Edição 486 | 30 Mai 2016

A beleza de mobilizar afetos, compartilhar vivências e ampliar horizontes

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Leslie Chaves

Para Cariane Camargo, a moda é um potente canal de transformação de realidades e busca de desenvolvimento sustentável com criatividade e identidade
Crédito das imagens: Marco Brelinger

Ver o mundo de um ponto de vista mais amplo e integrado, entendendo que só o desenvolvimento ético das diversas esferas de organização da sociedade poderá garantir condições dignas de vida para todos, é o mote da ideia de sustentabilidade. Essa concepção extrapolou a área da ecologia, onde é mais difundida, e está cada vez mais presente nos fundamentos de diferentes campos sociais, incluindo o mundo da moda, âmbito em que vem assumindo força. “Acredito na moda como um vetor de mudança, capaz de produzir impactos positivos na sociedade. Quando abordamos a moda pela perspectiva ética e sustentável, ela se torna um agente de transformação. A moda é um reflexo móvel do que somos e vivemos, basta escolhermos a imagem que queremos refletir”, ressalta a professora e pesquisadora especializada em moda sustentável Cariane Camargo.

Na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, a pesquisadora falou sobre a experiência do projeto Desperta – Moda Para Mudança, iniciativa que promove a moda a partir da visão do desenvolvimento sustentável, estimulando a criatividade e a valorização da identidade através de diversas atividades. “O Desperta é um projeto de ensino que contempla áreas criativas, especialmente a Moda. Criamos conexões entre grupos em vulnerabilidade social e profissionais voluntários. Essa iniciativa nasceu com o intuito de despertar o pensamento criativo e a sustentabilidade nas comunidades”, explica. A iniciativa está sediada na Associação Alvo Cultural, no bairro Rubem Berta, localizado na periferia de Porto Alegre.

As imagens que ilustram a entrevista são resultado de um workshop de produção de moda ministrado para as integrantes do projeto, que tiveram a tarefa de compor visuais com peças emprestadas por duas marcas gaúchas de vestuário e assessórios, a Gang e a Oi Gracia, que foram parceiras na atividade. Esse exercício de ensino também teve a participação da produtora de moda Madeleine Muller, com vasta experiência na área, e do fotógrafo profissional Marco Brelinger, uma das referências no ramo. 

Além de pensarem as composições de moda, as integrantes do Desperta também posaram como modelos para as fotos. “Foi um momento muito interessante, que envolveu a autoestima das integrantes do projeto, pois sempre quando estimulamos esse contexto de produção de moda e beleza procuramos valorizar os traços característicos de cada uma delas. A ideia é mostrar que a moda não deve ser ditada, ou obedecer a um padrão determinado, e que precisamos acreditar na nossa moda e na nossa beleza”, pontua Cariane.

O Desperta é uma iniciativa totalmente mantida pelo trabalho voluntário em que se mobilizam a comunidade, a iniciativa privada, como instituições de ensino e empresas parceiras, Organizações Não Governamentais e profissionais, para fazer o projeto acontecer. “Essa integração é extremamente saudável, pois todos saem com uma experiência positiva. É uma troca muito humana, que vai além dos livros e do conteúdo dos cursos”, enfatiza a pesquisadora.

Cariane Camargo é graduada em Moda pela Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC, especialista em Desenvolvimento de Produto de Moda pela Universidade de Passo Fundo - UPF, mestra em Design pelo Centro Universitário Ritter dos Reis – UniRitter e doutoranda em Design pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS. Foi professora e membro do Núcleo Docente Estruturante - NDE do Curso Superior de Tecnologia em Design de Moda da UPF. Atualmente é docente do curso de Bacharelado em Moda da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS e pesquisadora do Núcleo de Moda Sustentável da UFRGS, focando suas investigações em design de moda para a sustentabilidade e inovação social.

 

Confira a entrevista.


IHU On-Line – A moda pode ser um agente de transformação social? De que maneira?

Cariane Camargo - Sim, acredito na moda como um vetor de mudança, capaz de produzir impactos positivos na sociedade. Quando abordamos a moda pela perspectiva ética e sustentável, ela se torna um agente de transformação. A moda é um reflexo móvel do que somos e vivemos, basta escolhermos a imagem que queremos refletir.


IHU On-Line – Em que consiste o projeto Desperta – Moda Para Mudança? De quem partiu a ideia e como foi concebida a iniciativa? 

