Edição 486 | 30 Mai 2016

Agricultor e pesquisador: articuladores do binômio preservação e produção

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

João Vitor Santos

Juliana Ogliari fala de agrobiodiversidade como a perspectiva de um melhoramento genético que alia o trabalho de campo ao de laboratório para produzir mais e melhor, preservando vidas

“Temos que reaprender (pesquisadores e agricultores) a resgatar conhecimentos para trabalhar a favor da conservação, sem negligenciar o desenvolvimento econômico e social”. A frase da agrônoma Juliana Bernardi Ogliari, pesquisadora da Universidade Federal de Santa Catarina, é um norte, uma inspiração. Para ela, só será possível produzir alimentos de melhor qualidade preservando os ecossistemas no qual a cultura produtiva está inserida. E essa forma de produção preservacionista só será viável se o agricultor tiver retorno financeiro, condições de manter sua família e propriedade.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, a pesquisadora explica que tal perspectiva vai além do trabalho de conscientização. Requer que se trabalhe também na ação. “Não estou na fase romântica de achar que essa integração (do homem com o planeta através da agricultura) ocorrerá, num primeiro momento, por meio de conscientização somente”, desafia. “Deve-se buscar meios políticos e técnicos de promover o desenvolvimento social e econômico a partir dessa integração do homem com a natureza”, aponta. Para Juliana, isso pode se dar por iniciativas como ecoturismo, certificações de produtos diferenciados de base agroecológica ou de sociedades médicas atestando a qualidade funcional, nutricional e medicinal dos componentes da agrobiodiversidade, entre outras ações. “Todas essas estratégias buscam valorizar essa integração por meio de agregação de valores capazes de gerar empregos e novas alternativas de desenvolvimento regional ao mesmo tempo em que indiretamente proporcionam a conservação da agrobiodiversidade”, conclui. 

Juliana Bernardi Ogliari é coordenadora do Núcleo de Estudos em Agrobiodiversidade – NEABio, da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. Engenheira Agrônoma, mestra e doutora em Genética e Melhoramento de Plantas pela Universidade de São Paulo, atuou como pesquisadora do Centro de Pesquisa para Pequenas Propriedades da EMPASC S.A., empresa de pesquisa agropecuária de Santa Catarina. Foi responsável pelo programa de melhoramento genético do feijoeiro do Estado de Santa Catarina. Desde 1990, é professora da UFSC, onde tem coordenado projetos de pesquisa e extensão sobre a análise, o manejo (melhoramento genético e produção de sementes), o uso e a conservação (no campo e na instituição) da diversidade de variedades crioulas de Santa Catarina, por meio de estratégias integradas e participativas e de biotecnologias ajustadas à agricultura familiar. Atualmente, é professora do Departamento de Fitotecnia da UFSC. Também é professora do Programa de Pós-graduação em Recursos Genéticos Vegetais na mesma instituição.

 

Confira a entrevista.


IHU On-Line - Como o estudo da genética compreende o conceito de melhoramento?

Juliana Bernardi Ogliari - A genética é a área da ciência que fundamenta a definição dos protocolos de seleção das plantas cultivadas, pois permite entender como os caracteres de importância de uma cultura são transmitidos entre gerações. O estudo das bases genéticas permite-nos saber quantos genes e qual a influência do ambiente na expressão de uma característica, quais as interações alélicas  e não alélicas, quais correlações existem entre as características de interesse e as demais, se existem ligações ou não entre genes, interações de genótipos  com ambientes etc. 

Com base nos conhecimentos de genética e nas particularidades dos sistemas de reprodução (mecanismos de polinização, estrutura de populações) da espécie, são definidos os métodos de melhoramentos e o tipo de cultivar a ser desenvolvido. Em outras palavras, o conhecimento de genética permite perceber quais são os fatores que podem dificultar a identificação e seleção de genótipos superiores. Pode-se dizer que a genética contribui para a definição da complexidade dos métodos de melhoramento e o tempo envolvido para o desenvolvimento de uma nova cultivar. Assim sendo, a genética fundamenta o desenvolvimento de programas de melhoramento mais eficientes.

A genética é o conhecimento científico básico, que o “melhorista” de plantas acessa para o desenvolvimento eficiente de cultivares superiores, sejam elas destinadas aos sistemas de produção de base agroecológica ou convencional. A eficiência desse processo não está apenas nos resultados da seleção, mas no tempo que se leva para a obtenção desses resultados.


