Edição 482 | 04 Abril 2016

Para além dos significados comuns, o logos sobre o ser

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Márcia Junges | Edição Ricardo Machado | Tradução Vanise Dresch

Jean-François Kervégan debate obra de Hegel analisando o caráter sistêmico de seu pensamento

A filosofia de Hegel busca antes no logos as explicações sobre o ser e encontra na lógica uma forma de compreender as deformações discursivas. “A Lógica, em Hegel, é aquilo que ocupa o lugar da metafísica, da filosofia primordial. É, se preferirmos, uma ontologia, no sentido de que é uma teoria não do ser, mas do discurso (do logos) sobre o ser (ou sobre os entes)”, esclarece Jean-François Kervégan, em entrevista por e-mail à IHU On-Line

“Em qualquer circunstância, Hegel remete à Lógica para justificar as deformações a que ele submete os significados comuns. De fato, para ele, a lógica especulativa é o instrumento indispensável que dá ao filósofo a possibilidade de pensar aquilo que existe em sua efetividade; ela é integralmente uma lógica da efetividade”, Sustenta. Sua verve sistêmica, expressa-se na complexidade de seu pensamento, como apresenta Kervégan. “Se Hegel nos ensina alguma coisa é o fato de que algo que se apresenta como aparentemente "primeiro" já é sempre habitado por aquilo que, aparentemente, resulta dele e o pressupõe”, complementa. 

Jean-François Kervégan é professor de filosofia na Universidade de Paris 1, é membro do Instituto Universitário da França, na Cátedra de Filosofia da normatividade. Dedica-se aos estudos da Filosofia Clássica Alemã, notadamente Hegel e Kant, Filosofia Política e Filosofia do Direito.

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - Qual é o sentido de "Was wirklich ist, kann wirken" no sistema filosófico de Hegel?

Jean-François Kervégan - Todo mundo conhece a famosa frase do prefácio de Princípios da Filosofia do Direito: "O que é racional é efetivo e o que é efetivo é racional". E quase sempre, de acordo com o uso corrente, interpreta-se o vocábulo "efetivo" (wirklich) como se tivesse o mesmo significado de "real"* (reell ou real). No entanto, no sexto parágrafo da 2ª edição da Enciclopédia (1827), Hegel recusa as interpretações que foram dadas desse dístico e lembra que, na Ciência da Lógica, encontra-se uma distinção explícita entre o "real" (ou, se preferirmos, o sendo), que pertence à lógica do ser e faz parte de uma economia da passagem ou da mudança, e o "efetivo", que pertence à lógica da essência e faz parte de uma economia da manifestação, diretamente no sendo, da razão de ser (isto é, no fim das contas, do conceito). A frase do prefácio, portanto, está longe de destacar, como se acredita muitas vezes, que "tudo o que é real é racional". Aliás, Hegel acrescenta ironicamente: "Quem deixaria de ver ingenuamente naquilo que o cerca muitas coisas que, na verdade, não são como deveriam ser?" (tradução livre a partir da referência em francês: Encyclopédie, § 6, trad. Bourgeois, t. 1, Vrin, 1970, p. 170). O efetivo (das Wirkliche) não é apenas o que "é", mas também o que produz efeitos (Wirkungen), o que se manifesta. Isso explica a frase citada. 

 

IHU On-Line - A partir dessa proposição, quais são as reflexões fundamentais que surgem acerca do estatuto da lógica da efetividade em Hegel?

Jean-François Kervégan - A Lógica, em Hegel, é aquilo que ocupa o lugar da metafísica, da filosofia primordial. É, se preferirmos, uma ontologia, no sentido de que é uma teoria não do ser, mas do discurso (do logos) sobre o ser (ou sobre os entes). Essa ontologia realiza um imenso trabalho de redefinição não somente das categorias maiores da metafísica (especialmente na Lógica da essência), mas também dos significados sedimentados no uso corrente da língua, um uso que, segundo Hegel, traz muitas vezes a marca de uma má metafísica – má por ser inconsciente e não questionada. Todo esse trabalho conceitual é pressuposto pelas outras partes do sistema, tanto pela filosofia da natureza quanto pela filosofia do espírito subjetivo e objetivo. Em qualquer circunstância, Hegel remete à Lógica para justificar as deformações a que ele submete os significados comuns. De fato, para ele, a lógica especulativa é o instrumento indispensável que dá ao filósofo a possibilidade de pensar aquilo que existe em sua efetividade; ela é integralmente uma lógica da efetividade.

