Edição 207 | 04 Dezembro 2006

“Deus e a psicanálise não casam bem”

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IHU Online

O psicanalista Leonardo Adalberto Francischelli é membro titular da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre, membro pleno do Centro de Estudos Psicanalíticos de Porto Alegre. Ele aceitou conceder a entrevista a seguir, por e-mail, para a IHU On-Line, contribuindo no debate sobre a relação entre Freud e as religiões. 

IHU On-Line - Como o contexto de criação de Freud o influenciou para sua concepção de religião?

Leonardo Francischelli
- Freud é filho espiritual do iluminismo que tinha como ideal para o homem a racionalidade. O trabalho que Freud produziu em I927 O futuro de uma ilusão serviria como testemunho dessa verdade. Nesse texto, podemos ler a seguinte frase: "Não há instância alguma acima da razão". Podemos interpretar com alguma possibilidade de fidelidade para onde apontava Freud com respeito à religião. Contudo, tal perspectiva não se materializou, visto que, hoje, as idéias religiosas vão bem. Em outras palavras, a força, o poder e a influência do pensamento religioso são vigorosos neste inicio do século XXI. Portanto, observamos que alguma coisa do ideal freudiano ficou pelo caminho.

IHU On-Line - Quem é Deus para Freud?

Leonardo Francischelli
- Deus para Freud é o pai. Isso é passível de sustentação segundo seu artigo de 1913, Totem e tabu. Em breves palavras, é a imagem daquele pai da nossa infância toda poderosa que será transferida, posteriormente, a Deus. O trabalho Totem e tabu vai repercutir em outros textos, porém localizaremos maiores ressonâncias em Moisés e a religião monoteísta.

IHU On-Line - Quais as relações entre a idéia de Deus e a psicanálise? Podemos relacionar Deus (o Pai) com a figura do pai segundo a psicanálise?

Leonardo Francischelli
- Sobre a idéia de Deus já dissemos alguma coisa. Seguramente não o suficiente. Deus e a psicanálise não casam bem na minha colocação no mundo. Sim. Pai e Deus, como dissemos, são idéias que se fundem na sua origem. Entretanto, os percursos, quando matizados pelo pensar religioso, se bifurcam e dificilmente se encontrarão.

IHU On-Line - Freud se mostra absolutamente convicto de que a psicanálise só pode ser inventada por uma pessoa não-crente. Podemos estabelecer a relação psicanálise-ateísmo? Existe incompatibilidade no exercício da psicanálise e da fé religiosa?

Leonardo Francischelli
- Talvez. Parece que Freud nunca se declarou religioso. É difícil, a meu ver, contemplar a possibilidade de que alguém, embebido de uma idéia espiritual com a marca da religiosidade, pudesse fundar, criar a psicanálise. Basta pensarmos nas três caídas narcisistas propostas por Freud, sendo a última aquela que o homem é um produto da espécie e não de Deus. Nessa medida, ainda com amigos queridos próximos que defendem essa possibilidade, há sim incompatibilidade entre as duas matérias: religião e psicanálise representam duas formas de pensar que vejo poucas possibilidades de andarem juntas, ainda que analisemos alguém de origem religiosa.

IHU On-Line - Quais são as principais críticas de Freud à religião?

Leonardo Francischelli
- Talvez a crítica fundamental de Freud às religiões a extraíssemos da obra já referida O futuro de uma ilusão, em que pareceria, e isso tem muito da visão, de uma conclusão da sua leitura, que ele esperaria o fim, diremos assim, de todo pensar religioso. Então, o homem, desprotegido de um Deus, terá que se desfazer de um pensamento infinito, isto é, uma vida além da morte para situar-se com a finitude.

 

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