IHU On-Line - No que consiste o melhoramento genético participativo de plantas? Qual o papel, a influência, do solo nesse processo de melhoramento?

Juliana Bernardi Ogliari - Nas últimas décadas, a comunidade científica internacional tem destacado em vários fóruns a importância do papel dos agricultores na conservação da agrobiodiversidade e a necessidade da comunidade científica de desenvolver ações de pesquisa participativa acopladas às necessidades dos ambientes de cultivo habitados por pequenos agricultores. A importância dos agricultores para a conservação dos recursos genéticos não está baseada no fato de que a perda da diversidade biológica na agricultura (agrobiodiversidade) conservada on farm  compromete a própria sobrevivência da humanidade à medida que perdemos o leque de opções para o desenvolvimento de novas cultivares.

A pesquisa participativa, por outro lado, vem ao encontro das demandas particulares dos ecossistemas agrícolas manejados por pequenos agricultores, os quais muitas vezes estão expostos a diferentes estresses de natureza biótica (pragas e doenças) e abiótica (seca, baixa nutrição e acidez de solo, elevadas temperaturas etc.), em geral, responsáveis pelos fatores de risco da produção dos cultivos. Muitas cultivares modernas, desenvolvidas pelo melhoramento formal (dentro de estações experimentais), não atendem às necessidades dessas áreas estressadas, na medida em que as seleções sejam realizadas em ambientes controlados.

Dentro deste contexto, o melhoramento genético participativo tem sido apontado como uma importante ferramenta de trabalho, tanto para a conservação da agrobiodiversidade, como para o desenvolvimento de novas variedades adaptadas e ajustadas aos ambientes de cultivo dessas áreas marginais. A proposta dessa estratégia é integrar o conhecimento científico dos pesquisadores e o conhecimento tradicional dos agricultores a serviço do desenvolvimento endógeno.

 

Pesquisa além do laboratório

Além de focar no compartilhamento do conhecimento científico e tradicional, outro aspecto importante do melhoramento genético participativo refere-se à descentralização das atividades de pesquisa. Isso significa que o processo de seleção é conduzido principalmente fora das estações experimentais, transferindo parte significativa do melhoramento para as áreas de cultivo localizadas nas propriedades rurais.  


IHU On-Line - Como compreender o conceito de agrobiodiversidade e como essa perspectiva pode se mostrar como uma alternativa de manejo ao uso de agrotóxicos e fertilizantes sintéticos?

Juliana Bernardi Ogliari - A resposta a esta pergunta está distribuída pelas demais. Mas faltou um conceito para a agrobiodiversidade.

De uma forma bem simples, a agrobiodiversidade é a diversidade biológica na agricultura; assim é a diversidade de espécies (ou cultivos como milho, feijão, batatinha, mandioca etc.), de populações dentro de espécie (diferentes variedades crioulas, raças de animais etc.) e de indivíduos dentro de variedade, que em conjunto interagem com a diversidade de sistemas de produção (convencional, orgânico), de ecossistemas (agrícola e natural), biomas e a diversidade cultural (práticas de manejo e de conhecimento associado dos agricultores familiares, povos indígenas, quilombolas etc.). Também inclui a diversidade de animais e microrganismos, que interagem entre si, com plantas e com o ser humano.  São incluídos à agrobiodiversidade os polinizadores, organismos simbiontes etc., que prestam serviços ecológicos no ambiente de cultivo.


IHU On-Line - Em termos de melhoramento genético de plantas, há alternativas mais naturais do que a transgenia? Quais são as alternativas e quais as vantagens sobre sementes transgênicas?

Juliana Bernardi Ogliari - O debate sobre os impactos das cultivares transgênicas sobre o meio ambiente, agrobiodiversidade e saúde humana é significante e ainda não terminou. Além disso, nesses casos, vale o princípio da precaução, tratado no Protocolo de Cartagena , e assinado pelo Brasil. Muitas pesquisas vêm sendo feitas a respeito dos impactos dos transgênicos sobre a agrobiodiversidade, inclusive pelo Núcleo de Estudos em Agrobiodiversidade (NEABio) da Universidade Federal de Santa Catarina .