 

IHU On-Line - Como lógica e metafísica se imbricam na reflexão desse pensador?

Jean-François Kervégan - A relação de Hegel com a metafísica está longe de ser simples; foi o que apontei na minha resposta à pergunta anterior. Uma das razões disso é o fato de que, em diferentes contextos, Hegel denomina assim coisas bem diferentes. Num sentido restrito e pejorativo, a metafísica designa, em seu pensamento, o edifício escolar construído, na esteira de Leibniz,  por Christian Wolff  e que constituía na época de Kant,  e mesmo ainda na época de Hegel, a base do ensino filosófico universitário. Essa metafísica, com sua subdivisão em metafísica geral (ou ontologia) e metafísica especial (cosmologia, psicologia e teologia racionais) constitui o pano de fundo tanto da Crítica da Razão Pura (Lisboa: CALOUSTE GULBENKIAN, 2013) como da Ciência da Lógica (São Paulo: Barcarolla, 2011), e é o que as duas obras tentam refutar, cada uma à sua maneira. Nesse primeiro sentido, "a antiga metafísica", aquela de Wolff e dos escolásticos,  mas não a dos antigos, é justamente o que Hegel quer demolir. Cabe acrescentar que essa má metafísica e a visão dualista que ela traz consigo (o dogmatismo do "ou... ou então" que Hegel combate) imperam não somente no campo da filosofia universitária, mas também no campo das ciências da natureza e da matemática, em suma, nessas "ciências de entendimento", das quais Hegel denuncia a pobreza das considerações filosóficas e louva a fecundidade operatória. As longas observações que a Lógica dedica ao tratamento matemático do infinito são um exemplo notável dessa perseguição dos pressupostos metafísicos (que passam frequentemente despercebidos) que se alojam até mesmo nas produções mais fecundas da ciência em sua prática (da qual, quero lembrar, Hegel possuía um sólido conhecimento).

Porém, ao lado dessa má metafísica de entendimento que ele pretende erradicar, há também a grande tradição metafísica que Hegel assume e reivindica constantemente, mesmo preferindo os termos especulação ou pensamento especulativo: Heráclito,  Platão,  Aristóteles,  Plotino,  além de alguns modernos (mais Spinoza  que Leibniz ou Descartes ), são os representantes mais atentamente comentados, como se vê nas aulas sobre a história da filosofia. Consciente do fato de que desde Kant o próprio sentido da empreitada filosófica mudou radicalmente, Hegel pretende prolongar essa tradição e, ao mesmo tempo, imprimir-lhe uma mudança decisiva de direção. Isso explica a fórmula da Enciclopédia: se a verdadeira metafísica é a "ciência das coisas apreendidas pelos pensamentos", o pensamento do pensamento (noèsis noèseôs), então, uma vez que as coisas já são, em certo sentido, pensamentos, a lógica hegeliana almeja de fato coincidir com a metafísica, imprimindo-lhe um novo curso.

É para explicar esse duplo aspecto – destruição da metafísica errada, assunção e radicalização da verdadeira metafísica especulativa – que a Ciência da Lógica justapõe duas proposições que são contraditórias à primeira vista: ao mesmo tempo em que a Lógica "toma simplesmente o lugar" da metafísica (Science de la logique, éd. de 1812, traduction Labarrière-Jarczkyk, Kimé, 2006, p. 37 – [para o português, tradução literal a partir da referência em francês]), ela lhe dá seguimento, a ponto de ser "a metafísica propriamente dita" (op. cit., p. 5).

 

IHU On-Line - Quais são os nexos fundamentais que podem ser estabelecidos entre as concepções de lógica e metafísica hegelianas e sua compreensão acerca do Absoluto?

Jean-François Kervégan - Em Hegel, encontramos acerca da noção de Absoluto a mesma ambiguidade aparente que vemos a respeito da metafísica. Aliás, essas noções estão evidentemente ligadas. Por um lado, Hegel não cessa de repetir que os conceitos principais da filosofia especulativa (da Lógica) são maneiras de conceber, até mesmo de nomear, o Absoluto: "o absoluto é a essência" (Encycl. § 112); "o absoluto, em sua definição, é o silogismo" (Encycl. § 181); "o absolute é o objeto" (Encycl. § 194); "a definição mesma do absoluto segundo a qual ele é a Ideia é agora absoluta" (Encycl. § 213); etc. Por outro lado, mantém-se muito reservado quanto aos usos imprudentes e enfáticos da noção, pois "o próprio vocábulo de absoluto não tem seguidamente outro significado além de abstrato" (Encycl. § 112); e o capítulo da Lógica assim intitulado é uma crítica devastadora à maneira pela qual a metafísica clássica (os exemplos citados são os de Spinoza e de Leibniz) fez uso desse conceito. Nesse aspecto, o método de Hegel tem algo em comum com a abordagem da teologia negativa: o absoluto é aquilo que ultrapassa todo e qualquer poder de nomear, toda e qualquer descrição.

