Edição 207 | 04 Dezembro 2006

Abismo escancarado ou útil variação

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IHU Online

Karin Hellen Kepler Wondracek analisa, em entrevista concedida por e-mail para a revista IHU On-Line, a correspondência entre Sigmund Freud, fundador da psicanálise, e o pastor protestante Oskar Pfister. Segundo ela, “Pfister via em Freud a negação verbal de doutrinas religiosas, mas um comportamento cumpridor do Evangelho”. Sinodal, 2005.


Karin possui graduação em Psicologia pela PUCRS, especialização em Psicanálise pelo Núcleo de Estudos Sigmund Freud e mestrado em Teologia pela Escola Superior de Teologia. O título de sua dissertação de mestrado é O amor e seus destinos: um estudo de Oskar Pfister para o diálogo entre a teologia cristã e a metapsicologia. Atualmente, é funcionária do Seminário Teológico Batista do Rio Grande do Sul, sócia titular do Núcleo de Estudos Sigmund Freud e professora da Escola Superior de Teologia. Atua nos temas de Interdisciplinaridade, Psicanálise, Teologia, Fé e razão, amor e metapsicologia.
É organizadora, entre outros, do livro O futuro e a ilusão: um embate com Freud sobre psicanálise e religião. Petrópolis: Vozes, 2003; e autora de O amor e seus destinos: a contribuição de Oskar Pfister para o diálogo entre teologia e psicanálise. São Leopoldo:

IHU On-Line - Em que sentido a correspondência entre Sigmund Freud, fundador da psicanálise, e o pastor Oskar Pfister, reacende o diálogo entre psicanálise e religião?

Karin Wondracek
- A correspondência mostra que o tema psicanálise-religião teve, na vida de Freud, um ângulo diferente do dos seus textos oficiais: ao trazer à tona uma amizade de 30 anos entre Freud e um religioso, inclui a dimensão da relacionalidade nesta discussão, e com isso a possibilidade de ver outras facetas, ou seja, “no calor da amizade”, este assunto foi ventilado (arejado) de forma menos defensiva, menos pronta. Por isso, há nas cartas declarações e questionamentos  que não se encontram nos livros de Freud.
 
IHU On-Line – A senhora  questiona se essa troca de correspondência é um abismo escancarado ou uma útil variação. Pode explicar essa questão?

Karin Wondracek
- Retiro estas duas expressões da correspondência entre Freud e Pfister, de frases em  pelas  quais eles definiram a sua relação, e as tomo como símbolos das possibilidades de diálogo entre psicanálise e religião. Útil variação é empregada por Freud, quando responde a Pfister a respeito das diferenças entre ambos: “Da sua carta obtenho a alegre certeza de que a diferença entre nossas visões somente começa quando moções emocionais passam a influir sobre os processos de pensamento, portanto de que ela somente pode ter a importância de uma útil variação” (Freud, 20.2.1909).
Abismo: alguns anos depois, Pfister assim descreve: “No que concerne à ética, religião e filosofia existe uma diferença, que nem o senhor nem eu percebemos como abismo” (Pfister, 3.4.1922). Ou seja, as posições de ambos são variações -  que têm sua utilidade! - de um mesmo tema: aliviar o sofrimento humano através do resgate do amor”.
 
IHU On-Line - A correspondência entre Freud e Pfister pode ser paradigmática? Se sim, em que sentido?

Karin Wondracek
- Ela é um paradigma para estudos que envolvam mais de um saber, onde cada um, a partir da sua especificidade, tece suas observações a respeito de um fenômeno complexo, sem pretender abarcar a verdade. É o que o professor e psicanalista José Luiz Caon escreveu a respeito da correspondência Freud-Pfister: "Fundado na confiança a que podem aceder dois homens que prezam, no outro, a humanidade de que cada qual é feito, esse diálogo pode ser proposto como modelo, como "construção auxiliar" (Hilfskonstruktion), para nossas propostas de multidisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade." (Caon in Wondracek (org). O futuro e a ilusão, Vozes, 2003, p. 231)

IHU On-Line - Como entender que Freud,como judeu, se correspondia com o pastor Pfister? Que tipo de visão religiosa era retratada nas cartas?

