Edição 484 | 02 Mai 2016

A crise política e econômica e prognósticos para o futuro do mundo do trabalho

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Leslie Chaves

O debate promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU na noite da última quinta-feira, 30-04-2016, na Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros – IHU, é parte da programação do IHU Ideias e do II Ciclo de Saúde e Segurança no Trabalho na Região do Vale do Rio dos Sinos.
Conferência ocorreu na semana do Trabalhador e da Trabalhadora /Foto: Leslie Chaves - IHU

Em sua segunda edição, o Ciclo de Saúde e Segurança no Trabalho se configura como um espaço de informação e formação sobre a realidade do trabalho e dos trabalhadores. Através de aproximações temáticas, os participantes têm a oportunidade de refletir sobre diversos aspectos do mundo do trabalho e trocar experiências a partir de suas vivências. O Ciclo é uma ação do Observatório da Realidade e das Políticas Públicas do Vale do Rio dos Sinos – ObservaSinos, programa do IHU, em parceria com a Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT – CNM/CUT, Federação dos Trabalhadores Metalúrgicos do RS, Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de São Leopoldo e Centro de Referência em Saúde do Trabalhador – CEREST/Canoas.

A origem das regras

O sociólogo do DIEESE, Clemente Ganz Lúcio, fez um panorama do contexto econômico e político do Brasil para tratar das questões inerentes ao campo do trabalho. Para o sociólogo, para entendermos com profundidade a situação por que passa o país e como se estrutura a sociedade é necessário ir à raiz das normas que a regem. “Em geral, desconhecemos a trajetória das regras e instrumentos que regem a nossa vida coletiva. Tais regras se originam a partir da capacidade de produção econômica. É isso que está em disputa”, aponta.

De acordo com Lúcio, esse fato ganha importância quando se analisa o modo como as riquezas se distribuem na sociedade. “No mundo todo fomos capazes de construir uma máquina econômica que tem potencial para produzir para os 7 bilhões de habitantes do planeta, mas apenas ¼ dessa população usufrui desse bem-estar produzido. As regras, leis, partidos, etc., consciente ou inconscientemente fazem parte deste sistema”, explica.   

A financeirização da economia

Para Clemente Ganz Lúcio, uma das principais questões de fundo dos problemas econômicos no país é a canalização de recursos para o mercado financeiro, ou seja, a financeirização da economia. “O sistema está estruturado e é dominado pela organização econômica rentista. A oferta de crédito desconectado da capacidade de produção é lucrativa, mas no momento de crise esse esquema tende a falir, conforme nós já vimos em 2008”, ressalta.

“Com o espetáculo grotesco à que assistimos no último dia 17, a expectativa é que a população torne-se mais criteriosa ao votar. Também espero que para enfrentarmos essa crise a economia seja voltada para a produção, entretanto não é o que tem acontecido e o sistema financeiro continua no domínio”, constata o sociólogo, que entende que a crise política igualmente é influenciada por esse contexto. “O Brasil tem uma grande riqueza financeira, com capacidade para gerar milhões no mercado financeiro. Assim, o país é disputado por esse mercado, que não aceitará nenhum governo que coloque em risco a sua estratégia”, sublinha.

Lúcio explica que é interessante buscar equilíbrio promovendo a distribuição das riquezas e o desenvolvimento do empresariado e de infraestrutura dentro do país porque “quando a renda é distribuída para as classes menos favorecidas a economia cresce, pois há um incremento do mercado interno. Entretanto, quando a renda fica com as classes mais altas, acaba sendo investida no mercado financeiro, travando a economia, pois não há investimento no mercado interno, que também foi prejudicado pelas importações, sobretudo de produtos chineses”, analisa.

Os efeitos desse mecanismo são nocivos e estão aparecendo com intensidade agora. “O rebatimento desse cenário sobre o mundo do trabalho é monumental, provocando o aumento acelerado do desemprego. O que levamos 10 anos para melhorar, em apenas 1 ano já retrocedemos. Serão tempos difíceis e vamos precisar nos unir para nos recuperarmos”, considera.

Os debates

Para Valmir Lode, metalúrgico e presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Leopoldo, além da união dos trabalhadores, para fortalecer as pressões e dar suporte às reivindicações da classe, a saída para enfrentar a crise seria promover reformas estruturais nas leis. “A reforma política, para modificarmos o modo de escolher nossos representantes, e a reforma tributária, para distribuirmos de maneira mais igual as riquezas na sociedade, são as principais mudanças que devem ser feitas para começarmos a melhorar o país. As resistências a se fazer isso são grandes, mas não podemos desanimar. Precisamos conhecer a realidade e aprender com os debates para continuar lutando”, frisa.  

Cristiane Mainardi, professora e vice-presidente do Sindicato dos Professores Municipais Leopoldenses, questiona de que modo fazer essa mudança. “Como podemos viabilizar as reformas que precisamos no Brasil? O voto facultativo seria uma solução possível, ou vamos acabar o elitizando e aprofundando as desigualdades? São perguntas que ficam no ar. Com certeza teremos muito trabalho pela frente e a cada debate que participo levo um choque com as análises dos dados que temos hoje”, enfatiza.

Mauri Schorn, metalúrgico e presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Sapiranga, liga os riscos da perda de direitos trabalhistas ao modo como o sistema eleitoral brasileiro é organizado. “Alguns dos principais objetivos das manobras políticas que temos visto no Brasil é retirar direitos dos trabalhadores, privatizar grandes empresas, como a Petrobrás, e entregar o pré-sal para o capital estrangeiro. Mas é difícil evitar que isso aconteça, porque os deputados e senadores têm suas campanhas eleitorais financiadas por grandes empresários que têm interesses nessas medidas. Por isso é tão necessária a reforma política”, conclui.

O conferencista

Clemente Ganz Lúcio é sociólogo, diretor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos - Dieese e membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social – CDES. Ele é um dos entrevistados nesta mesma edição, no Tema de Capa alusivo ao Dia do Trabalhador e da Trabalhadora. 

Fique atento

A próxima atividade do II Ciclo de Saúde e Segurança no Trabalho na Região do Vale do Rio dos Sinos acontece no próximo dia 10 de maio, terça-feira, Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros – IHU. A atividade é a oficina sobre as realidades e as bases de dados do DATASUS, com a professora doutora Veralice Maria Gonçalves, do Ministério da Saúde.

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