Esses estudos têm mostrado que a Resolução Normativa No 4 (CTNBio 2017), que trata da coexistência entre milhos transgênicos e não transgênicos, sem contaminação destes últimos, não é efetiva para a região sul do Brasil, sobretudo para a região Oeste de Santa Catarina, onde estão sendo realizadas essas pesquisas. O cenário é alarmante, considerando que o Extremo Oeste de Santa Catarina é indicado como um microcentro de diversidade de milhos (pipoca, farináceo, doce e comum), onde coexistem simpatricamente com seu parente silvestre, o teosinto.

 

A importância da preservação de espécies crioulas

Estes estudos também mostram que novas raças de milhos estão evoluindo exclusivamente nessa região e que não existem similares em outras partes das Américas, nem mesmo no México, que é o local de origem desta espécie. Em dois municípios estudados, foram identificadas mais de 1500 populações de variedades crioulas de milhos, em sua maioria milhos pipocas. Proteger a agrobiodiversidade desta região de Santa Catarina é muito importante, pois é um local que oferece um leque de opções e diversidade adaptada e em evolução para enfrentarmos inclusive as mudanças climáticas.

Essa proteção deveria incluir mecanismos e estratégias para evitar a contaminação das variedades crioulas de milhos com pólen de cultivares transgênicas, além do desenvolvimento de estratégias integradas e participativas de conservação e melhoramento genético. Muitas populações de variedades crioulas de milho e pipoca avaliadas pelo NEABio apresentam elevado potencial genético (agronômico, nutricional e adaptativo) para uso comercial ou melhoramento genético participativo. Muitas outras ainda possuem potencial real ou potencial desconhecido e, por isso, precisam ser pesquisadas e conservadas.


IHU On-Line – Então, qual a importância na preservação e desenvolvimento de sementes crioulas?

Juliana Bernardi Ogliari - As variedades crioulas conservadas on farm pelos agricultores fazem parte de um processo dinâmico de interação com a agrobiodiversidade, que leva à sua transformação e evolução. O resultado dessa interação ao longo de gerações de cultivo permite a transformação e a adaptação das variedades crioulas ao ecossistema agrícola de onde procedem, ajustando-se às necessidades dos agricultores, que também as modelam por meio da seleção para diferentes finalidades de uso e valores de cultivo e adaptativos. São os agricultores os responsáveis pela evolução e conservação da agrobiodiversidade.


IHU On-Line - Como aliar a preservação da biodiversidade e a produção agrícola através da ação e do manejo realizado pelas comunidades rurais?

Juliana Bernardi Ogliari - Sistemas agrícolas sustentáveis de produção têm sido a proposta viável para a conservação da agrobiodiversidade, onde todas as formas de vida interagem entre si, afetando uns aos outros, inclusive quem a maneja, o ser humano. Para esses ecossistemas agrícolas, onde os fatores de risco da produção são variados, além do equilíbrio entre as diferentes formas de vida (animal, vegetal, microbiana), a qualificação genética da variedade de certo cultivo é fundamental.

O equilíbrio em ecossistemas agrícolas é conquistado não apenas pelo uso de sistemas de manejo apropriados (consorciação e rotação dos cultivos, controle biológico de pragas e doenças etc.), mas também pela constituição genética das cultivares desenvolvidas para estes agroecossistemas. Isso significa que uma cultivar de milho híbrido melhorada para sistemas convencionais, em que todos os fatores de risco da produção são controlados por agrotóxicos, fertilizantes, irrigação etc., poderá ter dificuldade de expressar seu potencial produtivo, em sistemas submetidos aos ditos riscos. Isso porque, em geral, são selecionadas para a obtenção de elevadas produtividades, mas quase sempre pouco adaptadas aos riscos, considerando que eventuais fatores de estressantes podem ser controlados pelas técnicas usadas em agricultora convencional.

 

Além da Revolução Verde

Essa foi a proposta de produção preconizada pela Revolução Verde , baseada no uso de pacotes tecnológicos e sementes genéticas de elevada performance. A importância do melhoramento genético participativo está justamente na possibilidade de desenvolver material adaptado aos fatores de risco de cada microrregião e por meio deles preservar os ecossistemas agrícolas e conservar a agrobiodiversidade.