Karin Wondracek
- Freud dizia-se judeu e ateu, que traz desta herança a valorização da palavra e a busca pelas forças em conflito no interior do ser humano. Pfister se apresentava como pastor reformado, portador de uma religião que não quer reprimir, mas anunciar o amor redentor.  A visão religiosa que Pfister retrata baseia-se menos nos dogmas e mais na prática do amor, tanto que na sua resposta contra o livro de Freud O futuro de uma ilusão, [traduzida por nós no já citado livro O futuro e a ilusão] Pfister compara o pai da psicanálise ao filho mais velho da parábola de Mateus 21.28ss, aquele que recusou verbalmente a ordem do pai de ir à vinha, mas acabou por cumpri-la na ação(p.18). Em outras palavras, Pfister via em Freud a negação verbal de doutrinas religiosas, mas um comportamento cumpridor do Evangelho. Como Heinrich Meng expressa no prefácio da correspondência, esta concepção religiosa fazia-o  ver na psicanálise "o instrumento que há tempos procurava, e que o coloca na condição de poder auxiliar de outra maneira as pessoas que antes, como cura de almas espiritual, não conseguia ajudar suficientemente. Abre caminho até as fontes inconscientes e semiconscientes das situações de angústia, conflitos de consciência e idéias obsessivas daqueles que o procuram, e constrói de modo autônomo os fundamentos de uma pedagogia e cura de almas orientadas psicologicamente." (Cartas, p. 15)  Esta visão religiosa privilegia o cuidado ao que sofre, e por isso é na prática da cura de almas e da psicanálise que ambos encontraram seu eixo comum.

IHU On-Line - Como a bagagem teológica protestante do pastor Pfister era recebida por Freud?

Karin Wondracek
- Nas primeiras cartas Freud confessa seu desconhecimento da teologia protestante, que o faz não perceber a estreita relação entre a cura de almas e a psicanálise. Depois de algumas cartas trocadas, expressa a percepção já citada acima, de útil variação. À medida que aumenta a intimidade entre ambos, surgem as diferenças, mas com bom humor: numa carta, Freud expressa que Pfister tem vantagens na cura de almas porque pode encaminhar as pessoas a Deus; noutra, lamenta que Pfister, como religioso, seja obrigado à virtude do perdão; mais para o final, se expressa surpreso e incapaz de compreender a dupla condição de Pfister - analista competente e homem religioso.

Em minhas pesquisas da dissertação de mestrado sobre Pfister, encontrei algumas afirmações interessantes: para Peter Gay, Pfister foi o único religioso "sadio"  com quem Freud travou contato; o psicanalista espanhol Pedro Villamarzo, fundador do Instituto Oskar Pfister de Madri afirma que Pfister é o "duplo religioso de Freud ateu", ou seja, pelo mecanismo de negação aparece em Pfister o que está negado na personalidade de Freud e dos outros pioneiros (O amor e seus destinos, p. 24s). Encontrar seus aspectos negados e deslocados talvez explique as seis vezes em que Freud escreve sobre o bem-estar que a presença de Pfister lhe traz. Para Jung, Freud também o afirma e acrescenta que Pfister exerceu uma influência moderadora sobre seu complexo de pai.

IHU On-Line - Como se dá a inserção da psicanálise na teologia cristã? Qual o papel aqui do amor de Cristo?