Talvez seja melhor manter reservadas ou evitar essas questões relativas ao absoluto ou à metafísica, pois as respostas que podem ser dadas dependem muito de escolhas de definição, que sempre precisam ser explicitadas. Eu reivindico, tanto a respeito da interpretação de Hegel quanto das minhas posições filosóficas pessoais, uma atitude sóbria para com "a" metafísica. Por um lado, não creio que as questões metafísicas resultem apenas de um uso insuficientemente cauteloso da linguagem, e não defendo uma erradicação da metafísica, ao contrário de algumas correntes filosóficas pelas quais, além disso, não tenho antipatia (refiro-me aqui ao positivismo lógico, a certas correntes da filosofia analítica e à filosofia da linguagem comum). Por outro lado, continuo a pensar que a racionalidade filosófica – que é um pensamento das mediações – deve evitar as hipóstases essencialistas a que os metafísicos tão facilmente se entregaram. Se há algo que Hegel nos ensina é que é inútil buscar o primeiro princípio, posto que, na verdade, esse "primeiro" (por exemplo: o ser puro da Lógica, a certeza sensível da Fenomenologia do Espírito) já é sempre habitado por aquilo que, aparentemente, resulta dele e o pressupõe.

 

IHU On-Line - Qual é a peculiaridade da lógica hegeliana e qual é a importância de A ciência da lógica dentro dessa reflexão?

Jean-François Kervégan - A Ciência da Lógica (ou sua versão condensada dada na primeira parte da Enciclopédia das Ciências Filosóficas) é, se podemos dizer, o pulmão ou o coração de todo o pensamento de Hegel, pois define ou redefine, de maneira dialética e processual, o significado de todas as categorias fundamentais com base nas quais a filosofia tentou construir a inteligência daquilo que existe. Podemos dizer, em relação ao programa aristotélico, que ela substitui tanto a metafísica (filosofia primeira ou ontologia: teoria do ser enquanto ser) quanto a lógica (Organon: teoria da significação e do discurso): ela é onto-lógica. 

 

IHU On-Line -Em termos gerais, como a Lógica aparece no contexto das diferentes obras de Hegel?

Jean-François Kervégan - Como apontei anteriormente, a Lógica está no cerne de toda a empreitada filosófica de Hegel, que a ela se refere todas as vezes que pretende justificar um desvio em relação à conceituação "normal" de certas questões. Por exemplo, em Princípios da Filosofia do Direito, está escrito que "tanto o todo como o desenvolvimento das partes se fundam no espírito lógico" (PPD, Préface, trad. Kervégan, PUF, 2013, p. 115). Não se trata apenas de uma declaração de princípio: cerca de vinte vezes, no corpo da obra, Hegel faz referência à Lógica, sempre para assinalar em que sentido seu propósito difere do modo corrente de tratá-la. Por exemplo, na Nota do parágrafo 272 dos Princípios, para justificar sua recusa da interpretação corrente do princípio da separação dos poderes e sua preferência por uma concepção "orgânica" da diferenciação de um só e único poder, o do Estado, Hegel refere-se à Lógica, mas "obviamente não à lógica corrente" (PPD, § 272 Remarque, p. 459). A Lógica é invocada para justificar um desvio em relação às "representações em voga" (ibid.) e para sustentar uma articulação inabitual dos conceitos (por exemplo, conceitos políticos, mas também conceitos das ciências físico-químicas e da matemática).

 

IHU On-Line - Como podemos compreender que o começo da lógica em Hegel seja não ter pressupostos?