Cariane Camargo - Desperta é um projeto de ensino que contempla áreas criativas, especialmente a Moda. Criamos conexões entre grupos em vulnerabilidade social e profissionais voluntários. Essa iniciativa nasceu com o intuito de despertar o pensamento criativo e a sustentabilidade nas comunidades. 

A ideia surgiu após uma experiência que tive como docente na atividade acadêmica “Indústria Criativa e Cidadania Social” oferecida aos alunos da Unisinos. Fazia parte do plano dessa disciplina que os estudantes se inserissem em comunidades, que fossem atuar fora do ambiente da universidade. Então, a partir de pesquisas e de contatos com pessoas que eu conhecia, chegamos à Associação Alvo Cultural. Tivemos o apoio do Jean Andrade, gestor da entidade, que foi muito receptivo e abriu as portas da comunidade do bairro Rubem Berta, em Porto Alegre, para desenvolvermos essa atividade ao longo de dois semestres. 

A partir daí criou-se um vínculo entre nós, o gestor e o pessoal da comunidade, e surgiu a ideia de criarmos o projeto Desperta para dar continuação a esse trabalho. Então, eu e mais duas amigas, a Andressa Bortolin e a Élin Godois, organizamos a iniciativa. Também, quando ingressei no curso de doutorado, eu tinha a ideia de trabalhar com o ensino de moda sustentável e achei que seria interessante pensar um projeto em uma comunidade contemplando a moda dentro dessa perspectiva da sustentabilidade em um sentido mais amplo. Isso porque, quando se fala em desenvolvimento sustentável, a maioria das pessoas tende a pensar na questão ambiental ou ecológica, mas o âmbito social também está totalmente ligado a essa ideia.

O primeiro curso oferecido pelo Desperta foi de “Introdução à Moda”, ocorreu no formato presencial e teve dois meses de duração, com três módulos: Módulo 1 - Desconstruir e Conceituar, Módulo 2 - Produzir e Comunicar, Módulo 3 - Projetar e Apresentar. Através desse curso objetivamos: desconstruir padrões da moda vigente; desenvolver novas perspectivas para moda; instruir e habilitar para criação de moda; provocar a criatividade das comunidades; reconhecer talentos locais; manifestar a identidade cultural; promover a sustentabilidade e a inovação social.

Ao longo desse primeiro semestre de 2016 o projeto está sendo aplicado no formato de oficinas e workshops, com voluntários de diferentes áreas criativas.

Sempre costumamos ressaltar que o projeto não é só meu, da Andressa Bortolin e da Élin Godois. Na verdade é uma iniciativa que agora é de todos os que estão engajados, é um projeto voluntário e aberto para todas as pessoas que queiram colaborar, seja na gestão, organização, ministrando oficinas, fornecendo material para as atividades, seja participando dos cursos oferecidos.  

IHU On-Line – Para que público é direcionado o Desperta? Onde está inserido o projeto? 

Cariane Camargo - O projeto é direcionado a grupos ou comunidades em vulnerabilidade social, mas sempre damos liberdade a todos que desejam conhecer ou participar de alguma maneira do projeto. Atualmente está inserido junto à Associação Alvo Cultural, que fica no bairro Rubem Berta, Porto Alegre, RS. Pretendemos expandir o projeto para orfanatos e presídios femininos, mas esse ainda é um plano para o futuro.

A partir dessa parceria com a Alvo Cultural é que fomos agregando as participantes do projeto. A Associação fez o trabalho de divulgação no bairro e junto conosco convidou as pessoas a se engajarem nas atividades. A receptividade e adesão das pessoas foram ótimas e o projeto foi muito bem acolhido pela comunidade. 


IHU On-Line – De que maneira o Desperta promove a moda sustentável nos locais onde está inserido? 

Cariane Camargo - Toda abordagem que trazemos para sala de aula é fundamentada em princípios da sustentabilidade. Falamos sobre aproveitamento de materiais (resíduos têxteis, por exemplo), aumento do ciclo de vida dos produtos, cuidados práticos com as roupas. Também refletimos sobre quem faz nossas roupas e em quais condições, e como a moda e a beleza podem valorizar nossa cultura e identidade pessoal.


IHU On-Line – Que reflexos a promoção da moda sustentável pode trazer para o desenvolvimento social?

