Edição 484 | 02 Mai 2016

De volta aos Tempos Modernos no mundo do trabalho?

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Leslie Chaves

Em 1936 Charles Chaplin já denunciava a opressão provocada pelo processo de industrialização da sociedade. No filme Tempos Modernos (Estados Unidos, 1936), em que é roteirista, diretor e ator, Chaplin viveu o lendário personagem “O Vagabundo”, que tenta sobreviver em meio ao domínio das máquinas sobre os humanos, às extenuantes rotinas laborais, ao sistema de trabalho fordista alienante e às mazelas sociais, elementos fomentados pelo sistema capitalista.
Cristiane Maria Mainardi/Foto: Leslie Chaves - IHU

Nos dias de hoje, a forte crítica de Chaplin não perece e se atualiza na prevalência do capital sobre o bem comum, seja da sociedade ou do ambiente. Assim, em nome da crise econômica pela qual passa o mundo e o Brasil, a lógica financeira orienta as medidas implementadas pelos diversos setores da organização social para enfrentamento dos desequilíbrios da economia. Os reflexos dessas ações recaem primeiro sobre a base, com o avanço acelerado dos índices de desemprego, o risco da extinção de direitos trabalhistas, a crescente precarização do trabalho e a manutenção e aumento das desigualdades sociais, a consequência mais perene desses problemas. Entre os brasileiros, ainda acrescenta-se a tudo isso a crise política instalada no país, que agrava o sentimento de incerteza quanto aos próximos acontecimentos. 

 

A IHU On-Line conversou com alguns trabalhadores e trabalhadoras sobre como esse contexto está sendo percebido e sentido na rotina de suas áreas.

 

Cristiane Maria Mainardi – professora, Vice-Presidente do Sindicato dos Professores Municipais Leopoldenses - CEPROL 

Considero um dos principais problemas do mundo do trabalho nos dias de hoje o retorno dos ideais neoliberais do estado mínimo que vêm surgindo nos países gerando mudanças no mercado de trabalho, nas condições de trabalho, na qualificação dos trabalhadores e na garantia dos direitos trabalhistas. Isso vai refletir na qualidade dos serviços prestados e na saúde do trabalhador. Em relação à educação brasileira, o grande problema é o baixo investimento neste setor público.

A educação é atingida diretamente pela crise econômica, seja pela desvalorização salarial do profissional, pelas condições de trabalho e pela falta de investimento na área. A precarização na educação é um problema que vem se agravando e que vai na contramão da qualidade na educação, perpassa o serviço terceirizado, sala de aulas lotadas, infraestrutura precária, segurança no trabalho, saúde do trabalhador, sucateamento da educação, etc. O trabalho docente vem vivenciando graves problemas com os baixos salários, condições de trabalho ruins e desvalorização profissional. Neste sentido, os professores estão cada vez mais desenvolvendo doenças relativas ao trabalho, pois geralmente são obrigados a fazer carga horária excessiva para poder ter um salário digno, chegando a se dividir em três turnos de trabalho. 

Também há falta de vontade política de se investir em educação. Evoluímos com os vários programas de governo voltados à educação, mas ainda há muito a avançar no que tange à valorização profissional. Temos a Lei 11.738/2008, que regulamenta o piso salarial profissional nacional para os profissionais do magistério público da educação básica. Mas essa lei, além de não ser respeitada por muitos gestores públicos, fica aquém da faixa salarial de outros profissionais com a mesma formação. Esse cenário se traduz em precarização da educação.

 

Valdemir Ferreira Pereira – Metalúrgico e dirigente sindical em São Leopoldo 

O sistema capitalista impõe uma metodologia de atingir produção através de metas, é o que acontece na maioria das indústrias do setor metalúrgico. Com isso os trabalhadores são sujeitos a vários itens que compõem um método de trabalho, e entre essas etapas estão o controle de insumos, de funcionários, de produção e de custo. Toda essa carga de trabalho acaba absorvendo o trabalhador, restando pouco tempo para que ele se dedique à família, à qualificação ou ao lazer. A empresa acaba canalizando a atenção do trabalhador em uma única direção: o trabalho. Assim, essa pessoa acaba não enxergando o que acontece ao redor.

