder geraram também ambiguidades com custos de imagens para a Companhia. 


IHU On-Line - Como compreendem o paradoxo entre a contribuição jesuíta para a construção da globalização e seu trabalho contra a injustiça num tempo como o nosso, no qual a globalização se tornou sinônimo de neoliberalismo?

José Eduardo Franco e Carlos Fiolhais - Os jesuítas acompanharam o seu ideário de conversão ao cristianismo com a preocupação da promoção humana, ou seja, a valorização da educação e busca da melhoria das condições materiais, tendo-se destacado nesse processo alguns célebres jesuítas, como o padre Antônio Vieira , que lutou contra a opressão e a escravatura. No século XX, essa herança de reflexão e luta contra as injustiças e as desigualdades sociais conheceu uma expressão particular no empenhamento dos jesuítas na dimensão social, assistencial e solidária, designadamente na América Latina, na África e na Ásia.

São conhecidas algumas organizações relevantes criadas à sombra da Companhia, como organizações não governamentais para o desenvolvimento do terceiro mundo, e redes de assistência, sendo a mais recente o Serviço Jesuíta para os Refugiados . Podemos dizer que, pesem embora as inevitáveis diferenças, há uma continuidade histórica no trabalho dos jesuítas. Hoje a globalização assume novas facetas, mas a ideia de ajuda e solidariedade em escala global continua a fazer sentido.


IHU On-Line - Como o contato com os índios mudou a vida dos missionários e como souberam dialogar com os povos indígenas?

José Eduardo Franco e Carlos Fiolhais - A relação direta dos jesuítas com os povos indígenas, nomeadamente na América, representou na pessoa, pensamento e ação de muitos missionários jesuítas uma mudança do olhar europeu em relação aos povos do Novo Mundo. A maioria dos jesuítas reconheceu-lhes uma dignidade antropológica comensurável com a do homem branco e dignidades social e política em paridade com as soberanias europeias. Este encontro entre culturas, raças, civilizações tão díspares favoreceu uma reflexão profunda dos intelectuais jesuítas e de outras ordens que contribuiu para o direito internacional moderno, com destaque para os contributos de Francisco Vitória  , Francisco Suarez  e Domingo Sotto . Claro que este processo nem sempre foi simples e linear, tendo existido hesitações e contradições.


IHU On-Line - Como a história de Portugal se entrelaça com a história de vida de padre Vieira?

José Eduardo Franco e Carlos Fiolhais - O padre Antônio Vieira viveu uma parte da sua vida no tempo da União Ibérica. Desempenhou um papel notável na restauração da independência do Reino de Portugal em relação ao de Espanha, quer como conselheiro e embaixador do rei D. João VI , quer ainda como um ideólogo que pensou uma transformação profunda da sociedade do seu tempo. Projetou reformas sociais, institucionais, econômicas e até religiosas que só alguns dos seus contemporâneos conseguiram compreender. Preconizou a reforma da inquisição para atenuar a perseguição dos descendentes de judeus, defendeu o fim de marcantes discriminações sociais como a que vinha da distinção entre cristãos-novos e cristãos-velhos, promoveu a elaboração de leis em favor da liberdade dos índios, projetou a criação de companhias nacionais de comércio fortes para concorrer com as companhias holandesas, tendo conhecido grande resistência por parte dos setores mais retrógrados do seu tempo. Paradoxalmente, algumas destas medidas acabaram por ser concretizadas cem anos depois pelo Marquês de Pombal , o grande inimigo dos jesuítas.


IHU On-Line - Qual a contribuição dos escritos de Vieira na conjuntura atual? É possível estabelecer uma relação entre o mundo em que vivemos e o mundo retratado por esse jesuíta em seus sermões?

José Eduardo Franco e Carlos Fiolhais - Tendo Vieira defendido uma melhor redistribuição dos bens e oportunidades sociais e a valorização do talento e do mérito independentemente da origem social dos indivíduos, assim como uma maior justiça e humanidade no tratamento dos seres humanos independentemente da sua raça e cor, hoje em dia o seu pensamento crítico e a sua ação social poderão certamente inspirar caminhos de maior equidade. 


IHU On-Line - Acreditam que sua trajetória contribui para pensar sobre os jesuítas em tempos de globalização? Por quê?

José Eduardo Franco e Carlos Fiolhais - Neste tempo de globalização acelerada em que vivemos, a experiência e a reflexão de Vieira e de outros intelectuais jesuítas poderiam muito bem nos ajudar a construir um mundo melhor, uma globalização de rosto mais humano. Como os clássicos permanecem, ler Vieira continua a ser um alento para enfrentar os problemas do mundo de hoje.


IHU On-Line - Como era o mundo pensado por Antônio Vieira diante das descobertas que desvelam realidades em mudança?

José Eduardo Franco e Carlos Fiolhais - Perante o mundo em mudança e padecendo conflitos graves como no tempo de Vieira, ele idealizou uma utopia de um mundo unido, fraterno, integrador de raças e culturas que se consubstancia na sua ideia de “quinto império”, um mundo hipotético no qual a graça e a paz jorrariam em abundância da divindade. Essa ideia de império tem certamente aspectos ingênuos, naturalmente ultrapassados. Mas afigura-se necessário, hoje em dia como no tempo de Vieira, desenhar a utopia que fará reforçar a esperança num futuro melhor. A utopia, o sonho, não perdeu atualidade. Como diz o poeta português Sebastião da Gama:  “Pelo sonho é que vamos”.■

 

O livro

Título: Jesuítas, Construtores da Globalização

Autores: José Eduardo Franco e Carlos Fiolhais

Editora: Ctt, Lisboa

Ano: 2016

Páginas: 176

Resumo: a obra pretende revisitar a história mundial desta ordem, com foco especial na relação dos Jesuítas com a história da globalização portuguesa, pouco mais de duzentos anos após a Restauração da Companhia de Jesus decretada pelo papa Pio VII em 1814, apresentando os grandes marcos desta história e acompanhando a projeção mundial desta Ordem, enfatizando as inovações e os sucessos, mas sem escamotear as fraquezas e os insucessos.

 

Leia mais...

 

- Companhia de Jesus. Da Supressão à Restauração. Revista IHU On-Line, número 458, de 10-11-2014.


- A Globalização e os Jesuítas. Revista IHU On-Line, número 196, de 18-09-2006.

 

- Jesuítas. Quem são? Revista IHU On-Line, número 186, de 26-06-2006.


- Jesuítas e a América Latina. Revista IHU On-Line, número 25, de 08-07-2012.


- O imaginário antijesuíta em Portugal — Origens, Evolução e Metamorfose.  Entrevista com José Eduardo Franco, publicada na revista IHU On-Line, número 458, de 10-11-2014..


- Jesuítas e a batalha que os templários não venceram. Reportagem publicada na revista IHU On-Line, número 459, de 17-11-2014.

 

- Vieira. Um Indiana Jones das missões. Entrevista especial com José Eduardo Franco, publicada nas Notícias do Dia, de 14-12-2014, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU..


- O Marquês de Pombal e a Invenção do Brasil. Artigo e José Eduardo Franco, publicada no Cadernos IHU ideias, número 220.

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