Cariane Camargo - A moda sustentável é pautada em três dimensões: ecológica, social e econômica. Quando promovemos a moda a partir desta abordagem, consequentemente iremos estimular o desenvolvimento social e econômico, buscando menor impacto no meio ambiente. Através do Desperta, percebi que as meninas passaram a valorizar ainda mais suas raízes culturais e a moda feita por elas mesmas.

As transformações geradas pelo projeto são sutis, mas são muito importantes. Ao longo dos cursos vimos muitas situações em que sentimos que as atividades ministradas promoveram uma troca muito interessante entre os que estiveram compartilhando suas experiências profissionais e as integrantes do projeto. Especificamente em relação às meninas que fizeram os cursos, percebemos um empoderamento nas atitudes delas, no sentido de trazer à tona o que elas acreditam, de se encorajar a falar em público, de valorizar suas características etc. É possível ver que uma semente foi plantada e esse grão tem grande potencial de germinar e dar frutos. 


IHU On-Line – Como o Desperta entende e trabalha a questão ética na moda?

Cariane Camargo - Além de levar em consideração o meio ambiente, enfatizamos os valores ligados à justiça e a transparência na cadeia produtiva da moda. Desse modo, o Desperta incentiva a reflexão a respeito das questões sociais que tangenciam a moda, desde a criação até o descarte dos produtos.


IHU On-Line – Em alguns materiais de divulgação do Desperta aparece a referência “slow fashion”. Em que consiste essa concepção e como ela é trabalhada no projeto?

Cariane Camargo - O Slow Fashion representa um contraponto às práticas atuais e ainda dominantes do setor do vestuário, baseadas na produção em alta escala e focadas, sobretudo, no crescimento econômico. Deste modo, a moda “lenta” questiona o estilo globalizado e se torna guardiã da diversidade, estimulando a produção local e de baixa e média escala. 

A relação entre criadores e consumidores assume uma nova postura, pautada na confiança mútua e identificação de valores. O Slow Fashion também busca incorporar os custos sociais e ecológicos, refletindo o custo real da moda. Esses conceitos são estudados e na medida do possível aplicados através das atividades do Desperta. 


IHU On-Line – O projeto Desperta trabalha em parceria com diversas instituições para a promoção de suas atividades. A partir desse modo de organização é possível integrar esferas como a acadêmica/universidade, mercado e comunidade? Como? Qual a importância dessa integração para cada um desses campos?

Cariane Camargo - Sim, o que fazemos no Desperta é exatamente integrar a comunidade com a iniciativa privada (Instituições de ensino e empresas colaboradoras) e Organizações Não Governamentais (Associação Alvo Cultural, Centro de Ensino do Reciclador de Porto Alegre - CERPOA). As empresas parceiras colaboram doando materiais e, em alguns casos, com serviços, participando ativamente das oficinas. As instituições de ensino incentivam seus alunos a participarem das atividades. E a Alvo Cultural é nossa grande parceira, pois nos cede o espaço, ajuda com materiais didáticos e é responsável pela gestão das inscrições e divulgação na comunidade. A equipe do Desperta atua como articuladora e responsável pelo conteúdo e implementação dos cursos, oficinas e workshops. 

Essa integração é extremamente saudável, pois todos saem com uma experiência positiva. Alunas da Unisinos que participaram do projeto relataram que a experiência foi muito rica para elas. Entre os que estão na gestão do projeto há um forte sentimento de gratidão, pois essa experiência tem sido um grande aprendizado para todos nós. Eu sou professora desde 2009, mas nunca havia lecionado em um contexto como o do projeto, inserido em uma comunidade. Nessas práticas tive a oportunidade de desenvolver métodos mais lúdicos de compartilhar os conhecimentos. Também, as relações entre quem está ministrando as oficinas e os participantes são diferentes, há uma maior aproximação, um envolvimento e uma convivência mais intensa.

O que também é muito interessante é a participação de diferentes profissionais no projeto. Além de nossa participação, sempre procuramos levar estudantes do curso de moda, que são as minhas alunas da Unisinos; e também profissionais experientes e atuantes na área.

É uma troca muito humana, que vai além dos livros e do conteúdo dos cursos. Eu me sinto muito motivada em estar envolvida no projeto. 


IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Cariane Camargo - Agradeço a oportunidade de falar sobre a Moda que eu acredito. Quem tiver interesse em conhecer o projeto ou se voluntariar pode enviar um e-mail para Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.. Também estamos presentes nas redes sociais nos endereços www.facebook.com/despertamoda/, no Facebook, e @despertamoda, no Instagram.

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