Jean-François Kervégan - Se Hegel nos ensina alguma coisa é o fato de que algo que se apresenta como aparentemente "primeiro" já é sempre habitado por aquilo que, aparentemente, resulta dele e o pressupõe. É o caso, por exemplo, do ser puro da Lógica, ou da certeza sensível, de onde parte a Fenomenologia do Espírito: o que pretende valer como radicalmente imediato ou aquilo no que gostaríamos de ver um imediato absoluto revela-se, enquanto tal, inassimilável e indizível, por ser conduzido por um movimento de mediação que é o único com o poder de instituí-lo como imediato. Em outras palavras, como indica o último capítulo da Ciência da Lógica, "A ideia absoluta", o imediato é sempre um imediato vindo-a-ser. Por isso, a despeito da ordem aparente, a primeira categoria efetiva da Lógica não é o ser puro, que não é literalmente nada, logo, o nada, mas o vir-a-ser como movimento do ser ao nada e do nada ao ser. É por essa razão que Hegel inicia a Lógica com um texto bastante desorientador sobre o começo da ciência no qual ele explica que a questão do começo – ou da origem – é um falso problema.

 

IHU On-Line - Em que medida essa concepção de lógica continua atual e pertinente à filosofia no século XXI?

Jean-François Kervégan - A posteridade de Hegel foi imensa e, desde o início, dividida entre campos irreconciliáveis: pensemos na querela entre os "velhos" e os "jovens" hegelianos nos anos 1840, após a morte de Hegel. De certa maneira, a situação não mudou, pelo menos entre aqueles que aceitam interessar-se por esse pensamento (não é o caso de todas as correntes filosóficas – podemos citar a rejeição do hegelianismo pela corrente dominante da filosofia anglo-saxônica desde Russell  –, mas, neste aspecto também, as coisas mudaram muito nas duas ou três últimas décadas). Eu diria que nos dias de hoje, como antes, a posteridade de Hegel se divide entre os "velhos hegelianos", apegados à letra do sistema e convencidos de que se deve tomá-lo como um todo para não privá-lo de sentido, e os "jovens hegelianos", que consideram que um uso fecundo das temáticas hegelianas só pode ser feito ao custo do remanejamento de certos aspectos que, para Hegel, eram certamente fundamentais, mas que podem ser "separados", tomando-se certas precauções, daquilo que é mais vivaz nele. De minha parte, meu trabalho segue nesta segunda direção. 

 

IHU On-Line - Num tempo como o nosso, marcado pela fragmentação dos saberes, qual é a importância da filosofia hegeliana, e com o conceito de Absoluto?

Jean-François Kervégan - Penso que é mais o conceito de sistema do que o de absoluto que deve ser posto à prova do desenvolvimento moderno dos saberes. No prefácio da Fenomenologia do Espírito, lê-se o seguinte: "O que está expresso na representação, que exprime o absoluto como espírito, é que o verdadeiro só é efetivo como sistema, ou que a substância é essencialmente sujeito [...] O espírito que se sabe desenvolvido como espírito é a  ciência." (tradução livre a partir de Phénoménologie de l’Esprit, trad . Bourgeois, Vrin, 2006, p. 73). Essa exigência de sistematicidade está no cerne da ideia que Hegel (como Kant, aliás) tem do saber. Contrasta, de fato, com a diversificação, ou até mesmo com a dispersão dos saberes, que parece ter caracterizado o desenvolvimento das ciências positivistas nos séculos XIX e XX. No entanto, estas parecem não poder prescindir de uma perspectiva "arquitetônica", como dizia Kant: prova disso são as tentativas atuais de unificação das teorias físicas mais englobantes (relatividade geral, física quântica), a despeito da aparente falta de concordância de seus resultados). 

O que talvez seja mais problemático é o lugar reservado, nessa concepção de Hegel do sistema da ciência, ao conceito de espírito. Mas não se deve esquecer que um dos principais resultados da filosofia hegeliana do espírito (do modo como é construída na Fenomenologia do Espírito e exposta sistematicamente na Enciclopédia) é o que chamo de ampliação do conceito de espírito: o espírito não é somente o espírito subjetivo finito, é também o espírito objetivo, posto na consciência coletiva, as práticas sociais e as instituições ético-políticas, e, evidentemente, o que Hegel chama de espírito absoluto, isto é, o espírito que se sente como espírito (na arte e na religião) e que se sabe como espírito (na filosofia). Considero que o conceito hegeliano de espírito objetivo tem uma real fecundidade heurística, por exemplo, para analisar filosoficamente as aquisições da sociologia. Quanto ao espírito absoluto, é justamente, ainda hoje, o ponto que divide aqueles a quem chamei de velhos e jovens hegelianos.■

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