A descentralização das ações de pesquisa, intrínseca aos programas de melhoramento genético participativo, deve ser prioridade em programas destinados aos sistemas de base agroecológica. Eu entendo que não é possível conservar a agrobiodiversidade em sistemas convencionais. Por outro lado, a conservação da agrobiodiversidade não é antagônica à obtenção de produção agrícola. No entanto, muitos estudos devem ser conduzidos para buscar uma associação entre estratégias de manejo e seleção genética apropriadas aos sistemas familiares de produção e desenvolvimento endógeno. Nossos estudos têm mostrado que as variedades crioulas possuem atributos particulares e que não aparecem nas cultivares modernas. Temos que reaprender (pesquisadores e agricultores) a resgatar conhecimentos para trabalhar a favor da conservação, sem negligenciar o desenvolvimento econômico e social.


IHU On-Line - Na sua opinião, quais os limites e desafios para integração do homem com o planeta através de sua produção agrícola? Como fazer o produtor entender a importância de uma relação integral e não apenas mercantil com a terra?

Juliana Bernardi Ogliari - Não estou na fase romântica de achar que essa integração ocorrerá, num primeiro momento, por meio de conscientização somente. Até pode ajudar em algumas regiões do país. Em outras já existem iniciativas nessa direção. Um exemplo pode ser destacado em municípios do Oeste de Santa Catarina (Anchieta, Guaraciaba e Novo Horizonte), onde existem organizações parceiras do NEABio da UFSC, que vem desenvolvendo ações de pesquisa participativa desde 2001.

Deve-se buscar meios políticos e técnicos de promover o desenvolvimento social e econômico a partir dessa integração do homem com a natureza, seja mediante o ecoturismo, slow food, certificações de produtos diferenciados de base agroecológica, certificações de sociedades médicas atestando a qualidade funcional, nutricional e medicinal dos componentes da agrobiodiversidade, indicações geográficas (indicação de procedência e denominação de origem) etc. Todas essas estratégias buscam valorizar essa integração por meio de agregação de valores capazes de gerar empregos e novas alternativas de desenvolvimento regional ao mesmo tempo em que indiretamente proporcionam a conservação da agrobiodiversidade pelo uso. É nisso que o NEABio acredita.   


IHU On-Line - Quais os desafios políticos, econômicos e sociais para se difundir a produção agroecológica no Brasil? Que ações são mais urgentes para se estimular tanto consumo como produção de alimento agroecológico?

Juliana Bernardi Ogliari - As políticas agrícolas nem sempre acompanham a velocidade das informações científicas e, muitas vezes, quem as faz não observa as questões impactantes. Para isso, seriam necessários receptividade e esforço pessoal para aprender, ampliar horizontes e enfrentar desafios. Nem todos estão preparados ou dispostos a isso.

Uma das políticas agrícolas positivas, mas que depõe contra a produção orgânica, é o programa ‘Terra Boa’ . Nesse programa, por vários anos, foi oferecido como produto aos agricultores sementes de cultivares transgênicas de milho, em áreas de rica diversidade de variedades crioulas desse cultivo. Nossas pesquisas têm mostrado que parte significativa dos agricultores não sabe o significado do termo ‘transgênico’, muito menos de seus impactos e, consequentemente, das medidas de isolamento necessárias entre transgênicos e não transgênicos para a coexistência entre ambos. Para complicar a situação, particularidades de algumas regiões de Santa Catarina, com relação ao milho, não permitem aplicar a RN 4 (CTNBio 2007) para a coexistência entre cultivos não transgênicos e transgênicos.

Como se vê, algumas dessas políticas vão na contramão de qualquer proposta de conservação da agrobiodiversidade. Cada região do país tem suas particularidades, que devem ser observadas, e não negligenciadas. Considerando que a tolerância de contaminação por transgênicos na agricultura de base agroecológica é 0%, pode-se imaginar o apoio político oferecido a este segmento de produção em expansão no Brasil.

Um dos principais desafios políticos seria acompanhar e observar as particularidades dos agroecossistemas regionais, antes de se fazer cumprir as políticas. Outro desafio seria reunir esforços para compatibilizar as políticas, o conhecimento técnico-científico e a inovação em favor da promoção do desenvolvimento socioeconômico regional, baseado na produção de base agroecológica e na conservação da agrobiodiversidade.■

 

Leia mais...

- Agroecossistemas e a ecologia da vida do solo. Por uma outra forma de agricultura. Revista IHU On-Line número 485, de 16-05-2016.

- Agroecologia e o futuro sustentável para o planeta. Um debate. Revista IHU On-Line número 377, de 24-10-2011.

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição