Edição 206 | 27 Novembro 2006

Caos e complexidade

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IHU Online

II CICLO DE ESTUDOS DESAFIOS DA FÍSICA PARA O SÉCULO XXI: UM DIÁLOGO DESDE A FILOSOFIA

Nesta quarta-feira, dia 29-11-2006, o físico Prof. Dr. Fernando Haas, da Unisinos, estará na Livraria Cultura, em Porto Alegre, apresentando a palestra Caos e complexidade, dentro da programação do Quarta com Cultura Unisinos. Gratuita, a atividade inicia às 19h30min e vai até as 21h30min. Anote o endereço e confira: é na Livraria Cultura, no Bourbon Shopping Country, em POA, Avenida Túlio de Rose, nº 80, Loja 302. Haas é graduado, mestre e doutor em Física pela UFRGS. Sua tese leva o título Sistemas de Ermakov Generalizados, Simetrias e Invariantes Exatos. É pós-doutor pela Universidade Henri Poincaré, na França. É autor de Computação algébrica e simetrias de Lie. Sociedade Brasileira de Matemática Aplicada, 2001. Suas contribuições mais recentes à IHU On-Line foram dadas na edição 203, de 06-11-2006, com a entrevista O paradoxo de Zenão quântico, sobre a palestra que apresentou dentro da programação do II Ciclo de Estudos Desafios da Física, e na edição 198, de 02-10-2006, com a entrevista Explicar a vida: desafio da Física, a respeito da palestra A contingência e o acaso nas Ciências da Vida e na Física, também a respeito do II Ciclo de Estudos Desafios da Física. Ainda na edição 198, o IHU Repórter traçou seu perfil. Todas entrevistas estão disponíveis para download na página do IHU, endereço www.unisinos.br/ihu.
Para comentar o tema Caos e complexidade, a IHU On-Line propôs a entrevista que segue ao físico americano Lee Smolin. Autor de The trouble with Physics (A crise da Física). New York: Houghton Mifflin, 2006, livro lançado no mês passado e ainda sem tradução no Brasil, Smolin é autor, também de A vida no cosmos. São Leopoldo: Unisinos, 2004. Sobre o novo livro, que está dando o que falar entre a comunidade científica em função de suas afirmações contundentes, você pode conferir a página www.thetroublewithphysics.com. A entrevista a seguir foi concedida por e-mail.

Uma discussão aberta e objetiva

Lee Smolin é PhD em Harvard e ex-professor de Yale. O físico teórico é atualmente um dos animadores do Instituto Perímetro de Física Teórica, associado à universidade de Waterloo, no Canadá. 

IHU On-Line - Quais são as principais relações que podemos estabelecer entre a complexidade e o caos? E quais seriam os principais desafios que essa discussão apresenta hoje? Como a Física aplica essas duas teorias?

Lee Smolin
- Caos e complexidade são muito diferentes. A Teoria do Caos é o estudo de certos sistemas dinâmicos muito simples, geralmente com alguns graus de liberdade, os quais possuem uma propriedade de que pequenas diferenças em condições iniciais resultam em grandes diferenças em evolução futura. Complexidade é o estudo de sistemas com muitos graus de liberdade que evoluem para estruturas que são complexas e diversas, por exemplo biologia e economia. Ambas são interessantes de se estudar, e temos todo um corpo de resultados a respeito de cada uma delas.

IHU On-Line - Quais são suas principais objeções à tentativa dos adeptos da Teoria de Cordas em unificar todas as forças e partículas do Universo conhecidas?

Lee Smolin -
A Teoria das Cordas não foi tão longe a ponto de fazer o seguinte:

- Fazer predições verificáveis que pudessem ser testadas por um experimento plausível;
- Ser formulada como teoria nos termos de simples princípios físicos incorporados em uma única equação fundamental. Pelo contrário, é um grande corpo de resultados aproximados e conjecturas que, caso verdadeiras, sugerem a existência de uma teoria que ninguém formulou;
- Incorporar completamente o princípio da independência de fundamentação, satisfeita por relatividade geral e pela maioria das outras abordagens da gravidade quântica. Isso diz que a geometria do espaço-tempo é dinâmica e não pode ser estabelecida antes que se estude o comportamento da matéria.

Meu argumento não é de que a Teoria das Cordas deva ser encerrada e nunca estudada. Mas é de que a Teoria das Cordas é apenas uma das muitas abordagens da gravidade quântica e que algumas outras, no entanto, fizeram grandes progressos. Então, a Teoria das Cordas é apenas uma das direções interessantes a ser seguida.

IHU On-Line - Podemos dizer que há uma “guerra” na Física, proveniente do debate entre os críticos da Teoria das Cordas e seus defensores? O senhor poderia dar mais detalhes sobre sua afirmação a respeito da formação de grupos que excluem aqueles cientistas que não concordam com a Teoria de Cordas?  Quais seriam as principais conseqüências dessa constatação?

Lee Smolin
- Eu não chamaria isso de “guerra”. Chamaria isso de uma tentativa de um dos lados de ter uma discussão científica aberta e objetiva baseada em evidências nas quais colocamos tudo na mesa referente aos sucessos e fracassos das diferentes abordagens à gravidade quântica e falamos sobre para onde vamos a partir daqui.

A melhor evidência para as questões sociológicas levantadas em meu livro é a de que, com algumas exceções, proeminentes teóricos das cordas recusam-se a entrar nessa discussão. Eles dizem que a discussão deve ser “realizada dentro da comunidade”, pela, querem dizer, comunidade de pessoas que já concordam entre si que a Teoria das Cordas é a única abordagem que mereça estudo.

IHU On-Line - Por que o senhor afirma que não se saiu melhor do que os teóricos de Cordas e que seu novo livro é “uma forma de procrastinação”?

Lee Smolin
- Eu não disse bem isso. Eu disse e penso, sim, que, em algumas questões, como em como construir uma teoria quântica de fundamentação independente , é um grande progresso. O que eu disse é que nenhuma delas chegou a resolver completamente o problema e nenhuma foi confirmada por experiências. Os parágrafos de fechamento quiseram indicar que, tendo escrito um livro, quis voltar e gastar meu tempo fazendo física, o que, de fato, é o que eu tenho feito. Na verdade, fizemos, nos últimos meses, um grande progresso em aplicar idéias da gravidade quântica para ter novas predições para observações cosmológicas.

IHU On-Line - O senhor diz que o impasse teórico da Física é uma questão democrática. Poderia explicar essa afirmação?

Lee Smolin
- Eu quis dizer muitas coisas: 1) Muitos dos mesmos assuntos surgem nas políticas acadêmicas assim como na sociedade; 2) Quando funciona bem, a comunidade científica deveria ser, ela mesma, um laboratório e um modelo para como uma sociedade democrática pode funcionar com pessoas diferentes e idéias diferentes.

 

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