Edição 207 | 04 Dezembro 2006

Freud e a abordagem racionalista das religiões

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IHU Online

A psicanalista Grace Burchardt, presidente do Centro de Estudos Psicanalíticos de Porto Alegre, concedeu a entrevista que segue, por e-mail, para a revista IHU On-Line. Em suas respostas ela afirma que “Freud critica a coerção precoce e nefasta da razão e da inteligência infantil exercida pelas religiões e ainda a tendência das religiões a impor um modelo de felicidade único e restritivo”. Confira.

IHU On-Line - Que relações podemos estabelecer entre Freud e as religiões, em especial as religiões cristãs?

Grace Burchardt
- É preciso dizer primeiramente que Freud é um homem de seu tempo, um cientista, com um projeto que ele próprio denomina de científico para a psicanálise. É desta perspectiva, que podemos também chamar de racionalista, herdeira do iluminismo, que ele aborda as religiões. A religião é uma “poderosa adversária da tarefa de esclarecimento e liberação”. Ele analisa a religião como parte do “patrimônio espiritual da cultura”, ao lado da filosofia, da arte e da moral, ou seja, o conjunto de meios elaborados pela civilização para defender-se das tendências destrutivas dos indivíduos, tendências que a própria civilização engendra pela exigência de renúncia às satisfações pulsionais.

Seu projeto de trabalhar a psicogênese das religiões inicia-se em Totem e Tabu, considerado por Emilio Rodrigué o “grande mito moderno do assassinato de Deus”, desenvolvendo-se em Futuro de uma Ilusão, Mal Estar na Cultura, e Moisés e o Monoteísmo, seu “testamento literário” segundo Renato Mezan. O argumento principal desenvolvido ao longo deste projeto é o de que o sentimento religioso e as religiões nascem do desamparo infantil. Hobbes e Espinosa já haviam derivado as crenças religiosas dos sentimentos de medo e angústia, a novidade freudiana é que o desamparo é gerado pela morte do pai onipotente da infância, ou melhor, pelo assassinato do pai mítico, que todos devemos realizar no caminho da autonomia subjetiva. A figura de Deus é o substituto paterno, ilusão criada pela nostalgia do pai. A devoção a Deus, por sua vez, é fruto do sentimento de culpa e da conseqüente dívida ao pai que se instala pelo desejo de morte e pelo parricídio. Em um artigo intitulado Neurose demoníaca do século XVII, Freud analisa a figura do diabo como o substituto do pai odiado. Encontramos ainda o tema da religião em pequenos artigos como Atos obsessivos e práticas religiosas e Moral sexual civilizada e o nervosismo moderno. 
Freud dedica-se às religiões monoteístas, em especial o judaísmo e o cristianismo, dirigindo sua mais importante crítica à Igreja. Não podemos esquecer que ele habitava a Áustria católica. Entretanto, é na sua correspondência com Oskar Pfister, um pastor protestante que se apaixonou pela psicanálise e tornou-se interlocutor privilegiado de Freud, que encontramos o mais interessante debate sobre o cristianismo. Em uma passagem Freud interroga Pfister: “E, incidentalmente, por que a psicanálise não foi criada por um destes inúmeros homens piedosos, por que foi necessário esperar um judeu inteiramente ateu.” O artigo Futuro de uma Ilusão, segundo Renato Mezan, tem Pfister como seu destinatário primeiro, em outra carta Freud escreve: “Não sei se o senhor percebeu o laço secreto entre a Questão da análise por não-médicos e a Ilusão. Numa quero proteger a psicanálise contra os médicos; na outra, contra os padres. Gostaria de lhe atribuir o estatuto que ainda não existe, o de Seelensorger (os que cuidam da alma) seculares, que não teriam necessidade de ser médicos nem o direito de ser padres”.

IHU On-Line - Qual a influência na concepção de religião que Freud tinha do fato de ele ser judeu?

Grace Burchardt
- Freud ele próprio definia-se como um judeu ateu. E, sobretudo, como já disse, ele é herdeiro das luzes, um homem universal. Sua relação com o judaísmo se dá por uma identificação às suas origens e à cultura judaica, não à mística ou à espiritualidade judaicas. Penso que algumas de suas manifestações são reveladoras de sua relação com o judaísmo. Além de perguntar a Pfister por que teria sido necessário um judeu ateu para “descobrir” o Inconsciente e “inventar” a psicanálise, Freud responde a Max Graff, pai do pequeno Hanns, que o consulta para saber se deveria batizar seu filho (o que havia se tornado uma prática depois da emancipação dos judeus feita por Francisco José, embora o anti-semitismo permanecesse na cultura burguesa austríaca, foi outorgada aos judeus a igualdade de direitos civis, o que fez surgir o desejo de assimilarem-se a cultura européia, muitos renunciando ao iídiche e a religiosidade, o que foi chamado de judaísmo liberal, porém era exigido daqueles que abdicavam da religião filiarem-se a católica ou protestante, dentre eles estão Marx e Heine): “Se não permitir que seu filho cresça como judeu, o senhor irá impedi-lo de desfrutar de uma dessas fontes de energia que nada pode substituir. Como judeu, ele terá que lutar, o senhor deve deixar que nele desenvolvam todas as forças de que necessitará nesta luta. Não o prive desta vantagem”. 

IHU On-Line - Quais as críticas mais duras de Freud à religião?

Grace Burchardt
- A principal crítica à religião é a de que ela falhou em sua função de conciliar o homem com as renúncias pulsionais exigidas pela civilização, o mal-estar persiste. A religião tampouco foi capaz de contribuir para a elaboração psíquica das conseqüências do assassinato primordial, sua função, ou seja, contribuir para a sublimação da culpabilidade e sua transformação em formas socialmente adequadas e não em ódio, principal derivado do sentimento de culpa. Ora, as duas grandes guerras, o nazismo e outras expressões violentas na história da humanidade revelaram o que há de mais cruel e destrutivo no homem e por conseqüência o fracasso da função das religiões e mais propriamente da missão da Igreja, após dois mil anos de era cristã. Freud também critica a coerção precoce e “nefasta” da razão e da inteligência infantil exercida pelas religiões, e ainda a tendência das religiões a impor um modelo de felicidade único e restritivo.

IHU On-Line - O que é um ateu para Lacan, que foi o defensor das idéias de Freud?

Grace Burchardt
- A associação que me ocorre é uma ironia que Lacan faz, dizendo que os únicos ateus que ele conhece são os teólogos, que passam o tempo tentando provar a existência de Deus. Quanto a Lacan, o fato de ele ser originário de uma família católica francesa é relevante para o movimento psicanalítico, no sentido de sua universalização. Freud tinha uma grande preocupação neste sentido, tanto que o primeiro presidente da Associação Psicanalítica Internacional, fundada por Freud, foi Jung, um cristão.

IHU On-Line - Qual a diferença, sob o olhar da psicanálise, entre crença e fé? 

Grace Burchardt
- Pensaria que crença e fé são sinônimos, porém a discussão psicanalítica que pode ser feita é a do valor de verdade das religiões. Freud qualifica uma crença de ilusão, não é um erro como propõem os iluministas, mas uma categoria intermediaria entre a verdade e a sua falsidade. Freud diz: “qualificamos de ilusão uma crença engendrada pelo impulso à satisfação de um desejo, que prescinde de sua relação com a realidade efetiva”. A fonte da ilusão é o desejo, mas esta não perde todo o contato com a realidade, o que acontece no delírio e na psicose. Freud proporá que a verdade da ilusão religiosa não é material, mas histórica.   

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