Estamos vivenciando sérios problemas hoje, como o desemprego e a terceirização, que alguns desses trabalhadores compreendem, mas muitas vezes têm medo do desemprego e preferem não se envolver nas lutas, outros não sabem sequer o que significa o PL 4330. O que mais procuramos fazer nas fábricas é explicar como funciona esse projeto de lei e quais são as implicações dele para o nosso trabalho. Sobre essa questão da terceirização, ainda há outro problema grave no mundo da metalurgia, que são os acidentes de trabalho. Muitas vezes, a empresas para a qual eles estão prestando o serviço diretamente não quer assumir a responsabilidade pelo acidente e a empresa “mãe” passa a ter essa obrigação, mas o que acaba acontecendo na maioria dos casos é um jogo de “empurra-empurra”. Se a terceirização se massificar, com certeza o trabalhador será muito prejudicado. Precisamos nos unir para que isso não aconteça e para que as empresas não reduzam benefícios e folha de pagamento como estratégia para enfrentar a crise. 

 

Genilson Vargas da Rosa – Metalúrgico e dirigente sindical em São Leopoldo

Na crise econômica que vivemos, um dos maiores problemas é o medo do desemprego, que gera uma tensão que se soma ao estresse diário que já temos por trabalharmos sob pressão. Essa situação aumenta o risco de acidentes, traz uma preocupação exagerada com a produção, que muitas vezes ultrapassa nossa capacidade de trabalho, nos expõe a uma cobrança intensa em tempo integral, a qual acaba envolvendo também os colegas, pois os resultados são cobrados por setor, e não individualmente. Essa situação causa uma estafa tanto física quanto psicológica.

Já acompanhei muitos casos de trabalhadores que se afastaram do serviço por diversas doenças, principalmente por problemas emocionais, a maior parte provocada pelo contexto de crise e pela pressão da empresa para aumentar a produção e à custa de manter o emprego. A política que as empresas têm adotado é “fazer mais, com menos”, isto é, produzir mais com menos empregados.

 

Sirlei de Moura Vieira – Metalúrgica e dirigente sindical em São Leopoldo 

Um dos maiores problemas que tenho percebido são as relações entre os colegas de empresa. Nosso trabalho é realizado através de etapas, porém como foram demitidos muitos funcionários, uma pessoa só acaba tendo que realizar várias etapas seguidas, na mesma carga horária. Essa situação sobrecarrega os empregados e uma das consequências é o aumento do risco de acidentes de trabalho, porque uma pessoa precisa desempenhar com agilidade muitas funções na linha de produção e no setor.

 

Elias Luiz Tramontim – Metalúrgico e dirigente sindical em São Leopoldo

Esse é um momento recessivo, mas vemos muitas empresas se aproveitando dessa situação de crise para fazer enxugamentos, porque nem todas estão com baixa de demanda de produção. Conversando com os trabalhadores nas fábricas, tenho visto que a preocupação é muito grande com o desemprego. Muitos empregados já relataram que estão havendo rumores nos corredores das empresas sobre a existência de listas com nomes de pessoas a serem demitidas, mas com a vigência de acordos coletivos. Isso gera um clima muito tenso, que não é exclusividade da nossa região, está acontecendo em todo o país. O pior é que no momento não temos uma política que vá resolver de imediato a situação econômica. Enquanto a grave crise política não se resolver no Brasil, os trabalhadores é que vão pagando a conta. 

 

Angélica do Nascimento – Industriária do setor calçadista e dirigente sindical em Novo Hamburgo

Esse contexto de crise se expressa para nós no medo dos trabalhadores em perder seus empregos, se sujeitando a ambientes precários no local de trabalho. Pra nós do setor calçadista, o grande problema também são as empresas que não produzem sua marca própria, e terceirizam esse serviço para outras. Sem sombra de dúvida é uma questão séria, pois estamos sempre à mercê da empresa “mãe”. Sem contar que os trabalhadores são os mais prejudicados quando essa organização não tem êxito e fecha as portas, muitas vezes porque não está cumprindo com suas obrigações, como o depósito do fundo de garantia e o pagamento do INSS. ■

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