Karin Wondracek
- Pfister foi o primeiro a ver uma relação que depois dele tem merecido muitos estudos, tanto de psicanalistas como de teólogos/as, alguns mais favoráveis, outros mais críticos. Entre os favoráveis, como Pfister, há a percepção de que a psicanálise traz verdades a respeito da importância do amor, da relacionalidade, e também do conflito que permeia cada ser humano e que o submete a forças estranhas à sua vontade. Os mais críticos vêem na psicanálise uma supervalorização da sexualidade, que leva ao hedonismo e à frouxidão moral. Este tema também já era discutido por Pfister, que sugeriu a Freud trocar a expressão instinto sexual por instinto amoroso, pois temia que houvesse uma interpretação errônea, como também aconteceu. Penso que a melhor definição para a inserção da psicanálise feita por Pfister está numa carta dele a Freud: “Portanto, preciso situar o inconsciente dentro da totalidade da vida anímica, esta na sociedade, no cosmo e suas realidades transempíricas, e para isso necessito primeiramente de uma teoria do conhecimento. Se ainda se imiscuir o engano, o senhor, conforme seu próprio julgamento, não tem melhor sorte. (...) Assim, persiste entre o senhor e mim esta grande diferença: Eu pratico a análise dentro de um plano de vida, que o senhor, com bondosa consideração, tolera como Servitut da minha profissão, enquanto que eu não considero esta visão da vida apenas como poderoso fomento para a cura (na maioria das pessoas), mas justamente como conseqüência de uma filosofia mais condizente com a natureza humana e o cosmos, que ultrapassa o naturalismo e o positivismo, e que é bem fundamentada em termos de higiene da alma e da sociedade”.
Ao "situar o inconsciente dentro da totalidade da vida anímica", Pfister é coerente com sua cosmovisão, conseqüência de "uma filosofia mais condizente com a natureza humana e o cosmos". Ou seja, há uma outra antropologia de base, que toma o amor cristão como fundamento, e assim chego à segunda parte da questão. O amor foi o leitmotiv [fio condutor] de Pfister. Seu primeiro sermão na Paróquia de Predigern foi sobre o amor (Coríntios 13); e seu último também. Na sua lápide, está escrito o versículo de I João 4.18: "O perfeito amor lança forma o medo". Este tema perpassa suas obras, como, por exemplo, na tradução do título de um de seus livros: "Um novo acesso ao antigo Evangelho" (Ein neuer Zugang zum alten Evangelium) onde aborda o resgate que a psicanálise faz do amor como força impulsionadora do ser humano, comparando-a ao bom samaritano da parábola, o estrangeiro "impuro" que põe mãos à obra: "somente o amor pode trazer o restabelecimento ao corpo ensangüentado da humanidade, tomada de assalto pelos ladrões". Durante a  Primeira Guerra sentiu-se especialmente convocado a escrever sobre o amor em todas as suas formas, bem como denunciar suas patologias.  Estas idéias são  amplamente desenvolvidas na sua obra magna O cristianismo e a angústia (Das Christentum und die Angst) na qual, em mais de 500 páginas, com o auxílio da teoria psicanalítica da angústia, faz uma crítica aos desvios das igrejas cristãs da doutrina do amor. Um tema que continua atual!

Pode soar estranho aos ouvidos seculares, mas Pfister também inclui a dimensão da cruz e da ressurreição no seu conceito de amor, pois vê nestas concepções cristãs um modo de lidar com o sofrimento e a morte que não esteja submetido à cosmovisão materialista subjacente à doutrina freudiana da pulsão de morte. Morte, nesta concepção, não seria o retorno ao inanimado, mas a passagem para a vida em outra forma. A experiência pascal torna-se paradigma da cura, lugar onde o amoroso triunfa sobre o mortífero. Não como escapismo alienante ou fuga da realidade, mas como possibilidade admitida pelas ciências atuais...

IHU On-Line - Gostaria de acrescentar mais algum comentário sobre o assunto?

Karin Wondracek
- O final da questão anterior é um desafio, que levo desde o mestrado, de analisar as cosmovisões que embasam teorias e técnicas de terapia, tema que agora sigo pesquisando. Com Pfister, tenho aprendido, como psicanalista, a aproximar-me de Freud tendo a liberdade de dialogar, de ser simultaneamente discípula e pensadora autônoma. Em seus diálogos com Freud, tenho encontrado intuições que ajudam a pensar e tratar  as fragilidades do ser humano na pós-modernidade: individualismo, vazio, desespero, falta de sentido. Este diálogo iniciado com Freud pode seguir fecundando psicanalistas e teólogos/as de todos os tempos, encorajando-os/as a seguirem construindo criativamente modalidades de ajuda aos que sofrem.
 

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